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Rock Show!

11. Rock Show!

   Eles são minha banda preferida há quase quinze anos. É isso mesmo, nosso amor resistiu ao tempo e não terminou junto com a puberdade, como meu irmão mais velho costumava dizer que aconteceria. Fui a cinco shows, todos os que eles fizeram em minha cidade, e em cada um deles conheci pessoas que compartilhavam meus sentimentos, que entendiam o valor que cada uma daquelas músicas tinha. Fiz alguns amigos assim, migramos por diferentes redes sociais ao longo dos anos e, graças à internet e aos novos álbuns lançados, nunca perdemos contato.

   Sempre faltei na aula para ir aos shows, pois, por mais que a apresentação só acontecesse à noite, a experiência começava na fila, onde reencontrava os amigos e fazia alguns novos. Tentava garantir meu lugar na fila, sabendo que seria recompensada com uma boa visão do palco quando chegasse à pista. E, de qualquer forma, seria impossível ter um dia produtivo com toda aquela ansiedade explodindo dentro de mim.

   Ah! Um outro detalhe que esqueci de comentar é que minhas idas a shows sempre foram patrocinadas pelos meus pais, como presentes de aniversário, natal, ou por mera insistência mesmo. Essa foi a primeira vez que me vi forçada a fazer tudo diferente. Aos 25 anos, tenho meu emprego, a vida ativa de quem acabou de se formar e está trabalhando muito, ainda querendo acreditar nas promessas que ouviu na graduação e já ciente de que nada acontecerá sem muito esforço e alguns sacrifícios. Pois é, dessa vez precisei bancar meu ingresso, em três dolorosas parcelas, que implicaram em uma severa contenção de despesas nos meses seguintes.

   Não pude faltar no trabalho para passar o dia todo na fila, não consegui folga, por mais que tenha pedido com meses de antecedência, mas consegui negociar com uma colega para trocarmos de turno, então estaria liberada no meio da tarde. Combinei com o pessoal de nos encontrarmos na fila, assim quem chegasse primeiro já faria mais alguns amigos e nos garantiria um bom lugar.

   Quando o grande dia chegou, não consegui dormir, tive um desempenho ruim no trabalho, pois parte de mim já estava no show. Como eu podia me concentrar sabendo que eles já estavam em terras brasileiras?

   Quando o relógio anunciou o tão esperado momento, corri para meu armário e peguei a mochila já pronta. Passei no banheiro e troquei o uniforme quente por uma bermudinha leve e uma camiseta preta com o nome da banda estampado. Preferi me maquiar e colocar a bandana no caminho, dentro do ônibus mesmo, afinal, eu ainda teria uma reputação a zelar no trabalho no dia seguinte

   Mandei mensagem para meus amigos avisando que estava a caminho e parei apenas em uma lanchonete, onde comprei alguns lanches e uma garrafa grande de refrigerante gelado. O estômago precisa estar bem forrado para aguentar uma noite daquelas.

   Atipicamente, esperei apenas uma hora até a abertura dos portões e, graças à Dani, conseguimos um bom lugar na pista, nós duas ficamos numa posição estratégica, bem em frente ao lado direito do palco, onde Seb, o guitarrista, costumava ficar. Combinamos com o restante do pessoal que nos encontraríamos no final do show, em frente aos banheiros, e assim cada um foi procurar um lugar que lhe desse melhor visão do palco.

   Sentamos na pista e ficamos aguardando, Dani me contava sobre sua vontade de pedir demissão, motivo inclusive que fez com que ela não se importasse em faltar para garantir nossos lugares na fila. Eu entendia como ela se sentia, às vezes eu também sentia aquela vontade de jogar tudo para o alto. Tudo mesmo. O desabafo rolava solto até o momento em que as luzes da casa se apagaram.

   Acho que mesmo que eu me esforçasse, não seria capaz de descrever com exatidão como foram as duas horas seguintes. Shows sempre são uma experiência única, mas me despertam as mesmas sensações: o arrepio em cada parte do corpo quando as luzes se apagam e o silêncio impera por alguns segundos, antes que os instrumentos comecem a tocar; a voz do vocalista, anunciando a entrada da banda; a expectativa pela próxima música – será que eles vão tocar aquela?; a surpresa quando tocam algo que não costuma estar no repertório; ou o sorriso que surge no rosto quando eles se arriscam a falar em nossa língua. Mas não há nada comparável à sensação de união de quando todo o público, milhares de estranhos, se unem em uma só voz, cantando uma música junto com eles. Não importa se o ritmo ou a pronúncia das palavras está correta, tudo o que importa é saber que você divide aquelas notas com aquelas pessoas e que aquele momento nunca se repetirá.

