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Silêncio

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   A palavra silêncio é definida no dicionário como “o estado de quem se cala ou se abstém de falar. Privação, voluntária ou não, de sons e comunicação”. Ou seja, só se cala aquele que tem algo a dizer. E ele só se faz presente, só o percebemos, ao notar a ausência de som.

   Eu conheço vários tipos de silêncio. Tem aquele do começo da manhã, quando todos ainda estão dormindo, ou pelo menos deitados em suas camas, e não consigo ouvir nada além de meus próprios pensamentos, que me invadem no momento exato do despertar. E também existe aquele que gosto menos que é o da casa vazia, esse me assombra desde que o Max nos deixou, pois a sala está sempre escura e sem vida quando chego, sem latidos ou alegria me esperando na porta.

 Tem o silêncio constrangedor de uma sala de espera, quando desconhecidos compartilham um momento juntos e ninguém quer ser o primeiro a falar. É mais fácil ouvir o virar de uma página de revista ou uma fungada do que o calor de uma voz. Esse, para mim, é o silêncio do tédio.

   Depois vem o silêncio de tensão, que é aquele que se pode escutar numa sala de aula na hora da prova, apenas respirações ofegantes e destinos ansiosos, mas nenhuma palavra. Pior do que ele, só aquele que acompanha o climão de um reencontro indesejado. Não desejo nunca mais passar por um assim.

   Tem aquele silêncio incômodo que surge depois que dizemos algo forte. É difícil sustentá-lo, mesmo que às vezes seja necessário, porque é o tempo que o ouvinte tem para digerir as palavras que acabaram de lhe atingir. E, apesar da ausência de som, fervilhamos por dentro, com tudo o que foi dito ou poderia ter sido dito.

   Aprendi que o silêncio pode também ser uma resposta. Como quando você se declara para alguém e não recebe nenhuma manifestação em troca: sempre achei que precisava esperar uma recusa antes de engolir meu orgulho e partir para outra, mas acontece que a falta de resposta também é uma resposta, já que nem todos conseguem se comunicar através de sons ou palavras.

   Existe o silêncio de quando não há nada a se dizer e o silêncio de quando não precisamos dizer nada. São raros os momentos em que esse último aparece, quando duas pessoas conseguem estar juntas e compartilhar de um silêncio que não é caracterizado pelo vazio ou ausência, mas sim pela mais forte presença de sentido. E você sabe que não existem palavras suficientes ou mesmo necessárias para superar aquele momento.

 

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Rock Show!

11. Rock Show!

   Eles são minha banda preferida há quase quinze anos. É isso mesmo, nosso amor resistiu ao tempo e não terminou junto com a puberdade, como meu irmão mais velho costumava dizer que aconteceria. Fui a cinco shows, todos os que eles fizeram em minha cidade, e em cada um deles conheci pessoas que compartilhavam meus sentimentos, que entendiam o valor que cada uma daquelas músicas tinha. Fiz alguns amigos assim, migramos por diferentes redes sociais ao longo dos anos e, graças à internet e aos novos álbuns lançados, nunca perdemos contato.

   Sempre faltei na aula para ir aos shows, pois, por mais que a apresentação só acontecesse à noite, a experiência começava na fila, onde reencontrava os amigos e fazia alguns novos. Tentava garantir meu lugar na fila, sabendo que seria recompensada com uma boa visão do palco quando chegasse à pista. E, de qualquer forma, seria impossível ter um dia produtivo com toda aquela ansiedade explodindo dentro de mim.

   Ah! Um outro detalhe que esqueci de comentar é que minhas idas a shows sempre foram patrocinadas pelos meus pais, como presentes de aniversário, natal, ou por mera insistência mesmo. Essa foi a primeira vez que me vi forçada a fazer tudo diferente. Aos 25 anos, tenho meu emprego, a vida ativa de quem acabou de se formar e está trabalhando muito, ainda querendo acreditar nas promessas que ouviu na graduação e já ciente de que nada acontecerá sem muito esforço e alguns sacrifícios. Pois é, dessa vez precisei bancar meu ingresso, em três dolorosas parcelas, que implicaram em uma severa contenção de despesas nos meses seguintes.

   Não pude faltar no trabalho para passar o dia todo na fila, não consegui folga, por mais que tenha pedido com meses de antecedência, mas consegui negociar com uma colega para trocarmos de turno, então estaria liberada no meio da tarde. Combinei com o pessoal de nos encontrarmos na fila, assim quem chegasse primeiro já faria mais alguns amigos e nos garantiria um bom lugar.

