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Amarelo

Aquela tinha tudo para ser uma manhã como outra qualquer, mais um dia presa na mesma rotina. Mas então tudo mudou e mal sabia ela como desejaria voltar a sua habitual monotonia. 

Marisa acordou, como sempre, sofrendo com o som do despertador que invadia seus ouvidos, acabando com o silêncio do quarto. Ainda sem abrir os olhos, tornou-se consciente de todos os barulhos a sua volta, do som de carros passando lá fora ao tic-tac do velho relógio de parede. A respiração pesada de Toby inundou o cômodo, era bom saber que alguém ainda dormia. Um beagle gordo de meia idade que lhe fazia companhia, aliás, sua única companhia desde que o casamento terminara. 

Finalmente se rendeu, abrindo os olhos e se ajeitando para alcançar as pantufas. Esbarrou na caminha de Toby no caminho até o banheiro, provocando alguns resmungos abafados. 

Sentia como se nada funcionasse antes de beber seu sagrado primeiro gole de café. Então desceu e foi direto para a cozinha, parando apenas para abrir a porta dos fundos que dava para o pequeno quintal, assim Toby poderia usar seu banheiro também. Pegou, mecanicamente, o pó de café e o coador, contando em voz alta as colheradas, para, em seguida, levar à cafeteira, onde a mágica acontecia praticamente sozinha. 

Enquanto colocava sua solitária xícara de porcelana na mesa, começou a ouvir os latidos do cão lá embaixo. Seguiu até a escada, tentando entender o que acontecia, como não conseguiu detectar qualquer anormalidade, desceu. Assim que chegou no último degrau viu que dois de seus vasos estavam caídos no chão, provavelmente efeito do vento da madrugada. Havia terra espalhada pelo quintal e pedaços das plantas que haviam se despedaçado com a queda. Toby pisou na terra, sujando tudo ainda mais. 

Bufou, irritada, pensando que precisaria limpar as patas do cachorro antes de deixá-lo entrar em casa novamente. Só então reparou que ele estava encostado na porta que dava acesso à garagem, farejando com força pelo estreito vão até o chão. Ele se movia de um lado ao outro, tentando achar uma posição, como se quisesse passar por baixo da porta, tamanha era sua urgência. Seu bumbum empinado e os pelos eriçados indicavam uma posição de ataque. 

Foi quando se deu conta de que havia algo errado. Talvez o assassinato de suas plantas não fosse obra do vento, mas sim de algum animal noturno que tivesse se esgueirado pelo quintal durante a madrugada. Sentiu um arrepio percorrendo suas costas ao imaginar que pudesse estar dividindo sua casa com um hóspede indesejado: um rato. Afinal, Toby nunca reagira daquela maneira.  

Ela afastou o cachorro da porta, com alguma dificuldade, e abriu apenas o suficiente para conseguir entrar, deixando-o latindo furiosamente do outro lado. Acendeu a luz e pegou a primeira coisa que localizou e que poderia ajudá-la a se defender da criatura, caso houvesse alguma: um guarda-chuva que fora esquecido atrás da porta. 

Foi andando pela garagem, tentando observar qualquer movimentação estranha ou o que quer que estivesse fora do lugar. Havia uma pilha de caixas em um canto, coisas de sua filha, que saíra de casa há quase um ano, mas ainda não havia terminado de levar seus pertences, com a desculpa de que o novo apartamento era muito pequeno. Foi ela quem quis se mudar, não foi, pensou com irritação. Ela detestava aquelas caixas e o lembrete diário de sua solidão. 

Se houvesse algum animal escondido na garagem, só podia estar ali, naquele amontoado de papelão e lembranças. Tomou coragem para se aproximar, empunhando o guarda-chuva, ela apertava tanto a mão em volta do cabo que logo os nós de seus dedos ficaram doloridos. Usou-o para afastar as duas caixas que estavam à frente e deu um pulo para trás ao se deparar com um par de olhos amarelos e estreitos lhe encarando. 

A criatura não piscava ou mesmo se mexia, porém, seus olhos eram uma das coisas mais vivas que Marisa já vira. Não havia dúvidas quanto a isso. Deixando escapar um grito, deu alguns passos para trás, mantendo o guarda-chuva ainda a sua frente e parou para observar. Sentia-se hipnotizada por aquele par de olhos, mas, aos poucos, foi percebendo o rosto e finalmente o corpo do animal, completamente revestidos de um pelo negro brilhante. Era grande demais para ser um rato. Pequeno demais para ser um cão. 

Viu o rabo se mexer e deu mais um passo para trás, se assustando quando suas costas encontraram a parede fria de gesso. Não havia mais para onde recuar. Toby, que parecia ser capaz de sentir seu medo, voltou a latir do outro lado da porta. A criatura ficou com os pelos eriçados, soltou um ruído e desviou seu olhar amarelento para a porta. Um olhar que parecia humano, de tão concentrado. 

Se não era um rato, aquela coisa devia ser um gato. E ela odiava gatos, seu cheiro nauseante, o excesso de pelos, a língua áspera e asquerosa, além daquelas pupilas estreitas e horripilantes. 

Marisa bateu com a ponta do guarda-chuva no chão, tentando espantá-lo, mas a criatura não mexia nada além do olhar, que vagueava atento por todo o cômodo. Ela não sabia como ele tinha entrado ali, ou mesmo há quanto tempo estava em sua casa. Esse último pensamento a fez estremecer. 

Saiu novamente da garagem, encontrando um Toby irritadiço que a cheirava com força, quase como acusando-a de uma traição. “Eu sei, também não o quero aqui”, respondeu a seus protestos. Pegou uma vassoura e preparou-se para voltar, desviando do cão novamente. 