   Quando a noite terminou, demorei para me situar novamente, foi difícil coordenar os pés que tentavam me arrastar para fora do estádio. Não sei muito bem como cheguei ao táxi ou sobre o que conversei com o motorista até chegarmos em minha casa. Sem nem tomar um banho, despenquei em minha cama e adormeci assim que a cabeça encostou no travesseiro, de tanto cansaço. No dia seguinte, ainda parecia anestesiada e sabia que seria muito difícil voltar ao normal, pois eu já não era a mesma, era uma das vozes do coro.

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Para Sempre

10. Para Sempre

Quando você me deixou, achei que eu não fosse aguentar. Nunca imaginei que a vida seria tão diferente sem o som gostoso da sua risada. Ou mesmo que eu sentiria falta do seu bom humor matinal, aquele que às vezes me tirava do sério. Agora, quando acordo, a casa não tem mais aquele cheirinho quente de café, e preciso encarar meu reflexo na tampa do fogão enquanto espero a água aquecer.

Não demoro nem dez minutos para comer uma fatia de pão e deixar a mesa silenciosa para trás. Tenho medo especialmente dos finais de semana, quando a casa parece dar eco, de tão vazia. Na verdade, foi por isso que eu comecei a aceitar os convites para sair, mas deixo o pessoal pensar que estou “seguindo” em frente.

A pior parte é que a maior ilusão do desiludido é acreditar que nunca se deixará iludir novamente. Mas eu sei que não é verdade. Em algum momento, a casa deixará de parecer tão grande, e eu tão sozinho. Já não me importarei mais com o fato de dormir em uma cama enorme e comprarei um abajur ou móvel qualquer para colocar no lugar onde você deixava sua poltrona de leitura, aquela coisa velha e cheia de pelos de gato grudados. Sim, mamãe conseguiu me convencer e a jogamos fora, espero que você não se importe. E quando esse momento chegar – e eu demorarei para me dar conta disso – eu estarei pronto. Começarei a olhar para as garotas na rua novamente, finalmente despertarei interesse por alguma das garotas das extensas listas de amigas solteiras que as pessoas insistem em querer me apresentar.

Mas me interessar por alguém novamente significa que eu terei superado, não que eu acredite que possa um dia te esquecer, ou nos esquecer. Nosso casamento acabou antes de os problemas começarem e, por isso, nunca saberei se éramos realmente perfeitos um para o outro ou apenas se você foi embora antes que eu conseguisse estragar tudo – porque convenhamos, nós dois sabemos que o culpado seria eu. Tenho medo de ficar bem novamente, porque não quero que isso minimize minha perda, não posso falhar com sua memória, e dá até mesmo para senti-la escapando por entre meus dedos quando penso nisso. Cada vez que eu encontro um objeto seu pela casa e jogo dentro do armário, naquela maldita caixa, é como se eu estivesse te empurrando mais para o fundo. Só que não posso nunca deixá-la ir embora. Em mim você ainda vive, exatamente como te prometi no seu último dia. Nosso último dia.

E, quando eu estiver pronto para conhecer outra pessoa, viverei uma fase relutante, num misto de culpa e curiosidade. Até que, quando menos esperar, estarei imerso em uma nova fantasia, achando que dessa vez viverei feliz para sempre. Mas como lidar com a voz na minha cabeça que me lembra que o “para sempre” terá apenas a mesma duração que eu ou ela, o que terminar primeiro.

 

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Rosa

09. Rosa

Ela me olhou, admirada. Segurei a vontade de rir quando seu nariz encostou no meu e ela fungou, sentindo meu cheiro fresco. Sem querer me gabar, mas eu costumava mesmo despertar sorrisos como o dela, apenas com um olhar. Meu tom rosa reluzia contra o sol, fazendo as pétalas brilharem ainda mais, e ela deve ter notado, foi por isso que tirou o celular do bolso e começou a me fotografar, já que, aparentemente, é assim que as pessoas lidam com o belo hoje em dia. E então foi embora, como todos os outros.