   Quando o grande dia chegou, não consegui dormir, tive um desempenho ruim no trabalho, pois parte de mim já estava no show. Como eu podia me concentrar sabendo que eles já estavam em terras brasileiras?

   Quando o relógio anunciou o tão esperado momento, corri para meu armário e peguei a mochila já pronta. Passei no banheiro e troquei o uniforme quente por uma bermudinha leve e uma camiseta preta com o nome da banda estampado. Preferi me maquiar e colocar a bandana no caminho, dentro do ônibus mesmo, afinal, eu ainda teria uma reputação a zelar no trabalho no dia seguinte

   Mandei mensagem para meus amigos avisando que estava a caminho e parei apenas em uma lanchonete, onde comprei alguns lanches e uma garrafa grande de refrigerante gelado. O estômago precisa estar bem forrado para aguentar uma noite daquelas.

   Atipicamente, esperei apenas uma hora até a abertura dos portões e, graças à Dani, conseguimos um bom lugar na pista, nós duas ficamos numa posição estratégica, bem em frente ao lado direito do palco, onde Seb, o guitarrista, costumava ficar. Combinamos com o restante do pessoal que nos encontraríamos no final do show, em frente aos banheiros, e assim cada um foi procurar um lugar que lhe desse melhor visão do palco.

   Sentamos na pista e ficamos aguardando, Dani me contava sobre sua vontade de pedir demissão, motivo inclusive que fez com que ela não se importasse em faltar para garantir nossos lugares na fila. Eu entendia como ela se sentia, às vezes eu também sentia aquela vontade de jogar tudo para o alto. Tudo mesmo. O desabafo rolava solto até o momento em que as luzes da casa se apagaram.

   Acho que mesmo que eu me esforçasse, não seria capaz de descrever com exatidão como foram as duas horas seguintes. Shows sempre são uma experiência única, mas me despertam as mesmas sensações: o arrepio em cada parte do corpo quando as luzes se apagam e o silêncio impera por alguns segundos, antes que os instrumentos comecem a tocar; a voz do vocalista, anunciando a entrada da banda; a expectativa pela próxima música – será que eles vão tocar aquela?; a surpresa quando tocam algo que não costuma estar no repertório; ou o sorriso que surge no rosto quando eles se arriscam a falar em nossa língua. Mas não há nada comparável à sensação de união de quando todo o público, milhares de estranhos, se unem em uma só voz, cantando uma música junto com eles. Não importa se o ritmo ou a pronúncia das palavras está correta, tudo o que importa é saber que você divide aquelas notas com aquelas pessoas e que aquele momento nunca se repetirá.

   Quando a noite terminou, demorei para me situar novamente, foi difícil coordenar os pés que tentavam me arrastar para fora do estádio. Não sei muito bem como cheguei ao táxi ou sobre o que conversei com o motorista até chegarmos em minha casa. Sem nem tomar um banho, despenquei em minha cama e adormeci assim que a cabeça encostou no travesseiro, de tanto cansaço. No dia seguinte, ainda parecia anestesiada e sabia que seria muito difícil voltar ao normal, pois eu já não era a mesma, era uma das vozes do coro.

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Noite de Leitura

39. Noite de Leitura

   Todo domingo à noite, eu coloco meu pijama, vou para o sofá e nada pode interromper meu momento de leitura. Às vezes tenho um chá quente ou café como companhia, mas o que importa mesmo são as palavras que desfilam nas páginas a minha frente. Ler é como entrar em outros mundos sem precisar deixar o meu. Me transporto para outras realidades, me permito explorar hipóteses e viajar em possibilidades, afinal, “e se?”.

   A leitura não é apenas um ato racional, indo muito além, desperta emoções, devaneios, reacende memórias e é capaz de provocar as mais diversas sensações. Um mesmo livro nunca é lido da mesma forma por seus leitores, e o que torna cada contato uma experiência única é o fato de que lemos carregando nossa própria bagagem, então interpretamos a partir de nossas concepções de mundo e vivências anteriores. Portanto, nossa história afeta a forma como entramos em contato com outras histórias.

   Mais curioso ainda é que nem mesmo eu sou capaz de ler o mesmo livro duas vezes. Ao reler uma obra, anos depois, minhas concepções já mudaram e eu vivi coisas que alteraram meu entendimento das palavras há muito tingidas no papel. A grande obra prima de minha adolescência pode não fazer sentido algum na vida adulta. Mas é claro que isso não tira seu imenso valor em meus anos mais jovem.

