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O Homem que sabia demais

IMG_2563   Método e ordem eram as palavras-chave dentro do almoxarifado do hospital municipal. André, no auge de seus sessenta anos, orgulhava-se de ser o chefe do arquivo. Ele não trabalhava com a organização dos materiais de uso contínuo e, portanto, não precisava lidar com enfermeiros estressados que vinham atrás de comprimidos e seringas. Não, ele cuidava de algo mais importante: a história do hospital. Ou, “o coração hospitalar”, como gostava de chamar sua sala. Lidar com o arquivo era armazenar toda a história não só daquele prédio, mas de todos que por ali passavam, de pacientes até seus mais aflitos acompanhantes. André era como um guardião, e o que estava sob sua proteção era a história viva do arquivo morto.

   Tudo corria bem pelas inúmeras prateleiras da sala de arquivo. Pastas milimetricamente alinhadas, etiquetadas e organizadas por ano, setor, especialidade médica e ordem alfabética do nome do paciente, respectivamente. Quando um prontuário era solicitado, André o tinha ali, bem na ponta dos dedos, conhecia a disposição daquela sala melhor do que sua própria casa.

        Nada ali estava apenas arrumado, para ele tudo era meticulosamente organizado, ou seja, cada pasta tinha sua morada, tudo era de fácil acesso e sempre voltava para seu lugar após o uso, dispensando a necessidade de refazer o trabalho de separação por qualquer descuido. Palavra esta que sequer constava em seu dicionário.

       Era divertido quando um novo carrinho de papéis chegava até suas mãos, ele entrava em um modo automático de separação, correndo os olhos pelas linhas fundamentais de cada documento, em uma leitura dinâmica, para separar tudo em pequenas pilhas que seriam revisadas em novas subdivisões e finalmente organizadas em ordem alfabética. O custo para manter o lugar em funcionamento era baixo, além de seu salário, a administração gastava apenas alguns trocados mensais com pastas e grampos.

         A sala era arejada e o arquivista quase não tinha problemas com mofo ou traças. Garantia sempre a qualidade do papel, incapaz apenas de controlar o amarelamento natural das páginas, que no fundo até revelavam certo charme, como um vinho a envelhecer em uma adega. Porém, nada disso impediu que a modernidade chegasse como um grande sopro de vento, invadindo e instalando o caos pelas velhas paredes brancas.

        A notícia chegou ao modo dos costumes antigos, através de uma carta, duas semanas atrás. Um pedido para que André comparecesse à administração, com hora marcada e tudo. Ele vestiu sua melhor camisa no dia e foi para o encontro apenas para receber a notícia do falecimento do arquivo morto. A ideia da nova gestão financeira era a modernização do sistema de armazenamento e busca de informações, além de um corte de gastos, é claro.

– Para ser franca, senhor… – disse a mocinha que vestia seu terninho azul com cara de recém-saído dos bancos universitários.

– André.  – respondeu, contraindo os lábios.

– Senhor André. Para ser franca, nosso sistema é ultrapassado. Demoramos muito tempo para encontrar informações sobre um caso clínico específico. A digitalização dos arquivos nos permite ter acesso rápido a todo o histórico do paciente dentro da instituição.

– O acesso é rápido. Eu sempre entrego todos os relatórios solicitados dentro do prazo.

– Eu sei, eu sei, não me leve a mal. O problema absolutamente não está em seu trabalho. São os tempos modernos, o senhor sabe. Todos nós sabíamos que esse dia chegaria.

– Eu não sabia.

– Está sendo informado agora. Senhor André, a decisão é definitiva. O arquivo digital nos permite pesquisas rápidas, além da integração de informações, expandindo os tipos de busca: podemos pesquisar o histórico de um paciente ou de uma patologia, quantificando casos e sintomas. Sem falar que poderemos ter uma comunicação mais eficiente com outras unidades de saúde… É bom para o progresso da medicina. E afinal de contas, não é esse o objetivo de nosso trabalho?

– Claro que sim – respondeu a contragosto.

– Bem, minha proposta para o senhor é a seguinte. Contrataremos uma pequena equipe para digitalizar todo o material. Fui informada de que o senhor mantém todos os arquivos na mais perfeita ordem, e tenho certeza de que isso já facilitará muito o trabalho e, exatamente por isto, gostaria de colocá-lo como coordenador desta equipe, pois acredito que não há ninguém melhor do que o senhor para explicar a forma como cada documento está organizado, para que possamos reproduzir tudo no meio digital. O senhor está de acordo?

– Sinto que não está a meu alcance discordar – disse forçando um sorriso.

– Que bom. Era só isso. Muito obrigada por seu tempo, senhor. Foi um prazer – mal terminou de dizer e já baixou os olhos para a tela de seu computador, dispensando o homem de sua sala.

         André se levantou e rumou para a saída, em silêncio.

– Ah, e quase me esqueci: o senhor poderia passar no departamento de recursos humanos também? Eles têm uma proposta para lhe fazer.

         Acontece que a proposta literalmente irrecusável era que André se aposentasse após o fim da organização, ou “transferência digital”, como chamavam a operação. No mesmo dia ele perdeu todos os seus papéis, das folhas carimbadas por médicos até a humilde função que desempenhou por anos dentro do sistema público de saúde.