Algum tempo depois, avistei-a novamente, em meio às pessoas que passavam apressadamente pela calçada. Ela se aproximou e me tocou, deixando-me arrepiada no lugar em que seus dedos repousaram, não estava acostumada com tamanha intimidade. Comecei a sentir cócegas com o movimento de seu toque e foi então que ela fechou a mão em torno de mim e puxou com uma força arrasadora. Nunca me senti tão despedaçada, e a dor foi tão grande que deixei meu corpo para poder escapar dela.

 

 

 

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Feliz Ano Novo!

07. Feliz Ano Novo

Último dia do ano, última festa do ano, última chance de conhecer alguém. Passei a noite toda observando-o, mas ele nem me notava. Parecia muito ocupado cumprimentando cada pessoa que passava pela porta e conversando com alguns amigos que o rodeavam. Quem era ele?

Faltava um minuto para o ano acabar. Alguém desligou o som e todos gritaram, então corremos para a área externa do salão para assistir à queima de fogos de artifício. A contagem regressiva começou, todos contávamos juntos, em uma só voz, ansiosos pelo término de um ciclo e início de outro, acreditando que alguma coisa em nossas vidas mudaria junto com os ponteiros do relógio.

Eu me distraí, entrando no clima, até que me senti observada…

Dez, ele olhou em minha direção. Nove, arqueou as sobrancelhas, parecendo me notar pela primeira vez ali. Oito, começou a andar, se aproximando. Sete, finalmente parou, bem na minha frente. Seis, olhou em meus olhos e sorriu. Cinco, encostou seu copo no meu, brindando, e bebeu todo seu champanhe em um único gole. Quatro, tirou o outro copo de minha mão e o apoiou na mesa atrás de nós. Três, colocou a mão em minha cintura, eliminando a distância entre nós. Dois, senti sua respiração perigosamente próxima à minha. Um, me beijou. Meia noite, “feliz ano novo”, sussurrou entre o beijo, ainda roçando seus lábios nos meus.

 

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Um Corpo Escultural

Paris (117)A ideia de passar as férias aqui foi do Pedro. Aliás, férias dele, pois eu ainda estava no período de licença e acho que se dependesse da minha vontade, ainda estaríamos em casa. Quando o médico me disse a data da cirurgia, seis meses atrás, senti muito medo, não me sentia pronta, apesar de desejar tanto as mudanças que eu acreditava estarem por vir. A mistura de sentimentos foi tão grande que nem me ocorreu calcular a data das férias de meu marido, eu só conseguia pensar que precisava aceitar e que a partir daquele momento não havia mais volta. Então foi o que fiz.

Pedro me acompanhou durante todo o processo, me apoiou na decisão, já que eu achava que isso era o melhor para mim, como ele disse. Compareceu a algumas consultas comigo e me ouviu pacientemente contando sobre os detalhes das que perdeu. Me levou para fazer os exames preparatórios e conseguiu folga no trabalho quando o grande dia chegou. Passou horas sentado na poltrona dura do quarto de enfermaria, respondendo as mensagens e ligações que não paravam de chegar em meu celular.

Depois ele fez piadas e nós rimos do dia entediante que ele passou no hospital, mas eu sei que na verdade estava nervoso. Encontrei-o cochilando quando fui levada para o quarto em cima de uma maca e com uma série de agulhas e aparelhos conectados a meu corpo. Ele acordou assustado e quase pulou de seu assento, mas se recompôs bem a tempo e abriu seu sorriso, ligeiramente torto, enquanto caminhava em minha direção. Eu, ainda sob efeito da anestesia, não consegui fazer nada além de uma leve pressão em sua mão que segurava a minha. Mas tudo bem, pois palavras não eram necessárias.

No fim do dia, fui encaminhada para outro quarto, onde fiquei por dois dias, em observação. A recuperação foi lenta, mas correu bem. A pior parte foram as restrições alimentares. Nunca pensei em como seria difícil ingerir apenas líquidos por sete dias. Quase chorei de emoção quando o médico disse que eu estava autorizada a começar a incluir coisas ligeiramente pastosas em minha dieta. Nunca comi uma sopa tão saborosa antes.

