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Feliz Ano Novo!

07. Feliz Ano Novo

Último dia do ano, última festa do ano, última chance de conhecer alguém. Passei a noite toda observando-o, mas ele nem me notava. Parecia muito ocupado cumprimentando cada pessoa que passava pela porta e conversando com alguns amigos que o rodeavam. Quem era ele?

Faltava um minuto para o ano acabar. Alguém desligou o som e todos gritaram, então corremos para a área externa do salão para assistir à queima de fogos de artifício. A contagem regressiva começou, todos contávamos juntos, em uma só voz, ansiosos pelo término de um ciclo e início de outro, acreditando que alguma coisa em nossas vidas mudaria junto com os ponteiros do relógio.

Eu me distraí, entrando no clima, até que me senti observada…

Dez, ele olhou em minha direção. Nove, arqueou as sobrancelhas, parecendo me notar pela primeira vez ali. Oito, começou a andar, se aproximando. Sete, finalmente parou, bem na minha frente. Seis, olhou em meus olhos e sorriu. Cinco, encostou seu copo no meu, brindando, e bebeu todo seu champanhe em um único gole. Quatro, tirou o outro copo de minha mão e o apoiou na mesa atrás de nós. Três, colocou a mão em minha cintura, eliminando a distância entre nós. Dois, senti sua respiração perigosamente próxima à minha. Um, me beijou. Meia noite, “feliz ano novo”, sussurrou entre o beijo, ainda roçando seus lábios nos meus.

 

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Um Corpo Escultural

Paris (117)A ideia de passar as férias aqui foi do Pedro. Aliás, férias dele, pois eu ainda estava no período de licença e acho que se dependesse da minha vontade, ainda estaríamos em casa. Quando o médico me disse a data da cirurgia, seis meses atrás, senti muito medo, não me sentia pronta, apesar de desejar tanto as mudanças que eu acreditava estarem por vir. A mistura de sentimentos foi tão grande que nem me ocorreu calcular a data das férias de meu marido, eu só conseguia pensar que precisava aceitar e que a partir daquele momento não havia mais volta. Então foi o que fiz.

Pedro me acompanhou durante todo o processo, me apoiou na decisão, já que eu achava que isso era o melhor para mim, como ele disse. Compareceu a algumas consultas comigo e me ouviu pacientemente contando sobre os detalhes das que perdeu. Me levou para fazer os exames preparatórios e conseguiu folga no trabalho quando o grande dia chegou. Passou horas sentado na poltrona dura do quarto de enfermaria, respondendo as mensagens e ligações que não paravam de chegar em meu celular.

Depois ele fez piadas e nós rimos do dia entediante que ele passou no hospital, mas eu sei que na verdade estava nervoso. Encontrei-o cochilando quando fui levada para o quarto em cima de uma maca e com uma série de agulhas e aparelhos conectados a meu corpo. Ele acordou assustado e quase pulou de seu assento, mas se recompôs bem a tempo e abriu seu sorriso, ligeiramente torto, enquanto caminhava em minha direção. Eu, ainda sob efeito da anestesia, não consegui fazer nada além de uma leve pressão em sua mão que segurava a minha. Mas tudo bem, pois palavras não eram necessárias.

No fim do dia, fui encaminhada para outro quarto, onde fiquei por dois dias, em observação. A recuperação foi lenta, mas correu bem. A pior parte foram as restrições alimentares. Nunca pensei em como seria difícil ingerir apenas líquidos por sete dias. Quase chorei de emoção quando o médico disse que eu estava autorizada a começar a incluir coisas ligeiramente pastosas em minha dieta. Nunca comi uma sopa tão saborosa antes.

Apesar de estar bem, sentia-me fraca, a verdade é que as mudanças na alimentação me abalaram muito, mais do que eu gostaria de admitir. O médico me alertara sobre tudo isso antes, mas, em estado de euforia, nem pensei a respeito, apenas disse que eu aceitava, aceitava qualquer coisa desde que mudasse pra valer.