Bateu a vassoura no chão, acendeu as luzes e gritou, tudo para tentar assustá-lo. Impassível, o gato virou de costas, se embrenhando ainda mais entre as caixas, deixando apenas o volumoso rabo à mostra. Assim ele se parecia ainda mais com um rato imundo. 

Tentou se aproximar, mas não conseguia, sua pele se arrepiava só de pensar em precisar tocá-lo. É claro que ela não queria machucá-lo, só precisava tirá-lo dali. Ele precisava ir embora. Conseguiu, com muito esforço, chegar perto o suficiente para enxotá-lo com a vassoura. Tentou empurrar seu pequeno traseiro, mas não conseguiu nada além de um forte miado. O som entrou e ficou ecoando em sua cabeça. Toby intensificou os latidos, em sua defesa. 

Nervosa, sentia as gotas de suor escorrendo por dentro de sua blusa, saiu novamente da garagem, subiu e alcançou o celular que ficara em cima da mesa. Pensou em ligar para sua vizinha, talvez ela não se importasse em ajudá-la, mas, automaticamente, ligou para ele

Uma voz ainda cheia de sono lhe respondeu no terceiro toque. Ela se enrolou nas palavras, sentindo um misto de vergonha e arrependimento quando ele pediu que se acalmasse e explicasse o que estava acontecendo. Se era urgente? Claro que sim! Respirou fundo e contou, dessa vez devagar, que havia um gato enorme preso em sua garagem. Ele não fez nada além de rir, disse sentir pena do gato e pediu que ela se acalmasse, pois o pobre bichinho era, com certeza, o mais assustado dos dois.  

Desligou o telefone humilhada e com duas sugestões: a primeira era borrifar um pouquinho de água nele, pois gatos não gostavam de se molhar e, a segunda, era deixar o portão aberto para que ele fosse embora sozinho. Que grande ajuda. 

O animal era rápido, saiu correndo pela garagem assim que ela borrifou água no meio das caixas de papelão. Deu uma volta completa e então foi se esconder debaixo do carro. Sua corrida de um esconderijo a outro fora tão eficiente que Marisa continuava no escuro, sem saber se era macho ou fêmea, se ainda era um filhote, ou mesmo se estava ferido. Pelo tamanho – enorme – não parecia ser um filhote, mas parecia bastante magro. 

Ela também sentia pena do bichinho, sabia que ele estava perdido e assustado, mas era mais forte do que ela, simplesmente não podia se agachar e tirá-lo dali. Ela queria ajudá-lo a sair da casa para que reencontrasse seu caminho, mas não conseguia. Torceu para que ele não estivesse ferido, não queria lidar com a culpa de tirar um cadáver de sua garagem. 

Tentou se acalmar para seguir a segunda dica do ex-marido. Subiu e tomou seu café, apesar de não sentir o gosto da comida em sua boca. Tomou banho e se arrumou com os pensamentos ainda presos ao bichano. Cuidou de Toby preferiu deixá-lo trancado dentro de casa. 

Ele ainda estava embaixo do carro quando ela voltou para a garagem. Agora ronronava, provocando-a. O som era lento e arrastado, como um motor velho. Ela apertou as chaves na mão e clicou no botão do alarme, destravando o carro. O animal teve um leve sobressalto com o barulho e as luzes que piscaram no automóvel, porém voltou a se acomodar. 

Marisa sabia que poderia acabar com aquilo de maneira fácil, bastava ligar o carro, e ninguém saberia. Apenas ela saberia, pelo resto de sua vida, tanto quanto sabia que jamais teria coragem de fazer mal a um ser vivo. 

Irritada, pegou novamente o guarda-chuva e deu pancadas na lateral do carro, obrigando-o a sair. Encolheu-se toda enquanto a criatura fazia seu caminho de volta ao ninho, notou que ele já parecia íntimo da montanha de caixas. Deixou a porta aberta, na expectativa de que ele aproveitasse a casa escura e silenciosa para sair pelos fundos, da mesma forma como devia ter entrado.

*

Desnecessário dizer que quase não conseguiu trabalhar naquele dia. Não conseguia prestar atenção no que as pessoas falavam com ela, não reparava em quem lhe dirigia a atenção e cometeu erros mais de uma vez, algo pouco comum. Seu chefe ficou irritado ao receber uma planilha repleta de erros de digitação. Ela se desculpou, dizendo que não dormira bem e estava tendo problemas em casa. Ele sabia do divórcio, é claro. 

No almoço, a comida não descia pela garganta, que parecia arranhada. Largou a marmita pela metade e foi para área de descanso, mas havia um rapaz cochilando sentado em uma cadeira, e ela podia jurar que sua respiração era semelhante à daquele que lhe aguardava em casa. Já começava a sentir-se perseguida. 

A dificuldade para se concentrar acompanhou-a pelo resto do dia e, até chegar em casa, já se sentia exausta. Estacionou em frente ao portão, fechou os olhos e afundou as unhas no volante, com as mãos trêmulas. Apertou um botão no pequeno controle, abrindo o portão automático. Em vão, estreitou os olhos, tentando enxergar no escuro: nada. Manobrou o carro, entrando de ré na garagem. A câmera traseira lhe ajudou a estacionar, porém pouco revelou sobre o indesejado visitante. Talvez ele tivesse ido embora, afinal!

Assim que desceu do carro e bateu a porta, o leve ronronar voltou a ecoar em sua cabeça. Ali, no meio das caixas ainda jaziam os olhos amarelados. Praguejou mentalmente, se perguntando se o bicho não tinha fome. 