Apesar de estar bem, sentia-me fraca, a verdade é que as mudanças na alimentação me abalaram muito, mais do que eu gostaria de admitir. O médico me alertara sobre tudo isso antes, mas, em estado de euforia, nem pensei a respeito, apenas disse que eu aceitava, aceitava qualquer coisa desde que mudasse pra valer.

Tudo era recompensado conforme eu sentia as roupas ficando largas e escorregando de meu corpo. Eu não via a hora de fazer compras! Queria ficar bem para poder me exibir por ai.  Mas, apesar de estar ansiosa para começar a vida nova, fiquei espantada em como Pedro se mostrou impassível diante de minha sugestão de adiarmos a viagem. Disse que eu ainda teria tempo o bastante para me recuperar até lá e que eu já realizara meu desejo, agora era sua vez, com as tão sonhadas férias.

Tentei me animar, afinal ele estava certo. Chamei minha irmã para ir ao shopping comigo e escolher algumas coisas novas para viajar. Fiz compras para um corpo já dezoito quilos mais leve e uns bons centímetros menor. Realizei o sonho de entrar naquelas lojas de departamento e escolher o que quisesse provar, pois agora a numeração não era mais um problema. Estava tão deslumbrada que nem olhei para o outro lado do corredor, onde as lojas que me serviram por tantos anos me observavam. Percebi o olhar de inveja que Bruna lançava para meu corpo toda vez que saía de um provador com um modelito diferente. Logo ela, que foi contra o procedimento até o fim, dizendo sempre que achava a cirurgia uma medida radical e que eu acabaria com minha saúde.

É indescritível a sensação de vestir roupas largas para variar e eu estava aproveitando cada segundo. Mas era tão difícil deixar de comer! No começo era porque eu não podia, depois descobri que mesmo se quisesse, eu não aguentava, pois bastava engolir algumas garfadas que eu já me sentia saciada e até enjoada. Aos poucos, fui me cansando de tentar, já não tinha ânimo para fazer minhas deliciosas sobremesas, afinal eu não aguentaria mais do que prová-las.

Quando me dei conta, estava evitando convites para almoço ou qualquer coisa que envolvesse ficar sentada em uma mesa com um prato de comida a minha frente. Meu corpo rejeitava as refeições que minha mente desejava. Eu fiquei esbelta, mas ainda era aquela que adorava cozinhar e se esbaldar.

Foi Pedro quem notou que algo estava acontecendo, disse que não entendia o que eu estava fazendo: finalmente caminhava para meu peso ideal, e ainda assim não parecia satisfeita. Eu neguei, é claro que estava! Não estava? Era o corpo dos sonhos! Ou seria, assim que eu desse um jeito nas cicatrizes e começasse a fazer exercícios físicos para combater a flacidez da pele.

Ainda assim, ele insistiu em voltarmos ao médico. Só que o doutor já não parecia mais interessado em meu caso e encaminhou-me para um colega, psiquiatra, e foi então que recebi o diagnóstico de depressão.

Loucura! Eu disse a mim mesma. Não tinha depressão antes, como poderia desenvolver agora, quando tudo começava a se ajeitar? Tentei seguir com a rotina, saboreando os elogios que recebia sobre meu corpo. Senti que fraquejava a cada dia, até me render e aceitar a licença médica que ele estipulou como prazo para minha recuperação.

Pedro, sem abrir mão das férias, nos levou para o outro lado do mundo. Minha mala estava irreconhecível, apenas com peças de roupas novas e muito mais ousadas do que as habituais, que cobriam e escondiam meu corpo. Só que eu não queria ir, imaginava a insatisfação de meus patrões e as fofocas que rolariam entre meus colegas de trabalho ao saberem que eu viajara em meio a um período de recuperação. “Pra viajar ela não tem depressão, não é?”, imaginava Sônia sussurrando pelos corredores com sua risadinha áspera.

Após longas horas de voo, chegamos a nosso destino. Foi estranho me acostumar aos sons da cidade, com tantas pessoas falando em um idioma que me era irreconhecível. Resgatei as aulas de inglês na memória e pensei que eram tudo o que eu dispunha, já que não entendia uma palavra sequer do francês que ouvíamos a líamos por todos os lados. Somente no hotel, enquanto meu marido conversava com a recepcionista, é que os sons foram virando palavras que faziam sentido em meus ouvidos.