Tudo era recompensado conforme eu sentia as roupas ficando largas e escorregando de meu corpo. Eu não via a hora de fazer compras! Queria ficar bem para poder me exibir por ai.  Mas, apesar de estar ansiosa para começar a vida nova, fiquei espantada em como Pedro se mostrou impassível diante de minha sugestão de adiarmos a viagem. Disse que eu ainda teria tempo o bastante para me recuperar até lá e que eu já realizara meu desejo, agora era sua vez, com as tão sonhadas férias.

Tentei me animar, afinal ele estava certo. Chamei minha irmã para ir ao shopping comigo e escolher algumas coisas novas para viajar. Fiz compras para um corpo já dezoito quilos mais leve e uns bons centímetros menor. Realizei o sonho de entrar naquelas lojas de departamento e escolher o que quisesse provar, pois agora a numeração não era mais um problema. Estava tão deslumbrada que nem olhei para o outro lado do corredor, onde as lojas que me serviram por tantos anos me observavam. Percebi o olhar de inveja que Bruna lançava para meu corpo toda vez que saía de um provador com um modelito diferente. Logo ela, que foi contra o procedimento até o fim, dizendo sempre que achava a cirurgia uma medida radical e que eu acabaria com minha saúde.

É indescritível a sensação de vestir roupas largas para variar e eu estava aproveitando cada segundo. Mas era tão difícil deixar de comer! No começo era porque eu não podia, depois descobri que mesmo se quisesse, eu não aguentava, pois bastava engolir algumas garfadas que eu já me sentia saciada e até enjoada. Aos poucos, fui me cansando de tentar, já não tinha ânimo para fazer minhas deliciosas sobremesas, afinal eu não aguentaria mais do que prová-las.

Quando me dei conta, estava evitando convites para almoço ou qualquer coisa que envolvesse ficar sentada em uma mesa com um prato de comida a minha frente. Meu corpo rejeitava as refeições que minha mente desejava. Eu fiquei esbelta, mas ainda era aquela que adorava cozinhar e se esbaldar.

Foi Pedro quem notou que algo estava acontecendo, disse que não entendia o que eu estava fazendo: finalmente caminhava para meu peso ideal, e ainda assim não parecia satisfeita. Eu neguei, é claro que estava! Não estava? Era o corpo dos sonhos! Ou seria, assim que eu desse um jeito nas cicatrizes e começasse a fazer exercícios físicos para combater a flacidez da pele.

Ainda assim, ele insistiu em voltarmos ao médico. Só que o doutor já não parecia mais interessado em meu caso e encaminhou-me para um colega, psiquiatra, e foi então que recebi o diagnóstico de depressão.

Loucura! Eu disse a mim mesma. Não tinha depressão antes, como poderia desenvolver agora, quando tudo começava a se ajeitar? Tentei seguir com a rotina, saboreando os elogios que recebia sobre meu corpo. Senti que fraquejava a cada dia, até me render e aceitar a licença médica que ele estipulou como prazo para minha recuperação.

Pedro, sem abrir mão das férias, nos levou para o outro lado do mundo. Minha mala estava irreconhecível, apenas com peças de roupas novas e muito mais ousadas do que as habituais, que cobriam e escondiam meu corpo. Só que eu não queria ir, imaginava a insatisfação de meus patrões e as fofocas que rolariam entre meus colegas de trabalho ao saberem que eu viajara em meio a um período de recuperação. “Pra viajar ela não tem depressão, não é?”, imaginava Sônia sussurrando pelos corredores com sua risadinha áspera.

Após longas horas de voo, chegamos a nosso destino. Foi estranho me acostumar aos sons da cidade, com tantas pessoas falando em um idioma que me era irreconhecível. Resgatei as aulas de inglês na memória e pensei que eram tudo o que eu dispunha, já que não entendia uma palavra sequer do francês que ouvíamos a líamos por todos os lados. Somente no hotel, enquanto meu marido conversava com a recepcionista, é que os sons foram virando palavras que faziam sentido em meus ouvidos.