        Sem escolhas, sentindo a impotência em cada osso de suas velhas mãos, André repassou os arquivos, conferindo sua ordem e esperando o dia em que um bando de moleques com computadores e impressoras finalmente se instalou em sua sala, para dar início à digitalização dos prontuários.

         Ele passou o dia apresentando a sala à nova equipe, descrevendo seu método de catalogação dos arquivos. Os garotos mal pareciam estar prestando atenção na maior parte do tempo. Havia uma mocinha que não tirava os olhos da tela de seu celular e um rapaz que estava quase tomando a pasta de suas mãos para começar logo o trabalho. Parece que já não se fazem mais jovens como antigamente, os de hoje têm muita pressa.

        Antes que eu se irritasse, foi para sua mesa, ou pelo menos o que restara dela, a parte que não fora ocupada pela imensa impressora multifuncional. Pegou uma pasta já digitalizada e foi conferindo cada folha, para ver se eles não haviam estragado nada. O nome do paciente, a data de registro e o diagnóstico, tudo estava em seu devido lugar: Eduardos antes de Fernandos e estes logo seguidos por Felipes. Quando começou a trabalhar com arquivologia, costumava se confundir com algumas letras diferentes no mesmo nome, pois às vezes um “h” podia fazer toda a diferença. Mas agora, com anos de experiência na bagagem, eles estavam todos ali: Icaro, Inês, Irene, Itamar, Ivan.

            Na maior parte do tempo, André conseguia manter o profissionalismo, tentava não atribuir rostos para os nomes que lia em cada ficha. Era mais fácil pensar em uma paciente que deu entrada no hospital por pneumonia do que imaginar quem era Inês Franco, a garçonete com problemas pulmonares. Como será que ela adoeceu? Quem será que a acompanhou nas consultas médicas e será que alguém dormiu na poltrona ao lado de sua maca durante os dias de internação? Aliás, ela ficou alguns dias internada, parece ter sido grave. Pronto, tarde demais, agora só podia rezar para que Inês estivesse bem.

            Após metade de seu turno e duas xícaras de café amargo, ele esbarrou novamente com o nome de Inês, talvez porque ela não tenha saído de sua cabeça desde então, acompanhando-o do almoço até o banheiro. O importante é que lá estava ela: um registro no ano de 2004 por pneumonia e seis anos depois, uma entrada no hospital em trabalho de parto, quando deu à luz a um menino de 3,2 quilos e 50 centímetros, um meninão, aliás. A criança nasceu em um sete de julho, porém não havia nenhuma menção a seu nome.

        André não conseguiu simplesmente devolver as fichas para seus devidos lugares, não agora que ele já sabia demais. Sem que ninguém percebesse – eles não pareciam preocupados com sua presença – guardou as folhas dentro da primeira gaveta da escrivaninha. E só retornou a pegá-las ao final do expediente, assim que todos saíram da sala, deixando-o novamente no silêncio do finado arquivo. Ele levou Inês para casa sem saber explicar o motivo de desejar sua companhia. Apenas parecia errado deixar mãe e bebê ali.

         Na hora do jantar ele fez as contas, concluindo que a criança deveria hoje estar com dez anos. Dez anos que se passaram na vida da já não tão jovem moça com pneumonia. Foi impossível resistir ao impulso de elaborar conjecturas a seu respeito. Seu emprego, sua família, o pai de seu filho. Seria Inês uma boa mãe?

         O arquivista sempre achara difícil manter a mesma opinião sobre uma pessoa após conhecer sua história. Ao olhar por diferentes ângulos, percebemos como uma pessoa é complexa, como pode ser contraditória sem nem saber, ou como pode se esforçar para passar uma determinada imagem de si e falhar miseravelmente. As aparências caem ao menor deslize, é inevitável. Algo dentro dele suava, gritava, ele queria saber mais, queria saber o que Inês mostrava para as pessoas a seu redor, e o que será que ela tentava esconder com tudo isso?

         Como não podia deixar de ser, André foi o primeiro a chegar no trabalho na manhã seguinte. Agitado, ansiando por descobrir mais sobre sua paciente. Procurou por registros com a inicial de seu nome em todos os setores, insaciável, em busca por mais Inês. Porém nada encontrou, ao que tudo indicava, ela não precisou mais dar entrada no sistema de saúde. Talvez a maternidade tenha lhe caído bem.

       A palpitação não saía mais de seu peito. Semanas se passaram e aos poucos o trabalho dos jovens era eficientemente realizado, Não dava para competir com a velocidade de uma máquina. Os papéis eram rapidamente digitalizados e armazenados em um banco de dados. Um dos garotos tentou lhe explicar como os arquivos seriam guardados em nuvem dali em diante, mas lhe era inconcebível a ideia de arquivos que não podiam ser vistos sendo guardados em um lugar que não era palpável, ninguém conhecia ou nunca estivera por lá. O que garantia que não estavam apenas jogando toda aquela informação fora? Quantos outros pacientes como Inês não iam parar no lixo? Mas não ela, não, ao menos ela estava a salvo.