   Confesso que às vezes leio porque quero dar um tempo da realidade, me afastar de interações humanas e me permitir ser apenas espectadora por um momento, mas então caio na armadilha de que não há nada mais revelador do universo humano do que as palavras conservadas em papel. Lá me deparo não apenas com a minha realidade, mas com infinitas outras.

   A experiência da leitura, através do contato solitário com o livro, me convoca a entrar em contato com minhas particularidades existenciais, ao mesmo tempo que me permite experimentar e expandir vivências e conhecimentos. Fica mais fácil me arriscar por meio de um personagem, sem precisar sair de meu sofá. Assim, a literatura abre uma nova maneira de compreender e me relacionar com minha própria história. É exatamente por isso que eu acho que não há nada mais reconfortante para o fim do domingo do que um bom livro, que me desperta curiosidade e vontade para começar uma nova semana.

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Saindo de Casa

Sacada (5)  Sair da casa dos pais é algo com que sonhamos, fantasiamos e, às vezes, desejamos com todas as nossas forças. Mas é muito difícil tomar a decisão pra valer e, não importa o quanto queremos ou nos preparamos, é simplesmente impossível estar pronto para deixar o conforto do seu quarto.
Quando chegou a minha vez, senti como se dois desafios estivessem acontecendo simultaneamente, por um lado, deixei a casa da minha mãe, minha casa, e, por outro, me vi ganhando uma nova, minha casa. Me disseram que “ganha-se muito, mas perde-se muito”, e eu não poderia concordar mais depois de sentir na pele como é ser uma dona de casa.
Perdi a tranquilidade do meu quarto de menina, deixei metade dos bichinhos de pelúcia para trás, assim como a janta sempre pronta e quentinha e a roupa passada que aparecia em cima da cama no fim do dia. Deixei o colinho de mãe que estava sempre a postos, e até o meu cachorro. Perdi tanto! Mas também ganhei uma nova relação com a minha mãe, agora permeada por saudade, desabafos e pedidos desesperados de ajuda pelo telefone para que ela me ensine a temperar uma carne ou confirme se eu posso mesmo lavar aquela blusinha de renda na máquina.
Foi difícil dar adeus ao meu cantinho, saber que da próxima vez que eu entrar naquela casa, serei uma visita – ainda que tenha as chaves. É estranho pensar que mudanças acontecerão sem que eu presencie ou mesmo perceba, e eu já não poderei opinar ou decidir como antes, agora que virei espectadora. É, talvez precise aprender a controlar minha boca, tenho que aprender a lidar com o fato de que já não tenho mais controle sobre o que acontece por lá.
Fico pensando se minha organização no armário da cozinha será mantida… acho que não por muito tempo. É difícil encarar que escolhi deixar um lugar que me recebeu tão bem, uma casa grande e confortável, um verdadeiro porto seguro.
Por outro lado, é a primeira vez que posso tomar decisões mais livremente, repensar a ordem dos talheres na gaveta da cozinha, escolher o cardápio e me aventurar em novas receitas. Comprei plantas e estou me esforçando para mantê-las vivas e saudáveis. Descobri que as roupas não são tão fáceis como eu imaginava, pois cada peça e tecido têm suas particularidades, e as tarefas tomam muito mais tempo do que o esperado. É incrível como o tempo passa e eu quase não consigo encontrar uns minutinhos para colocar a leitura em dia. O serviço doméstico consome tempo e energia, antes eu não ficava assim tão cansada no final do dia. É, não é só a casa que muda, a gente muda.
Mas confesso que enfrentar tudo isso ao lado de outra pessoa torna tudo mais fácil. O planejamento de um casamento e o friozinho na barriga ao pensar em uma vida a dois desperta a vontade de juntos conquistarmos essa independência. É gostoso conhecer mais do outro, encontrá-lo todos os dias, preparar o café da manhã e conversar sobre as coisas pequenas do dia-a-dia. Cada um traz um pouco de suas manias e dos costumes familiares, juntos descobrimos como funciona a nossa casa, e o que nós queremos para ela. As implicâncias vêm junto, é claro, mas, pensando pelo lado positivo, a coleção de livros dele passou a ser minha também. Não me julgue, estou dividindo minha poltrona de leitura. Todo mundo tem que ceder! Foi o conselho que mais ouvi até agora: minha mãe, meus sogros, amigos, conhecidos e colegas de trabalho, todos me alertaram sobre os problemas da convivência e me disseram para não esperar um mar de rosas.
É claro que estavam todos certos, e eu já sabia disso antes mesmo de me mudar, mas só nós dois conhecemos nosso relacionamento, e sabemos que ele funciona mesmo com as brigas e manias um do outro. Eu sou extremamente acelerada, enquanto ele é calmaria, e mesmo assim encontramos uma forma de fazê-lo acontecer, aprendemos juntos, compartilhamos nossas histórias, encontramos motivos bobos para rir e até nos demos novos apelidos. Quando me deito na cama de casal, ao lado dele, me lembro que minha mãe pediu que ele cuidasse de mim e ele respondeu que cuidaria, assim como eu cuidaria dele. Seguimos nos cuidando, nos amando (e passando roupa, afinal hoje é quinta-feira).