Na manhã seguinte, ele recebeu uma ligação de trabalho, algo sobre um problema urgente que aparecera no escritório e a equipe precisava de sua ajuda para resolver. Seu olhar pedia desculpas, e eu sabia que aquilo seria inadiável, o trabalho era prioridade, sempre fora. Observei enquanto ele tirava o notebook da mala e me perguntei como fora parar ali, será que sabia que precisaria usá-lo?

Para não perder o dia, resolvi sair e explorar as cidades. As ruas eram pacatas e eu me sentia como em um dos muitos filmes que assistira neste cenário. Segui o caminho que o mapa da recepção do hotel me indicava e em alguns minutos cheguei no jardim de Rodin, um passeio que sei que Pedro não sentiria por perder.

Andei pelas árvores, tentando me manter nos corredores de pedra que cercavam todo o espaço. Desviava dos turistas que pareciam mais interessados em suas selfies do que nas esculturas tão divinamente esculpidas e expostas entre as árvores e arbustos.

Perdi a noção do tempo que estava parada ali, em frente ao bloco sólido de bronze, que percebi ter um formato mais humano que meu próprio corpo. Cada um de seus detalhes era característico, impossível confundí-lo com qualquer outra pessoa. Finalmente me dei conta de que era assim que eu me sentia desde a cirurgia, como se tivesse perdido a noção da humanidade. Eu já não reconhecia minhas partes, meus detalhes, era só mais uma, igual a tantas outras que passavam por inúmeras intervenções, na vaga tentativa de suprir o descontentamento que a sociedade nos ensinou a ter com nossos próprios corpos.

Percebi que o desespero daquele ser inanimado era mais real do que qualquer uma de minhas reações dentro deste corpo que já não mais me pertencia. Fazia meses que já não me sentia como antes, parecia até que toda minha essência se esvaziara pelo corte da cirurgia, como se o médico não tivesse costurado minha pele a tempo.

Senti o ar indo embora de meus pulmões conforme ficava ofegante. Apoiei-me em um tronco para evitar o desequilíbrio e pisquei os olhos repetidas vezes, desejando que a tontura passasse. A última coisa que vi antes de cair foi que a assinatura do artista nos pés da escultura lembrava vagamente a cicatriz que marcava a região de meu umbigo.

 

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Me Chama

06. Me Chama

 

Ela dizia que eu podia chamá-la sempre que precisasse, e eu chamava. Às vezes só para ouvir o som de sua voz, que era como uma bela melodia invadindo meus ouvidos e me paralisando, em um estado hipnótico. Ouvi-la dizendo meu nome era como estar em casa novamente, de volta àquelas tardes de domingo no quintal ensolarado, quando nos sentávamos no chão frio e ela apoiava a cabeça em meu colo e compartilhava alguma de suas ideias malucas. Eu só conseguia rir de sua ironia inconveniente, mas a verdade é que não conseguia acompanhar seu fluxo de pensamentos.

Mesmo depois de nos separarmos, era para ela que eu ligava para contar uma novidade ou até mesmo para pedir ajuda. E, mesmo sem ter obrigação alguma, ela sempre aparecia para dar uma força.

Sinceramente, não sei como seria a vida sem sua presença, e era nisso que eu estava pensando enquanto assistia à dança silenciosa das chamas que projetavam sua sombra na parede. Senti vontade de apagar as velas, bastava um sopro para que a escuridão invadisse o salão abafado.

Encarava seu corpo inerte, pensando que eu não poderia mais chamá-la, e que ela nunca mais seria a mesma e, graças a meu egoísmo – como ela teria dito, eu também não. E bem que eu precisava dela agora.

 

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Um lugar vazio na platéia

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Sábado, mais um dia de espetáculo. Fazia três semanas que a peça estava em cartaz, só conseguimos lotar a casa na noite de estreia, mas desde então vínhamos conquistando um público razoável, o suficiente para pagar o aluguel do teatro e manter a trupe motivada o bastante para passar suas noites em cima do palco.

