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Como Conquistar de Vez o Hábito da Leitura

Mulher sentada em livraria lendo um livro.

Você é do tipo de pessoa que adora entrar em uma livraria, admirar capas de livros e se encantar ao ler as sinopses na contracapa? Talvez até compre alguns dos títulos mais atrativos ou indicados. Só que os livros ficam lá, eternamente parados na sua estante.

Se você deseja mudar esse cenário e criar uma rotina de leitura, continue lendo até o final e descubra como fazer da leitura um hábito saudável e prazeroso em sua vida.

Primeiro, é importante destacar que a leitura é uma das mais importantes maneiras de entrar em contato com o mundo. E o hábito da leitura pode servir aos mais diversos objetivos, como: podemos ler para nos informar; ler para estudar e aprender sobre um determinado assunto; ou ainda, podemos ler por prazer, apenas para saboreando as palavras e aumentando nosso repertório cultural. 

Caso ainda não esteja convencido, confira os benefícios de incorporar a leitura em sua rotina: 

  • Enriquecer vocabulário;
  • Ajuda a desenvolver a habilidade de comunicação: quanto mais você ler, mais facilidade terá para escrever e se expressar;
  • Oferece visões de mundo e pontos de vista diferentes dos nossos, funcionando como uma excelente expansão de consciência;
  • Ensina coisas novas;
  • Estimula a capacidade imaginativa e é um alimento para a criatividade;
  • Aumenta repertório cultural;
  • Auxilia na capacidade de entender e interpretar fatos e dados;
  • Oferece a chance de conhecer outros mundos sem precisar sair do lugar.

Mesmo assim, muitas pessoas sentem dificuldade de desenvolver o hábito da leitura.

Então aqui estão algumas dicas infalíveis para você conquistar de vez esse hábito:

  1. Comece: Parece óbvio, mas não podia ser mais verdadeiro. O segredo para desenvolver qualquer hábito é começar, fazendo um esforço para arranjar e preservar tempo para realizar a atividade. O hábito não se criará sozinho, você precisa se dedicar a ele até que seja naturalmente incorporado à sua rotina.
  2. Procure assuntos de seu interesse: Já vi muita gente desistir de ler, alegando que livros são chatos. Me soa como uma ofensa! Mas, vamos lá: o mais importante é que a leitura seja um momento prazeroso, caso contrário não dedicaremos esforço algum a ele. Ninguém lê para ficar entediado, concorda? Se quiser chegar até a última página, você precisa experimentar, se permita flutuar entre gêneros até descobrir o que lhe agrada. Sem julgamentos, ok? O lazer – e prazer – é todo seu. 
  3. Priorize qualidade: Não adianta se forçar a ler um livro só porque todo mundo já leu, tampouco adianta ler só para dizer que leu. Dê preferência a títulos que sejam de seu interesse e cujo conhecimento possa agregar valor, ou seja, lhe ensinar algo. A leitura não acaba quando fechamos o livro, é importante que a história ou conteúdo continue ressoando em nós, ela tem o poder de nos transformar. 
  4. Encontre um ambiente ideal: Algumas pessoas leem no ônibus, outras em uma sala barulhenta com a TV ligada, mas algumas precisam de silêncio absoluto. Apesar de poder ler em diversos momentos e locais, para aumentar ainda mais o prazer dessa atividade, uma boa dica é encontrar um lugar ideal, que seja confortável e te desperte a vontade de ter um livro como companhia. Vale preparar todo o ambiente, a luz, o som e até a bebida ou lanchinho que irá acompanhá-lo.
  5. Reserve espaço na agenda: É claro que é ótimo quando conseguimos ler nas horas vagas, uma boa maneira de aumentar o ritmo de leitura é ler em intervalos, otimizando seu tempo. Mas, também é fundamental encontrar um horário para ler sem interrupções, dê prioridade ao livro para conseguir entrar na história e aproveitar ainda mais o conteúdo. 
  6. Crie metas: Criar metas de leitura ajuda a estabelecer um bom ritmo de leitura, isso porque o cérebro quer sanar o desafio. Você pode criar uma meta de número de livros ou de páginas lidas para o ano e quebrar essa meta em blocos menores, como metas mensais e até um número mínimo diário, assim manterá um ritmo confortável. 
  7. Faça marcações: Esse assunto é polêmico, já que algumas pessoas são expressamente contra fazer qualquer marcação ou grifo em seus livros. Existem alternativas menos invasivas, como post-its e tirinhas colantes, caso não queira escrever ou riscar as páginas. O importante é que você possa manusear o livro durante a leitura, pois esse contato ajuda a fixar a aprendizagem. Faça resumos, destaque partes que lhe interessem ou que você queira encontrar facilmente depois.
  8. Se puder, leia mais de um livro ao mesmo tempo: Essa dica é comprovada cientificamente. Estudos afirmam que esse hábito força o nosso cérebro a lembrar de mais coisas e abrir espaço para mais memórias, além de aguçar a concentração, isso porque o cérebro é um músculo, e exercitando-o, ele se torna ainda mais forte. Caso ache difícil, uma boa dica é alternar entre estilos, por exemplo, ler um romance e um livro de poesias. 
  9. Procure dicas ou participe de grupos: Existem diversos fóruns e até redes sociais que reúnem pessoas com a mesma paixão pelos livros. Estar em ambientes que valorizam o hábito da leitura é uma forma de se manter estimulado e atualizado. Você pode acompanhar lançamentos, procurar por classificações e resenhas, enfim, tudo que o insira cada vez mais no mundo dos livros. 
  10. Use a tecnologia a seu favor: Apesar de a internet e os dispositivos serem uma grande fonte de distração, podemos usá-los como aliados na hora da leitura. Você pode optar por um dispositivo de leitura digital como alternativa a livros em formato físico, pode usar o bloco de notas do celular para anotar suas citações preferidas e pode usar aplicativos para criar e acompanhar suas metas. Vale tudo, menos perder o foco da leitura, combinado? 

Boa leitura! 😊

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Furo no tempo

Imagem de relógio para contar o Tempo.

“Você acha que eu tenho tempo pra isso?”, foi a resposta que ouvi ao meu pedido. Recolhi minha mágoa, guardando-a para lidar na terapia. Passaria horas destrinchando a rejeição, parecida com aquela outra que sofri na infância e que, provavelmente, era a responsável por eu me sentir da forma como me sentia hoje. 

Mas quem tem tempo para alguma coisa nos dias de hoje? Além de extremamente ocupados com nossos afazeres, desperdiçamos horas em nossos smartphones e usamos a boa e velha desculpa do tempo. Ninguém contesta, pois, eventualmente, todos usam a mesma carta. 

Eu sei como é não ter tempo para almoçar e só comer um lanchinho, matar a ida à academia por falta de espaço na agenda, pedir uma pizza porque não deu para cozinhar, perder uma consulta por ter calculado mal o trânsito, remarcar um cinema porque precisou trabalhar até mais tarde, perder a hora porque foi deitar exausto na noite anterior. E, meu favorito: combinar de combinar um almoço entre amigas e nunca chegar às vias de fato, porque parece impossível encontrar compatibilidade entre as agendas – spoiler: quanto maior o grupo de amigas, mais difícil. 

Heidegger dizia que é a temporalidade que nos define. Mas provavelmente ele não se referia a como nos tornamos escravos de nossas vidas pela falta dele. Vivemos em falta, sempre adiando e nos esquecendo de perguntar o que realmente importa. Será que um compromisso de trabalho é mesmo mais importante do que um final de semana de folga? Nunca vi alguém exausto conseguir ser produtivo. 

Temos relógios, mas não temos equilíbrio. Esquecemos há muito que somos nós mesmos os responsáveis por administrar as 24 horas que o dia nos dá, e o dia seguinte também, e depois o outro. E não adianta resmungar, o primeiro item da agenda deve ser organizar a própria, ou o resto vira um caos.

Escolhemos o que fazer com nossa limitação de tempo, por isso, aprender sobre prioridades deveria fazer parte do currículo básico das escolas. Ficamos frustrados por não conseguir dar conta de tudo o que gostaríamos e, invariavelmente, chateados se não somos escolhidos – ou priorizados – por outras pessoas. 

Por isso, quando meu irmão disse que não tinha tempo para me ajudar a instalar meu quadro novo fiquei chateada: ou ele não me priorizou, ou apenas usou a desculpa do seu relógio. É apenas um furo na parede, pelo amor de Deus!

