Publicado em Contos, Textos

Liberdade

Depois que nós terminamos – ou melhor, que ele me deixou – todos os amigos tiveram a sensibilidade de perguntar se eu gostaria de cancelar nossa viagem, mas não seria justo acabar com a diversão do grupo por causa de um problema meu. Nosso. Mais meu, aparentemente. Nunca fui do tipo que gostasse de ser o centro das atenções. Além disso, no fundo, eu tinha esperanças de que até lá nós já tivéssemos nos resolvido e reatado o namoro. 

Minhas expectativas foram frustradas e, dois meses depois, fui passar as férias de verão no sítio que alugamos no interior com os amigos, ele e sua nova namorada, Vanessa. Seriam dias longos e dolorosos, mas eu não podia fraquejar. 

A ideia de acender a fogueira foi dele, o mais empolgado do grupo. Havia um espaço no meio gramado, feito de alvenaria e, o dono da casa autorizou que usássemos um pouco da lenha que havia encostada no muro dos fundos. Então, após um belo dia na piscina, todos tomamos banho, nos arrumamos e fomos jantar fora: cachorro quente no gramado, sob a luz do luar. Diferente da cidade, era possível ver as estrelas no céu, uma noite no campo era um presente para quem estava acostumado a ter apenas prédios como paisagem. 

No interior, as noites eram sempre frias, apesar da alta temperatura durante o dia, então estávamos enrolados em nossas blusas e ansiosos pelo calor do fogo. Os garotos montaram uma pequena estrutura com a lenha e levaram algum tempo até conseguir fazer o fogo pegar, gastando mais da metade da embalagem de álcool no processo. Quando conseguiram, a fogueira ganhou vida em segundos. 

Ficamos todos amontoados em volta, querendo sentir um pouquinho do calor de perto, alguns tirando fotos, outros já tentando improvisar espetos para cozinharmos as salsichas ali mesmo. Logo as conversas paralelas começaram, todos foram se ajeitando em pequenos grupos em volta do calor. E foi então que Mari apareceu com um bloquinho e algumas canetas na mão, sua proposta era fazermos um ritual de libertação, que consistia em cada um escrever em uma folha em branco um problema ou história que gostaria de deixar para trás, era preciso escrever enquanto mentalizava todas as energias negativas sobre aquilo, a ideia, segundo ela, era transferir toda a mágoa e emoções para o papel. Em seguida, dobraríamos nossos pedaços de papel e atiraríamos na fogueira. O fogo terminaria de cumprir o processo de purificação, nos renovando. Ignorando alguns risinhos, Mari disse que aquelas férias mudariam nossas vidas para sempre. 

Alguns reviraram os olhos, Gabriel foi quem mais riu da ideia, mas parou assim que viu sua namorada estendendo a mão para pegar uma caneta. Em pouco tempo todos se contagiaram e acabaram aceitando a brincadeira, afinal não faria mal algum tentar. 

Cada um recebeu uma folha e fomos revezando as canetas, enquanto alguns pensavam e demoravam a se decidir, outros pareciam já saber exatamente do que queriam se livrar. Eu sabia, é claro, só demorei para conseguir escrever no papel. Encarei minha letra trêmula antes de dobrar o papel e atirar ao fogo. Fiquei observando o papel sendo consumido pelas chamas até desaparecer. 

Juntos, queimamos angústias, medos e parte do nosso passado. Depois que todos fizeram, as brincadeiras e conversas paralelas voltaram a acontecer, alguém entrou para buscar mais cerveja e não tocamos mais no assunto. Eu me perguntava se mais alguém sentia um nó na garganta como eu. Ele ria, sem saber que era seu nome que queimava entre as chamas, era dele que eu precisava me purificar. 

Seguimos noite adentro, com comilança, risadas e cantoria. Tínhamos um violão, muitos cantores amadores e um batucador profissional, o suficiente para nos entreter por algumas horas. Aos poucos, cada um foi entrando ou arrumando um canto no grande quintal para se deitar e observar as estrelas, alguns novos casais se formaram. Eu me deitei perto de Mari e ficamos conversando sobre algumas árvores que víramos mais cedo no terreno: pé de manga, jabuticaba e até um pequeno milharal. Combinamos de colher algumas frutas no dia seguinte. 

A conversa me distraiu o suficiente para perder os dois de vista e, quando fui me deitar, não os vi em canto algum. Fiquei parada em frente à fogueira, que já diminuíra consideravelmente, mas ainda irradiava calor. Assisti à dança das chamas, que consumiam a madeira, me sentia hipnotizada por aquela imagem, a energia daquele calor. Balancei a cabeça e ri, me sentindo boba por ter deixado todo aquele papo de energia me contagiar. 