Ele ainda não viera me ver. Eu sabia que não aprovava minha carreira de atriz e que, assim como meus pais, achava que eu devia parar de tentar investir no teatro e arrumar um emprego que pudesse oferecer um mínimo de estabilidade. A única diferença é que era mais hábil em disfarçar sua insatisfação. Me parabenizara quando consegui o papel e respeitava os horários de ensaio. Mas na grande noite de abertura do espetáculo ele não compareceu. Disse que surgira um trabalho de última hora e que ele não poderia recusar, então passaria a noite toda na frente do computador, editando suas fotos. A desculpa perfeita para não vir. Melhor do que meu pai, que alegou que não ficaria até tão tarde na rua e que precisava dormir cedo. No dia seguinte faltou novamente, e na outra semana simplesmente não tocou no assunto.

“Edu, precisamos conversar”, protestei na segunda-feira seguinte, quando nos encontramos para o habitual café da tarde. Ele alegou estar muito ocupado com seus projetos e terminou com “temos que priorizar o trabalho, você sabe”. Sim, eu sabia, e lhe respondi isso. Ele me devolveu uma risada amarga e um “trabalho que dê dinheiro, já que alguém tem que ter algum”.

Mais uma vez se mostrou contra minha carreira e aquilo que eu considerava ser minha vocação. “Obrigada por tornar as coisas mais fáceis”, respondi antes de tirar minha aliança prateada e deixar em cima da mesa, junto com uma nota alta o bastante para pagar a conta e o resto frio do meu café na xícara manchada de batom vermelho.

Fui embora e me concentrei nos ensaios da semana e nos escritos para o blog, que geravam alguma renda.

Até que cheguei aqui hoje, pronta para mais uma noite no palco e dei de cara com ele, me esperando na entrada dos fundos da casa. Ele disse meu nome e acenou com o buquê de flores na mão. “Finalmente consegui uma brecha no trabalho para vir te assistir”. Parei a certa distância dele, tentando me manter impassível a seu perfume e às flores – gesto raro nos últimos anos. “Ótimo, vou pegar um ingresso na bilheteria”, eu disse e ele respondeu tirando um bilhete do bolso, indicando que já comprara um.

“Será que podemos conversar? ”. “Eu… Não posso demorar. A apresentação começa daqui a dez minutos”. Ele suspirou. “Certo, acho que é tempo suficiente para pedir desculpas por ter te evitado nas últimas semanas”. Senti algo amolecendo dentro de mim e tentei disfarçar em minha voz, perguntando por seus motivos.

“Eu realmente preciso entrar”, insisti. Peguei o buquê de suas mãos e passei por ele, entrando pela porta dos fundos enquanto ele seguia para a da frente.

Me recompus o bastante para entrar em cena e fazer minha melhor apresentação. A casa estava razoavelmente cheia e a apresentação foi animada. A luz refletia em minha roupa prateada e eu me sentia viva, por estar em cena. Ele não desviou os olhos do palco nem por um minuto.

Assim que as cortinas se fecharam, me reuni com meus colegas e ficamos de mãos dadas no centro do palco, aguardando que se abrissem novamente para então darmos um passo para frente e agradecermos ao público. Saímos do palco e eu não tive pressa em tirar o figurino e voltar às minhas calças habituais. Vesti um casaco por cima da roupa, para me esquentar e refiz a maquiagem, mais delicada dessa vez.

Aos poucos os atores foram saindo e deixando o camarim vazio. Guardei os acessórios de minha personagem no armário e joguei meus pertences na bolsa. Voltei até o palco e de longe o avistei, ainda sentado em sua poltrona. Assim que me viu, ele se levantou e veio a meu encontro. Me sentei no chão do palco e fiquei com as pernas penduradas, devido à altura em que me encontrava. Ele se aproximou, apoiou as mãos na beirada e se impulsionou para subir e ficar ao meu lado.

