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Eu Planto

Suculentas (32)            Sempre gostei da beleza das flores, e com o tempo aprendi a apreciar a vida das folhas, identificando as nuances de diferentes tons de verde. Mas foi sujar as mãos de terra que me ensinou que aquilo que apreciamos requer muito trabalho e que o processo nem sempre é bonito.

            Plantando, aprendi que a terra dá apenas as condições, mas é a semente que desabrocha, revelando aquilo que carrega em si, aquilo que consegue, pode e tem de ser. Já percebi que deixo um pedaço de mim em cada vaso que faço, registrando ali meus traços, estilo e escolhas. E me permito levar um pouco de sua graça e espontaneidade comigo, além dos resquícios de terra que ficam impregnados por baixo de minhas unhas.

            As plantas também me ensinaram a dividir e a me conectar com outras pessoas. Troco mudinhas com minha mãe e avó e assim três gerações conversam sobre suas técnicas e cuidados. Ouço histórias sobre o jardim de minha mãe e sobre como minha avó trocava mudinhas com suas vizinhas. Agora nos presenteamos e saímos juntas para procurar novas espécies para nossos quintais. Juntas, nos divertimos por uma tarde inteira, não fazendo nada além de sujar nossas mãos e o chão a nossa volta. Não tem problema se os outros não entendem o motivo de passarmos tantas horas entretidas com algo tão pequeno, nós entendemos – e nos entendemos.

            Por trás de toda delicadeza e fragilidade de uma flor há nutrientes, afinal ninguém sobrevive sem um pouco de cuidado. Há também raízes e húmus, mantendo-as em pé. Precisei me mudar de casa e comprar minhas próprias plantas, com o singelo intuito de decorar, para aprender com elas que cada um tem o poder e o dever de fazer sua morada. As raízes pertencem à planta, independentemente do tamanho ou formato do vaso, é nela que crescem, agarrando-se à terra enquanto se atém à vida.

            Assim como nós, elas vivem em ciclos. O sentido de plantar não é observar a beleza estática das flores, como em um retrato, mas justamente o contrário: é observar seu movimento, testemunhando a vida que acontece bem diante dos nossos olhos, do lado de fora, na rua ou no quintal, ou ainda a incrível capacidade de adaptação da flor que é eleita para ficar dentro de casa, com ar e luz reduzidos.

Plantando (1)

            Quando uma flor murcha e cai, um botão cresce em seu lugar. Aprendi que posso replantar as folhas que caem, assim sou presenteada com uma

 nova muda, que cresce em seu lugar. Plantar me ensinou a ser paciente, regar e oferecer luz, proteger da chuva, e fazer tudo isso com um único propósito: deixar ser. Cuido de algumas plantas o ano inteiro apenas para vê-las florir uma vez ao ano. Outras possuem ciclos tão rápidos que mal as percebo mudando. Uma folha que cresce, um ramo que nasce. Botões que surgem aos meus olhos em sequência.

      O cheiro da terra recém molhada e dos diferentes temperos que crescem desordenadamente na pequena jardineira em minha sacada são um lembrete diário de que eu sei cuidar, de que eu também estou sendo aquilo que posso ser.

 

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Uma Última Vez

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Me sinto no direito de dizer que nós crescemos juntas. Quando pequena, brinquei em seu quintal e corri por seus corredores. Fiz lição com o caderno apoiado embaixo do balcão e brinquei de bonecas na mesa do refeitório. Passava tanto tempo lá que até fui eleita a responsável pelo café, arma poderosa para combater aquele soninho do turno da tarde.

Você passou por um rompimento de sociedade e eu de família. Perdemos partes vitais, ficamos sem energia e foi difícil nos reerguermos, eu diria que só conseguimos por estarmos juntas. E foi assim que amadurecemos, sob o mesmo teto.

Já que estamos conversando, preciso te contar que eu nunca me senti muito íntima de ti. Acho que em partes porque passei anos te culpando por tudo o que aconteceu em minha vida, mesmo sabendo que prateleiras de metal não vão embora e mercadorias não tomam decisões. Foi por isso que saí sem olhar para trás, deixei sua familiar rotina para seguir outro caminho, outra profissão, uma de minha escolha.

Com a cabeça cheia de razões, resisti a voltar. Passei dois anos tentando me convencer de que havia espaço para nós duas e que eu podia aprender a conviver contigo, te encaixando em algum canto dentro de mim. Relacionei prós e contras: a família, as finanças e, principalmente, a liberdade de voltar por escolha própria.

Encaramos uma reforma juntas, ou melhor, uma reestruturação, como gosto de chamar. Você foi quebrada, recortada e remodelada, ficando inabitável por alguns meses, até ganhar uma nova forma e ficar irreconhecível. Mas, não há tinta no mundo que apague a história de uma velha parede. Não, o lugar continuou impregnado de lembranças.