Sentiu-se culpada, no entanto, ao se dar conta de que o animal sequer bebera água o dia todo. A contra gosto, subiu, recebeu a festa de Toby, que ficava sempre muito feliz com sua chegada, e foi em direção à pia. Usou um pote velho para encher de água e desceu novamente, equilibrando o líquido em suas mãos e desviando do cachorro que, ainda animado, pulava à sua volta. Na porta da garagem, ele voltou a farejar, se abaixando e empinando o rabo, os pelos traseiros se eriçaram de raiva enquanto ele latia. 

Com dificuldade, afastou-o da porta para poder entrar. Mesmo tendo perdido quase metade da água no caminho, ainda havia o suficiente para que deixasse o pote no chão. Não conseguiu colocar perto dele, não conseguiria se abaixar e muito menos tocá-lo. Então apenas encostou o pote na parede mais próxima e saiu em passos rápidos, sem olhar para trás. 

Pensou em lhe dar leite, ou então um pouco de atum, sabia que ainda havia uma latinha de conserva no fundo do armário, mas teve medo de que, se ele gostasse, poderia querer voltar por mais. Ela não podia se arriscar. 

No banho, passou uns bons minutos debaixo da água, esfregando o corpo, sentia-se mais suja do que o comum naquele dia. Vasculhava seu corpo à procura de pelos ou qualquer cheiro que lembrasse o animal. Mesmo ali, com o barulho da água e a sensação quente em sua pele, se fechasse os olhos, parecia ouvir seu ronronar ecoando pelas paredes. 

Ligou para a casa da vizinha da frente, mas a chamada se esgotou antes que alguém atendesse. Olhou pela janela e viu que a casa estava toda apagada. Sem saber a quem recorrer, entendeu sua sina: seria obrigada a passar a noite com aquele ser asqueroso em sua casa. Prendeu Toby dentro de casa e deixou a porta que separava a garagem do quintal aberta, na expectativa de que durante a noite o animal fizesse seu percurso de volta e sumisse da mesma forma como havia aparecido. 

Deitada na cama, não conseguia fechar os olhos sem ver o olhar amarelo a sua frente. Sentiu-se ridícula por levantar e acender a luz do corredor. Mas naquela noite não conseguiria dormir no breu. Em silêncio, ouvia as batidas do relógio e o estalar da geladeira no andar de baixo, até que de repente, começou a escutar também o mesmo som de motor velho que lhe perseguira durante todo o dia, era como se ele estivesse rindo dela. 

Sentia-se fraca, impotente, não sabia como podia lidar com tantas coisas sozinha e, ainda assim, ficar sem ação diante de algo tão insignificante. Era vergonhoso! Mas o embaraço não era tão grande quanto o asco que sentia só de pensar em tocá-lo. Tentou imaginar sua mão nos pelos ensebados do animal e não conseguiu. Porém, virou refém das imagens que invadiram sua mente: sabia que o gato ainda estava lá, provavelmente lambendo o próprio corpo com a língua áspera e sujando toda sua casa de pelos negros. O ronronar ficou mais alto e ela se encolheu na cama, apertando as cobertas em torno do corpo. Olhou para os lados, mesmo sabendo que não havia nada ali. Ele estava longe, tinha de estar. Ela conferira três vezes se a porta da cozinha estava trancada à chave. E sabia também que nenhuma janela ficara aberta.  

Olhou para Toby, que respirava fundo, em um sono pesado, encolhido em sua caminha. Fechou os olhos novamente, sentindo-os pesados, e teve ainda mais um vislumbre dos olhos amarelos antes de finalmente conseguir adormecer. 

*

Agradecida pela chegada da manhã, escovou os dentes com pressa, olhando pela janela, como se esperasse encontrar o animal parado no meio da rua. Nada. Calçou as pantufas e desceu direto para a garagem. Toby estranhou a quebra do ritual matinal de sua dona, resmungou por não poder descer e fazer xixi perto do ralo, como sempre. 

Ela seguiu até a garagem e nem precisou acender a luz para encontrá-lo lá. Paralisado na mesma posição, com o olhar fixo nela. Ele vencera e os dois sabiam disso. Sentiu seus olhos arderem de raiva e segurou as lágrimas que tentavam cair. Secou uma solitária, virando-se de costas para que ele não a visse. 

Sua primeira atitude foi ligar novamente para o ex. Ele gargalhou ao telefone e ela podia imaginá-lo jogando o pescoço para trás ao balançar a cabeça, como fazia quando achava graça em algo.

Cerca de uma hora depois, ela desceu para lhe abrir a porta. Se trocara, vestindo uma blusa nova e calças jeans, tentando parecer casual, mas não casual demais. Aquilo não era um encontro, afinal. Difícil dizer quem estava mais empolgado com sua chegada, Toby ou ela. 

Ofereceu-lhe uma xícara de café e então desceram para fazer o que precisava ser feito. Ela deixou que ele fosse na frente, algo que ele notou com humor. Porém, ao chegar na garagem, ele acendeu a luz, se agachou, chamou, e nada, não havia nenhum sinal do felino. 

“Mas ele estava aí, eu juro!” disse e lhe contou sobre como seguira em vão suas dicas, molhando as caixas e deixando a casa aberta. Contou como ele havia arranhado o papelão e sem parar de encará-la o dia todo. O ex-marido, cético, apenas balançou a cabeça, dizendo que não havia nada ali, nenhum arranhão ou marca nas caixas intactas da filha, nenhum pelo para contar história. 