Ficamos em silêncio, apenas ouvindo o barulho de nossas respirações e algumas risadas abafadas que vinham dos fundos, até que ele finalmente quebrou o gelo entre nós: “Ter ver no palco é sempre… Você é boa. Tenho medo que dê certo, que você se afaste de mim, que seus planos mudem, que os nossos planos mudem”. Fiquei paralisada, absorvendo suas palavras e pensando em como lhe explicar que nada mudaria. Que tudo o que eu mais queria era ser atriz, mas que as coisas só faziam sentido quando ele estava ao meu lado, essa versão dele, e não a das últimas semanas, mal-humorada, distante e ácida. Essa última era a que me deixava com vontade de me afastar. Sorri e apoiei minha mão sobre a sua. “Nenhuma história termina antes de se encontrar o mocinho”, sussurrei em seu ouvido.

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E se o mundo acabasse?

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Em 2012, foi divulgado um estudo dizendo que o mundo acabaria no dia vinte e um de dezembro. Algo sobre alinhamentos astronômicos, fórmulas matemáticas e a civilização Maia. Um grande colapso!

Eu não acreditei, afinal não era a primeira previsão de fim do mundo e, com certeza, não seria a última a ser feita. E também, se o mundo acabasse mesmo, eu não estaria aqui para precisar admitir meu engano.

Os primeiros meses do ano se passaram sem grandes mudanças, mas logo começaram a surgir teorias e algumas pessoas começaram a tentar projetar como seria o grande final. A princípio, achei tudo uma grande loucura e apenas ria das histórias que escutava. Mas, mundo acabando ou não, o ano foi bem difícil para mim, especialmente quando perdi o emprego. E até me peguei desejando que tudo isso realmente tivesse um fim.

Lembro de conversar sobre isso com meus amigos, e foi assim que Rodrigo sugeriu que saíssemos no último dia, para comemorarmos o tão anunciado fim. Afinal, estávamos todos ferrados e não nos custava nada uma desculpa para festejar. Nosso placar final envolvia desemprego, dívidas, relacionamentos terminados e uma mudança de cidade.

Assim, nos encontramos na rua mais badalada da cidade algumas horas antes do fim, do dia e do mundo. Passei o dia todo criando expectativas e fantasias em minha mente sobre como seria me declarar para meu melhor amigo, pois se essa fosse mesmo minha última chance, parecia bobeira desperdiçá-la com pudores e, caso não fosse, eu poderia colocar a culpa no excesso de bebida.

Nós não fomos os únicos a ter essa ideia, acho que as casas noturnas e bares nunca faturaram tanto quanto naquela noite. Havia muita gente nas ruas, alguns apenas curtindo com seus amigos, outros com olhares nervosos, parecendo ansiosos com o que estivesse por vir e alguns anunciando profecias pelas ruas. Bom, já que o caos estava instalado, resolvi tentar a sorte com Rodrigo.

Fomos para um bar, o som estava muito alto e mal conseguíamos conversar. Mas ficamos lá, aproveitando a música e pedindo rodadas e mais rodadas de álcool. Olhei para ele, do outro lado da mesa e respirei fundo antes de estender a mão para ele, chamando-o para ir até a pista de dança. Ele me olhou confuso e apontou para o ouvido, sinalizando que não me escutara. Me aproximei dele, ficando na ponta dos pés para alcançar seu pescoço e disse: “vem dançar! ”. Ele riu e negou com um aceno de cabeça e eu, revirei os olhos, o ignorando e seguindo sozinha para a pista.

Quando me virei, ele estava bem atrás de mim. “Mudou de ideia? ”, perguntei. “Mal não vai fazer, você não vai poder lembrar de como eu sou ruim nisso”, respondeu. Ficamos dançando, desajeitados de frente um para o outro e notei que nenhum de nossos amigos nos seguiu. Ótimo, acho que entenderam o recado.

Aos poucos fomos nos soltando e eu me atrevi a pegar sua mão e apoiar em minha cintura, para que ele acompanhasse meus movimentos. Ele sorriu e permaneceu ali, sem se afastar. Então, quando percebi, eu já estava bem próxima da parede, tendo apenas aquele belo exemplar de um metro e noventa à minha frente. Fechei os olhos e o puxei ainda mais, ele se abaixou, gentilmente, alcançando meus lábios. Não sei quanto tempo aquele beijo durou e, quando terminou, abri lentamente os olhos, para espiá-lo.