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Amor na Quarentena

Máscaras de Tecido usadas durante a quarentena da pandemia Covid-19.

Mal posso dizer que me lembro da primeira vez que nos vimos. Estávamos no supermercado, ambos usando máscaras no rosto e com as mãos ainda úmidas do mandatório álcool em gel. Não era comum encontrar muitas pessoas fazendo compras às três da tarde, ainda assim, lá estávamos nós. Reparei nele em frente ao balcão da padaria, parado, esperando pacientemente com uma cesta em mãos. Eu, empurrando meu carrinho, parei na seção de frutas e verduras e comecei a escolher tomates, depois cenouras e, por último, maçãs. 

Estava pensando se devia pegar mais cenouras para fazer um bolo quando ele passou carregando um nas mãos. Salivei, constatando que realmente seria mais fácil comprar um bolo pronto. Mas, uma das metas que estabeleci na quarentena foi justamente a de me aprimorar na cozinha. Enquanto estava trabalhando não tinha tempo para nada e vivia dependendo de restaurantes e comida congelada, mas desde a demissão, estava usando a cozinha como forma de relaxar, uma dentre as várias tentativas de não surtar. 

Passava algumas horas diárias em frente ao computador, enviando currículos, mesmo que houvesse pouca esperança de conseguir um emprego em meio à pandemia. E, no restante do tempo, precisava me ocupar com outras coisas, certo? Voltei e enchi um saco com mais cenouras, além de escolher algumas mandioquinhas para fazer aquela receita de sopa que havia encontrado no dia anterior.

Perdi meu companheiro de vista por algum tempo e só fui reencontrá-lo no caixa, quando percebi que ele parou atrás de mim em uma fila composta por nós dois e mais uma senhora de bastante idade. Esvaziei meu carrinho, colocando tudo em cima do balcão e cumprimentei a atendente que passava os produtos em frente ao scanner, concentrada demais para me responder. Fui até a outra ponta para colocar os itens em sacolas e travei uma batalha silenciosa com o pedaço de plástico em minhas mãos. Eu tinha o hábito de molhar a pontinha do dedo com saliva para conseguir abrir a sacolinha, hábito banal antigamente, mas que seria brutalmente condenado em tempos de coronavírus. 

– Deixa que eu te ajudo – ele disse, se aproximando e pegando uma sacola de cima do balcão – Faz assim – roçou as pontas do plástico uma na outra até que se desprenderam. 

Virei, olhando-o de perto dessa vez. Tudo o que pude concluir foi que seus olhos eram bonitos. Ainda estava me habituando a ler expressões faciais apenas pelas sobrancelhas, então não consegui sequer precisar se ele sorria por baixo da máscara ou não. 

– Obrigada – respondi e voltei a me concentrar em meus produtos. 

Terminei de guardar, inseri meu cartão na maquininha e fui embora, com sacolas penduradas em ambos os braços e feliz por estar com as mãos ocupadas e não poder coçar meus olhos, que insistiam em arder em horas impróprias. Ainda era estranho não poder tocar meu próprio rosto, e respeitar todas as novas normas de higiene exigia esforço. De repente me sentia extremamente consciente de tudo o que fazia quando estava na rua. 

Voltei para o prédio, esperei o elevador esvaziar para entrar – outra norma de segurança – e subi. Tirei os sapatos antes de entrar em casa, passei mais uma camada de álcool nas mãos com o frasco que agora ficava em cima de um vaso de planta ao lado da porta e, finalmente, entrei.

Não pensei mais nisso, até que, dois dias depois, achei tê-lo visto saindo do elevador. Eu havia descido para levar o lixo até a garagem. Mas, como estava sem óculos, e só o vira uma vez – e apenas metade de seu rosto – não podia afirmar. Pensando bem, podia ser qualquer um. Era difícil identificar as pessoas tão cobertas, especialmente porque em geral em saía sem meus óculos, já que as lentes ficavam completamente embaçadas com a respiração abafada pela máscara de tecido. 

Após tanto tempo em casa, me sentia melancólica, com saudade de pequenas coisas, como ver o rosto de alguém por inteiro. Isso sem contar na falta que me fazia uma caminhada ao ar livre, sentindo o sol batendo em minha pele enquanto andava com Nina em um parque, me deixando levar por seus puxões na coleira. Sentia falta de almoçar fora, pedir um suco, escolher uma sobremesa, ver pessoas aleatoriamente ao longo do dia, e não apenas alguns poucos rostos conhecidos em chamadas pré combinadas pela tela do celular.

Enquanto estava em casa me protegendo, sentia falta da vida. 

O interfone tocou, me tirando de meus devaneios e os latidos de Nina me trouxeram de volta à realidade. Um homem, que se apresentou como “Miguel, o vizinho do cento e vinte três”, disse que precisava comprar máscaras de tecido e que alguém do prédio havia me indicado. Logo imaginei dona Tereza, anunciando de andar em andar meu novo serviço. 

Fui demitida da agência assim que a pandemia começou. Sabíamos que enfrentaríamos um período de recessão e, numa medida preventiva, a empresa demitiu metade do time de marketing, inclusive eu. Passando o dia todo em casa, desenterrei a máquina de costura que herdei de vovó, assisti alguns tutoriais na internet e voilà! Usei alguns restos de tecido e elástico para criar minhas próprias máscaras. Basicamente, alternava entre mandar currículos, cozinhar, costurar e maratonar episódios de séries. Me guiava pelos horários de refeições de Nina e agradecia todos os dias por ter sua companhia. 

A campainha tocou e ela começou a latir, prendi-a na cozinha para poder atender. Miguel, como você já deve ter adivinhado, era o tal mascarado do supermercado. Nos apresentamos e ele disse que precisava comprar algumas máscaras, pois as que encontrava por aí sempre tinham elásticos justos e o deixavam com dor nas orelhas. Ri e disse que não havia problema, eu podia fazer do tamanho que ele desejasse. 

Convidei-o a entrar e passamos pelo desajeitado ritual de tirar os sapatos, passar álcool em gel nas mãos e manter as máscaras no rosto. Era a primeira vez que alguém entrava em casa em muito tempo. Fui até a lavanderia em busca de minha caixa de tecidos e Nina escapou sem que eu percebesse. Quando voltei para a sala, encontrei Miguel sentado no chão fazendo carinho do pescoço da cadelinha que não parava de se balançar, não era apenas o rabo que ela abanava, era o corpo inteiro. Talvez Nina estivesse ainda mais sedenta do que eu por contato humano. 

Mostrei uma máscara pronta a ele, os tecidos que tinha em casa e tirei algumas medidas de seu rosto. Ele escolheu algumas cores neutras e combinamos que eu lhe avisaria quando as máscaras estivessem prontas. Isso implicou em trocarmos nossos números de telefones. 

Daí em diante, passamos a nos ver quase todos os dias pelo prédio, na garagem, elevador ou portaria. Provavelmente nunca havíamos nos encontrado antes porque nenhum dos dois parava em casa, mas agora estávamos todos forçosamente presos em nossos ceps. Ele era programador e estava trabalhando em casa desde o início da quarentena.

Também começamos a trocar mensagens e conversar sobre temas aleatórios. Era divertido ter alguém para conversar em meio à pandemia, falar sobre qualquer outra coisa que não fosse “e a vacina, quando será que fica pronta?”. É claro que eu ainda saía de casa para fazer algumas compras e também visitava minha mãe, ainda que sem descer do carro, mas me apresentar a uma pessoa nova era uma forma de não esquecer quem eu era. O que parecia positivo, após tanto tempo em casa olhando para as paredes e fazendo monólogos com um cachorro. 

Assim que terminei as máscaras, avisei-lhe por mensagem. Ele, em resposta, disse que teria reuniões por vídeos até o fim do dia, então só poderia vir buscá-las no dia seguinte. Antes que eu pudesse me oferecer para subir e entregá-las, veio o convite. Miguel perguntou se eu gostaria de jantar com ele na sexta-feira, em casa, claro. Senti um frio no estômago só de imaginar como seria ter contato de verdade com alguém após seis meses de isolamento social. Já que ambos morávamos sozinhos e estávamos respeitando todas as regras, topei. Pedi que fosse em minha casa, para não deixar Nina sozinha, e ele pareceu animado com a oportunidade de revê-la. 