Distraída por sua nova beleza e tentando te organizar dentro de mim, não percebi que, apesar da carcaça reluzente, você começava a apodrecer. Um miolo estragado que foi capaz de consumir cada um de nossos recursos, começando pelos seus, até chegar aos meus.

Pouco a pouco, sem notar, sinto que perdi tudo. Fiquei vazia. E ainda é difícil acreditar que, pela primeira vez, já não posso contar com seu apoio. Desta fonte já não sai sequer uma gota. Então me diz o que fazer com essa sede que queima a minha garganta todos os dias?

Larguei tudo para voltar… Parece que há uma força que nos atrai, não é mesmo? Mas só se volta para um barco naufragando quando há algo de muito valor a ser resgatado. Pois bem, meu bem mais precioso estava lá, enterrado nos fundos de um escritório, sem querer arredar o pé, o que nos custou tempo e energia, até que começássemos a nadar todos juntos para a saída. Uma saída que logo se tornou qualquer saída.

Juntas, conseguimos encontrar alguém que acreditou em nós: em seu potencial e em minha história. “Demos sorte”, dizem. Mas nada disso ameniza a dor que senti ao ter que sair uma última vez por suas portas, sabendo que já não seria mais bem-vinda e que nós duas, tão familiares, já não nos pertencíamos mais.

Parece que eu ainda não digeri tudo. Não importa de quantas reuniões de planejamento eu participe ou de quão forte eu finja ser durante o expediente, a verdade é que eu estou perdida, sem saber o que fazer sem você. Outro dia quase não a reconheci, quando te vi do outro lado da praça, transvestida em sua aparência e essência, cheia de mercadorias e vazia de identidade.

Como foi que nós viemos parar aqui? E para onde eu vou agora?

 

 

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Pisca-Pisca

43. pisca-pisca

Cheguei em casa e, ainda no escuro, procurei o fio da tomada que ligava os enfeites. Logo a sala foi invadida por luz e cores, muitas cores. Acende. Apaga. Pisca. Pisca. Era um alívio saber que eu não precisava acender a tediosa luz branca do cômodo no mês de dezembro. Não, durante trinta dias, minha casa era tomada por cores.

Abri as janelas para poder ver as luzes piscarem lá fora, no fio estendido em volta da pequena sacada do apartamento. A árvore, estrela do meu show, brilhava majestosa no canto da sala. E os pequenos enfeites faziam festa em volta dela. Todos os anos eu me preparava para o dia da decoração, colocando músicas natalinas para tocar e um gorro vermelho e branco na cabeça enquanto começava a tirar as caixas e sacolas do armário. Desembalar os enfeites era como reencontrar velhos conhecidos, estavam todos ali: o pequeno pinguim de pelúcia, a corujinha fantasiada de rena, os enfeitinhos de Papai Noel, em diferentes cores e tamanhos, e a miniatura de presépio que ganhei no último ano.

Eu arrisco o clichê de confessar que é o único período em que não me sinto sozinho dentro dos apertados sessenta metros quadrados em que vivo. As cores me acompanham aonde quer que eu vá e é a época do ano em que tudo vira festa, as pessoas ficam mais bem humoradas e os males se amenizam, ainda que temporariamente.

A noite de Natal passa muito rápido, não fazendo jus a tanto preparo e tempo que gastamos com ela. A hora da festa me traz sentimentos ambíguos, apesar de passar muitos dias ansioso por aquele momento, não há nada pior do que um feriado de família para te lembrar daqueles que já não estão mais aqui. Nada pior do que ouvir os colegas fazendo planos e saber que desta vez você não terá ninguém para dividir as festas, não haverá beijo à meia-noite e nem mesmo uma troca de mensagens. Desta vez fui só eu, eu e minha família, quero dizer, a família e  aqueles parentes que brigaram o ano todo, mas estavam ali marcando presença na sala de visitas.

Mesmo após uma semana, meu estômago ainda não se recuperara dos excessos da ceia. Todo o organismo se queixava: noites pouco e mal dormidas, música alta, parentes indesejados, saudades e comida, muita comida.

Depois de acender as centenas de pequenas lâmpadas, segui para a cozinha e abri a geladeira, todas as sobras ainda estavam lá, esquentei-as e revivi aquela refeição uma vez mais. Agora sozinho, na estreita mesa de dois lugares que preenchia a cozinha. Comi olhando para os reflexos que as luzes vindas da sala faziam na parede.

Voltei para a sala, sem me dar ao trabalho de recolher a louça suja – vantagens de morar sozinho. Sentei de frente para a árvore e observei. Acende. Apaga. Pisca. Pisca. Reparei que uma lâmpada estava queimada e não acompanhava mais a dança de suas companheiras. Olhei para os lados mas não havia ninguém com quem comentar – desvantagens de morar sozinho.