Fui até o quarto que estava dividindo com outras meninas, peguei minha necessaire e pijama dentro mala e segui até o banheiro. O cheiro de fumaça estava impregnado em meu cabelo, mas tive preguiça de tomar outro banho, então só escovei os dentes e me troquei antes de voltar para o quarto deitar em uma das camas duras e desconfortáveis que tínhamos a nosso dispor. O travesseiro era bem baixo, de tão velho e surrado que estava, ao que tudo indicava, a noite seria longa.  

Eu simplesmente não conseguia dormir. Me virei de um lado para o outro na cama, contei as peças de azulejo na parede, olhei cada mancha no teto e encontrei uma pequena teia de aranha na quina. Ouvia, com inveja, uma respiração alta na cama ao lado. Ouvi quando mais alguém entrou no quarto e se deitou. E nada, meus olhos simplesmente não se fechavam. Não conseguia parar de pensar nele e em nós. Talvez fosse parte do processo, talvez eu precisasse lembrar de tudo primeiro, mais uma vez, para então conseguir esquecê-lo, para então deixar nossa história ir embora junto com as cinzas. Sentia calor, depois frio, e não conseguia encontrar uma posição confortável, meu estômago doía, revirando o jantar lá dentro. Não sei se tive febre, mas sentia minhas mãos frias, suando. 

Acho que finalmente adormeci, ou só fechei os olhos por um instante, não saberia dizer, mas abri-os novamente quando senti um cheiro forte de queimado entrando em minhas narinas, não é possível que tudo aquilo viesse do meu cabelo. Olhei pelas frestas da janela e vi a fumaça começando a entrar. Sentei-me na cama, olhando mais atentamente. 

“Fogo!”, gritei, e saí correndo para acender a luz, acordando todas as meninas em meu quarto. Acho que não conseguiria descrever os momentos que vieram em seguida, porque mal me lembro de algo que faça sentido. Ouvimos gritos, todos saíram correndo, batendo em outras portas, tentando alertar a todos, alguns lembraram de arrastar malas para fora, outros, como eu, saíram só com o pijama no corpo. Tropecei em meus próprios pés no caminho para fora e alguém me ajudou a levantar. Saímos correndo. 

Alguém ligou para os bombeiros, mas eles demoraram a aparecer, afinal, estávamos isolados no meio do mato. Assistimos a casa pegar fogo, as chamas lambiam as paredes e labaredas levantavam alto, cuspindo telhas para cima, estalos de madeira eram a trilha sonora de nossos gritos por socorro. Havia muita fumaça, senti dor em meu peito e comecei a tossir, os olhos lacrimejavam e aquele terror parecia não ter fim.

Mas então o resgate chegou e nos levaram embora dentro de alguns carros, deixando uma equipe para trás, tentando apagar a grande fogueira que virara a casa. Passamos as horas seguintes recebendo atendimento e sendo interrogados. Parece que alguém não percebeu que a fogueira continuou acesa e a brasa caiu na grama, espalhando o fogo, que logo tomou conta do lugar. Talvez o excesso de álcool usado no acendimento também fosse culpado. 

Demorei para perceber que Gabriel e Vanessa não estavam conosco, quando notei, olhei para Mari, desesperada, mas ela não entendeu. Pouco depois veio a notícia que nos confirmou: o casal ficou para trás, morreram trancados no quarto. Na correria ninguém notou que eles não estavam lá, e os bombeiros não sabem se eles permaneceram dormindo ou se tentaram sair, mas não conseguiram. Seus corpos foram encontrados ainda na cama. 

De manhã, fomos levados de volta à casa, que já nem podia mais ser chamada assim. Avistamos os destroços, conseguimos recolher alguns poucos pertences e ficamos todos paralisados, observando o que restara de nossas férias. Eu ainda vestia pijama e chinelos, nem meu celular estava comigo, não sobrara nada meu ali. 

Olhei para o gramado e vi o local onde a fogueira começara. De longe, avistei o pequeno pedaço de papel perfeitamente dobrado em meio às cinzas. Caminhei até lá, sem que ninguém notasse minha ausência, abaixei e peguei o papel, ainda quente, e guardei no bolso. Eu não precisava abrir para saber o que estava escrito ali, eu sentia dentro de mim, finalmente estava livre.

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