Ele lhe encarou, olhando no fundo de seus olhos, e perguntou se ela tinha mesmo certeza do que estava dizendo. Seu olhar a feriu mais do que um dia inteiro sendo encarada pelas pupilas estreitas do animal. Para evitar maiores constrangimentos, ele disse, brincando, que o animal devia ter finalmente se cansado dela e encontrado a saída da casa. 

Na hora de ir embora, pediu que ela não lhe ligasse a menos que houvesse uma emergência de verdade, pois ele andava bastante ocupado com o trabalho e não tinha tempo a perder. Além do quê, já era hora dela se virar sozinha, fazia quase seis meses que ele saíra de casa. Virou as costas, entrou em seu carro e saiu, sem olhar para trás.

Marisa sentia-se humilhada. Derrotada, outra vez. 

Entrou, levou a louça até a pia, tentando se concentrar nas tarefas domésticas, para manter a mente ocupada. Foi então que ouviu um ronco, mais um e mais outro. O velho motor foi ganhando vida novamente, primeiro baixinho, porém aumentando gradativamente. Desceu, afobada, as escadas, com Toby em seu encalço. Entrou na garagem e foi correndo até as caixas, afastou uma após a outra, até enxergar a parede ao fundo. Nada. O barulho ficou mais alto, mais perto de suas pernas, então se virou para trás e a última coisa que viu foi o amarelo vivo. 

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Janela

Da janela do meu apartamento vejo seu escritório. Eu estudo e ele trabalha. Quando estou me levantando, ele já está batendo ponto. Tem dias que chego em casa e sua janela ainda está acesa. Vejo-o assistindo reuniões, falando no celular e teclando furiosamente em seu computador. Sei a hora em que seu almoço chega, quase sempre pedido do restaurante da rua detrás, com exceção das quintas, quando ele sai para almoçar fora. Uma hora inteira sem vê-lo. 

Acompanho sua rotina enquanto ele nem sabe que faz parte da minha. Por mais de uma vez já me guiei por seus horários. Mesmo sem saber quem ele é, ou por quê está lá, é reconfortante ter a certeza de que estará, me sinto menos solitária em sua companhia. 

Levantei-me da mesa, ainda com a caneca em mãos e fui até a janela, afastei as cortinas e lá estava ele em minha paisagem diária. Abri a porta, saindo para a sacada e fiquei observando-o digitar enquanto a fumaça do café subia em espirais e o cheiro me esquentava por dentro.  

Terminei a bebida e entrei novamente, acrescentando a caneca à louça já acumulada na pia, e corri para o banho, pois já estava atrasada. Consegui passar boa parte do dia sem pensar nele, as aulas da manhã foram cheias, usei o intervalo para terminar um trabalho que seria entregue no último período e perdi valiosos minutos na fila da impressão. 

Almocei com uma colega, falamos sobre quase todas as pessoas de nossa turma e então fui embora. Apenas na volta, já perto de casa, foi que ele invadiu meus pensamentos. Será que ainda estava no escritório? 

Com o tempo, fui pegando um hábito estranho: eu gostava de imaginá-lo nas mais diferentes situações. Era como um personagem que habitava meu imaginário e eu adorava jogá-lo diante de um cenário para ver como ele se virava. Em geral tínhamos as mesmas opiniões, apesar de eu discordar de sua conduta por uma ou duas vezes. 

Cheguei em casa, cumprimentei o porteiro e parei para pegar uma encomenda: meus hidratantes novos finalmente haviam chegado. Assinei meu nome no já surrado caderninho da portaria, logo acima da dona Odete, que recebeu seu pedido da farmácia. Me despedi e segui até o elevador, que estava parado na garagem, no segundo subsolo, e lá ficou por longos três minutos. 

Fiquei encarando meu reflexo na porta do elevador, até que ela se abrisse. Entrei, quase em piloto automático, falando um “boa noite” sem nem olhar para meu companheiro de subida. Meus olhos miravam o painel de botões que indicava os andares. Apertei o meu e me posicionei, de costas para a porta. Só quando ela se fechou, olhei para frente e o vi pelo espelho. Ali estava meu amigo sem nome, dessa vez de pé, de perto, com cheiro de loção pós-barba e até mesmo com voz, afinal, ele murmurou algo em resposta. 

Antes que eu conseguisse pensar em qualquer coisa para dizer, o elevador parou um andar abaixo do meu e ele desceu, ajeitando a mochila nas costas. Tentei ter um vislumbre de sua casa, mas no momento em que ele abria a porta, a do elevador se fechava. 

Saltei do elevador quando as portas abriram novamente. Entrei rápido e fui correndo até a sacada. As luzes do escritório estavam apagadas, tudo escuro e sem vida lá dentro. Cheguei bem perto da grade, apoiando a cabeça na tela de proteção e olhei para baixo: luz, som de risadas, cheirinho de comida. 

Me afastei, voltando para dentro e desabando no sofá. Eu nunca o imaginei tão perto antes. Não sabia o que fazer, agora tudo parecia diferente, eu podia espiar uma pessoa estranha em seu escritório, mas não devia fazer isso com um vizinho, certo? O que ele faria em meu lugar?

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Dia dos Pais

Minha mãe perdeu o pai quando era bem jovem. Meu pai nunca conheceu o pai. E eu tenho, mas não tenho, pai. É complicado, vou tentar te explicar…  

Eu tenho, porque moramos juntos até meus treze anos. Mas ele não sabia qual era minha matéria favorita na escola, como eram minhas notas ou o que eu gostaria de fazer quando crescesse. 