Então, na sexta-feira, após o expediente, ele enviou uma mensagem e desceu até meu apartamento. Trouxe uma garrafa de vinho e já chegou tirando os sapatos, e só então me dei conta de que não deveria deixá-lo descalço por tanto tempo. Ofereci-lhe uma de minhas pantufas e ele escolheu a de unicórnios. E foi assim que, de repente, havia mais alguém na casa além de mim, uma cadela e algumas plantas. 

– É bom ter alguém para conversar – disse enquanto ia até a cozinha buscar taças e um abridor para a garrafa. 

– Também acho – respondeu se sentando em uma cadeira e acariciando os pelos do pescoço de Nina – eu já estava enlouquecendo. 

Eu já sabia que ele era carioca, por seu sotaque inconfundível. Enquanto conversávamos, ele contou que toda a família morava no Rio de Janeiro, e ele veio para São Paulo assim que se formou porque conseguiu um emprego aqui. Sua companhia eram os colegas de trabalho e um amigo dos tempos de escola que também havia se mudado. Agora, trabalhando de casa, estava privado de contato físico com todos. Eu lhe contei que havia sido demitida e que estava numa corrida por um emprego novo, algo que obviamente estava ainda mais difícil nesse momento. 

Pedimos uma pizza e ele fez questão de descer para buscar e pagar quando chegou. Quando voltou, eu já o esperava na porta, com álcool gel em mãos. Higienizei a embalagem da pizza e nos servi. Nina deitou aos pés dele enquanto comíamos. 

– Me sinto traída! – brinquei apontando para a cadelinha adormecida. 

– O que posso fazer? Ela tem bom gosto – riu. 

Trocamos dicas de filmes e seriados, criticamos a má conduta do governo e no fim já estávamos trocando receitas. Ele prometeu que faria seu famoso hambúrguer caseiro em nosso próximo jantar.

Eu levei nossos pratos para a cozinha enquanto Miguel ficou na sala brincando com Nina, depois me juntei a eles e ficamos os três sentados no tapete. Era estranho estar perto de alguém após tantos meses sozinha, mais estranho ainda era me sentir à vontade com esse alguém. 

– O que foi? – perguntou e de repente me tornei consciente do fato que devia estar encarando-o há algum tempo. 

– Estava só pensando que é engraçado morarmos no mesmo prédio há tanto tempo e só nos conhecermos agora. 

– Viu, nem tudo o que está acontecendo esse ano é ruim. Fico feliz por ter te conhecido. 

Parou de afagar o pescoço de Nina e se apoiou no tapete, com a mão roçando na minha. Tentei puxar, em uma reação automática, mas ele a pressionou levemente. Era bom sentir um calorzinho ali. 

– Eu também – respondi, fechando os olhos quando o vi se aproximando para um beijo.

Nina latiu, nos fazendo rir, com os lábios ainda colados um ao outro. A sensação quente de sua respiração tão próximo a mim me fez estremecer. Ele me abraçou e eu me aconcheguei em seu peito. Nina pulou no meu colo, ficando entre nós, abanando o rabo. 

– Acho que era tudo o que ela queria – brinquei. 

– Eu também – ele respondeu, sussurrando em meu ouvido. 

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10 Dicas para começar a fazer Listas hoje

Listas para organização da rotina e aumento de produtividade.

Para iniciar nossa conversa, acho importante dizer que esse texto só existe porque fiz uma lista de tópicos antes de escrevê-lo. 

Listas são as maiores aliadas da organização. A neurociência afirma que listas e tópicos são mais facilmente processados pela mente, ajudando na categorização e memorização de informações. 

Listar tarefas para ajudar na organização do cotidiano e das atividades é um dos maiores aliados da produtividade. Pessoas que usam esse recurso conseguem priorizar a ordem de execução, dosando bem sua atenção e, por consequência, gerenciando melhor seu tempo. 

Anotar suas pendências é uma forma de obter um mapa visual de tudo o que se tem para fazer. Esse exercício valioso permite esvaziar a mente, colocando no papel tudo aquilo que antes se esforçava para lembrar. Tendo listas como auxiliares, você pode se focar no que realmente importa, sem gastar energia tentando reter os itens na memória. 

Ter uma agenda como ferramenta, por exemplo, é ter a garantia de que não esquecerá nenhum compromisso. Além de organizar a estrutura temporal do seu dia, ela auxilia na tomada de decisões e na escolha de quais devem ser suas prioridades. 

Você pode criar listas para diferentes áreas da sua vida, basta aprender a categorizar os itens, agrupando os temas que podem ser executados em sequência ou que dizem respeito a um mesmo assunto. 

Não apenas para organizar seu próprio trabalho, você pode usá-las ainda como recurso na hora de delegar tarefas a outras pessoas. Anote todos os itens que delegou em uma lista de “aguardando resposta”, assim pode revisá-la periodicamente e saberá os prazos, pessoas responsáveis e o que deve ser cobrado. 

Também é uma excelente ferramenta para projetos compartilhados, onde tudo deve ser registrado para que o grupo todo tenha acesso às informações, o andamento e a conclusão de cada atividade. 

Um segredo para conseguir cumprir grandes projetos ou atingir metas é quebrá-los em tarefas menores, estabelecendo submetas, assim, você caminha, passo a passo, rumo ao êxito. Lembre-se sempre de priorizar as atividades da lista e executá-las na ordem que for necessária ou mais conveniente para você. Faça com que a organização trabalhe a seu favor! 

Também é preciso destacar o poder do cumprimento de uma lista. É fato que sentimos prazer ao riscar um item da lista. Saber que concluímos algo é fator de motivação e engajamento. Poder acompanhar de maneira visual e concreta a conclusão de tarefas nos mostra o quanto somos capazes, estimulando a vencer desafios. É uma maneira tangível de acompanhar a capacidade, além de ser uma boa métrica de desempenho e desenvolvimento.  

A seguir, estão alguns tipos e sugestões de listas que podem te ajudar a começar a organizar sua rotina: 

  • Tarefas;
  • Compromissos;
  • Compras;
  • Viagens;
  • Itens para uma festa;
  • Delegar Tarefas; 
  • Pendências;
  • Prioridades;
  • Prós e Contras.

A lista é só o primeiro passo para uma vida mais organizada e produtiva. Uma vez que você pode canalizar sua energia em outras coisas, é preciso se dedicar à execução das tarefas. 

Confira essas dicas para não se perder nunca mais na organização de sua rotina:

  1. Anote tudo: Use uma agenda ou aplicativos, as ferramentas são suas aliadas na organização. É mais inteligente usar um pouco de tempo para organizar a rotina do que deixá-lo escapar enquanto tenta se lembrar de todos seus compromissos e afazeres. 
  2. Respeite seu tempo: Uma vez que você anotou, tem conhecimento de tudo o que tem para fazer, com suas devidas demandas de tempo, energia e prazos. Você precisa ser o guardião do próprio tempo, por isso, comprometa-se a realizar aquilo que se propôs, de forma coerente e razoável. 
  3. Reserve tempo para os imprevistos: Por mais organizado que seja, e por mais que se comprometa consigo mesmo, sempre surgirão imprevistos que precisarão de atenção imediata e passarão na frente do planejamento. Por isso, é importante que você não comprometa todo o seu tempo, deixe que sobrem janelas ou intervalos para lidar com essa demanda imediata e, se necessário, restabeleça a ordem e prioridade dos itens.
  4. Tenha uma caixa de entrada: Pode ser o bloco de notas do celular ou um caderninho de papel na bolsa. Tenha um lugar para anotar tudo o que chega de novo, assim você não precisa comprometer sua memória e atenção com as novas demandas, podendo direcioná-las posteriormente às devidas categorias. 
  5. Abuse das listas: Faça várias listas, use e abuse desse recurso. Ao invés de criar uma grande lista, separe-as por categorias ou contextos. Isso te permite ir direto ao ponto, se focando apenas no que importa em cada momento. 
  6. Divida projetos: Isso mesmo, divida grandes projetos em algumas listas de atividades, use o critério mais conveniente para cada situação, como prioridade, tipo de tarefa, local de execução ou ordem de dependência (caso a execução de um item dependa da conclusão do anterior). O mais importante é quebrar algo grande em pequenos pedaços que serão mais facilmente realizáveis. Sem nunca perder a dimensão do todo, é claro. 
  7. Revise: Tão importante quanto anotar, é revisar. Encaixe em sua rotina o momento de revisitar e revisar suas listas, isso te permitirá acompanhar o andamento dos projetos, além de ajudar a não esquecer de nada. 
  8. Não esqueça das tarefas delegadas: Sempre que uma atividade for delegada a outra pessoa ou estiver em uma etapa de espera, anote. Assim, ao fazer sua revisão, poderá conferir os prazos e entrar em contato com o responsável, se necessário. 
  9. Se dê recompensas: Você pode criar um sistema de recompensas para quando concluir um item ou lista. Afinal, é preciso comemorar pequenas vitórias e visualizar progressos. 
  10. Descanse: Ufa! Não esqueça que dentro de sua agenda, deve sempre haver um tempo reservado ao descanso e ao lazer. Ninguém consegue ser produtivo se estiver exausto. 