Na manhã seguinte, ele recebeu uma ligação de trabalho, algo sobre um problema urgente que aparecera no escritório e a equipe precisava de sua ajuda para resolver. Seu olhar pedia desculpas, e eu sabia que aquilo seria inadiável, o trabalho era prioridade, sempre fora. Observei enquanto ele tirava o notebook da mala e me perguntei como fora parar ali, será que sabia que precisaria usá-lo?

Para não perder o dia, resolvi sair e explorar as cidades. As ruas eram pacatas e eu me sentia como em um dos muitos filmes que assistira neste cenário. Segui o caminho que o mapa da recepção do hotel me indicava e em alguns minutos cheguei no jardim de Rodin, um passeio que sei que Pedro não sentiria por perder.

Andei pelas árvores, tentando me manter nos corredores de pedra que cercavam todo o espaço. Desviava dos turistas que pareciam mais interessados em suas selfies do que nas esculturas tão divinamente esculpidas e expostas entre as árvores e arbustos.

Perdi a noção do tempo que estava parada ali, em frente ao bloco sólido de bronze, que percebi ter um formato mais humano que meu próprio corpo. Cada um de seus detalhes era característico, impossível confundí-lo com qualquer outra pessoa. Finalmente me dei conta de que era assim que eu me sentia desde a cirurgia, como se tivesse perdido a noção da humanidade. Eu já não reconhecia minhas partes, meus detalhes, era só mais uma, igual a tantas outras que passavam por inúmeras intervenções, na vaga tentativa de suprir o descontentamento que a sociedade nos ensinou a ter com nossos próprios corpos.

Percebi que o desespero daquele ser inanimado era mais real do que qualquer uma de minhas reações dentro deste corpo que já não mais me pertencia. Fazia meses que já não me sentia como antes, parecia até que toda minha essência se esvaziara pelo corte da cirurgia, como se o médico não tivesse costurado minha pele a tempo.

Senti o ar indo embora de meus pulmões conforme ficava ofegante. Apoiei-me em um tronco para evitar o desequilíbrio e pisquei os olhos repetidas vezes, desejando que a tontura passasse. A última coisa que vi antes de cair foi que a assinatura do artista nos pés da escultura lembrava vagamente a cicatriz que marcava a região de meu umbigo.

 

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Me Chama

06. Me Chama

 

Ela dizia que eu podia chamá-la sempre que precisasse, e eu chamava. Às vezes só para ouvir o som de sua voz, que era como uma bela melodia invadindo meus ouvidos e me paralisando, em um estado hipnótico. Ouvi-la dizendo meu nome era como estar em casa novamente, de volta àquelas tardes de domingo no quintal ensolarado, quando nos sentávamos no chão frio e ela apoiava a cabeça em meu colo e compartilhava alguma de suas ideias malucas. Eu só conseguia rir de sua ironia inconveniente, mas a verdade é que não conseguia acompanhar seu fluxo de pensamentos.

Mesmo depois de nos separarmos, era para ela que eu ligava para contar uma novidade ou até mesmo para pedir ajuda. E, mesmo sem ter obrigação alguma, ela sempre aparecia para dar uma força.

Sinceramente, não sei como seria a vida sem sua presença, e era nisso que eu estava pensando enquanto assistia à dança silenciosa das chamas que projetavam sua sombra na parede. Senti vontade de apagar as velas, bastava um sopro para que a escuridão invadisse o salão abafado.

Encarava seu corpo inerte, pensando que eu não poderia mais chamá-la, e que ela nunca mais seria a mesma e, graças a meu egoísmo – como ela teria dito, eu também não. E bem que eu precisava dela agora.

 

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Um lugar vazio na platéia

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Sábado, mais um dia de espetáculo. Fazia três semanas que a peça estava em cartaz, só conseguimos lotar a casa na noite de estreia, mas desde então vínhamos conquistando um público razoável, o suficiente para pagar o aluguel do teatro e manter a trupe motivada o bastante para passar suas noites em cima do palco.