        Não contente em salvar-lhe a vida, André quis saber mais sobre ela, e foi daí que veio a ideia de pegar seu endereço de registro e ir conferir de perto qual era a fisionomia de sua protegida. O endereço, na zona norte, era de uma rua pouco movimentada, com carros estacionados a sombra de árvores e muitas folhas ao chão, grudadas e pisoteadas pelo resquício de chuva da noite anterior.

        O número 42, uma casa de portão branco e jardineira nas janelas, parecia vazio. Com exceção das flores ali penduradas, não parecia haver vida lá dentro. Ele ficou parado do lado oposto da rua, tentando disfarçar um olhar que sempre se voltava para o mesmo ponto. Nada. Nem um barulho, nem um movimento atrás das cortinas, nenhum latido de cachorro.

           Foram necessárias mais duas visitas até a rua para que ele visse algum movimento, um carro estacionando na casa vizinha. Uma mulher e duas crianças vestidas com uniforme escolar desceram conversando e entraram no número 46. Será que elas eram amigas? Trocavam receitas e olhavam a casa uma da outra em períodos de ausência?

           Pouco depois a mulher saiu pela porta, voltando ao carro para buscar uma mochila esquecida. Era sua chance. Ele deixou o ar entrar por suas narinas e atravessou a rua antes mesmo de conseguir expirar.

– Bom dia, com licença. Eu estou procurando uma pessoa aqui ao lado, tenho uma encomenda para a senhora Inês Franco.

– Bom dia – ela disse se virando e encarando-o com olhos atentos – uma encomenda? E onde ela está?

– É justamente o que eu gostaria de saber – respondeu, impaciente.

– Oh, me refiro à encomenda, senhor.

         Imbecil, como pode ser tão distraído, se entregou após duas frases.

– Ah, sim, é claro… Ficou no carro. Estacionei na rua ao lado, não tinha vagas por aqui – se apressou em emendar ao vê-la percorrendo a rua com os olhos em busca de seu veículo.

– Bom, eu não conheço nenhuma, como o senhor disse que ela se chamava mesmo? Ah sim, Inês. Não conheço ninguém com este nome.

– Ela mora aqui ao lado, tem um filho, o guri deve ter por volta de uns dez anos, é a cara da mãe.

– Bem, eu sou nova aqui na rua, não faz tanto tempo desde que me mudei, mas definitivamente sei que não há nenhuma Inês e nenhum garotinho morando nesta casa. Acredite, tenho filhos nesta idade e eles seriam melhores amigos se morassem assim tão perto. Não, não há crianças nesta casa. Apenas um rapaz, que entra e sai de carro e não se dá ao trabalho de cumprimentar a vizinhança.

        Ele sentiu uma pontada de rancor em sua última frase, mas não conseguiu mais sustentar a conversa. Para ele já era demais saber que sua procura fora em vão. Ele cometeu a vergonha de infringir inúmeras regras e condutas de ética do hospital e tudo isso para nada. Engoliu seco antes de agradecer à mulher e murmurar confusamente algo sobre devolver a encomenda e esperar que ela entrasse em contato.

          Saiu da rua sem sentir suas pernas, e não saberia dizer como foi que se conduziu até o ponto de ônibus mais próximo e refez seu caminho de volta até o hospital. Parece que só despertou novamente quando já estava dentro da pequena sala de arquivos.

            O final de semana veio e se foi, passando alguns dias até que André ousasse olhar novamente para as fichas de Inês. Ele já havia decorado as imperfeições da tinta de caneta que conservavam seu nome e sua memória. Ficou olhando fixamente até que as letras se embaralhassem em sua visão. Foi quando entreouviu a conversa dos garotos que digitalizavam mais uma pilha de folhas, eliminando cada vez mais pastas do arquivo, revelando as paredes nuas da sala.

– Mas assim é mais prático, estou falando.

– Eu sei que é, mas é uma pena jogar tudo isso fora. Pensa bem, alguém teve todo o trabalho de escrever isso. Sem contar o de armazenar.

– É, foram muitos anos para escrever tudo isso, com certeza. Mas é preciso se manter atualizado. Por aqui vai dar para saber os dados pessoais de cada paciente, seu histórico, quantas vezes ele já deu entrada na unidade. Tudo.

– É, tudo até o fim.

       Foi a última palavra que lhe fez sair do transe e voltar para a sala. Pensou em esperar que eles fossem embora para tentar se aventurar pelo computador. Quem sabe os garotos não estariam certos e ele encontraria as respostas que fora buscar tão longe bem ali, em sua sala. No maldito sistema de busca que substituiria não apenas seu emprego, mas o trabalho de toda sua vida, apagando sua marca no mundo. Mas todos naquela sala, inclusive ele, sabiam que ele não conseguiria fazer isso sozinho.

– Antônio – chamou, engolindo seu orgulho ferido com um pouco de saliva.

– Oi, seu André, precisa de alguma coisa?

– Eu estava aqui pensando, será que eu levo jeito para esse tal sistema de vocês?

– Opa, está querendo se modernizar, é? Não te falei, Carlos? É preciso se manter atualizado, o senhor André aqui sabe disso – disse se virando para o amigo.