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Maçã do Amor

Maçãs do amor caramelizadas e confeitadas.

Quando concordei em participar do evento, não imaginei que teria tanto trabalho. Como se não bastasse ter que ir à maldita festa, eu havia sido encarregada de comprar bugigangas, fazer uma receita, e fora para decorar o salão algumas horas antes do grande dia.

Meu vestido já estava separado, junto com as sandálias de salto alto e os acessórios, eu sabia exatamente a maquiagem faria e como prenderia meu cabelo. O dia precisava ser perfeito, meu sorriso estaria parafusado no rosto, disso eu tinha certeza. Afinal, todos estariam lá, desviando seus olhares em minha direção. 

Cheguei em casa após algumas horas enfrentando o calor escaldante que fazia na rua, parecia impossível ser tão difícil comprar um pacote de palitos de madeira. Andei quase a avenida toda até ter algum sucesso. A volta para casa, dentro do vagão quente do metrô, serviu apenas para coroar um dia horrível. Tive medo de que as maçãs fossem amassadas, mas sobreviveram à aventura. 

Fui direto para a cozinha, depositei as sacolas e a bolsa em cima do balcão e fui até a torneira para lavar as mãos. Aproveitei e joguei um pouco de água fria no rosto e na nuca, gerando um alívio instantâneo para o calor que emanava de minha pele suada. Ainda com os olhos fechados, alcancei a gaveta de panos de prato e peguei um novo para secar o rosto. 

Desbloqueei a tela do celular, procurei a receita em meio à conversa das madrinhas e finalmente dei início ao ritual culinário. Separei, cuidadosamente, todos os ingredientes em cima da pia: açúcar, vinagre, corante, as maçãs e os benditos palitos. 

Liguei o som, deixando a música invadir a casa e meus ouvidos. Escolhi uma assadeira grande, forrei com papel manteiga enquanto cantava alto junto com Taylor Swift, pena que uma de nós sempre errasse o tom. 

Abri a torneira e lavei as maçãs, uma a uma, com cuidado, me certificando que nenhuma delas estava machucada, afinal, a aparência era de suma importância naquele dia. Tirei os cabinhos, substituindo-os por palitos de madeira, aplicando força para encaixá-los dentro de cada maçã. Bufei, irritada, ao quebrar o primeiro palito em minhas mãos. Peguei outro e tentei com menos força, até que consegui espetá-lo na maçã, rompendo sua casca e penetrando em direção ao miolo do fruto, deixando um pouco de caldo escorrer entre meus dedos. Lambi a mão, voltei a me lavar e repeti o processo em cada uma das maçãs. 

Em uma panela, misturei um pouco de água filtrada com duas xícaras bem cheias de açúcar cristal e meia colher de chá de vinagre. Torci o nariz ao sentir o cheiro forte desse último entrando em minhas narinas. Liguei o fogo para aquecer a mistura e fiquei observando até que começasse a ferver. Sem mexer, apenas usei uma espátula de silicone para ir limpando o açúcar que se acumulava nas bordas do recipiente. Depois do ponto de fervura, deixei cozinhar por cerca de vinte minutos, diminuindo o fogo e tampando a panela. 

Aproveitei o intervalo e fui até o quarto para me trocar, vesti algo mais leve e confortável, troquei os sapatos por minhas pantufas e, após prender o cabelo em um coque alto no topo da cabeça, finalmente me sentia em casa. Senti o cheiro adocicado que já dominava a casa toda e voltei bem a tempo de desligar o fogo. 

Peguei uma colherada da mistura e despejei em um pote cheio de água fria. Assim como a receita descrevia, vi a pequena massa endurecer instantaneamente, retirei, apoiando na pia e dei uma pancadinha com a colher, assistindo-a se quebrar. No ponto, firme e crocante. 

De volta à panela, acrescentei meia colher de corante vermelho em pó. Depois, fui até o armário e peguei o pequeno frasco sem rótulo que guardava atrás das xícaras. Despejei cinco gotas na mistura fervente, mexi com uma colher, e dei mais um esguicho, perdendo a conta. Faria diferença? 

Ri, aumentando ainda mais o som, e levei a panela para cima da pia. Cantei, usando a colher melada como microfone e fiquei observando enquanto a calda esfriava e parava de borbulhar. Me aproximei para sentir seu cheiro doce e convidativo. 

Inclinei a panela, e comecei a mergulhar as maçãs, uma a uma, segurando-as pelos palitos. Depois de mergulhar, levanta-as de volta e esperava o excesso de calda escorrer de volta para a panela. O passo seguinte era polvilhar com os pequenos confeitos coloridos em formato de coração. 

Fui ajeitando-as na assadeira, com algum espaço entre cada uma, para que não grudassem. Agora só precisaria esperar que esfriassem bem para então embrulhar em saquinhos transparentes, amarrados com um lacinho no topo. E assim tudo estaria finalmente pronto para o chá de panela.

Olhei para a pia com a louça suja acumulada e revirei os olhos, esperava ao menos que o noivo apreciasse meu esforço em me aproximar de sua querida futura esposa. Desliguei o som, ainda cantarolando e saí da cozinha, apagando a luz atrás de mim.

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5 Dicas para praticar a Gratidão todos os dias

Você já reparou que quando nos tornamos conscientes sobre algo e passamos a prestar mais atenção, aquilo começa a surgir com mais frequência? 

É isso mesmo: quando nos concentramos em um tema, ele começa a ficar cada vez mais presente, parece até que, de repente, está em todos os lugares! 

Talvez você já tenha ouvido falar em “Sistema Ativador Reticular”, ou S.A.R., para os íntimos. Esse sistema fica em nosso cérebro, sendo o responsável pela filtragem de toda informação que processamos. Já que não damos conta de absorver todos os estímulos que estão à nossa volta, o S.A.R. funciona como um filtro, deixando entrar somente a informação que é relevante. Isso é o que nos permite focar nas coisas importantes. 

Pote com mensagens de Gratidão.

Então, que tal se focar nos motivos que você tem para ser grato à vida?

Pessoas que são gratas tendem a ser mais felizes e saudáveis. Pesquisas científicas mostram que existem relações entre o sentimento de gratidão e o bem-estar emocional e social, além de melhoras significativas na lida com o estresse e sintomas dele derivados. 

A gratidão vem da capacidade de ressignificar o que acontece em nossas vidas, ajudando a adotar um olhar e atitude mais positivos em relação ao mundo. E, com isso, mudando o nível de satisfação com o que vivemos e experienciamos. 

Ao mudar de atitude perante ao que acontece ao nosso redor, estando mais abertos, mudamos também a forma como recebemos o conteúdo que chega de fora. 

Nossos filtros são reprogramados para perceber as situações de outra maneira. Aquela história de que “nem todo dia é bom, mas todo dia tem algo de bom” não poderia ser mais verdadeira, e é o que logo constatamos quando deixamos nossa atenção voltada para as pequenas coisas que acontecem no cotidiano. 

Confira essas dicas para reprogramar sua percepção:

  1. Comece Pequeno: que tal pensar em uma coisa boa que aconteceu no seu dia?
  2. Faça disso uma rotina: é importante que todas as noites você pare e reflita sobre seu dia. Procure ao menos uma coisa ou momento pelo qual seja grato. A facilidade que você tem em pensar e localizar essa coisa é um ótimo termômetro de como está sua vida hoje;
  3. Registre: assim que você escolher uma ou mais coisas pela qual é grato, anote em um papel (tudo bem, vale até fazer uma planilha ou anotar na agenda);
  4. Continue: persista no exercício e verá que aos poucos ele vai ficando mais natural, podendo virar um hábito. Você vai se acostumando a encontrar bons momentos em seu dia, podendo até se proporcionar mais momentos prazerosos, já que está tão atento agora ao que lhe faz bem;
  5. Releia: de tempos em tempos, volte às anotações e se reconecte com o que vem anotando. Esse momento pode ser como um feedback, no qual tem a chance de, a partir de sua própria percepção, descobrir o que mais tem lhe feito bem, a frequência com que as coisas se repetem, o que poderia aumentar, diminuir e até o que, apesar de tão presente na rotina, nunca é motivo de agradecimento.

