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Um lugar vazio na platéia

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Sábado, mais um dia de espetáculo. Fazia três semanas que a peça estava em cartaz, só conseguimos lotar a casa na noite de estreia, mas desde então vínhamos conquistando um público razoável, o suficiente para pagar o aluguel do teatro e manter a trupe motivada o bastante para passar suas noites em cima do palco.

Ele ainda não viera me ver. Eu sabia que não aprovava minha carreira de atriz e que, assim como meus pais, achava que eu devia parar de tentar investir no teatro e arrumar um emprego que pudesse oferecer um mínimo de estabilidade. A única diferença é que era mais hábil em disfarçar sua insatisfação. Me parabenizara quando consegui o papel e respeitava os horários de ensaio. Mas na grande noite de abertura do espetáculo ele não compareceu. Disse que surgira um trabalho de última hora e que ele não poderia recusar, então passaria a noite toda na frente do computador, editando suas fotos. A desculpa perfeita para não vir. Melhor do que meu pai, que alegou que não ficaria até tão tarde na rua e que precisava dormir cedo. No dia seguinte faltou novamente, e na outra semana simplesmente não tocou no assunto.

“Edu, precisamos conversar”, protestei na segunda-feira seguinte, quando nos encontramos para o habitual café da tarde. Ele alegou estar muito ocupado com seus projetos e terminou com “temos que priorizar o trabalho, você sabe”. Sim, eu sabia, e lhe respondi isso. Ele me devolveu uma risada amarga e um “trabalho que dê dinheiro, já que alguém tem que ter algum”.

Mais uma vez se mostrou contra minha carreira e aquilo que eu considerava ser minha vocação. “Obrigada por tornar as coisas mais fáceis”, respondi antes de tirar minha aliança prateada e deixar em cima da mesa, junto com uma nota alta o bastante para pagar a conta e o resto frio do meu café na xícara manchada de batom vermelho.

Fui embora e me concentrei nos ensaios da semana e nos escritos para o blog, que geravam alguma renda.

Até que cheguei aqui hoje, pronta para mais uma noite no palco e dei de cara com ele, me esperando na entrada dos fundos da casa. Ele disse meu nome e acenou com o buquê de flores na mão. “Finalmente consegui uma brecha no trabalho para vir te assistir”. Parei a certa distância dele, tentando me manter impassível a seu perfume e às flores – gesto raro nos últimos anos. “Ótimo, vou pegar um ingresso na bilheteria”, eu disse e ele respondeu tirando um bilhete do bolso, indicando que já comprara um.

“Será que podemos conversar? ”. “Eu… Não posso demorar. A apresentação começa daqui a dez minutos”. Ele suspirou. “Certo, acho que é tempo suficiente para pedir desculpas por ter te evitado nas últimas semanas”. Senti algo amolecendo dentro de mim e tentei disfarçar em minha voz, perguntando por seus motivos.

“Eu realmente preciso entrar”, insisti. Peguei o buquê de suas mãos e passei por ele, entrando pela porta dos fundos enquanto ele seguia para a da frente.

Me recompus o bastante para entrar em cena e fazer minha melhor apresentação. A casa estava razoavelmente cheia e a apresentação foi animada. A luz refletia em minha roupa prateada e eu me sentia viva, por estar em cena. Ele não desviou os olhos do palco nem por um minuto.

Assim que as cortinas se fecharam, me reuni com meus colegas e ficamos de mãos dadas no centro do palco, aguardando que se abrissem novamente para então darmos um passo para frente e agradecermos ao público. Saímos do palco e eu não tive pressa em tirar o figurino e voltar às minhas calças habituais. Vesti um casaco por cima da roupa, para me esquentar e refiz a maquiagem, mais delicada dessa vez.

Aos poucos os atores foram saindo e deixando o camarim vazio. Guardei os acessórios de minha personagem no armário e joguei meus pertences na bolsa. Voltei até o palco e de longe o avistei, ainda sentado em sua poltrona. Assim que me viu, ele se levantou e veio a meu encontro. Me sentei no chão do palco e fiquei com as pernas penduradas, devido à altura em que me encontrava. Ele se aproximou, apoiou as mãos na beirada e se impulsionou para subir e ficar ao meu lado.