           Puxou uma cadeira, convidando-o a juntar-se a eles. Disse que ia lhe ensinar a usar o sistema. Cadastrou um usuário e pediu que ele criasse uma senha, explicando que aqueles passos seriam necessários a cada vez que ele quisesse fazer uma nova consulta. Ele ouviu, mal contendo a ansiedade de poder fazer logo sua primeira pesquisa. Usou a data de nascimento da paciente como senha, uma piada interna.

– Vamos fazer um teste então, me fala um nome que o senhor queira pesquisar.

        Ele contou até três mentalmente antes de responder, tentando não parecer tão afoito.

– Que tal “Inês Franco”?

– Uma velha amiga? – perguntou, arqueando as sobrancelhas.

 – Uma conhecida – “Atualmente vivendo entre os papéis de minha pasta”, pensou.

        Os segundos que o computador levou para realizar a busca pareceram os mais longos de toda sua vida. Até que finalmente a tela brilhou, apresentando três resultados.

– Começamos bem, só há uma pessoa com esse nome. Ela passou pelo hospital em três ocasiões, vamos ver.

      Antônio foi lendo em voz alta enquanto seus olhos corriam pela tela. O primeiro registro era o de pneumonia, uma cópia exata do papel que estava com ele. O segundo marcava a data de nascimento de seu filho.

– Olha só, ela teve um bebê aqui. Se soubéssemos o nome dele, poderia ser nossa próxima busca. Dá para ir mapeando toda uma árvore genealógica assim.

        Ele já estava cansado de ouvir sobre as mil e uma maravilhas do sistema, a única coisa que lhe interessava era saber sobre o próximo arquivo. Quase tomando o mouse das mãos de Antônio, pediu que ele fosse para a última página. E então lá estava ela: Inês Franco, falecida em 15 de outubro de 2017, causa da morte: meningite.

         Seu primeiro pensamento foi de alívio, chegara a um fim. Mas logo em seguida, ficou aterrorizado com as imagens que invadiram sua mente. A já não tão jovem garçonete morta e seu filho, ainda pequeno, órfão. Era demais para ele, seria melhor não tê-la conhecido.

– Não pode ser! Deve ser a pessoa errada.

– Não é, só tem uma pessoa com esse nome, lembra? O sistema não falha.

– Será que não há mais nenhum registro que vocês ainda não escanearam? Vou procurar nas pastas.

– Mas não importa muito, seu André. O fim é claro.

       Ele não respondeu, a voz do garoto pareceu ficar distante e ele já não conseguia mais manter o foco de seus olhos no computador. A sala nunca lhe parecera tão pequena e abafada antes. Parecia que ele estava prestes a sufocar bem ali, como se quisesse ser mais um a entrar para os registros e estatísticas do hospital.

– O senhor a conhecia?

            Ele não respondeu.

– Eu sinto muito… Quer um copo de água? Alguma coisa?

– Eu… eu não entendo, não pode ser. Isso… Isso aí na tela, eu consigo encontrar de novo se eu pesquisar?

– Consegue sim, mas se o senhor quiser eu posso imprimir a página também.

– Não precisa… O que eu faria com uma página impressa? Não, obrigado.

        André saiu da sala e os garotos não tentaram lhe impedir. Sem rumo, ele parou na porta de entrada do hospital. Sabia que não podia ficar ali, não sem pensar nela. Atravessou a rua e continuou andando. Pensou em voltar até seu endereço e contar à simpática vizinha o que descobrira, mas não adiantaria… Inês não voltaria para casa. Assim como ele não voltaria mais para o hospital, afinal, qual o sentido de voltar sabendo que seus dias ali eram contados… Causa da morte: obsolescência. Era isso, o arquivo estava morto.

       Pensou se não devia ter aceito a oferta de impressão que o garoto lhe fizera. Mas uma folha impressa não tinha o mesmo valor, o mesmo peso de um original. A tinta lhe sugava a história. Não havia ali a pressão feita pelo médico no papel ao escrever as palavras que selaram seu destino. Saber os sintomas e tentativas de tratamento nada lhe revelava sobre como fora seu adoecer, quem foram seus enlutados e como a vida se reorganizara após sua partida.

        Ele resolveu voltar ao hospital e, já em sua sala, ignorando o jovem que veio falar com ele, começou a revirar os papéis que estavam no lado esquerdo da mesa, aqueles que já haviam sido inseridos na tal nuvem. Inicialmente com calma, olhando folha a folha, depois mais depressa, até que começou a espalhar folhas por toda a sala, em pânico com a ideia de perdê-la. Não sentiu quando foi que as lágrimas começaram a cair ou quando Antônio colocou a mão em seu ombro, tentando contê-lo. Só parou quando já estava nos braços do garoto, envolvido em um abraço quente, desengonçado, mas quente. Agarrou-se e se permitiu chorar. Por Inês e por ele, duas figuras esquecidas e perdidas em uma linha temporal que não conseguiram acompanhar.

– Está aqui, seu André – disse lhe estendendo uma folha – O original da moça, eu procurei assim que o senhor saiu, achei que fosse querer ficar com ele.

      Pegou a folha trêmula de suas mãos e agradeceu com um aceno. Como continuar depois de saber tudo aquilo? Saiu da sala novamente, subindo os degraus um a um, andando uma última vez pelos corredores brancos e gelados. A luz do sol bateu forte em seu rosto, o sol do meio dia o observava lá de cima e talvez tenha visto o carro que ele mesmo não viu ao atravessar a rua.