Sentado ali, me dei conta de que não queria desmontar a decoração, porque isso significava admitir que a festa acabou, que um novo ano começaria e que as promessas de emagrecer e ser mais produtivo deveriam ser colocadas em prática. Não queria voltar a chegar em casa e encontrar apenas uma deprimente luz branca e opaca. Não queria voltar ao trabalho e nem encarar as filas de estacionamento do shopping para trocar aquela camiseta apertada que ganhei da minha avó.

Natal não é só festa, é uma pausa, é quando a vida fica um pouquinho mais descomplicada e a gente não se cobra para obter metas e resultados, é quando aceitamos andar mais devagar, sair para passear e não fazer nada além de observar a decoração e detalhes dos outros prédios. Quando nos permitimos elogiar uns aos outros, reconhecendo cada feito. E assim que ele acaba é preciso voltar para a superfície, para a rotina. A única esperança é saber que em alguns meses ele estará de volta para nos preencher de luz. Acende. Apaga. Pisca. Pisca.

 

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O Homem que sabia demais

IMG_2563   Método e ordem eram as palavras-chave dentro do almoxarifado do hospital municipal. André, no auge de seus sessenta anos, orgulhava-se de ser o chefe do arquivo. Ele não trabalhava com a organização dos materiais de uso contínuo e, portanto, não precisava lidar com enfermeiros estressados que vinham atrás de comprimidos e seringas. Não, ele cuidava de algo mais importante: a história do hospital. Ou, “o coração hospitalar”, como gostava de chamar sua sala. Lidar com o arquivo era armazenar toda a história não só daquele prédio, mas de todos que por ali passavam, de pacientes até seus mais aflitos acompanhantes. André era como um guardião, e o que estava sob sua proteção era a história viva do arquivo morto.

   Tudo corria bem pelas inúmeras prateleiras da sala de arquivo. Pastas milimetricamente alinhadas, etiquetadas e organizadas por ano, setor, especialidade médica e ordem alfabética do nome do paciente, respectivamente. Quando um prontuário era solicitado, André o tinha ali, bem na ponta dos dedos, conhecia a disposição daquela sala melhor do que sua própria casa.

        Nada ali estava apenas arrumado, para ele tudo era meticulosamente organizado, ou seja, cada pasta tinha sua morada, tudo era de fácil acesso e sempre voltava para seu lugar após o uso, dispensando a necessidade de refazer o trabalho de separação por qualquer descuido. Palavra esta que sequer constava em seu dicionário.

       Era divertido quando um novo carrinho de papéis chegava até suas mãos, ele entrava em um modo automático de separação, correndo os olhos pelas linhas fundamentais de cada documento, em uma leitura dinâmica, para separar tudo em pequenas pilhas que seriam revisadas em novas subdivisões e finalmente organizadas em ordem alfabética. O custo para manter o lugar em funcionamento era baixo, além de seu salário, a administração gastava apenas alguns trocados mensais com pastas e grampos.

         A sala era arejada e o arquivista quase não tinha problemas com mofo ou traças. Garantia sempre a qualidade do papel, incapaz apenas de controlar o amarelamento natural das páginas, que no fundo até revelavam certo charme, como um vinho a envelhecer em uma adega. Porém, nada disso impediu que a modernidade chegasse como um grande sopro de vento, invadindo e instalando o caos pelas velhas paredes brancas.

        A notícia chegou ao modo dos costumes antigos, através de uma carta, duas semanas atrás. Um pedido para que André comparecesse à administração, com hora marcada e tudo. Ele vestiu sua melhor camisa no dia e foi para o encontro apenas para receber a notícia do falecimento do arquivo morto. A ideia da nova gestão financeira era a modernização do sistema de armazenamento e busca de informações, além de um corte de gastos, é claro.

– Para ser franca, senhor… – disse a mocinha que vestia seu terninho azul com cara de recém-saído dos bancos universitários.

– André.  – respondeu, contraindo os lábios.

– Senhor André. Para ser franca, nosso sistema é ultrapassado. Demoramos muito tempo para encontrar informações sobre um caso clínico específico. A digitalização dos arquivos nos permite ter acesso rápido a todo o histórico do paciente dentro da instituição.

– O acesso é rápido. Eu sempre entrego todos os relatórios solicitados dentro do prazo.

– Eu sei, eu sei, não me leve a mal. O problema absolutamente não está em seu trabalho. São os tempos modernos, o senhor sabe. Todos nós sabíamos que esse dia chegaria.

– Eu não sabia.

– Está sendo informado agora. Senhor André, a decisão é definitiva. O arquivo digital nos permite pesquisas rápidas, além da integração de informações, expandindo os tipos de busca: podemos pesquisar o histórico de um paciente ou de uma patologia, quantificando casos e sintomas. Sem falar que poderemos ter uma comunicação mais eficiente com outras unidades de saúde… É bom para o progresso da medicina. E afinal de contas, não é esse o objetivo de nosso trabalho?