Ficamos em silêncio, apenas ouvindo o barulho de nossas respirações e algumas risadas abafadas que vinham dos fundos, até que ele finalmente quebrou o gelo entre nós: “Ter ver no palco é sempre… Você é boa. Tenho medo que dê certo, que você se afaste de mim, que seus planos mudem, que os nossos planos mudem”. Fiquei paralisada, absorvendo suas palavras e pensando em como lhe explicar que nada mudaria. Que tudo o que eu mais queria era ser atriz, mas que as coisas só faziam sentido quando ele estava ao meu lado, essa versão dele, e não a das últimas semanas, mal-humorada, distante e ácida. Essa última era a que me deixava com vontade de me afastar. Sorri e apoiei minha mão sobre a sua. “Nenhuma história termina antes de se encontrar o mocinho”, sussurrei em seu ouvido.

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E se o mundo acabasse?

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Em 2012, foi divulgado um estudo dizendo que o mundo acabaria no dia vinte e um de dezembro. Algo sobre alinhamentos astronômicos, fórmulas matemáticas e a civilização Maia. Um grande colapso!

Eu não acreditei, afinal não era a primeira previsão de fim do mundo e, com certeza, não seria a última a ser feita. E também, se o mundo acabasse mesmo, eu não estaria aqui para precisar admitir meu engano.

Os primeiros meses do ano se passaram sem grandes mudanças, mas logo começaram a surgir teorias e algumas pessoas começaram a tentar projetar como seria o grande final. A princípio, achei tudo uma grande loucura e apenas ria das histórias que escutava. Mas, mundo acabando ou não, o ano foi bem difícil para mim, especialmente quando perdi o emprego. E até me peguei desejando que tudo isso realmente tivesse um fim.

Lembro de conversar sobre isso com meus amigos, e foi assim que Rodrigo sugeriu que saíssemos no último dia, para comemorarmos o tão anunciado fim. Afinal, estávamos todos ferrados e não nos custava nada uma desculpa para festejar. Nosso placar final envolvia desemprego, dívidas, relacionamentos terminados e uma mudança de cidade.

Assim, nos encontramos na rua mais badalada da cidade algumas horas antes do fim, do dia e do mundo. Passei o dia todo criando expectativas e fantasias em minha mente sobre como seria me declarar para meu melhor amigo, pois se essa fosse mesmo minha última chance, parecia bobeira desperdiçá-la com pudores e, caso não fosse, eu poderia colocar a culpa no excesso de bebida.

Nós não fomos os únicos a ter essa ideia, acho que as casas noturnas e bares nunca faturaram tanto quanto naquela noite. Havia muita gente nas ruas, alguns apenas curtindo com seus amigos, outros com olhares nervosos, parecendo ansiosos com o que estivesse por vir e alguns anunciando profecias pelas ruas. Bom, já que o caos estava instalado, resolvi tentar a sorte com Rodrigo.

Fomos para um bar, o som estava muito alto e mal conseguíamos conversar. Mas ficamos lá, aproveitando a música e pedindo rodadas e mais rodadas de álcool. Olhei para ele, do outro lado da mesa e respirei fundo antes de estender a mão para ele, chamando-o para ir até a pista de dança. Ele me olhou confuso e apontou para o ouvido, sinalizando que não me escutara. Me aproximei dele, ficando na ponta dos pés para alcançar seu pescoço e disse: “vem dançar! ”. Ele riu e negou com um aceno de cabeça e eu, revirei os olhos, o ignorando e seguindo sozinha para a pista.

Quando me virei, ele estava bem atrás de mim. “Mudou de ideia? ”, perguntei. “Mal não vai fazer, você não vai poder lembrar de como eu sou ruim nisso”, respondeu. Ficamos dançando, desajeitados de frente um para o outro e notei que nenhum de nossos amigos nos seguiu. Ótimo, acho que entenderam o recado.

Aos poucos fomos nos soltando e eu me atrevi a pegar sua mão e apoiar em minha cintura, para que ele acompanhasse meus movimentos. Ele sorriu e permaneceu ali, sem se afastar. Então, quando percebi, eu já estava bem próxima da parede, tendo apenas aquele belo exemplar de um metro e noventa à minha frente. Fechei os olhos e o puxei ainda mais, ele se abaixou, gentilmente, alcançando meus lábios. Não sei quanto tempo aquele beijo durou e, quando terminou, abri lentamente os olhos, para espiá-lo.