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Perdi

Avenida Radial Leste (5)
Hoje eu perdi. Alguém que esteve presente nos últimos seis anos. No começo não nos dávamos bem. Eu não gostava muito dele, tinha medo de sua forma estranha e imponente. Tentei até ignorar sua existência, mas alguém sempre fazia o favor de me lembrar de sua presença, e eu sentia um arrepio ao ouvir seus roncos, era assustador vê-lo acordado e pensar que eu deveria fazer algo a respeito. Chegava a me envergonhar de dizer seu nome em voz alta. O passar do tempo só fazia aumentar minha vergonha e a sensação de incapacidade de lidar com algo que era meu, já que me fora dado. E, mesmo que ninguém me dissesse, eu sempre soube da ingratidão dos meus atos.

Aos poucos fui perdendo o medo, me desafiei e nos desafiei a andarmos juntos. Fui aprendendo a apreciar sua companhia. Comecei a sentir um frio gostoso na barriga ao me aproximar dele, pois agora era eu quem estava no controle. Depois de algum tempo passei a apreciar as vantagens de tê-lo: a agilidade, o espaço disponível. Me tornei mais atirada e independente, exatamente como minha mãe previra e falou inúmeras vezes. E hoje, que o sinto como meu, perdi.

Veja bem, ele não me foi tirado, pelo contrário, fui eu quem recuei e me dispus a abrir mão de toda sua praticidade e conforto. Mas, prometermos que é provisório não torna o fato mais fácil de aceitar. Por algum tempo não o terei mais a minha disposição, ele não será meu companheiro e não me ajudará nas tarefas mais simples do cotidiano, como ir ao trabalho ou ao mercado. Tampouco fará parte de meus desafios, acompanhando-me a novos destinos, por trajetos desconhecidos.

Abrir mão de algo que por tanto tempo não me foi necessário me pareceu a atitude mais justa e sensata a ser feita. Crescer não é só aprender a dirigir, é saber a hora de frear também. Hoje, tiro os pés do acelerador e entrego minhas chaves. Não serei mais a prioridade quando ambas precisarmos sair, mas sei que isso não me impede de dar uma voltinha com ele de vez em quando. E, por mais que ele volte, nós já não seremos os mesmos, agora que alguns quilômetros rodados nos afastam. Quem diria, às vezes o caminho nos faz sofrer.

 

 

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Mensagem de Adeus

36. Mensagem de Adeus

 

   Eu gostaria que essa história fosse bonita, poética, como uma carta de despedida. Mas nossa história nunca foi realmente bela e, além disso, são tempos modernos, sabe como é. Terminamos por mensagem mesmo. E quando digo que “terminamos”, quero dizer que eu terminei, e o que você fará a respeito já não me importa mais.

   Levei pouco mais de uma década para compreender algumas coisas e, por isso, sei que não conseguirei traduzi-las nessas poucas palavras. A primeira delas é que você estragou tudo, e eu não consigo esquecer nada do que vivi ou senti ao seu lado, então, minhas lembranças também estragaram qualquer possibilidade de reconciliação. Percebi que você não mudou e que não adianta eu esperar que mude. A novidade foi entender que, ainda que tudo fosse diferente hoje, nós não daríamos certo. Tive que me readaptar, para conviver com uma constante falta em minha vida e, adivinhe só, eu consegui! Mesmo com sua nova aparição, nada mudou, pois já não há mais espaço para você em minha vida, em quem eu sou hoje. Uma pessoa bem melhor, se quer saber minha opinião.

   Veja bem, não quero dizer que não faça falta, pelo contrário, o buraco ainda está lá, mas eu descobri que ele é meu e sempre será, de nada adianta tentar encaixar algo que há muito não cabe mais.