Que tal aproveitar a virada do ano para começar a anotar seus bons momentos? Deixe um bloco em sua mesa de cabeceira e anote todas as noites, antes de ir dormir. Pode ser um passeio, um telefonema, algo gostoso que tenha comido no jantar, ou mesmo um banho quente e relaxante no fim do dia. O importante é encontrar aquilo que lhe faz bem. 

Saber reconhecer o que há de bom em sua rotina é um exercício de expansão de consciência e de felicidade, pois além de resultar em maior autoconhecimento, possibilita ajustes na rotina para acrescentar ou retirar determinados estímulos. 

Esse hábito também funciona como uma reserva emocional para que em momentos de crise, você esteja apto a reconhecer pequenas coisas que lhe fazem bem mesmo em meio a um turbilhão.

E lembre sempre: as dificuldades passam! O ser humano tem a incrível capacidade de se adaptar e ser flexível, podendo ressignificar eventos, aprender coisas novas e mudar ou descartar velhos hábitos.

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Ajustes

Foto de uma cafeteria aquecida. Chove do lado de fora e toca jazz ao fundo.

A chuva batia insistentemente na janela, tentando competir com o jazz que ecoava do lado de dentro do café. Olhei, novamente, na esperança de vê-lo chegando, mas não havia ninguém na paisagem cinza e chuvosa daquela terça-feira. Apenas uma porção de carros que passavam apressadamente com seus vidros fechados e embaçados.

Olhei para o relógio em meu pulso, frustrada, e depois me concentrei na fumaça que espiralava da xícara de café com leite que a garçonete acabara de depositar a minha frente. Peguei-a, com as duas mãos, sentindo o calor fazer cócegas em meus dedos. Apreciei o café com todos os sentidos, inalando o aroma antes de finalmente degustá-lo.

Amargo.

Me contorci em uma careta, sentindo o gosto impregnado em minhas papilas e me inclinei para alcançar um sachê de adoçante. O açúcar já fora, há muito, proibido pelos médicos.

Desviei minha atenção para a porta ao ouvir o barulho da sineta que anunciava a entrada e saída de clientes do salão. Uma mulher de meia idade segurava a porta aberta com o pé enquanto chacoalhava seu pequeno guarda-chuva do lado de fora. Ela amassou-o em uma dobra malfeita para que coubesse na sacola de plástico, também molhada, que retirou da bolsa. Movi meus pés, embaixo da cadeira, só para conferir se meu guarda-chuva ainda estava lá.

Bebi todo o café, ainda quente, sentindo o estrago que a temperatura fazia em minha língua. Cansada de esperar, de repente sentia urgência em ir embora.

Assim que baixei a xícara de volta na mesa e me virei para pegar o cachecol, que estava embolado no braço da cadeira, ouvi a irritante sineta, dessa vez seguida de passos firmes em minha direção. Enrolei o tecido em volta do pescoço, concentrada em fazer um nó ao centro, deixando que as pontas caíssem simetricamente sobre a blusa.

– Amália – disse, enquanto puxava a cadeira para se sentar a minha frente.

– Atrasado, como sempre – respondi, olhando teatralmente em direção ao relógio.

– Você viu a chuva que está lá fora?

– Não vi, mas verei em breve, estou indo embora – disse me levantando e retirando o casaco da cadeira para vesti-lo novamente.

– Não, não está – disse, puxando minha mão para me conter.

Senti uma corrente elétrica percorrendo todo o meu corpo e puxei os dedos.

– Me solta – pedi, em um sussurro.

– Olha, me desculpe pelo atraso, mas agora estou aqui, e realmente precisamos conversar.

Revirei os olhos antes de sentar novamente.

– Cinco minutos. É tudo o que você tem.

– Com o temporal que está caindo lá fora? Eu diria que temos a tarde inteira.

Ele se virou, fazendo um sinal para a garçonete e esticou o braço para pegar um cardápio na mesa ao lado. Observei seus olhos correndo as páginas, daquele jeito tão familiar. Assim que a atendente se aproximou, fechou o cardápio e fez o pedido habitual: pão na chapa com requeijão e um expresso duplo. Eu pedi outro café.

Em seguida se levantou, indo ao banheiro. Peguei o celular para conferir as últimas notificações, qualquer coisa para me manter ocupada e não pular em cima dele. Toda a saudade que sentia só havia aumentado ao encontrá-lo. Aparentemente, vê-lo e não poder tocá-lo era ainda pior do que passar quase um ano sem notícias suas.

Assim que voltou, nossos pedidos já estavam na mesa. Observei-o levando a xícara aos lábios, os pelos da barba roçando na beira da porcelana. Desviei o olhar para a janela e tentei me concentrar nas gotas que escorriam pela vidraça.

– Você está diferente – comentei.

– Obrigado. Mudei o corte de cabelo, eu acho. Você também, parece bem.

Sorri, em resposta. Engolindo a enxurrada de palavras que desejavam sair por minha boca.

– Obrigada – me contentei em responder.

– Não tem um jeito fácil de lidarmos com isso, então irei direto ao assunto. É importante para mim.

– E quanto ao que eu quero? E o que é importante para mim? – respondi, falhando em manter a respiração controlada.

– É claro que também importa, esse é o ponto, vim aqui para tentarmos chegar a um acordo. Você me diz o que te incomoda e nós tentamos alterar até que fique confortável, ok? – senti minha pele ruborizando sob seu olhar de pena.

Nada que ele pudesse me oferecer seria confortável, nunca mais. Sentia vontade de gritar, de perguntar o motivo dele se achar superior a mim, de ter nos superado, enquanto eu ainda o desejava desesperadamente.

– Não é uma questão de alterações – disse, me focando em controlar a respiração – é só que eu não quero ter minha vida exposta a milhões de leitores.

– Quem me dera vender milhões, espero que esteja certa – riu – E não é a sua história, é a minha, e a nossa, que se passa no meio dela.

– E as outras estão confortáveis com isso? – Vasculhava meu cérebro atrás de qualquer coisa que pudesse magoá-lo, assim como ele vinha fazendo comigo.

– Não tem nenhuma outra, você sabe. Além do mais, é ficção, apenas me inspirei em alguns elementos reais. Olha, quis te mandar uma cópia do texto antes por consideração, detestaria deixá-la descobrir por conta própria, ao entrar em uma livraria. Mas a verdade, Amália, é que eu publicarei de qualquer forma. O contrato com a editora já está assinado.

– Mesmo que isso custe seu relacionamento com a doce Mariana?

– O que a Mari tem a ver com tudo isso? – perguntou em meio a um suspiro.

Apesar de seu ar descontraído, pude perceber os músculos se contraindo em seus ombros. Melhor assim.

– Bem, ela não sabe o que é ficção ou não. Será que ela poderá ter certeza de alguma coisa depois disso vir a público? Será possível confiar em você novamente? E aquela viagem que fizemos juntos a Monte Verde no inverno, vocês já estavam juntos, não esta

– De que viagem está falando? Isso nunca aconteceu.

– Eu sei. Você também, mas ela não. Acha mesmo que alguém consegue namorar um romancista por muito tempo? Eu fiz essa besteira e veja minha situação agora.

– Amália, você não pode me chantagear, ainda mais com algo tão infundado.

– Arrisque se quiser.

– Que tal se você ler o texto, eu te dou mais uma semana para pensar e…

– Você não pode, não é? Não pode publicar sem minha autorização. Aposto como existe uma cláusula no seu precioso contrato. E você veio até aqui fingindo que sua preocupação é comigo. Se você não precisasse mesmo da minha autorização não se esforçaria tanto, você esquece que eu te conheço… Te conheço muito bem. 

Vi seu último fio de esperança partindo ao meio, finalmente. Ele se ajeitou na cadeira, com os olhos arregalados.

– Você sabe que é importante para mim, é o maior sonho da minha vida – disse em um sussurro rouco. 

Era divertido vê-lo perdendo o controle para variar.

– Então escreva sobre qualquer outra coisa que não sobre mim.

– Não é sobre você, me baseei em alguns dos meus relacionamentos anteriores.