Sem dizer nenhuma palavra, passamos o resto da noite juntos, não sei quando o relógio marcou meia-noite, mas logo o dia vinte e dois amanheceu. Fomos embora sozinhos, já que não conseguimos encontrar mais nenhum de nossos amigos.

Ele pegou minha mão e entrelaçou à dele, enquanto caminhávamos. Então diminui o passo até parar e me sentei em uma calçada. Ele me acompanhou e ficamos assistindo o nascer do dia. “Quem diria que o mundo precisava ameaçar seu fim para eu ter coragem de te beijar”, ele disse. “O quê? Eu que passei a noite toda tomando coragem para chegar perto de você”, falei rindo.

Fomos para casa e só voltamos a nos ver na semana seguinte, após as festividades do natal. Mas, no meio do caminho trocamos muitas mensagens e foi ali, em pleno final, que nossa história começou.

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Incurável

03. Incurável

Era um jantar entre amigos. Simone chegou com meia hora de antecedência e levava os olhos à porta toda vez que alguém entrava no restaurante. Se levantou da cadeira, em um pulo, assim que o viu entrando, no horário marcado. Roberto veio em sua direção, sorrindo, e se cumprimentaram com um abraço.

Ele perguntou sobre a terceira amiga, que deveria vir encontrá-los, e Simone se limitou a responder que ela acabara de lhe enviar uma mensagem dizendo que teve um imprevisto no trabalho. “Que pena, é tão difícil voltar a reunir o trio, principalmente sem esposa, maridos e filhos no meio”, ele disse e se sentou na cadeira vaga a sua frente.

Simone voltou a se sentar, de frente para ele, e ficou encarando-o, abriu a boca duas vezes, mas as palavras lhe faltaram, até que o garçom os interrompeu para anotar seus pedidos, fazendo com que se entretivessem em seus cardápios por alguns minutos.

Depois de escolherem as bebidas e pedirem uma salada como entrada, voltaram a se olhar, e ele, já melhor acomodado na cadeira, começou a falar, perguntando sobre seu trabalho e sobre como estavam as crianças. Ela respondeu, secamente, sem prolongar nenhum assunto, nem mesmo quando Roberto começou a relembrar histórias da época em que estudavam juntos. Apenas quando o garçom depositou os pratos na mesa e se afastou foi que ela voltou a falar. “Preciso te contar uma coisa”, disse. Ele sorriu e gesticulou com as mãos para que ela continuasse. “Mas eu não consigo… Bem, vou mostrar de uma vez. Veja só”, disse enquanto pegava seu celular na bolsa. Seu rosto ficou momentaneamente iluminado pela luz forte da tela, até que ela entregou o celular em sua mão e fechou os olhos, sem observar sua reação.

Ele se endireitou na cadeira e puxou o celular para si, depois o afastou, olhando a tela de outro ângulo. Jogou o celular no meio da mesa, quase derrubando os copos que ali estavam e lhe exigindo explicações. “Não tem o que explicar, é isso. Vi os dois juntos ontem, de novo”, respondeu. Ele se recusou a acreditar que a esposa ainda estivesse se encontrando com o amante, mesmo depois de conversarem a respeito e ele lhe perdoar. “Sei que você a perdoou, mas ela é uma vaca, uma vaca incurável. Não te merece, Rô”. Ele bufou, e abaixou a cabeça, passando a mão pelos cabelos. Quando a encarou novamente, pegou seu celular e se levantou, saindo do restaurante sem olhar para trás.

Ela não pareceu se abalar com a reação dele e voltou a comer seu estrogonofe, porém agora com um sorriso no rosto.

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Uma loja de banheiras

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Conheci a Márcia no último ano do ensino médio, e logo nos tornamos amigos. Nunca havíamos conversado muito sobre nossas famílias, nossos papos costumavam girar em torno de estilos musicais e das séries do momento. Até que a professora de biologia nos passou um trabalho em grupo e ela disse que podíamos nos reunir nos fundos da loja de seu pai para trabalharmos no projeto.

Então, numa quarta-feira depois da aula, a acompanhei até o local onde passava suas tardes, o tal comércio da família. Caminhamos até a avenida principal e ela sorriu ao dizer que estávamos quase chegando. Ao nos aproximarmos da esquina, ela foi diminuindo o passo, até parar em frente a uma vitrine de vidro enorme que exibia uma banheira de hidromassagem redonda e luxuosa.