   Aprendi que a gente muda, cresce, amadurece. E o tempo também faz seu trabalho, ele passa. Todo o restante foi se acomodando, a ponto de hoje eu me ver como um quebra-cabeças: falta uma peça, não é difícil perceber, mas a imagem ainda está lá, e você consegue entendê-la só de olhar.

   Queria te contar que aprender a conviver com uma ausência é doloroso. Afinal só pode ser ausente o que já foi presente um dia. Eu sinto falta, e estaria mentindo se dissesse que não gostaria que tudo fosse diferente. Mas a vida, eu e você somos assim: incompletos.

   Eu gostaria muito de ter dito tudo isso pessoalmente, acho que merecíamos um encontro. Mas somos tão diferentes que tive a sensação de que não falávamos mais a mesma língua. Acho que não é fraqueza admitir que eu não dei conta de dizer tudo isso frente a frente, pois acho que você não me entenderia, ou sequer respeitaria.

   Mandei um textão por mensagem mesmo. A resposta frustrou, mas confirmou uma vez mais o quão incompatíveis nós sempre fomos, apesar do mesmo sangue. Por fim, como ser humano maduro que sou, te bloqueei. Mas, pela primeira vez não fiz por não querer mais te ouvir, e sim por saber que já não havia nada mais a ouvir.

   Enrolei tanto para enfrentar este momento, achando que eu tinha medo de você, sem saber que na verdade o medo era de lidar com minhas próprias emoções. Ah! Se eu soubesse a leveza que eu sentiria depois de colocar um ponto final nesse capítulo de minha história. Espero que entenda que não lhe quero mal, apenas não lhe quero mais.

 

 

 

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Para Sempre

10. Para Sempre

Quando você me deixou, achei que eu não fosse aguentar. Nunca imaginei que a vida seria tão diferente sem o som gostoso da sua risada. Ou mesmo que eu sentiria falta do seu bom humor matinal, aquele que às vezes me tirava do sério. Agora, quando acordo, a casa não tem mais aquele cheirinho quente de café, e preciso encarar meu reflexo na tampa do fogão enquanto espero a água aquecer.

Não demoro nem dez minutos para comer uma fatia de pão e deixar a mesa silenciosa para trás. Tenho medo especialmente dos finais de semana, quando a casa parece dar eco, de tão vazia. Na verdade, foi por isso que eu comecei a aceitar os convites para sair, mas deixo o pessoal pensar que estou “seguindo” em frente.

A pior parte é que a maior ilusão do desiludido é acreditar que nunca se deixará iludir novamente. Mas eu sei que não é verdade. Em algum momento, a casa deixará de parecer tão grande, e eu tão sozinho. Já não me importarei mais com o fato de dormir em uma cama enorme e comprarei um abajur ou móvel qualquer para colocar no lugar onde você deixava sua poltrona de leitura, aquela coisa velha e cheia de pelos de gato grudados. Sim, mamãe conseguiu me convencer e a jogamos fora, espero que você não se importe. E quando esse momento chegar – e eu demorarei para me dar conta disso – eu estarei pronto. Começarei a olhar para as garotas na rua novamente, finalmente despertarei interesse por alguma das garotas das extensas listas de amigas solteiras que as pessoas insistem em querer me apresentar.

Mas me interessar por alguém novamente significa que eu terei superado, não que eu acredite que possa um dia te esquecer, ou nos esquecer. Nosso casamento acabou antes de os problemas começarem e, por isso, nunca saberei se éramos realmente perfeitos um para o outro ou apenas se você foi embora antes que eu conseguisse estragar tudo – porque convenhamos, nós dois sabemos que o culpado seria eu. Tenho medo de ficar bem novamente, porque não quero que isso minimize minha perda, não posso falhar com sua memória, e dá até mesmo para senti-la escapando por entre meus dedos quando penso nisso. Cada vez que eu encontro um objeto seu pela casa e jogo dentro do armário, naquela maldita caixa, é como se eu estivesse te empurrando mais para o fundo. Só que não posso nunca deixá-la ir embora. Em mim você ainda vive, exatamente como te prometi no seu último dia. Nosso último dia.

E, quando eu estiver pronto para conhecer outra pessoa, viverei uma fase relutante, num misto de culpa e curiosidade. Até que, quando menos esperar, estarei imerso em uma nova fantasia, achando que dessa vez viverei feliz para sempre. Mas como lidar com a voz na minha cabeça que me lembra que o “para sempre” terá apenas a mesma duração que eu ou ela, o que terminar primeiro.