Quando ele e minha mãe se separaram houve muita briga. Ele se afastou, roubou parte do patrimônio que construíram juntos e não pareceu se importar com o que tirou de mim e do meu irmão. Ele só nos levou para sair duas vezes, achava que nos ver em seu trabalho já era suficiente. Bem, não era. Também não pagou pensão, e ainda tentou me chantagear com esse dinheiro. Parando para pensar, acho que para ele tudo sempre girava em torno de dinheiro. 

Hoje, que sou mulher e adulta, fico ainda mais indignada com um homem que não assume a paternidade, não paga pensão e não se responsabiliza pelos filhos. Entrei para as estatísticas de brasileiros que foram criados apenas pela mãe. Essa sim sempre esteve ao meu lado.

Eu não tenho pai há pouco mais de dez anos. Em meio a uma briga, uma daquelas frequentes e pavorosas, eu me cansei. Cansei de ser o pombo correio entre o ex-casal, cansei das mentiras que ele contava e cansei de descobrir seus golpes. Sim, porque era exatamente isso que ele fazia. Tomei, por impulso, a sábia decisão de me afastar. 

E então cresci sem pai. Aprendi a conviver com uma falta que jamais será preenchida. Demorei alguns anos para conseguir lidar com o que sentia e largar uma culpa que não me pertencia. Tirei um peso enorme das costas no dia em que percebi que estava tudo bem não amá-lo, e que isso não fazia de mim nenhum monstro. “A gente não precisa amar quem machuca a gente”, repete comigo, repete quantas vezes precisar até você conseguir sentir. Foi assim que eu fiz. Demorou. 

Eu não sou mais criança para precisar aceitar seu comportamento sem poder reagir, tampouco sou inocente para lhe dar um título que ele nunca fez questão de usar. Aos poucos me refiz. Desde então, esse dia voltou a ser mais leve, porque aprendi a me virar sem ele, todos os dias.

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Liberdade

Depois que nós terminamos – ou melhor, que ele me deixou – todos os amigos tiveram a sensibilidade de perguntar se eu gostaria de cancelar nossa viagem, mas não seria justo acabar com a diversão do grupo por causa de um problema meu. Nosso. Mais meu, aparentemente. Nunca fui do tipo que gostasse de ser o centro das atenções. Além disso, no fundo, eu tinha esperanças de que até lá nós já tivéssemos nos resolvido e reatado o namoro. 

Minhas expectativas foram frustradas e, dois meses depois, fui passar as férias de verão no sítio que alugamos no interior com os amigos, ele e sua nova namorada, Vanessa. Seriam dias longos e dolorosos, mas eu não podia fraquejar. 

A ideia de acender a fogueira foi dele, o mais empolgado do grupo. Havia um espaço no meio gramado, feito de alvenaria e, o dono da casa autorizou que usássemos um pouco da lenha que havia encostada no muro dos fundos. Então, após um belo dia na piscina, todos tomamos banho, nos arrumamos e fomos jantar fora: cachorro quente no gramado, sob a luz do luar. Diferente da cidade, era possível ver as estrelas no céu, uma noite no campo era um presente para quem estava acostumado a ter apenas prédios como paisagem. 

No interior, as noites eram sempre frias, apesar da alta temperatura durante o dia, então estávamos enrolados em nossas blusas e ansiosos pelo calor do fogo. Os garotos montaram uma pequena estrutura com a lenha e levaram algum tempo até conseguir fazer o fogo pegar, gastando mais da metade da embalagem de álcool no processo. Quando conseguiram, a fogueira ganhou vida em segundos. 

Ficamos todos amontoados em volta, querendo sentir um pouquinho do calor de perto, alguns tirando fotos, outros já tentando improvisar espetos para cozinharmos as salsichas ali mesmo. Logo as conversas paralelas começaram, todos foram se ajeitando em pequenos grupos em volta do calor. E foi então que Mari apareceu com um bloquinho e algumas canetas na mão, sua proposta era fazermos um ritual de libertação, que consistia em cada um escrever em uma folha em branco um problema ou história que gostaria de deixar para trás, era preciso escrever enquanto mentalizava todas as energias negativas sobre aquilo, a ideia, segundo ela, era transferir toda a mágoa e emoções para o papel. Em seguida, dobraríamos nossos pedaços de papel e atiraríamos na fogueira. O fogo terminaria de cumprir o processo de purificação, nos renovando. Ignorando alguns risinhos, Mari disse que aquelas férias mudariam nossas vidas para sempre. 

Alguns reviraram os olhos, Gabriel foi quem mais riu da ideia, mas parou assim que viu sua namorada estendendo a mão para pegar uma caneta. Em pouco tempo todos se contagiaram e acabaram aceitando a brincadeira, afinal não faria mal algum tentar. 

Cada um recebeu uma folha e fomos revezando as canetas, enquanto alguns pensavam e demoravam a se decidir, outros pareciam já saber exatamente do que queriam se livrar. Eu sabia, é claro, só demorei para conseguir escrever no papel. Encarei minha letra trêmula antes de dobrar o papel e atirar ao fogo. Fiquei observando o papel sendo consumido pelas chamas até desaparecer. 

Juntos, queimamos angústias, medos e parte do nosso passado. Depois que todos fizeram, as brincadeiras e conversas paralelas voltaram a acontecer, alguém entrou para buscar mais cerveja e não tocamos mais no assunto. Eu me perguntava se mais alguém sentia um nó na garganta como eu. Ele ria, sem saber que era seu nome que queimava entre as chamas, era dele que eu precisava me purificar. 