– E eu deveria me sentir melhor por isso? – perguntei, cruzando os braços em frente ao peito.

– Não, claro que não. Você sabe que nossa história foi muito importante, mas só porque nós não demos certo não quer dizer que não possamos ser amigos.

– Não quero ser sua amiga.

– Por favor – disse, abaixando a cabeça e se concentrando em um ponto na mesa entre nós – Preciso que você assine um termo de autorização. Se precisar de mais tempo para pensar, eu entendo. Se quiser que eu faça ajustes, podemos conversar, estou disposto a… negociar.

– Quero que altere o final da história.

– Mas você não aparece no final.

– Exatamente, querido, me deixe voltar para sua vida, me deixe fazer parte dela de novo, e assim terá todo o aval que quiser.

-Amália, seja razoável.

– Estou sendo: ela ou eu?

– Ela!

– Seu precioso livro sendo publicado ou ela?

Ele permaneceu em silêncio.

– Foi o que pensei – ri, levando a xícara aos lábios.

– Por favor.

– Estou apenas começando. Como você disse, temos a tarde toda. Vamos aos ajustes – sorri.

Ele bufou, ajeitando a postura na cadeira.

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Amarelo

Olhos amarelos de um gato preto.

Aquela tinha tudo para ser uma manhã como outra qualquer, mais um dia presa na mesma rotina. Mas então tudo mudou e mal sabia ela como desejaria voltar a sua habitual monotonia. 

Marisa acordou, como sempre, sofrendo com o som do despertador que invadia seus ouvidos, acabando com o silêncio do quarto. Ainda sem abrir os olhos, tornou-se consciente de todos os barulhos a sua volta, do som de carros passando lá fora ao tic-tac do velho relógio de parede. A respiração pesada de Toby inundou o cômodo, era bom saber que alguém ainda dormia. Um beagle gordo de meia idade que lhe fazia companhia, aliás, sua única companhia desde que o casamento terminara. 

Finalmente se rendeu, abrindo os olhos e se ajeitando para alcançar as pantufas. Esbarrou na caminha de Toby no caminho até o banheiro, provocando alguns resmungos abafados. 

Sentia como se nada funcionasse antes de beber seu sagrado primeiro gole de café. Então desceu e foi direto para a cozinha, parando apenas para abrir a porta dos fundos que dava para o pequeno quintal, assim Toby poderia usar seu banheiro também. Pegou, mecanicamente, o pó de café e o coador, contando em voz alta as colheradas, para, em seguida, levar à cafeteira, onde a mágica acontecia praticamente sozinha. 

Enquanto colocava sua solitária xícara de porcelana na mesa, começou a ouvir os latidos do cão lá embaixo. Seguiu até a escada, tentando entender o que acontecia, como não conseguiu detectar qualquer anormalidade, desceu. Assim que chegou no último degrau viu que dois de seus vasos estavam caídos no chão, provavelmente efeito do vento da madrugada. Havia terra espalhada pelo quintal e pedaços das plantas que haviam se despedaçado com a queda. Toby pisou na terra, sujando tudo ainda mais. 

Bufou, irritada, pensando que precisaria limpar as patas do cachorro antes de deixá-lo entrar em casa novamente. Só então reparou que ele estava encostado na porta que dava acesso à garagem, farejando com força pelo estreito vão até o chão. Ele se movia de um lado ao outro, tentando achar uma posição, como se quisesse passar por baixo da porta, tamanha era sua urgência. Seu bumbum empinado e os pelos eriçados indicavam uma posição de ataque. 

Foi quando se deu conta de que havia algo errado. Talvez o assassinato de suas plantas não fosse obra do vento, mas sim de algum animal noturno que tivesse se esgueirado pelo quintal durante a madrugada. Sentiu um arrepio percorrendo suas costas ao imaginar que pudesse estar dividindo sua casa com um hóspede indesejado: um rato. Afinal, Toby nunca reagira daquela maneira.  

Ela afastou o cachorro da porta, com alguma dificuldade, e abriu apenas o suficiente para conseguir entrar, deixando-o latindo furiosamente do outro lado. Acendeu a luz e pegou a primeira coisa que localizou e que poderia ajudá-la a se defender da criatura, caso houvesse alguma: um guarda-chuva que fora esquecido atrás da porta. 

Foi andando pela garagem, tentando observar qualquer movimentação estranha ou o que quer que estivesse fora do lugar. Havia uma pilha de caixas em um canto, coisas de sua filha, que saíra de casa há quase um ano, mas ainda não havia terminado de levar seus pertences, com a desculpa de que o novo apartamento era muito pequeno. Foi ela quem quis se mudar, não foi, pensou com irritação. Ela detestava aquelas caixas e o lembrete diário de sua solidão. 

Se houvesse algum animal escondido na garagem, só podia estar ali, naquele amontoado de papelão e lembranças. Tomou coragem para se aproximar, empunhando o guarda-chuva, ela apertava tanto a mão em volta do cabo que logo os nós de seus dedos ficaram doloridos. Usou-o para afastar as duas caixas que estavam à frente e deu um pulo para trás ao se deparar com um par de olhos amarelos e estreitos lhe encarando. 

A criatura não piscava ou mesmo se mexia, porém, seus olhos eram uma das coisas mais vivas que Marisa já vira. Não havia dúvidas quanto a isso. Deixando escapar um grito, deu alguns passos para trás, mantendo o guarda-chuva ainda a sua frente e parou para observar. Sentia-se hipnotizada por aquele par de olhos, mas, aos poucos, foi percebendo o rosto e finalmente o corpo do animal, completamente revestidos de um pelo negro brilhante. Era grande demais para ser um rato. Pequeno demais para ser um cão. 

Viu o rabo se mexer e deu mais um passo para trás, se assustando quando suas costas encontraram a parede fria de gesso. Não havia mais para onde recuar. Toby, que parecia ser capaz de sentir seu medo, voltou a latir do outro lado da porta. A criatura ficou com os pelos eriçados, soltou um ruído e desviou seu olhar amarelento para a porta. Um olhar que parecia humano, de tão concentrado. 

Se não era um rato, aquela coisa devia ser um gato. E ela odiava gatos, seu cheiro nauseante, o excesso de pelos, a língua áspera e asquerosa, além daquelas pupilas estreitas e horripilantes. 

Marisa bateu com a ponta do guarda-chuva no chão, tentando espantá-lo, mas a criatura não mexia nada além do olhar, que vagueava atento por todo o cômodo. Ela não sabia como ele tinha entrado ali, ou mesmo há quanto tempo estava em sua casa. Esse último pensamento a fez estremecer. 

Saiu novamente da garagem, encontrando um Toby irritadiço que a cheirava com força, quase como acusando-a de uma traição. “Eu sei, também não o quero aqui”, respondeu a seus protestos. Pegou uma vassoura e preparou-se para voltar, desviando do cão novamente. 

Bateu a vassoura no chão, acendeu as luzes e gritou, tudo para tentar assustá-lo. Impassível, o gato virou de costas, se embrenhando ainda mais entre as caixas, deixando apenas o volumoso rabo à mostra. Assim ele se parecia ainda mais com um rato imundo. 

Tentou se aproximar, mas não conseguia, sua pele se arrepiava só de pensar em precisar tocá-lo. É claro que ela não queria machucá-lo, só precisava tirá-lo dali. Ele precisava ir embora. Conseguiu, com muito esforço, chegar perto o suficiente para enxotá-lo com a vassoura. Tentou empurrar seu pequeno traseiro, mas não conseguiu nada além de um forte miado. O som entrou e ficou ecoando em sua cabeça. Toby intensificou os latidos, em sua defesa. 

Nervosa, sentia as gotas de suor escorrendo por dentro de sua blusa, saiu novamente da garagem, subiu e alcançou o celular que ficara em cima da mesa. Pensou em ligar para sua vizinha, talvez ela não se importasse em ajudá-la, mas, automaticamente, ligou para ele

Uma voz ainda cheia de sono lhe respondeu no terceiro toque. Ela se enrolou nas palavras, sentindo um misto de vergonha e arrependimento quando ele pediu que se acalmasse e explicasse o que estava acontecendo. Se era urgente? Claro que sim! Respirou fundo e contou, dessa vez devagar, que havia um gato enorme preso em sua garagem. Ele não fez nada além de rir, disse sentir pena do gato e pediu que ela se acalmasse, pois o pobre bichinho era, com certeza, o mais assustado dos dois.  