Ele ainda não viera me ver. Eu sabia que não aprovava minha carreira de atriz e que, assim como meus pais, achava que eu devia parar de tentar investir no teatro e arrumar um emprego que pudesse oferecer um mínimo de estabilidade. A única diferença é que era mais hábil em disfarçar sua insatisfação. Me parabenizara quando consegui o papel e respeitava os horários de ensaio. Mas na grande noite de abertura do espetáculo ele não compareceu. Disse que surgira um trabalho de última hora e que ele não poderia recusar, então passaria a noite toda na frente do computador, editando suas fotos. A desculpa perfeita para não vir. Melhor do que meu pai, que alegou que não ficaria até tão tarde na rua e que precisava dormir cedo. No dia seguinte faltou novamente, e na outra semana simplesmente não tocou no assunto.

“Edu, precisamos conversar”, protestei na segunda-feira seguinte, quando nos encontramos para o habitual café da tarde. Ele alegou estar muito ocupado com seus projetos e terminou com “temos que priorizar o trabalho, você sabe”. Sim, eu sabia, e lhe respondi isso. Ele me devolveu uma risada amarga e um “trabalho que dê dinheiro, já que alguém tem que ter algum”.

Mais uma vez se mostrou contra minha carreira e aquilo que eu considerava ser minha vocação. “Obrigada por tornar as coisas mais fáceis”, respondi antes de tirar minha aliança prateada e deixar em cima da mesa, junto com uma nota alta o bastante para pagar a conta e o resto frio do meu café na xícara manchada de batom vermelho.

Fui embora e me concentrei nos ensaios da semana e nos escritos para o blog, que geravam alguma renda.

Até que cheguei aqui hoje, pronta para mais uma noite no palco e dei de cara com ele, me esperando na entrada dos fundos da casa. Ele disse meu nome e acenou com o buquê de flores na mão. “Finalmente consegui uma brecha no trabalho para vir te assistir”. Parei a certa distância dele, tentando me manter impassível a seu perfume e às flores – gesto raro nos últimos anos. “Ótimo, vou pegar um ingresso na bilheteria”, eu disse e ele respondeu tirando um bilhete do bolso, indicando que já comprara um.

“Será que podemos conversar? ”. “Eu… Não posso demorar. A apresentação começa daqui a dez minutos”. Ele suspirou. “Certo, acho que é tempo suficiente para pedir desculpas por ter te evitado nas últimas semanas”. Senti algo amolecendo dentro de mim e tentei disfarçar em minha voz, perguntando por seus motivos.

“Eu realmente preciso entrar”, insisti. Peguei o buquê de suas mãos e passei por ele, entrando pela porta dos fundos enquanto ele seguia para a da frente.

Me recompus o bastante para entrar em cena e fazer minha melhor apresentação. A casa estava razoavelmente cheia e a apresentação foi animada. A luz refletia em minha roupa prateada e eu me sentia viva, por estar em cena. Ele não desviou os olhos do palco nem por um minuto.

Assim que as cortinas se fecharam, me reuni com meus colegas e ficamos de mãos dadas no centro do palco, aguardando que se abrissem novamente para então darmos um passo para frente e agradecermos ao público. Saímos do palco e eu não tive pressa em tirar o figurino e voltar às minhas calças habituais. Vesti um casaco por cima da roupa, para me esquentar e refiz a maquiagem, mais delicada dessa vez.

Aos poucos os atores foram saindo e deixando o camarim vazio. Guardei os acessórios de minha personagem no armário e joguei meus pertences na bolsa. Voltei até o palco e de longe o avistei, ainda sentado em sua poltrona. Assim que me viu, ele se levantou e veio a meu encontro. Me sentei no chão do palco e fiquei com as pernas penduradas, devido à altura em que me encontrava. Ele se aproximou, apoiou as mãos na beirada e se impulsionou para subir e ficar ao meu lado.

Ficamos em silêncio, apenas ouvindo o barulho de nossas respirações e algumas risadas abafadas que vinham dos fundos, até que ele finalmente quebrou o gelo entre nós: “Ter ver no palco é sempre… Você é boa. Tenho medo que dê certo, que você se afaste de mim, que seus planos mudem, que os nossos planos mudem”. Fiquei paralisada, absorvendo suas palavras e pensando em como lhe explicar que nada mudaria. Que tudo o que eu mais queria era ser atriz, mas que as coisas só faziam sentido quando ele estava ao meu lado, essa versão dele, e não a das últimas semanas, mal-humorada, distante e ácida. Essa última era a que me deixava com vontade de me afastar. Sorri e apoiei minha mão sobre a sua. “Nenhuma história termina antes de se encontrar o mocinho”, sussurrei em seu ouvido.