Seguimos noite adentro, com comilança, risadas e cantoria. Tínhamos um violão, muitos cantores amadores e um batucador profissional, o suficiente para nos entreter por algumas horas. Aos poucos, cada um foi entrando ou arrumando um canto no grande quintal para se deitar e observar as estrelas, alguns novos casais se formaram. Eu me deitei perto de Mari e ficamos conversando sobre algumas árvores que víramos mais cedo no terreno: pé de manga, jabuticaba e até um pequeno milharal. Combinamos de colher algumas frutas no dia seguinte. 

A conversa me distraiu o suficiente para perder os dois de vista e, quando fui me deitar, não os vi em canto algum. Fiquei parada em frente à fogueira, que já diminuíra consideravelmente, mas ainda irradiava calor. Assisti à dança das chamas, que consumiam a madeira, me sentia hipnotizada por aquela imagem, a energia daquele calor. Balancei a cabeça e ri, me sentindo boba por ter deixado todo aquele papo de energia me contagiar. 

Fui até o quarto que estava dividindo com outras meninas, peguei minha necessaire e pijama dentro mala e segui até o banheiro. O cheiro de fumaça estava impregnado em meu cabelo, mas tive preguiça de tomar outro banho, então só escovei os dentes e me troquei antes de voltar para o quarto deitar em uma das camas duras e desconfortáveis que tínhamos a nosso dispor. O travesseiro era bem baixo, de tão velho e surrado que estava, ao que tudo indicava, a noite seria longa.  

Eu simplesmente não conseguia dormir. Me virei de um lado para o outro na cama, contei as peças de azulejo na parede, olhei cada mancha no teto e encontrei uma pequena teia de aranha na quina. Ouvia, com inveja, uma respiração alta na cama ao lado. Ouvi quando mais alguém entrou no quarto e se deitou. E nada, meus olhos simplesmente não se fechavam. Não conseguia parar de pensar nele e em nós. Talvez fosse parte do processo, talvez eu precisasse lembrar de tudo primeiro, mais uma vez, para então conseguir esquecê-lo, para então deixar nossa história ir embora junto com as cinzas. Sentia calor, depois frio, e não conseguia encontrar uma posição confortável, meu estômago doía, revirando o jantar lá dentro. Não sei se tive febre, mas sentia minhas mãos frias, suando. 

Acho que finalmente adormeci, ou só fechei os olhos por um instante, não saberia dizer, mas abri-os novamente quando senti um cheiro forte de queimado entrando em minhas narinas, não é possível que tudo aquilo viesse do meu cabelo. Olhei pelas frestas da janela e vi a fumaça começando a entrar. Sentei-me na cama, olhando mais atentamente. 

“Fogo!”, gritei, e saí correndo para acender a luz, acordando todas as meninas em meu quarto. Acho que não conseguiria descrever os momentos que vieram em seguida, porque mal me lembro de algo que faça sentido. Ouvimos gritos, todos saíram correndo, batendo em outras portas, tentando alertar a todos, alguns lembraram de arrastar malas para fora, outros, como eu, saíram só com o pijama no corpo. Tropecei em meus próprios pés no caminho para fora e alguém me ajudou a levantar. Saímos correndo. 

Alguém ligou para os bombeiros, mas eles demoraram a aparecer, afinal, estávamos isolados no meio do mato. Assistimos a casa pegar fogo, as chamas lambiam as paredes e labaredas levantavam alto, cuspindo telhas para cima, estalos de madeira eram a trilha sonora de nossos gritos por socorro. Havia muita fumaça, senti dor em meu peito e comecei a tossir, os olhos lacrimejavam e aquele terror parecia não ter fim.

Mas então o resgate chegou e nos levaram embora dentro de alguns carros, deixando uma equipe para trás, tentando apagar a grande fogueira que virara a casa. Passamos as horas seguintes recebendo atendimento e sendo interrogados. Parece que alguém não percebeu que a fogueira continuou acesa e a brasa caiu na grama, espalhando o fogo, que logo tomou conta do lugar. Talvez o excesso de álcool usado no acendimento também fosse culpado. 

Demorei para perceber que Gabriel e Vanessa não estavam conosco, quando notei, olhei para Mari, desesperada, mas ela não entendeu. Pouco depois veio a notícia que nos confirmou: o casal ficou para trás, morreram trancados no quarto. Na correria ninguém notou que eles não estavam lá, e os bombeiros não sabem se eles permaneceram dormindo ou se tentaram sair, mas não conseguiram. Seus corpos foram encontrados ainda na cama. 

De manhã, fomos levados de volta à casa, que já nem podia mais ser chamada assim. Avistamos os destroços, conseguimos recolher alguns poucos pertences e ficamos todos paralisados, observando o que restara de nossas férias. Eu ainda vestia pijama e chinelos, nem meu celular estava comigo, não sobrara nada meu ali. 

Olhei para o gramado e vi o local onde a fogueira começara. De longe, avistei o pequeno pedaço de papel perfeitamente dobrado em meio às cinzas. Caminhei até lá, sem que ninguém notasse minha ausência, abaixei e peguei o papel, ainda quente, e guardei no bolso. Eu não precisava abrir para saber o que estava escrito ali, eu sentia dentro de mim, finalmente estava livre.

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Ensino à Distância

Me inscrevi em um curso de extensão no início do ano. Acredito que de vez em quando é bom sair da própria bolha e olhar para fora, apreender novas técnicas, descobrir as soluções que outras pessoas e empresas estão usando. As aulas começaram em março, logo após o carnaval.

Passei por um processo já conhecido, mas que ainda foi capaz de causar frio na barriga: programar o despertador e dormir mal à noite, achando que perderia a hora, conhecer um caminho novo, descobrir o andar e a sala, entrar na tal sala já cheia de pessoas. Apresentação da turma e do professor, conteúdo programático e, mais nervoso ainda, na hora de fazer a apresentação pessoal. Nunca tenho certeza sobre o que falar sobre mim… Como fazer um recorte rápido que me resuma, sem parecer esnobe, tampouco simplória? Como parecer interessante em meio a tantos estranhos?