Eu não entendi que aquele era nosso destino e continuei andando, já estava quase atravessando a rua quando ela me chamou e apontou para a entrada daquela loja rindo. Fiquei com vergonha, mas não pude conter uma exclamação: “Banheiras?!”. “Sim, banheiras”, ela respondeu rindo.

Entrei logo atrás dela, de cabeça baixa, quase sem coragem de olhar para as imensas bacias que nos cercavam, afinal é isso que eram, não é?

Seu pai nos aguardava atrás do balcão, todo sorridente e de braços abertos para receber a filha. Depois que eles se abraçaram, se virou em minha direção e estendeu a mão, em um cumprimento forte, que quase deslocou meu braço. Correspondi a seu aperto e soltei um comentário: “bela loja”. Acho que não o convenci, pois ele inclinou a cabeça, arqueou a sobrancelha por um instante e então agradeceu, acrescentando um sorriso por fim.

Márcia me convidou para entrar nos fundos da loja, então a segui até uma pequena sala, iluminada por uma janela que tinha vista para a rua lateral. Ela se sentou em uma cadeira, cruzou os braços e ficou me encarando. “O que foi? ”, disse. Eu senti minhas bochechas corarem diante de seu olhar atento e não consegui responder. Ela insistiu “diz logo”.

“Banheiras? “, perguntei novamente. Ela caiu na risada e insistiu em saber o motivo de minha surpresa. Não havia grandes razões, eu só não conseguia imaginar como alguém ia parar atrás do balcão de uma loja dessas. Digo, será que quando criança o sonho dele era ter uma grande loja de banheiras num bairro nobre da cidade? Quando será que ele pensou nisso pela primeira vez ou qual será que foi a primeira banheira que ele viu? Será que foi planejado ou impulsivo? Imagino ele chegando em casa e contando para a mulher e para os filhos “Família, vou abrir uma loja, quero vender banheiras! ”. E a pequena Márcia, pulando em volta do pai, feliz com a perspectiva de ter uma piscina particular em seu banheiro.

Será que ela tem uma banheira em casa? Deve ter. Eu realmente não devia estar imaginando a minha amiga dentro de uma banheira, mas agora é tudo o que eu consigo pensar, a imagem impregnou em minha cabeça.

Como precisava lhe responder algo, disse apenas que ficava curioso, e perguntei-lhe desde quando sua família tinha a loja e qual fora sua origem. Ela riu e respondeu que o pai trabalhava em uma loja de materiais de construção e quando saiu, pegou todo seu dinheiro para investir em algo, e acabou comprando a loja do antigo proprietário.

Que decepção! Assim, sem sonhos, sem nenhuma relação afetiva com as pobres banheiras, puramente um comércio. A mensalidade do colégio dela era paga graças a pessoas extravagantes que não se contentam com chuveiros e querem enfiar uma bacia em seus banheiros grandes. Engoli minha amarga opinião sobre a índole de seu pai e fomos fazer nosso trabalho.

Mas no caminho para casa, não pude expandir meus pensamentos: como será que se iniciam os comércios ou certas profissões: por exemplo, como será que alguém se torna encanador, vendedor de perfumes, ou ainda, dono de uma loja de artigos para aquário ou de um sexshop. Cheguei e fui correndo perguntar pra minha mãe como foi que meu avô decidiu abrir sua vidraçaria.

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Achados e Perdidos

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Trabalho no metrô de São Paulo há anos e, agora que estou para me aposentar, fui transferido para o setor de achados e perdidos. No começo estranhei bastante, fui da agitação das estações para uma salinha mal iluminada no final do corredor.  Era como se eu estivesse ali para não atrapalhar, assim como os objetos à minha volta, e me perguntava se para meus superiores eu também tinha um prazo de validade na sala que servia como lar temporário dos pertences de outras pessoas.

O sistema é eficiente, porém burocrático. São encaminhados para a central objetos cujos proprietários podem ser identificados, como documentos e agendas. O restante é encaminhado para uma casa de solidariedade. E, se depois de sessenta dias, o tal proprietário não aparecer, seus pertences também são doados, ou então vão parar na lixeira, apesar de nunca admitirmos isso. Existe uma cláusula no meu contrato de emprego que me impede de revelar tal dado.