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Rock Show!

11. Rock Show!

   Eles são minha banda preferida há quase quinze anos. É isso mesmo, nosso amor resistiu ao tempo e não terminou junto com a puberdade, como meu irmão mais velho costumava dizer que aconteceria. Fui a cinco shows, todos os que eles fizeram em minha cidade, e em cada um deles conheci pessoas que compartilhavam meus sentimentos, que entendiam o valor que cada uma daquelas músicas tinha. Fiz alguns amigos assim, migramos por diferentes redes sociais ao longo dos anos e, graças à internet e aos novos álbuns lançados, nunca perdemos contato.

   Sempre faltei na aula para ir aos shows, pois, por mais que a apresentação só acontecesse à noite, a experiência começava na fila, onde reencontrava os amigos e fazia alguns novos. Tentava garantir meu lugar na fila, sabendo que seria recompensada com uma boa visão do palco quando chegasse à pista. E, de qualquer forma, seria impossível ter um dia produtivo com toda aquela ansiedade explodindo dentro de mim.

   Ah! Um outro detalhe que esqueci de comentar é que minhas idas a shows sempre foram patrocinadas pelos meus pais, como presentes de aniversário, natal, ou por mera insistência mesmo. Essa foi a primeira vez que me vi forçada a fazer tudo diferente. Aos 25 anos, tenho meu emprego, a vida ativa de quem acabou de se formar e está trabalhando muito, ainda querendo acreditar nas promessas que ouviu na graduação e já ciente de que nada acontecerá sem muito esforço e alguns sacrifícios. Pois é, dessa vez precisei bancar meu ingresso, em três dolorosas parcelas, que implicaram em uma severa contenção de despesas nos meses seguintes.

   Não pude faltar no trabalho para passar o dia todo na fila, não consegui folga, por mais que tenha pedido com meses de antecedência, mas consegui negociar com uma colega para trocarmos de turno, então estaria liberada no meio da tarde. Combinei com o pessoal de nos encontrarmos na fila, assim quem chegasse primeiro já faria mais alguns amigos e nos garantiria um bom lugar.

   Quando o grande dia chegou, não consegui dormir, tive um desempenho ruim no trabalho, pois parte de mim já estava no show. Como eu podia me concentrar sabendo que eles já estavam em terras brasileiras?

   Quando o relógio anunciou o tão esperado momento, corri para meu armário e peguei a mochila já pronta. Passei no banheiro e troquei o uniforme quente por uma bermudinha leve e uma camiseta preta com o nome da banda estampado. Preferi me maquiar e colocar a bandana no caminho, dentro do ônibus mesmo, afinal, eu ainda teria uma reputação a zelar no trabalho no dia seguinte

   Mandei mensagem para meus amigos avisando que estava a caminho e parei apenas em uma lanchonete, onde comprei alguns lanches e uma garrafa grande de refrigerante gelado. O estômago precisa estar bem forrado para aguentar uma noite daquelas.

   Atipicamente, esperei apenas uma hora até a abertura dos portões e, graças à Dani, conseguimos um bom lugar na pista, nós duas ficamos numa posição estratégica, bem em frente ao lado direito do palco, onde Seb, o guitarrista, costumava ficar. Combinamos com o restante do pessoal que nos encontraríamos no final do show, em frente aos banheiros, e assim cada um foi procurar um lugar que lhe desse melhor visão do palco.

   Sentamos na pista e ficamos aguardando, Dani me contava sobre sua vontade de pedir demissão, motivo inclusive que fez com que ela não se importasse em faltar para garantir nossos lugares na fila. Eu entendia como ela se sentia, às vezes eu também sentia aquela vontade de jogar tudo para o alto. Tudo mesmo. O desabafo rolava solto até o momento em que as luzes da casa se apagaram.

   Acho que mesmo que eu me esforçasse, não seria capaz de descrever com exatidão como foram as duas horas seguintes. Shows sempre são uma experiência única, mas me despertam as mesmas sensações: o arrepio em cada parte do corpo quando as luzes se apagam e o silêncio impera por alguns segundos, antes que os instrumentos comecem a tocar; a voz do vocalista, anunciando a entrada da banda; a expectativa pela próxima música – será que eles vão tocar aquela?; a surpresa quando tocam algo que não costuma estar no repertório; ou o sorriso que surge no rosto quando eles se arriscam a falar em nossa língua. Mas não há nada comparável à sensação de união de quando todo o público, milhares de estranhos, se unem em uma só voz, cantando uma música junto com eles. Não importa se o ritmo ou a pronúncia das palavras está correta, tudo o que importa é saber que você divide aquelas notas com aquelas pessoas e que aquele momento nunca se repetirá.

   Quando a noite terminou, demorei para me situar novamente, foi difícil coordenar os pés que tentavam me arrastar para fora do estádio. Não sei muito bem como cheguei ao táxi ou sobre o que conversei com o motorista até chegarmos em minha casa. Sem nem tomar um banho, despenquei em minha cama e adormeci assim que a cabeça encostou no travesseiro, de tanto cansaço. No dia seguinte, ainda parecia anestesiada e sabia que seria muito difícil voltar ao normal, pois eu já não era a mesma, era uma das vozes do coro.