Sem dizer nenhuma palavra, passamos o resto da noite juntos, não sei quando o relógio marcou meia-noite, mas logo o dia vinte e dois amanheceu. Fomos embora sozinhos, já que não conseguimos encontrar mais nenhum de nossos amigos.

Ele pegou minha mão e entrelaçou à dele, enquanto caminhávamos. Então diminui o passo até parar e me sentei em uma calçada. Ele me acompanhou e ficamos assistindo o nascer do dia. “Quem diria que o mundo precisava ameaçar seu fim para eu ter coragem de te beijar”, ele disse. “O quê? Eu que passei a noite toda tomando coragem para chegar perto de você”, falei rindo.

Fomos para casa e só voltamos a nos ver na semana seguinte, após as festividades do natal. Mas, no meio do caminho trocamos muitas mensagens e foi ali, em pleno final, que nossa história começou.

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Incurável

03. Incurável

Era um jantar entre amigos. Simone chegou com meia hora de antecedência e levava os olhos à porta toda vez que alguém entrava no restaurante. Se levantou da cadeira, em um pulo, assim que o viu entrando, no horário marcado. Roberto veio em sua direção, sorrindo, e se cumprimentaram com um abraço.

Ele perguntou sobre a terceira amiga, que deveria vir encontrá-los, e Simone se limitou a responder que ela acabara de lhe enviar uma mensagem dizendo que teve um imprevisto no trabalho. “Que pena, é tão difícil voltar a reunir o trio, principalmente sem esposa, maridos e filhos no meio”, ele disse e se sentou na cadeira vaga a sua frente.

Simone voltou a se sentar, de frente para ele, e ficou encarando-o, abriu a boca duas vezes, mas as palavras lhe faltaram, até que o garçom os interrompeu para anotar seus pedidos, fazendo com que se entretivessem em seus cardápios por alguns minutos.

Depois de escolherem as bebidas e pedirem uma salada como entrada, voltaram a se olhar, e ele, já melhor acomodado na cadeira, começou a falar, perguntando sobre seu trabalho e sobre como estavam as crianças. Ela respondeu, secamente, sem prolongar nenhum assunto, nem mesmo quando Roberto começou a relembrar histórias da época em que estudavam juntos. Apenas quando o garçom depositou os pratos na mesa e se afastou foi que ela voltou a falar. “Preciso te contar uma coisa”, disse. Ele sorriu e gesticulou com as mãos para que ela continuasse. “Mas eu não consigo… Bem, vou mostrar de uma vez. Veja só”, disse enquanto pegava seu celular na bolsa. Seu rosto ficou momentaneamente iluminado pela luz forte da tela, até que ela entregou o celular em sua mão e fechou os olhos, sem observar sua reação.

Ele se endireitou na cadeira e puxou o celular para si, depois o afastou, olhando a tela de outro ângulo. Jogou o celular no meio da mesa, quase derrubando os copos que ali estavam e lhe exigindo explicações. “Não tem o que explicar, é isso. Vi os dois juntos ontem, de novo”, respondeu. Ele se recusou a acreditar que a esposa ainda estivesse se encontrando com o amante, mesmo depois de conversarem a respeito e ele lhe perdoar. “Sei que você a perdoou, mas ela é uma vaca, uma vaca incurável. Não te merece, Rô”. Ele bufou, e abaixou a cabeça, passando a mão pelos cabelos. Quando a encarou novamente, pegou seu celular e se levantou, saindo do restaurante sem olhar para trás.

Ela não pareceu se abalar com a reação dele e voltou a comer seu estrogonofe, porém agora com um sorriso no rosto.