Bom, eu passo o dia todo nessa sala abafada, sozinho e cercado de objetos perdidos. Ou achados, se preferir. Muitas vezes, as pessoas não sabem onde os perderam, se foi no trajeto ou em seu destino final, então a maioria delas não se dá ao trabalho de vir procurar aqui, ou ao menos cogita tal hipótese. Outras sabem que perderam seus bens no transporte, mas não acreditam que eles tenham chegado em minha sala, tendo plena certeza de que alguém já se apossou deles no caminho.

Essa série de esquecimentos e mal-entendidos faz com que eu tenha muito tempo livre. E foi assim que tudo começou. Primeiro, comecei a com uma jaqueta jeans: perguntei-me porque ela estava lá, e encontrei a resposta em seu bolso, na forma de uma carteira de habilitação. Peguei o documento e li todas suas informações, pertencia a um homem, de vinte e seis anos. Então, tudo o que eu sabia sobre essa pessoa era que ele sabia dirigir, gostava de jeans, tinha uma jaqueta e fora distraído o suficiente para perdê-la.

Depois encontrei uma nécessaire feminina que tinha como chaveiro uma etiqueta de identificação, e ali estava o nome de sua proprietária. Sabendo que a chance de ser flagrado era mínima, eu não contive o impulso de abrir o zíper para espiar seu conteúdo. Me senti tão íntimo daquela mulher ao ver o que ela carregava: havia um pouco de tudo! Uma miniatura de frasco de perfume, alguns itens de maquiagem, incluindo um chamativo batom vermelho, lenços de papel, grampos de cabelo, um espelho, uma caneta azul, lixa de unha, analgésicos e preservativos. Fiquei me perguntando se ela carregava aquilo todos os dias ou se aquela era uma ocasião especial.

E então essa curiosidade foi se tornando parte de minha rotina, era um jogo que eu jogava sozinho, pegava um objeto e tentava conhecer seu dono. Um caderno, por exemplo, me dizia o conteúdo que seu dono estudava e eu tentava conhecer traços de sua personalidade por meio de sua letra.

A brincadeira se tornava ainda mais emocionante quando eu conhecia o dono do objeto investigado. Eu torcia para que acontecesse em meu turno, e ficava decepcionado se o objeto não estivesse mais lá quando eu chegava para um novo plantão. Pois nesse momento, eu tinha a chance de ver uma pessoa real a minha frente, e assim confirmava ou refutava algumas de minhas hipóteses. Mas apenas as mais superficiais, afinal esse único contato não era suficiente para me revelar aquilo que seus objetos perdidos haviam me contado.

Ás vezes até me emocionava ao assistir o reencontro do objeto perdido com seu dono. Descobri que as pessoas desenvolvem uma relação afetiva com as coisas mais improváveis do mundo. E muitas me agradeciam como se fosse eu mesmo quem os tivesse encontrado. Ah, se elas soubessem!

Dessa forma, encontrei um meio de ser menos solitário, em meio àquilo que outras pessoas tinham perdido, ou simplesmente deixado para trás. Até que conheci Denise, uma simpática jovem de cinquenta e seis anos, que começou a trabalhar na limpeza.

Ela foi escalada para trabalhar no mesmo horário que eu e, um dia, foi limpar minha sala. Começamos a conversar e ela pareceu interessada em saber um pouco mais sobre o meu trabalho, o que me deixou muito feliz, pois nunca pude dividir com ninguém o entusiasmo pelos objetos perdidos e seus curiosos sujeitos.

Acho que foi por isso que ela começou a me visitar de vez em quando. Às vezes vinha fazer uma faxina, mas tinha dias que só passava para dar um oi mesmo. Sempre que ela aparecia nós conversávamos um pouco, sobre amenidades, sobre o clima, sobre novelas. E ela continuava demonstrando interesse na rotina da sala de achados e perdidos.

Um dia, quando ela chegou, eu estava folheando um caderno florido. Eu me assustei com sua entrada e o fechei rapidamente. Ela riu e perguntou o que eu estava fazendo, e eu menti, dizendo que procurava alguma informação que identificasse seu dono.

– E você não tem curiosidade de ler, não? – ela perguntou.