Gaguejei, me atrapalhei na fala, sentindo uma gota de suor frio escorrendo por dentro de minha camisa nova, meticulosamente escolhida para a ocasião. Bem na minha vez fomos interrompidos por uma batida na porta. Uma funcionária da secretária veio trazer a lista de presença e nos deu um brinde de “boas-vindas”, uma caneta de tinta azul com o símbolo da universidade. Peguei a caneta, com um sorriso amarelo e esperei para poder continuar minha exposição. A caneta sequer funcionava, como comprovei assim que o professor começou a aula.

Na semana seguinte tivemos o curioso fenômeno da formação de grupos, as famosas “panelinhas”. Cheguei a comentar que éramos uma turma só de mulheres? Uma tentando lembrar o nome da outra e a empresa onde cada uma trabalhava. Demos início ao tão estimado Networking.

Mas logo em seguida a cidade entrou em quarentena. As aulas presenciais foram canceladas e os professores prontamente buscaram uma alternativa digital. Usemos a tecnologia a nosso favor, não é mesmo?! A partir da semana seguinte, passamos a nos encontrar de forma digital, com alguns recursos improvisados, outros funcionais, mas demos um jeito de seguir em frente.

Algumas pessoas desistiram do curso e saíram do grupo sem avisar. Além disso, as perdas foram inúmeras: câmeras desligadas, devido à timidez, nos privando de contato e vínculos, problemas técnicos, falhas de comunicação, aliás, pouca comunicação, baixo engajamento e pouquíssima participação.

Sinto que deixamos uma chance escapar, perdemos a chance de nos conhecer, nos ajudar e nos divertimos juntas. As aulas se tornaram online, quase como assistir um vídeo ou palestra, passivo, fraco.

Foi triste perceber quão pouco as pessoas se engajaram e como a motivação para o curso caiu com a proposta de ensino à distância. Nunca saberemos o que teria sido diferente em um curso presencial, já que ele nunca aconteceu. Viramos cumpridoras de tarefas, isoladas e frustradas com nossos planos interrompidos.

Por outro lado, mesmo à distância, o curso é uma oportunidade de entrar em contato com outras pessoas da área, nem que seja uma vez a cada sete dias. Me mantém ocupada e me dá tarefas práticas para realizar durante a semana. Tenho aproveitado o tempo – e investimento – para buscar materiais complementares em vídeos, livros e artigos.

Beber de outras fontes ajuda e, nesse momento, ter uma ocupação prática é um alívio enorme. Mas, me frustra me arrumar todos os sábados, para ficar com a câmera desligada, ouvindo a voz de um professor com sono, explicando o conteúdo da forma que consegue, sem o viés presencial. Me entristece o fato de que nunca saberemos como nosso encontro poderia ter sido.

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Palavras

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Ontem foi meu aniversário. Vou contar pra vocês que fazer aniversário no meio da pandemia não é legal. Acho que a data nos deixa introspectivos, faz pensar bastante e fazer aquele “balanço geral”. Me senti travada, meus desejos e expectativas parecem ser os mesmos do início do ano. Mais alguém tem a sensação de estar parado no tempo? Por aqui a vida parece em pausa. E, pior, não vi muitos motivos para comemorar em meio a tanto sofrimento e desgoverno que temos enfrentado. A cada dia uma notícia ruim e mais mortes que entram na conta. É estranho celebrar a vida em meio a tanta destruição. Mas eu, assim como tantas outras pessoas, vi o calendário correr até meu dia.

Sem poder ver meus amigos ou abraçar minha família, tive um dia bastante agitado, com algumas videochamadas cheias de carinho. O interfone tocou algumas vezes, anunciando presentes que chegaram de surpresa, alegrando e adoçando meu dia. Mas o meu maior presente foram as palavras.

O dia começou com a habitual sessão de terapia que acontece às sextas. Minha terapeuta foi a primeira a me dar suas palavras: escolheu “sonhos”, “inspiração”, “coração” e mais algumas que eu esqueci pois já estava chorando.

E assim foi pelo resto dia: as palavras vieram na voz de quem passou o dia comigo e chegaram aos montes em meu celular, via mensagens nas redes sociais, posts apaixonados, recados carinhosos em minhas caixas de entrada, áudios para me fazer sorrir, palavras escritas em cartas, palavras ditas à distância de uma tela, e até as palavras não ditas, de quem não apareceu. Terminei o dia com os bolsos cheios de dedicatórias e desejos.

Foi muito engraçado ver como sou vista aos olhos dos outros: me desejaram muitos cafés, amor, bons encontros, corujinhas, muitas aventuras caninas, plantinhas, sucesso na escrita, e eu poderia encher mais uma estante com o tanto de livros e leituras que me foram desejados (amém!).

Não achei que me sentiria renovada assim, mas aconteceu. Eu e meus cabelos, que já começam a ficar brancos, agradecemos por cada uma das palavras recebidas. Obrigada ❤️

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Castelo dos Sonhos

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Acordei sentindo uma brisa passando pelo quarto, um ar frio tocando a ponta do meu nariz e tudo o que não estava protegido embaixo do cobertor pesado e felpudo. Me estiquei na cama macia, sentindo meu corpo despertar aos poucos, mexi os pés, estiquei os braços para os lados, sem sentir as bordas da cama. Não queria abrir os olhos, então, apertei-os, lutando contra a claridade que tentava atravessar minhas pálpebras e tentei para voltar ao sono, queria retornar ao sonho exatamente do ponto em que parara, como se pudesse apertar o play naquele filme novamente.