Desligou o telefone humilhada e com duas sugestões: a primeira era borrifar um pouquinho de água nele, pois gatos não gostavam de se molhar e, a segunda, era deixar o portão aberto para que ele fosse embora sozinho. Que grande ajuda. 

O animal era rápido, saiu correndo pela garagem assim que ela borrifou água no meio das caixas de papelão. Deu uma volta completa e então foi se esconder debaixo do carro. Sua corrida de um esconderijo a outro fora tão eficiente que Marisa continuava no escuro, sem saber se era macho ou fêmea, se ainda era um filhote, ou mesmo se estava ferido. Pelo tamanho – enorme – não parecia ser um filhote, mas parecia bastante magro. 

Ela também sentia pena do bichinho, sabia que ele estava perdido e assustado, mas era mais forte do que ela, simplesmente não podia se agachar e tirá-lo dali. Ela queria ajudá-lo a sair da casa para que reencontrasse seu caminho, mas não conseguia. Torceu para que ele não estivesse ferido, não queria lidar com a culpa de tirar um cadáver de sua garagem. 

Tentou se acalmar para seguir a segunda dica do ex-marido. Subiu e tomou seu café, apesar de não sentir o gosto da comida em sua boca. Tomou banho e se arrumou com os pensamentos ainda presos ao bichano. Cuidou de Toby preferiu deixá-lo trancado dentro de casa. 

Ele ainda estava embaixo do carro quando ela voltou para a garagem. Agora ronronava, provocando-a. O som era lento e arrastado, como um motor velho. Ela apertou as chaves na mão e clicou no botão do alarme, destravando o carro. O animal teve um leve sobressalto com o barulho e as luzes que piscaram no automóvel, porém voltou a se acomodar. 

Marisa sabia que poderia acabar com aquilo de maneira fácil, bastava ligar o carro, e ninguém saberia. Apenas ela saberia, pelo resto de sua vida, tanto quanto sabia que jamais teria coragem de fazer mal a um ser vivo. 

Irritada, pegou novamente o guarda-chuva e deu pancadas na lateral do carro, obrigando-o a sair. Encolheu-se toda enquanto a criatura fazia seu caminho de volta ao ninho, notou que ele já parecia íntimo da montanha de caixas. Deixou a porta aberta, na expectativa de que ele aproveitasse a casa escura e silenciosa para sair pelos fundos, da mesma forma como devia ter entrado.

*

Desnecessário dizer que quase não conseguiu trabalhar naquele dia. Não conseguia prestar atenção no que as pessoas falavam com ela, não reparava em quem lhe dirigia a atenção e cometeu erros mais de uma vez, algo pouco comum. Seu chefe ficou irritado ao receber uma planilha repleta de erros de digitação. Ela se desculpou, dizendo que não dormira bem e estava tendo problemas em casa. Ele sabia do divórcio, é claro. 

No almoço, a comida não descia pela garganta, que parecia arranhada. Largou a marmita pela metade e foi para área de descanso, mas havia um rapaz cochilando sentado em uma cadeira, e ela podia jurar que sua respiração era semelhante à daquele que lhe aguardava em casa. Já começava a sentir-se perseguida. 

A dificuldade para se concentrar acompanhou-a pelo resto do dia e, até chegar em casa, já se sentia exausta. Estacionou em frente ao portão, fechou os olhos e afundou as unhas no volante, com as mãos trêmulas. Apertou um botão no pequeno controle, abrindo o portão automático. Em vão, estreitou os olhos, tentando enxergar no escuro: nada. Manobrou o carro, entrando de ré na garagem. A câmera traseira lhe ajudou a estacionar, porém pouco revelou sobre o indesejado visitante. Talvez ele tivesse ido embora, afinal!

Assim que desceu do carro e bateu a porta, o leve ronronar voltou a ecoar em sua cabeça. Ali, no meio das caixas ainda jaziam os olhos amarelados. Praguejou mentalmente, se perguntando se o bicho não tinha fome. 

Sentiu-se culpada, no entanto, ao se dar conta de que o animal sequer bebera água o dia todo. A contra gosto, subiu, recebeu a festa de Toby, que ficava sempre muito feliz com sua chegada, e foi em direção à pia. Usou um pote velho para encher de água e desceu novamente, equilibrando o líquido em suas mãos e desviando do cachorro que, ainda animado, pulava à sua volta. Na porta da garagem, ele voltou a farejar, se abaixando e empinando o rabo, os pelos traseiros se eriçaram de raiva enquanto ele latia. 

Com dificuldade, afastou-o da porta para poder entrar. Mesmo tendo perdido quase metade da água no caminho, ainda havia o suficiente para que deixasse o pote no chão. Não conseguiu colocar perto dele, não conseguiria se abaixar e muito menos tocá-lo. Então apenas encostou o pote na parede mais próxima e saiu em passos rápidos, sem olhar para trás. 

Pensou em lhe dar leite, ou então um pouco de atum, sabia que ainda havia uma latinha de conserva no fundo do armário, mas teve medo de que, se ele gostasse, poderia querer voltar por mais. Ela não podia se arriscar. 

No banho, passou uns bons minutos debaixo da água, esfregando o corpo, sentia-se mais suja do que o comum naquele dia. Vasculhava seu corpo à procura de pelos ou qualquer cheiro que lembrasse o animal. Mesmo ali, com o barulho da água e a sensação quente em sua pele, se fechasse os olhos, parecia ouvir seu ronronar ecoando pelas paredes. 

Ligou para a casa da vizinha da frente, mas a chamada se esgotou antes que alguém atendesse. Olhou pela janela e viu que a casa estava toda apagada. Sem saber a quem recorrer, entendeu sua sina: seria obrigada a passar a noite com aquele ser asqueroso em sua casa. Prendeu Toby dentro de casa e deixou a porta que separava a garagem do quintal aberta, na expectativa de que durante a noite o animal fizesse seu percurso de volta e sumisse da mesma forma como havia aparecido. 

Deitada na cama, não conseguia fechar os olhos sem ver o olhar amarelo a sua frente. Sentiu-se ridícula por levantar e acender a luz do corredor. Mas naquela noite não conseguiria dormir no breu. Em silêncio, ouvia as batidas do relógio e o estalar da geladeira no andar de baixo, até que de repente, começou a escutar também o mesmo som de motor velho que lhe perseguira durante todo o dia, era como se ele estivesse rindo dela. 

Sentia-se fraca, impotente, não sabia como podia lidar com tantas coisas sozinha e, ainda assim, ficar sem ação diante de algo tão insignificante. Era vergonhoso! Mas o embaraço não era tão grande quanto o asco que sentia só de pensar em tocá-lo. Tentou imaginar sua mão nos pelos ensebados do animal e não conseguiu. Porém, virou refém das imagens que invadiram sua mente: sabia que o gato ainda estava lá, provavelmente lambendo o próprio corpo com a língua áspera e sujando toda sua casa de pelos negros. O ronronar ficou mais alto e ela se encolheu na cama, apertando as cobertas em torno do corpo. Olhou para os lados, mesmo sabendo que não havia nada ali. Ele estava longe, tinha de estar. Ela conferira três vezes se a porta da cozinha estava trancada à chave. E sabia também que nenhuma janela ficara aberta.  

Olhou para Toby, que respirava fundo, em um sono pesado, encolhido em sua caminha. Fechou os olhos novamente, sentindo-os pesados, e teve ainda mais um vislumbre dos olhos amarelos antes de finalmente conseguir adormecer. 

*

Agradecida pela chegada da manhã, escovou os dentes com pressa, olhando pela janela, como se esperasse encontrar o animal parado no meio da rua. Nada. Calçou as pantufas e desceu direto para a garagem. Toby estranhou a quebra do ritual matinal de sua dona, resmungou por não poder descer e fazer xixi perto do ralo, como sempre. 

Ela seguiu até a garagem e nem precisou acender a luz para encontrá-lo lá. Paralisado na mesma posição, com o olhar fixo nela. Ele vencera e os dois sabiam disso. Sentiu seus olhos arderem de raiva e segurou as lágrimas que tentavam cair. Secou uma solitária, virando-se de costas para que ele não a visse. 

Sua primeira atitude foi ligar novamente para o ex. Ele gargalhou ao telefone e ela podia imaginá-lo jogando o pescoço para trás ao balançar a cabeça, como fazia quando achava graça em algo.