– Claro que sim – respondeu a contragosto.

– Bem, minha proposta para o senhor é a seguinte. Contrataremos uma pequena equipe para digitalizar todo o material. Fui informada de que o senhor mantém todos os arquivos na mais perfeita ordem, e tenho certeza de que isso já facilitará muito o trabalho e, exatamente por isto, gostaria de colocá-lo como coordenador desta equipe, pois acredito que não há ninguém melhor do que o senhor para explicar a forma como cada documento está organizado, para que possamos reproduzir tudo no meio digital. O senhor está de acordo?

– Sinto que não está a meu alcance discordar – disse forçando um sorriso.

– Que bom. Era só isso. Muito obrigada por seu tempo, senhor. Foi um prazer – mal terminou de dizer e já baixou os olhos para a tela de seu computador, dispensando o homem de sua sala.

         André se levantou e rumou para a saída, em silêncio.

– Ah, e quase me esqueci: o senhor poderia passar no departamento de recursos humanos também? Eles têm uma proposta para lhe fazer.

         Acontece que a proposta literalmente irrecusável era que André se aposentasse após o fim da organização, ou “transferência digital”, como chamavam a operação. No mesmo dia ele perdeu todos os seus papéis, das folhas carimbadas por médicos até a humilde função que desempenhou por anos dentro do sistema público de saúde.

        Sem escolhas, sentindo a impotência em cada osso de suas velhas mãos, André repassou os arquivos, conferindo sua ordem e esperando o dia em que um bando de moleques com computadores e impressoras finalmente se instalou em sua sala, para dar início à digitalização dos prontuários.

         Ele passou o dia apresentando a sala à nova equipe, descrevendo seu método de catalogação dos arquivos. Os garotos mal pareciam estar prestando atenção na maior parte do tempo. Havia uma mocinha que não tirava os olhos da tela de seu celular e um rapaz que estava quase tomando a pasta de suas mãos para começar logo o trabalho. Parece que já não se fazem mais jovens como antigamente, os de hoje têm muita pressa.

        Antes que eu se irritasse, foi para sua mesa, ou pelo menos o que restara dela, a parte que não fora ocupada pela imensa impressora multifuncional. Pegou uma pasta já digitalizada e foi conferindo cada folha, para ver se eles não haviam estragado nada. O nome do paciente, a data de registro e o diagnóstico, tudo estava em seu devido lugar: Eduardos antes de Fernandos e estes logo seguidos por Felipes. Quando começou a trabalhar com arquivologia, costumava se confundir com algumas letras diferentes no mesmo nome, pois às vezes um “h” podia fazer toda a diferença. Mas agora, com anos de experiência na bagagem, eles estavam todos ali: Icaro, Inês, Irene, Itamar, Ivan.

            Na maior parte do tempo, André conseguia manter o profissionalismo, tentava não atribuir rostos para os nomes que lia em cada ficha. Era mais fácil pensar em uma paciente que deu entrada no hospital por pneumonia do que imaginar quem era Inês Franco, a garçonete com problemas pulmonares. Como será que ela adoeceu? Quem será que a acompanhou nas consultas médicas e será que alguém dormiu na poltrona ao lado de sua maca durante os dias de internação? Aliás, ela ficou alguns dias internada, parece ter sido grave. Pronto, tarde demais, agora só podia rezar para que Inês estivesse bem.

            Após metade de seu turno e duas xícaras de café amargo, ele esbarrou novamente com o nome de Inês, talvez porque ela não tenha saído de sua cabeça desde então, acompanhando-o do almoço até o banheiro. O importante é que lá estava ela: um registro no ano de 2004 por pneumonia e seis anos depois, uma entrada no hospital em trabalho de parto, quando deu à luz a um menino de 3,2 quilos e 50 centímetros, um meninão, aliás. A criança nasceu em um sete de julho, porém não havia nenhuma menção a seu nome.

        André não conseguiu simplesmente devolver as fichas para seus devidos lugares, não agora que ele já sabia demais. Sem que ninguém percebesse – eles não pareciam preocupados com sua presença – guardou as folhas dentro da primeira gaveta da escrivaninha. E só retornou a pegá-las ao final do expediente, assim que todos saíram da sala, deixando-o novamente no silêncio do finado arquivo. Ele levou Inês para casa sem saber explicar o motivo de desejar sua companhia. Apenas parecia errado deixar mãe e bebê ali.

         Na hora do jantar ele fez as contas, concluindo que a criança deveria hoje estar com dez anos. Dez anos que se passaram na vida da já não tão jovem moça com pneumonia. Foi impossível resistir ao impulso de elaborar conjecturas a seu respeito. Seu emprego, sua família, o pai de seu filho. Seria Inês uma boa mãe?