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Para Sempre

10. Para Sempre

Quando você me deixou, achei que eu não fosse aguentar. Nunca imaginei que a vida seria tão diferente sem o som gostoso da sua risada. Ou mesmo que eu sentiria falta do seu bom humor matinal, aquele que às vezes me tirava do sério. Agora, quando acordo, a casa não tem mais aquele cheirinho quente de café, e preciso encarar meu reflexo na tampa do fogão enquanto espero a água aquecer.

Não demoro nem dez minutos para comer uma fatia de pão e deixar a mesa silenciosa para trás. Tenho medo especialmente dos finais de semana, quando a casa parece dar eco, de tão vazia. Na verdade, foi por isso que eu comecei a aceitar os convites para sair, mas deixo o pessoal pensar que estou “seguindo” em frente.

A pior parte é que a maior ilusão do desiludido é acreditar que nunca se deixará iludir novamente. Mas eu sei que não é verdade. Em algum momento, a casa deixará de parecer tão grande, e eu tão sozinho. Já não me importarei mais com o fato de dormir em uma cama enorme e comprarei um abajur ou móvel qualquer para colocar no lugar onde você deixava sua poltrona de leitura, aquela coisa velha e cheia de pelos de gato grudados. Sim, mamãe conseguiu me convencer e a jogamos fora, espero que você não se importe. E quando esse momento chegar – e eu demorarei para me dar conta disso – eu estarei pronto. Começarei a olhar para as garotas na rua novamente, finalmente despertarei interesse por alguma das garotas das extensas listas de amigas solteiras que as pessoas insistem em querer me apresentar.

Mas me interessar por alguém novamente significa que eu terei superado, não que eu acredite que possa um dia te esquecer, ou nos esquecer. Nosso casamento acabou antes de os problemas começarem e, por isso, nunca saberei se éramos realmente perfeitos um para o outro ou apenas se você foi embora antes que eu conseguisse estragar tudo – porque convenhamos, nós dois sabemos que o culpado seria eu. Tenho medo de ficar bem novamente, porque não quero que isso minimize minha perda, não posso falhar com sua memória, e dá até mesmo para senti-la escapando por entre meus dedos quando penso nisso. Cada vez que eu encontro um objeto seu pela casa e jogo dentro do armário, naquela maldita caixa, é como se eu estivesse te empurrando mais para o fundo. Só que não posso nunca deixá-la ir embora. Em mim você ainda vive, exatamente como te prometi no seu último dia. Nosso último dia.

E, quando eu estiver pronto para conhecer outra pessoa, viverei uma fase relutante, num misto de culpa e curiosidade. Até que, quando menos esperar, estarei imerso em uma nova fantasia, achando que dessa vez viverei feliz para sempre. Mas como lidar com a voz na minha cabeça que me lembra que o “para sempre” terá apenas a mesma duração que eu ou ela, o que terminar primeiro.

 

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Rosa

09. Rosa

Ela me olhou, admirada. Segurei a vontade de rir quando seu nariz encostou no meu e ela fungou, sentindo meu cheiro fresco. Sem querer me gabar, mas eu costumava mesmo despertar sorrisos como o dela, apenas com um olhar. Meu tom rosa reluzia contra o sol, fazendo as pétalas brilharem ainda mais, e ela deve ter notado, foi por isso que tirou o celular do bolso e começou a me fotografar, já que, aparentemente, é assim que as pessoas lidam com o belo hoje em dia. E então foi embora, como todos os outros.

Algum tempo depois, avistei-a novamente, em meio às pessoas que passavam apressadamente pela calçada. Ela se aproximou e me tocou, deixando-me arrepiada no lugar em que seus dedos repousaram, não estava acostumada com tamanha intimidade. Comecei a sentir cócegas com o movimento de seu toque e foi então que ela fechou a mão em torno de mim e puxou com uma força arrasadora. Nunca me senti tão despedaçada, e a dor foi tão grande que deixei meu corpo para poder escapar dela.

 

 

 

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Feliz Ano Novo!

07. Feliz Ano Novo

Último dia do ano, última festa do ano, última chance de conhecer alguém. Passei a noite toda observando-o, mas ele nem me notava. Parecia muito ocupado cumprimentando cada pessoa que passava pela porta e conversando com alguns amigos que o rodeavam. Quem era ele?

Faltava um minuto para o ano acabar. Alguém desligou o som e todos gritaram, então corremos para a área externa do salão para assistir à queima de fogos de artifício. A contagem regressiva começou, todos contávamos juntos, em uma só voz, ansiosos pelo término de um ciclo e início de outro, acreditando que alguma coisa em nossas vidas mudaria junto com os ponteiros do relógio.

Eu me distraí, entrando no clima, até que me senti observada…

Dez, ele olhou em minha direção. Nove, arqueou as sobrancelhas, parecendo me notar pela primeira vez ali. Oito, começou a andar, se aproximando. Sete, finalmente parou, bem na minha frente. Seis, olhou em meus olhos e sorriu. Cinco, encostou seu copo no meu, brindando, e bebeu todo seu champanhe em um único gole. Quatro, tirou o outro copo de minha mão e o apoiou na mesa atrás de nós. Três, colocou a mão em minha cintura, eliminando a distância entre nós. Dois, senti sua respiração perigosamente próxima à minha. Um, me beijou. Meia noite, “feliz ano novo”, sussurrou entre o beijo, ainda roçando seus lábios nos meus.