Cerca de uma hora depois, ela desceu para lhe abrir a porta. Se trocara, vestindo uma blusa nova e calças jeans, tentando parecer casual, mas não casual demais. Aquilo não era um encontro, afinal. Difícil dizer quem estava mais empolgado com sua chegada, Toby ou ela. 

Ofereceu-lhe uma xícara de café e então desceram para fazer o que precisava ser feito. Ela deixou que ele fosse na frente, algo que ele notou com humor. Porém, ao chegar na garagem, ele acendeu a luz, se agachou, chamou, e nada, não havia nenhum sinal do felino. 

“Mas ele estava aí, eu juro!” disse e lhe contou sobre como seguira em vão suas dicas, molhando as caixas e deixando a casa aberta. Contou como ele havia arranhado o papelão e sem parar de encará-la o dia todo. O ex-marido, cético, apenas balançou a cabeça, dizendo que não havia nada ali, nenhum arranhão ou marca nas caixas intactas da filha, nenhum pelo para contar história. 

Ele lhe encarou, olhando no fundo de seus olhos, e perguntou se ela tinha mesmo certeza do que estava dizendo. Seu olhar a feriu mais do que um dia inteiro sendo encarada pelas pupilas estreitas do animal. Para evitar maiores constrangimentos, ele disse, brincando, que o animal devia ter finalmente se cansado dela e encontrado a saída da casa. 

Na hora de ir embora, pediu que ela não lhe ligasse a menos que houvesse uma emergência de verdade, pois ele andava bastante ocupado com o trabalho e não tinha tempo a perder. Além do quê, já era hora dela se virar sozinha, fazia quase seis meses que ele saíra de casa. Virou as costas, entrou em seu carro e saiu, sem olhar para trás.

Marisa sentia-se humilhada. Derrotada, outra vez. 

Entrou, levou a louça até a pia, tentando se concentrar nas tarefas domésticas, para manter a mente ocupada. Foi então que ouviu um ronco, mais um e mais outro. O velho motor foi ganhando vida novamente, primeiro baixinho, porém aumentando gradativamente. Desceu, afobada, as escadas, com Toby em seu encalço. Entrou na garagem e foi correndo até as caixas, afastou uma após a outra, até enxergar a parede ao fundo. Nada. O barulho ficou mais alto, mais perto de suas pernas, então se virou para trás e a última coisa que viu foi o amarelo vivo. 

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Janela

Foto da visão através de uma janela.

Da janela do meu apartamento vejo seu escritório. Eu estudo e ele trabalha. Quando estou me levantando, ele já está batendo ponto. Tem dias que chego em casa e sua janela ainda está acesa. Vejo-o assistindo reuniões, falando no celular e teclando furiosamente em seu computador. Sei a hora em que seu almoço chega, quase sempre pedido do restaurante da rua detrás, com exceção das quintas, quando ele sai para almoçar fora. Uma hora inteira sem vê-lo. 

Acompanho sua rotina enquanto ele nem sabe que faz parte da minha. Por mais de uma vez já me guiei por seus horários. Mesmo sem saber quem ele é, ou por quê está lá, é reconfortante ter a certeza de que estará, me sinto menos solitária em sua companhia. 

Levantei-me da mesa, ainda com a caneca em mãos e fui até a janela, afastei as cortinas e lá estava ele em minha paisagem diária. Abri a porta, saindo para a sacada e fiquei observando-o digitar enquanto a fumaça do café subia em espirais e o cheiro me esquentava por dentro.  

Terminei a bebida e entrei novamente, acrescentando a caneca à louça já acumulada na pia, e corri para o banho, pois já estava atrasada. Consegui passar boa parte do dia sem pensar nele, as aulas da manhã foram cheias, usei o intervalo para terminar um trabalho que seria entregue no último período e perdi valiosos minutos na fila da impressão. 

Almocei com uma colega, falamos sobre quase todas as pessoas de nossa turma e então fui embora. Apenas na volta, já perto de casa, foi que ele invadiu meus pensamentos. Será que ainda estava no escritório? 

Com o tempo, fui pegando um hábito estranho: eu gostava de imaginá-lo nas mais diferentes situações. Era como um personagem que habitava meu imaginário e eu adorava jogá-lo diante de um cenário para ver como ele se virava. Em geral tínhamos as mesmas opiniões, apesar de eu discordar de sua conduta por uma ou duas vezes. 

Cheguei em casa, cumprimentei o porteiro e parei para pegar uma encomenda: meus hidratantes novos finalmente haviam chegado. Assinei meu nome no já surrado caderninho da portaria, logo acima da dona Odete, que recebeu seu pedido da farmácia. Me despedi e segui até o elevador, que estava parado na garagem, no segundo subsolo, e lá ficou por longos três minutos. 

Fiquei encarando meu reflexo na porta do elevador, até que ela se abrisse. Entrei, quase em piloto automático, falando um “boa noite” sem nem olhar para meu companheiro de subida. Meus olhos miravam o painel de botões que indicava os andares. Apertei o meu e me posicionei, de costas para a porta. Só quando ela se fechou, olhei para frente e o vi pelo espelho. Ali estava meu amigo sem nome, dessa vez de pé, de perto, com cheiro de loção pós-barba e até mesmo com voz, afinal, ele murmurou algo em resposta. 

Antes que eu conseguisse pensar em qualquer coisa para dizer, o elevador parou um andar abaixo do meu e ele desceu, ajeitando a mochila nas costas. Tentei ter um vislumbre de sua casa, mas no momento em que ele abria a porta, a do elevador se fechava. 

Saltei do elevador quando as portas abriram novamente. Entrei rápido e fui correndo até a sacada. As luzes do escritório estavam apagadas, tudo escuro e sem vida lá dentro. Cheguei bem perto da grade, apoiando a cabeça na tela de proteção e olhei para baixo: luz, som de risadas, cheirinho de comida. 

Me afastei, voltando para dentro e desabando no sofá. Eu nunca o imaginei tão perto antes. Não sabia o que fazer, agora tudo parecia diferente, eu podia espiar uma pessoa estranha em seu escritório, mas não devia fazer isso com um vizinho, certo? O que ele faria em meu lugar?

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Dia dos Pais

Foto de um envelope de carta.

Minha mãe perdeu o pai quando era bem jovem. Meu pai nunca conheceu o pai. E eu tenho, mas não tenho, pai. É complicado, vou tentar te explicar…  

Eu tenho, porque moramos juntos até meus treze anos. Mas ele não sabia qual era minha matéria favorita na escola, como eram minhas notas ou o que eu gostaria de fazer quando crescesse. 

Quando ele e minha mãe se separaram houve muita briga. Ele se afastou, roubou parte do patrimônio que construíram juntos e não pareceu se importar com o que tirou de mim e do meu irmão. Ele só nos levou para sair duas vezes, achava que nos ver em seu trabalho já era suficiente. Bem, não era. Também não pagou pensão, e ainda tentou me chantagear com esse dinheiro. Parando para pensar, acho que para ele tudo sempre girava em torno de dinheiro. 

Hoje, que sou mulher e adulta, fico ainda mais indignada com um homem que não assume a paternidade, não paga pensão e não se responsabiliza pelos filhos. Entrei para as estatísticas de brasileiros que foram criados apenas pela mãe. Essa sim sempre esteve ao meu lado.

Eu não tenho pai há pouco mais de dez anos. Em meio a uma briga, uma daquelas frequentes e pavorosas, eu me cansei. Cansei de ser o pombo correio entre o ex-casal, cansei das mentiras que ele contava e cansei de descobrir seus golpes. Sim, porque era exatamente isso que ele fazia. Tomei, por impulso, a sábia decisão de me afastar. 

E então cresci sem pai. Aprendi a conviver com uma falta que jamais será preenchida. Demorei alguns anos para conseguir lidar com o que sentia e largar uma culpa que não me pertencia. Tirei um peso enorme das costas no dia em que percebi que estava tudo bem não amá-lo, e que isso não fazia de mim nenhum monstro. “A gente não precisa amar quem machuca a gente”, repete comigo, repete quantas vezes precisar até você conseguir sentir. Foi assim que eu fiz. Demorou. 

Eu não sou mais criança para precisar aceitar seu comportamento sem poder reagir, tampouco sou inocente para lhe dar um título que ele nunca fez questão de usar. Aos poucos me refiz. Desde então, esse dia voltou a ser mais leve, porque aprendi a me virar sem ele, todos os dias.