         O arquivista sempre achara difícil manter a mesma opinião sobre uma pessoa após conhecer sua história. Ao olhar por diferentes ângulos, percebemos como uma pessoa é complexa, como pode ser contraditória sem nem saber, ou como pode se esforçar para passar uma determinada imagem de si e falhar miseravelmente. As aparências caem ao menor deslize, é inevitável. Algo dentro dele suava, gritava, ele queria saber mais, queria saber o que Inês mostrava para as pessoas a seu redor, e o que será que ela tentava esconder com tudo isso?

         Como não podia deixar de ser, André foi o primeiro a chegar no trabalho na manhã seguinte. Agitado, ansiando por descobrir mais sobre sua paciente. Procurou por registros com a inicial de seu nome em todos os setores, insaciável, em busca por mais Inês. Porém nada encontrou, ao que tudo indicava, ela não precisou mais dar entrada no sistema de saúde. Talvez a maternidade tenha lhe caído bem.

       A palpitação não saía mais de seu peito. Semanas se passaram e aos poucos o trabalho dos jovens era eficientemente realizado, Não dava para competir com a velocidade de uma máquina. Os papéis eram rapidamente digitalizados e armazenados em um banco de dados. Um dos garotos tentou lhe explicar como os arquivos seriam guardados em nuvem dali em diante, mas lhe era inconcebível a ideia de arquivos que não podiam ser vistos sendo guardados em um lugar que não era palpável, ninguém conhecia ou nunca estivera por lá. O que garantia que não estavam apenas jogando toda aquela informação fora? Quantos outros pacientes como Inês não iam parar no lixo? Mas não ela, não, ao menos ela estava a salvo.

        Não contente em salvar-lhe a vida, André quis saber mais sobre ela, e foi daí que veio a ideia de pegar seu endereço de registro e ir conferir de perto qual era a fisionomia de sua protegida. O endereço, na zona norte, era de uma rua pouco movimentada, com carros estacionados a sombra de árvores e muitas folhas ao chão, grudadas e pisoteadas pelo resquício de chuva da noite anterior.

        O número 42, uma casa de portão branco e jardineira nas janelas, parecia vazio. Com exceção das flores ali penduradas, não parecia haver vida lá dentro. Ele ficou parado do lado oposto da rua, tentando disfarçar um olhar que sempre se voltava para o mesmo ponto. Nada. Nem um barulho, nem um movimento atrás das cortinas, nenhum latido de cachorro.

           Foram necessárias mais duas visitas até a rua para que ele visse algum movimento, um carro estacionando na casa vizinha. Uma mulher e duas crianças vestidas com uniforme escolar desceram conversando e entraram no número 46. Será que elas eram amigas? Trocavam receitas e olhavam a casa uma da outra em períodos de ausência?

           Pouco depois a mulher saiu pela porta, voltando ao carro para buscar uma mochila esquecida. Era sua chance. Ele deixou o ar entrar por suas narinas e atravessou a rua antes mesmo de conseguir expirar.

– Bom dia, com licença. Eu estou procurando uma pessoa aqui ao lado, tenho uma encomenda para a senhora Inês Franco.

– Bom dia – ela disse se virando e encarando-o com olhos atentos – uma encomenda? E onde ela está?

– É justamente o que eu gostaria de saber – respondeu, impaciente.

– Oh, me refiro à encomenda, senhor.

         Imbecil, como pode ser tão distraído, se entregou após duas frases.

– Ah, sim, é claro… Ficou no carro. Estacionei na rua ao lado, não tinha vagas por aqui – se apressou em emendar ao vê-la percorrendo a rua com os olhos em busca de seu veículo.

– Bom, eu não conheço nenhuma, como o senhor disse que ela se chamava mesmo? Ah sim, Inês. Não conheço ninguém com este nome.

– Ela mora aqui ao lado, tem um filho, o guri deve ter por volta de uns dez anos, é a cara da mãe.

– Bem, eu sou nova aqui na rua, não faz tanto tempo desde que me mudei, mas definitivamente sei que não há nenhuma Inês e nenhum garotinho morando nesta casa. Acredite, tenho filhos nesta idade e eles seriam melhores amigos se morassem assim tão perto. Não, não há crianças nesta casa. Apenas um rapaz, que entra e sai de carro e não se dá ao trabalho de cumprimentar a vizinhança.

        Ele sentiu uma pontada de rancor em sua última frase, mas não conseguiu mais sustentar a conversa. Para ele já era demais saber que sua procura fora em vão. Ele cometeu a vergonha de infringir inúmeras regras e condutas de ética do hospital e tudo isso para nada. Engoliu seco antes de agradecer à mulher e murmurar confusamente algo sobre devolver a encomenda e esperar que ela entrasse em contato.

          Saiu da rua sem sentir suas pernas, e não saberia dizer como foi que se conduziu até o ponto de ônibus mais próximo e refez seu caminho de volta até o hospital. Parece que só despertou novamente quando já estava dentro da pequena sala de arquivos.