Fiquei tão desconcertado que não fui capaz de dar uma resposta rápida. Ela não pareceu notar e completou dizendo que ela teria.

– Dá curiosidade mesmo – ri e concordei com ela.

Tinha chegado no meu limite, sentia meu segredo transbordando dentro de mim, eu precisava dividir com alguém, e por quê não com Denise?

Parei de resistir e resolvi abrir meu jogo com ela, contando sobre meu passatempo de adivinhações e, para minha surpresa, ela perguntou se podia brincar também.

Finalmente deixei de ser só, agora que ela vinha todos os dias para ver o que se perdera na noite anterior – ou o que fora achado. Em pouco tempo nós já dividíamos algumas piadas, cujo significado apenas nós conhecíamos e um já conseguia saber o que o outro estava pensando, apenas com um olhar. Também conversávamos sobre nós dois, é claro. E foi assim que descobri que ela era viúva, como eu, porém mãe de dois filhos e avó de um neto, diferente de mim, que nunca constitui família, sendo sempre apenas eu e Rose, até que ela me deixou.

Já fazia alguns anos desde que minha esposa se fora, e eu não me interessara por ninguém desde então. Foi uma surpresa quando me dei conta de que sentia falta de Denise se ela não aparecia para me ver. Me flagrei observando os traços de seu rosto enquanto ela olhava entusiasmada para a pilha de itens recém-chegados.

Ela me fez sentir um friozinho gostoso na barriga que há muito eu deixara de sentir. Demorei dois meses para ter coragem de chamá-la para sair, mas quando aconteceu, ela aceitou ir ao cinema comigo.

No dia, eu mal conseguia lembrar o caminho para o cinema, de tão agitado que estava. Fiz questão de pagar nossas entradas, alegando que fora eu quem lhe fizera o convite. Ela riu e respondeu que se eu não a tivesse convidado, ela acabaria fazendo. Confesso que depois disso não consegui prestar muita atenção no filme que se desenrolava a minha frente, me senti novamente como um adolescente em seu primeiro encontro. Saindo de lá tomamos um sorvete e eu a acompanhei até em casa.

Pensei que seria estranho encontrá-la no trabalho no dia seguinte, mas ela já estava tão impregnada em minha rotina que nosso encontro foi muito natural, e acho que esquisito seria não vê-la rondando minha sala, ou então apoiada em seu esfregão enquanto conversávamos ou investigávamos a identidade de um dono de documento perdido.

Algumas semanas depois, Denise me contou que seu aniversário se aproximava e que ela faria uma festinha para comemorar com os filhos e o neto. Sorri e antes que pudesse fazer um comentário, ela se enrolou toda em sua fala, me convidando.

– Será só um bolinho mesmo, pois as crianças insistem que não posso deixar passar em branco. Fazer o quê se fui eu quem os ensinou assim.

Gaguejei uma resposta, confirmando que estaria em sua casa no sábado à noite. E, não tive como fugir do compromisso: conhecer sua casa e família. De repente me dei conta de que entraria também em sua intimidade, a veria em seu habitat natural. Ri da ironia, afinal eu só conhecia alguns aspectos dela, desde que ela se perdera em minha sala.

No sábado, fui munido de um buquê de flores, que me pareceram um bom presente de aniversário. Ela me recebeu na porta, toda sorridente, e reparei que ela estava mais perfumada do que o habitual, e maquiada, o que era uma novidade. Ela pegou as flores de minhas mãos, agradecendo, e me puxou para dentro.

Assim que entramos pelo corredor, fomos parar em sua pequena sala de estar, onde uma moça brincava com um menininho, que devia ter no máximo uns cinco anos. Sua filha e neto, pensei.

Ela me apresentou para eles como um colega de trabalho, “aquele que comentei com você outro dia”. Fiquei tenso, imaginando o que ela havia falado de mim para a filha.

– O moço dos achados e perdidos. Mamãe, a vovó encontrou um namorado nos achados e perdidos, não é engraçado? – disse o menino.

A mãe lhe deu uma bronca, mas não havia como retirar suas palavras do ar. Então Denise segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos e disse:

– Sim, ele estava lá. Não sei quando se perdeu, mas estava pronto para ser encontrado.

Eu não pude deixar de sorrir enquanto apertava sua mão no meio da minha.