 

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Um Corpo Escultural

Paris (117)A ideia de passar as férias aqui foi do Pedro. Aliás, férias dele, pois eu ainda estava no período de licença e acho que se dependesse da minha vontade, ainda estaríamos em casa. Quando o médico me disse a data da cirurgia, seis meses atrás, senti muito medo, não me sentia pronta, apesar de desejar tanto as mudanças que eu acreditava estarem por vir. A mistura de sentimentos foi tão grande que nem me ocorreu calcular a data das férias de meu marido, eu só conseguia pensar que precisava aceitar e que a partir daquele momento não havia mais volta. Então foi o que fiz.

Pedro me acompanhou durante todo o processo, me apoiou na decisão, já que eu achava que isso era o melhor para mim, como ele disse. Compareceu a algumas consultas comigo e me ouviu pacientemente contando sobre os detalhes das que perdeu. Me levou para fazer os exames preparatórios e conseguiu folga no trabalho quando o grande dia chegou. Passou horas sentado na poltrona dura do quarto de enfermaria, respondendo as mensagens e ligações que não paravam de chegar em meu celular.

Depois ele fez piadas e nós rimos do dia entediante que ele passou no hospital, mas eu sei que na verdade estava nervoso. Encontrei-o cochilando quando fui levada para o quarto em cima de uma maca e com uma série de agulhas e aparelhos conectados a meu corpo. Ele acordou assustado e quase pulou de seu assento, mas se recompôs bem a tempo e abriu seu sorriso, ligeiramente torto, enquanto caminhava em minha direção. Eu, ainda sob efeito da anestesia, não consegui fazer nada além de uma leve pressão em sua mão que segurava a minha. Mas tudo bem, pois palavras não eram necessárias.

No fim do dia, fui encaminhada para outro quarto, onde fiquei por dois dias, em observação. A recuperação foi lenta, mas correu bem. A pior parte foram as restrições alimentares. Nunca pensei em como seria difícil ingerir apenas líquidos por sete dias. Quase chorei de emoção quando o médico disse que eu estava autorizada a começar a incluir coisas ligeiramente pastosas em minha dieta. Nunca comi uma sopa tão saborosa antes.

Apesar de estar bem, sentia-me fraca, a verdade é que as mudanças na alimentação me abalaram muito, mais do que eu gostaria de admitir. O médico me alertara sobre tudo isso antes, mas, em estado de euforia, nem pensei a respeito, apenas disse que eu aceitava, aceitava qualquer coisa desde que mudasse pra valer.

Tudo era recompensado conforme eu sentia as roupas ficando largas e escorregando de meu corpo. Eu não via a hora de fazer compras! Queria ficar bem para poder me exibir por ai.  Mas, apesar de estar ansiosa para começar a vida nova, fiquei espantada em como Pedro se mostrou impassível diante de minha sugestão de adiarmos a viagem. Disse que eu ainda teria tempo o bastante para me recuperar até lá e que eu já realizara meu desejo, agora era sua vez, com as tão sonhadas férias.

Tentei me animar, afinal ele estava certo. Chamei minha irmã para ir ao shopping comigo e escolher algumas coisas novas para viajar. Fiz compras para um corpo já dezoito quilos mais leve e uns bons centímetros menor. Realizei o sonho de entrar naquelas lojas de departamento e escolher o que quisesse provar, pois agora a numeração não era mais um problema. Estava tão deslumbrada que nem olhei para o outro lado do corredor, onde as lojas que me serviram por tantos anos me observavam. Percebi o olhar de inveja que Bruna lançava para meu corpo toda vez que saía de um provador com um modelito diferente. Logo ela, que foi contra o procedimento até o fim, dizendo sempre que achava a cirurgia uma medida radical e que eu acabaria com minha saúde.

É indescritível a sensação de vestir roupas largas para variar e eu estava aproveitando cada segundo. Mas era tão difícil deixar de comer! No começo era porque eu não podia, depois descobri que mesmo se quisesse, eu não aguentava, pois bastava engolir algumas garfadas que eu já me sentia saciada e até enjoada. Aos poucos, fui me cansando de tentar, já não tinha ânimo para fazer minhas deliciosas sobremesas, afinal eu não aguentaria mais do que prová-las.

Quando me dei conta, estava evitando convites para almoço ou qualquer coisa que envolvesse ficar sentada em uma mesa com um prato de comida a minha frente. Meu corpo rejeitava as refeições que minha mente desejava. Eu fiquei esbelta, mas ainda era aquela que adorava cozinhar e se esbaldar.

Foi Pedro quem notou que algo estava acontecendo, disse que não entendia o que eu estava fazendo: finalmente caminhava para meu peso ideal, e ainda assim não parecia satisfeita. Eu neguei, é claro que estava! Não estava? Era o corpo dos sonhos! Ou seria, assim que eu desse um jeito nas cicatrizes e começasse a fazer exercícios físicos para combater a flacidez da pele.