            O final de semana veio e se foi, passando alguns dias até que André ousasse olhar novamente para as fichas de Inês. Ele já havia decorado as imperfeições da tinta de caneta que conservavam seu nome e sua memória. Ficou olhando fixamente até que as letras se embaralhassem em sua visão. Foi quando entreouviu a conversa dos garotos que digitalizavam mais uma pilha de folhas, eliminando cada vez mais pastas do arquivo, revelando as paredes nuas da sala.

– Mas assim é mais prático, estou falando.

– Eu sei que é, mas é uma pena jogar tudo isso fora. Pensa bem, alguém teve todo o trabalho de escrever isso. Sem contar o de armazenar.

– É, foram muitos anos para escrever tudo isso, com certeza. Mas é preciso se manter atualizado. Por aqui vai dar para saber os dados pessoais de cada paciente, seu histórico, quantas vezes ele já deu entrada na unidade. Tudo.

– É, tudo até o fim.

       Foi a última palavra que lhe fez sair do transe e voltar para a sala. Pensou em esperar que eles fossem embora para tentar se aventurar pelo computador. Quem sabe os garotos não estariam certos e ele encontraria as respostas que fora buscar tão longe bem ali, em sua sala. No maldito sistema de busca que substituiria não apenas seu emprego, mas o trabalho de toda sua vida, apagando sua marca no mundo. Mas todos naquela sala, inclusive ele, sabiam que ele não conseguiria fazer isso sozinho.

– Antônio – chamou, engolindo seu orgulho ferido com um pouco de saliva.

– Oi, seu André, precisa de alguma coisa?

– Eu estava aqui pensando, será que eu levo jeito para esse tal sistema de vocês?

– Opa, está querendo se modernizar, é? Não te falei, Carlos? É preciso se manter atualizado, o senhor André aqui sabe disso – disse se virando para o amigo.

           Puxou uma cadeira, convidando-o a juntar-se a eles. Disse que ia lhe ensinar a usar o sistema. Cadastrou um usuário e pediu que ele criasse uma senha, explicando que aqueles passos seriam necessários a cada vez que ele quisesse fazer uma nova consulta. Ele ouviu, mal contendo a ansiedade de poder fazer logo sua primeira pesquisa. Usou a data de nascimento da paciente como senha, uma piada interna.

– Vamos fazer um teste então, me fala um nome que o senhor queira pesquisar.

        Ele contou até três mentalmente antes de responder, tentando não parecer tão afoito.

– Que tal “Inês Franco”?

– Uma velha amiga? – perguntou, arqueando as sobrancelhas.

 – Uma conhecida – “Atualmente vivendo entre os papéis de minha pasta”, pensou.

        Os segundos que o computador levou para realizar a busca pareceram os mais longos de toda sua vida. Até que finalmente a tela brilhou, apresentando três resultados.

– Começamos bem, só há uma pessoa com esse nome. Ela passou pelo hospital em três ocasiões, vamos ver.

      Antônio foi lendo em voz alta enquanto seus olhos corriam pela tela. O primeiro registro era o de pneumonia, uma cópia exata do papel que estava com ele. O segundo marcava a data de nascimento de seu filho.

– Olha só, ela teve um bebê aqui. Se soubéssemos o nome dele, poderia ser nossa próxima busca. Dá para ir mapeando toda uma árvore genealógica assim.

        Ele já estava cansado de ouvir sobre as mil e uma maravilhas do sistema, a única coisa que lhe interessava era saber sobre o próximo arquivo. Quase tomando o mouse das mãos de Antônio, pediu que ele fosse para a última página. E então lá estava ela: Inês Franco, falecida em 15 de outubro de 2017, causa da morte: meningite.

         Seu primeiro pensamento foi de alívio, chegara a um fim. Mas logo em seguida, ficou aterrorizado com as imagens que invadiram sua mente. A já não tão jovem garçonete morta e seu filho, ainda pequeno, órfão. Era demais para ele, seria melhor não tê-la conhecido.

– Não pode ser! Deve ser a pessoa errada.

– Não é, só tem uma pessoa com esse nome, lembra? O sistema não falha.

– Será que não há mais nenhum registro que vocês ainda não escanearam? Vou procurar nas pastas.

– Mas não importa muito, seu André. O fim é claro.

       Ele não respondeu, a voz do garoto pareceu ficar distante e ele já não conseguia mais manter o foco de seus olhos no computador. A sala nunca lhe parecera tão pequena e abafada antes. Parecia que ele estava prestes a sufocar bem ali, como se quisesse ser mais um a entrar para os registros e estatísticas do hospital.

– O senhor a conhecia?

            Ele não respondeu.

– Eu sinto muito… Quer um copo de água? Alguma coisa?

– Eu… eu não entendo, não pode ser. Isso… Isso aí na tela, eu consigo encontrar de novo se eu pesquisar?