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Uma loja de banheiras

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Conheci a Márcia no último ano do ensino médio, e logo nos tornamos amigos. Nunca havíamos conversado muito sobre nossas famílias, nossos papos costumavam girar em torno de estilos musicais e das séries do momento. Até que a professora de biologia nos passou um trabalho em grupo e ela disse que podíamos nos reunir nos fundos da loja de seu pai para trabalharmos no projeto.

Então, numa quarta-feira depois da aula, a acompanhei até o local onde passava suas tardes, o tal comércio da família. Caminhamos até a avenida principal e ela sorriu ao dizer que estávamos quase chegando. Ao nos aproximarmos da esquina, ela foi diminuindo o passo, até parar em frente a uma vitrine de vidro enorme que exibia uma banheira de hidromassagem redonda e luxuosa.

Eu não entendi que aquele era nosso destino e continuei andando, já estava quase atravessando a rua quando ela me chamou e apontou para a entrada daquela loja rindo. Fiquei com vergonha, mas não pude conter uma exclamação: “Banheiras?!”. “Sim, banheiras”, ela respondeu rindo.

Entrei logo atrás dela, de cabeça baixa, quase sem coragem de olhar para as imensas bacias que nos cercavam, afinal é isso que eram, não é?

Seu pai nos aguardava atrás do balcão, todo sorridente e de braços abertos para receber a filha. Depois que eles se abraçaram, se virou em minha direção e estendeu a mão, em um cumprimento forte, que quase deslocou meu braço. Correspondi a seu aperto e soltei um comentário: “bela loja”. Acho que não o convenci, pois ele inclinou a cabeça, arqueou a sobrancelha por um instante e então agradeceu, acrescentando um sorriso por fim.

Márcia me convidou para entrar nos fundos da loja, então a segui até uma pequena sala, iluminada por uma janela que tinha vista para a rua lateral. Ela se sentou em uma cadeira, cruzou os braços e ficou me encarando. “O que foi? ”, disse. Eu senti minhas bochechas corarem diante de seu olhar atento e não consegui responder. Ela insistiu “diz logo”.

“Banheiras? “, perguntei novamente. Ela caiu na risada e insistiu em saber o motivo de minha surpresa. Não havia grandes razões, eu só não conseguia imaginar como alguém ia parar atrás do balcão de uma loja dessas. Digo, será que quando criança o sonho dele era ter uma grande loja de banheiras num bairro nobre da cidade? Quando será que ele pensou nisso pela primeira vez ou qual será que foi a primeira banheira que ele viu? Será que foi planejado ou impulsivo? Imagino ele chegando em casa e contando para a mulher e para os filhos “Família, vou abrir uma loja, quero vender banheiras! ”. E a pequena Márcia, pulando em volta do pai, feliz com a perspectiva de ter uma piscina particular em seu banheiro.

Será que ela tem uma banheira em casa? Deve ter. Eu realmente não devia estar imaginando a minha amiga dentro de uma banheira, mas agora é tudo o que eu consigo pensar, a imagem impregnou em minha cabeça.

Como precisava lhe responder algo, disse apenas que ficava curioso, e perguntei-lhe desde quando sua família tinha a loja e qual fora sua origem. Ela riu e respondeu que o pai trabalhava em uma loja de materiais de construção e quando saiu, pegou todo seu dinheiro para investir em algo, e acabou comprando a loja do antigo proprietário.

Que decepção! Assim, sem sonhos, sem nenhuma relação afetiva com as pobres banheiras, puramente um comércio. A mensalidade do colégio dela era paga graças a pessoas extravagantes que não se contentam com chuveiros e querem enfiar uma bacia em seus banheiros grandes. Engoli minha amarga opinião sobre a índole de seu pai e fomos fazer nosso trabalho.

Mas no caminho para casa, não pude expandir meus pensamentos: como será que se iniciam os comércios ou certas profissões: por exemplo, como será que alguém se torna encanador, vendedor de perfumes, ou ainda, dono de uma loja de artigos para aquário ou de um sexshop. Cheguei e fui correndo perguntar pra minha mãe como foi que meu avô decidiu abrir sua vidraçaria.