Ainda assim, ele insistiu em voltarmos ao médico. Só que o doutor já não parecia mais interessado em meu caso e encaminhou-me para um colega, psiquiatra, e foi então que recebi o diagnóstico de depressão.

Loucura! Eu disse a mim mesma. Não tinha depressão antes, como poderia desenvolver agora, quando tudo começava a se ajeitar? Tentei seguir com a rotina, saboreando os elogios que recebia sobre meu corpo. Senti que fraquejava a cada dia, até me render e aceitar a licença médica que ele estipulou como prazo para minha recuperação.

Pedro, sem abrir mão das férias, nos levou para o outro lado do mundo. Minha mala estava irreconhecível, apenas com peças de roupas novas e muito mais ousadas do que as habituais, que cobriam e escondiam meu corpo. Só que eu não queria ir, imaginava a insatisfação de meus patrões e as fofocas que rolariam entre meus colegas de trabalho ao saberem que eu viajara em meio a um período de recuperação. “Pra viajar ela não tem depressão, não é?”, imaginava Sônia sussurrando pelos corredores com sua risadinha áspera.

Após longas horas de voo, chegamos a nosso destino. Foi estranho me acostumar aos sons da cidade, com tantas pessoas falando em um idioma que me era irreconhecível. Resgatei as aulas de inglês na memória e pensei que eram tudo o que eu dispunha, já que não entendia uma palavra sequer do francês que ouvíamos a líamos por todos os lados. Somente no hotel, enquanto meu marido conversava com a recepcionista, é que os sons foram virando palavras que faziam sentido em meus ouvidos.

Na manhã seguinte, ele recebeu uma ligação de trabalho, algo sobre um problema urgente que aparecera no escritório e a equipe precisava de sua ajuda para resolver. Seu olhar pedia desculpas, e eu sabia que aquilo seria inadiável, o trabalho era prioridade, sempre fora. Observei enquanto ele tirava o notebook da mala e me perguntei como fora parar ali, será que sabia que precisaria usá-lo?

Para não perder o dia, resolvi sair e explorar as cidades. As ruas eram pacatas e eu me sentia como em um dos muitos filmes que assistira neste cenário. Segui o caminho que o mapa da recepção do hotel me indicava e em alguns minutos cheguei no jardim de Rodin, um passeio que sei que Pedro não sentiria por perder.

Andei pelas árvores, tentando me manter nos corredores de pedra que cercavam todo o espaço. Desviava dos turistas que pareciam mais interessados em suas selfies do que nas esculturas tão divinamente esculpidas e expostas entre as árvores e arbustos.

Perdi a noção do tempo que estava parada ali, em frente ao bloco sólido de bronze, que percebi ter um formato mais humano que meu próprio corpo. Cada um de seus detalhes era característico, impossível confundí-lo com qualquer outra pessoa. Finalmente me dei conta de que era assim que eu me sentia desde a cirurgia, como se tivesse perdido a noção da humanidade. Eu já não reconhecia minhas partes, meus detalhes, era só mais uma, igual a tantas outras que passavam por inúmeras intervenções, na vaga tentativa de suprir o descontentamento que a sociedade nos ensinou a ter com nossos próprios corpos.

Percebi que o desespero daquele ser inanimado era mais real do que qualquer uma de minhas reações dentro deste corpo que já não mais me pertencia. Fazia meses que já não me sentia como antes, parecia até que toda minha essência se esvaziara pelo corte da cirurgia, como se o médico não tivesse costurado minha pele a tempo.

Senti o ar indo embora de meus pulmões conforme ficava ofegante. Apoiei-me em um tronco para evitar o desequilíbrio e pisquei os olhos repetidas vezes, desejando que a tontura passasse. A última coisa que vi antes de cair foi que a assinatura do artista nos pés da escultura lembrava vagamente a cicatriz que marcava a região de meu umbigo.

 

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Me Chama

06. Me Chama

 

Ela dizia que eu podia chamá-la sempre que precisasse, e eu chamava. Às vezes só para ouvir o som de sua voz, que era como uma bela melodia invadindo meus ouvidos e me paralisando, em um estado hipnótico. Ouvi-la dizendo meu nome era como estar em casa novamente, de volta àquelas tardes de domingo no quintal ensolarado, quando nos sentávamos no chão frio e ela apoiava a cabeça em meu colo e compartilhava alguma de suas ideias malucas. Eu só conseguia rir de sua ironia inconveniente, mas a verdade é que não conseguia acompanhar seu fluxo de pensamentos.

Mesmo depois de nos separarmos, era para ela que eu ligava para contar uma novidade ou até mesmo para pedir ajuda. E, mesmo sem ter obrigação alguma, ela sempre aparecia para dar uma força.

Sinceramente, não sei como seria a vida sem sua presença, e era nisso que eu estava pensando enquanto assistia à dança silenciosa das chamas que projetavam sua sombra na parede. Senti vontade de apagar as velas, bastava um sopro para que a escuridão invadisse o salão abafado.

Encarava seu corpo inerte, pensando que eu não poderia mais chamá-la, e que ela nunca mais seria a mesma e, graças a meu egoísmo – como ela teria dito, eu também não. E bem que eu precisava dela agora.