– Consegue sim, mas se o senhor quiser eu posso imprimir a página também.

– Não precisa… O que eu faria com uma página impressa? Não, obrigado.

        André saiu da sala e os garotos não tentaram lhe impedir. Sem rumo, ele parou na porta de entrada do hospital. Sabia que não podia ficar ali, não sem pensar nela. Atravessou a rua e continuou andando. Pensou em voltar até seu endereço e contar à simpática vizinha o que descobrira, mas não adiantaria… Inês não voltaria para casa. Assim como ele não voltaria mais para o hospital, afinal, qual o sentido de voltar sabendo que seus dias ali eram contados… Causa da morte: obsolescência. Era isso, o arquivo estava morto.

       Pensou se não devia ter aceito a oferta de impressão que o garoto lhe fizera. Mas uma folha impressa não tinha o mesmo valor, o mesmo peso de um original. A tinta lhe sugava a história. Não havia ali a pressão feita pelo médico no papel ao escrever as palavras que selaram seu destino. Saber os sintomas e tentativas de tratamento nada lhe revelava sobre como fora seu adoecer, quem foram seus enlutados e como a vida se reorganizara após sua partida.

        Ele resolveu voltar ao hospital e, já em sua sala, ignorando o jovem que veio falar com ele, começou a revirar os papéis que estavam no lado esquerdo da mesa, aqueles que já haviam sido inseridos na tal nuvem. Inicialmente com calma, olhando folha a folha, depois mais depressa, até que começou a espalhar folhas por toda a sala, em pânico com a ideia de perdê-la. Não sentiu quando foi que as lágrimas começaram a cair ou quando Antônio colocou a mão em seu ombro, tentando contê-lo. Só parou quando já estava nos braços do garoto, envolvido em um abraço quente, desengonçado, mas quente. Agarrou-se e se permitiu chorar. Por Inês e por ele, duas figuras esquecidas e perdidas em uma linha temporal que não conseguiram acompanhar.

– Está aqui, seu André – disse lhe estendendo uma folha – O original da moça, eu procurei assim que o senhor saiu, achei que fosse querer ficar com ele.

      Pegou a folha trêmula de suas mãos e agradeceu com um aceno. Como continuar depois de saber tudo aquilo? Saiu da sala novamente, subindo os degraus um a um, andando uma última vez pelos corredores brancos e gelados. A luz do sol bateu forte em seu rosto, o sol do meio dia o observava lá de cima e talvez tenha visto o carro que ele mesmo não viu ao atravessar a rua.

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Verdade

42. Verdade       Você disse que minhas palavras não enganariam a ninguém, e que já passara da hora de escrever algo verdadeiro, pois só uma frase verdadeira poderia revelar meu estilo e aprimorar minha escrita.

            É sinceridade que você quer? Mas eu nunca vi alguém escrever sobre suas noites mal dormidas e a fragilidade sentida ao deitar a cabeça no travesseiro, vestindo nada além de um pijama largo e fantasias que nunca se realizarão. Ninguém comenta suas dores de cabeça e o fato de sentir que não possui todos os recursos e forças cuja posse alega todos os dias como forma de sobrevivência.

            Nunca conheci ninguém que falasse abertamente sobre a vontade louca de comer doces, já que esse é um dos poucos prazeres que temos na vida. Ou sobre sua barriga apertada dentro da calça jeans após uma noite de fraqueza, recheada de guloseimas. E quem levantaria a voz para dizer que já não tem mais crédito e que ainda não sabe como fará para pagar a próxima fatura.

            Jamais vi alguém admitir que foi autor de uma injustiça, que praticou bullying nos tempos de colégio ou mesmo que espalhou aquele boato que comprometeu a promoção do concorrente. Aliás, cidadão de bem não sai por aí alegando ter concorrentes, o que tem são pessoas com inveja de seu sucesso. Mas se você é um daqueles que pensou “que sucesso?”, fique calmo, isso apenas quer dizer que você ainda não chegou lá, mas o jogo vai virar, ele sempre vira. Ou, pelo menos, é o que dizem.

            Como ser sincero e admitir publicamente que às vezes desejo outras que não minha parceira, se não tenho nem coragem de dizer a ela que gostaria de ter mais espaço só para mim, e que seu jeito pegajoso acaba por me irritar na maior parte do tempo. Adoraria que ela não quisesse conhecer toda minha agenda. E que delícia seria não ter uma, apenas me deixando levar por aí, sem planejamentos ou compromissos massacrantes.

            Como contar que eu adoraria ganhar dinheiro fácil ao invés de passar anos sentado em uma cadeira medíocre de faculdade, ouvindo a promessa de um plano de carreira. Honesto a ponto de assumir que há dias em que não tenho vontade de acordar, e sair da cama é uma tortura enorme. Arrasto minha carne flácida até o chuveiro, ansiando pela hora de poder voltar para meu quarto escuro.

            E por que não contar que eu já pensei em acabar com tudo. Por uma vez ou outra, acabar com ela ou comigo, já que em ambos os casos me parece se tratar de autodefesa. Já procurei alternativas, esgotei-me em pensamentos, mas não adiantaria me mudar e recomeçar, ou mesmo voltar no tempo com uma nova chance. Não há solução enquanto eu levar a mim na bagagem.

            Entende agora? Eu não sei se alguém se interessaria em ouvir isso.

 

 

 

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Tonalidades

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     Eu sou aquarela. Fruto das cores que me pintam e que pinto no mundo. Vou desde a pureza de uma folha em branco até o caos barulhento de uma noite negra. Sou o azul mercado pela tristeza, sofrendo a saudade de quem já não volta mais. E no outro dia acordo tingida de dourado, exalando a energia que me esbalda. Turquesa me traz tranquilidade, mas a felicidade surge é com os raios de um bom amarelo, brilhante como um dia ensolarado. Há em mim um vazio, onde o cinza preenche tudo o que vê pela frente, são dias frios, apáticos e, por vezes, fico roxa de medo, temendo que essa sensação não passe, mas logo surge uma tonalidade de rosa no horizonte, e então tenho novamente a certeza de que tudo ficará bem, o amor chegou. Só preciso me preocupar quando a intensidade é tamanha que me deixa vermelha, de paixão ou mesmo de raiva, afinal o que os separa é uma linha tênue. O laranja chega gritando por atenção, e é impossível não reconhecer a exibição que há ali. Mas há ainda o bege da preguiça, ou mesmo da desistência, afinal só alguém que já desistiu do dia usaria uma lingerie bege. Confesso que adoro acordar sentindo o cheiro do verde, que me remete à liberdade de um campo aberto, sem regras, sem cercas. Até que, em algum momento, sou invadida pela indecisão de um tom coral. Pastel. Neon. Metálico. Fosco. Vou me misturando, a intensidade e a transparência de minhas cores vão contrastando e sendo absorvidas por meu mundo, minha tela. Me impregno conforme vou colando e descolando sentidos. As tonalidades afetivas me cobrem e descobrem, e eu sigo, misturando tons, ousando e me reinventando. Uma vez pincelada, não posso voltar a ser, mas posso sempre vir-a-ser, basta acrescentar um pingo e pronto, já sou diferente. É, sou aquarela.

 

 

 

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Silêncio

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   A palavra silêncio é definida no dicionário como “o estado de quem se cala ou se abstém de falar. Privação, voluntária ou não, de sons e comunicação”. Ou seja, só se cala aquele que tem algo a dizer. E ele só se faz presente, só o percebemos, ao notar a ausência de som.

   Eu conheço vários tipos de silêncio. Tem aquele do começo da manhã, quando todos ainda estão dormindo, ou pelo menos deitados em suas camas, e não consigo ouvir nada além de meus próprios pensamentos, que me invadem no momento exato do despertar. E também existe aquele que gosto menos que é o da casa vazia, esse me assombra desde que o Max nos deixou, pois a sala está sempre escura e sem vida quando chego, sem latidos ou alegria me esperando na porta.

 Tem o silêncio constrangedor de uma sala de espera, quando desconhecidos compartilham um momento juntos e ninguém quer ser o primeiro a falar. É mais fácil ouvir o virar de uma página de revista ou uma fungada do que o calor de uma voz. Esse, para mim, é o silêncio do tédio.

   Depois vem o silêncio de tensão, que é aquele que se pode escutar numa sala de aula na hora da prova, apenas respirações ofegantes e destinos ansiosos, mas nenhuma palavra. Pior do que ele, só aquele que acompanha o climão de um reencontro indesejado. Não desejo nunca mais passar por um assim.

   Tem aquele silêncio incômodo que surge depois que dizemos algo forte. É difícil sustentá-lo, mesmo que às vezes seja necessário, porque é o tempo que o ouvinte tem para digerir as palavras que acabaram de lhe atingir. E, apesar da ausência de som, fervilhamos por dentro, com tudo o que foi dito ou poderia ter sido dito.

   Aprendi que o silêncio pode também ser uma resposta. Como quando você se declara para alguém e não recebe nenhuma manifestação em troca: sempre achei que precisava esperar uma recusa antes de engolir meu orgulho e partir para outra, mas acontece que a falta de resposta também é uma resposta, já que nem todos conseguem se comunicar através de sons ou palavras.

   Existe o silêncio de quando não há nada a se dizer e o silêncio de quando não precisamos dizer nada. São raros os momentos em que esse último aparece, quando duas pessoas conseguem estar juntas e compartilhar de um silêncio que não é caracterizado pelo vazio ou ausência, mas sim pela mais forte presença de sentido. E você sabe que não existem palavras suficientes ou mesmo necessárias para superar aquele momento.