Me virei para um lado, puxei o cobertor para cima, tampando até a cabeça. Virei para o outro, me encolhendo em volta de mim mesma. Mas era tarde, já estava acordada. Repassei o sonho na cabeça, disposta a imaginar uma continuação, já que não poderia mais ser espectadora de meu inconsciente. Me vi novamente no baile, com um vestido longo azul, a saia rodada com uma fina camada de tule repleta de pequenos pontos de brilho, a maquiagem forte em torno dos olhos os realçava, o gloss de efeito molhado brilhava nos lábios.

Talvez minha parte preferida fossem os sapatos prateados, que tinham o salto na medida certa, não apertavam e, mesmo após uma noite inteira em pé, não havia sequer uma bolha ou calo me incomodando, só podia ser imaginação mesmo.

O cabelo caía em ondas até meus ombros, mais curto do que estava acostumada, mas eu me sentia tão linda que simplesmente não mudaria nada naquela noite. Na verdade, mudaria apenas o tempo: adoraria fazê-lo parar. Gostaria de poder viver ali, naquela festa, naquele castelo. Sim, pode me chamar de boba, mas era isso o que aquela mansão parecia. O jardim que eu via lá embaixo, pelas grandes janelas do salão só podiam ser descritos como vindos de um sonho.

Eu não podia terminar aquela noite senão desta maneira, em uma cama confortável, sem hora para acordar e com ele ao meu lado. Aí começava a parte da imaginação, já que eu estava sozinha em minha cama.

Gemi, e finalmente tomei coragem para abrir os olhos e enxergar a realidade. A luz me invadiu, causando um arrependimento instantâneo. Pisquei algumas vezes para me acostumar e então olhei para frente. O vestido, que mais parecia de uma fada, estava lá, azul e com todo o brilho que eu me lembrava. Os sapatos descansavam no chão e uma pequena bolsa estava em cima da cadeira. Passei as mãos sobre o cobertor e não o reconheci como meu. Olhei em volta e para mim, apenas para constatar o óbvio: aquela não era minha cama, muito menos o meu quarto.

Eu vestia uma camisola preta, rendada que não cobria muito do meu corpo, não era à toa que sentia frio. Olhei para os lados, só para ter certeza de que estava sozinha e então dei um beliscão em meu braço: doeu de verdade. Mas o que era verdade, afinal?

Sentei-me na cama e olhei para baixo, onde encontrei duas pantufas de pelúcia aguardando para um encaixe perfeito em meus pés. Havia também um roupão apoiado na cabeceira da cama. Enrolei-o em volta do corpo e parecia que estava carregando um cobertor comigo. Levantei e segui até a janela. Lá estava meu jardim dos sonhos, a vista mais bonita que eu já vira em uma manhã, os raios de sol cortavam o horizonte, apesar da baixa temperatura. Fiquei apoiada, olhando a imensidão a minha frente. Olhei para as janelas ao lado, todas fechadas.

Fiquei ali até ouvir o barulho de chave girando na fechadura atrás de mim. Sua voz chegou aos meus ouvidos junto com o cheirinho quente de café que invadiu todo o quarto.

– Já está acordada? Saía daí ou vai se resfriar.

– Achei que eu estivesse sonhando – perguntei, me virando e encarando-o de frente.

Ele também vestia um roupão e pantufas semelhantes às minhas, mas, ao contrário de mim, parecia se sentir realmente à vontade ali.

– A noite passada pode ter sido, mas espero que todos os nossos dias sejam assim a partir de agora.

Ele deixou a bandeja que carregava apoiada na cômoda ao lado da cama e se aproximou, me envolvendo em um abraço apertado.

Respirei seu perfume, o mesmo de ontem à noite. Não era um sonho, afinal.

 

 

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Quarentena

Estou em casa há vinte e cinco dias. Trancada em regime de semiliberdade. Sem previsão de quando poderei sair. Falar em segurança hoje parece irrisório. As pessoas se cobrem, se lavam o tempo inteiro e estão mais conscientes do que nunca sobre a frequência que costumam tocar o próprio rosto. Hábitos de higiene que já deveriam ser rotineiros são ensinados a todos pela televisão, como informações novas e revolucionárias. Máscaras de pano são improvisadas e o álcool em gel virou item de necessidade básica, presente em todas as listas de compra feitas no último mês. 

O inimigo é invisível e, por não sabermos se ele está lá, nos comportamos como se estivesse em todos os cantos. Uma simples ida ao supermercado é acompanhada de uma dose de ansiedade e bastante paranoia. E não sou só eu, noto que as pessoas se olham desconfiadas, com medo umas das outras, pois qualquer um pode ser o portador do mal que nos rodeia.

Agradecemos pela internet e aplicativos que nos permitem fazer compras online, no conforto e segurança de nossos sofás. Mas alimentamos um sistema que obriga trabalhadores a continuarem se expondo diariamente para dar conta da logística e das entregas. 

Vivemos um cenário que até então só havíamos visto em livros e filmes, fruto de mentes criativas. Conhecendo a dita natureza humana, algumas previsões se mostraram precisas, porém agora mudamos de papel, ao invés de espectadores, somos protagonistas de um verdadeiro show de horror. Em muitos momentos vemos o egoísmo prevalecer, o medo falar mais alto e o pânico nos dominar. Porém, também presenciamos, recebemos ou damos, gestos de amor e empatia. Precisamos, de uma vez por todas, entender que estamos juntos nessa e é apenas assim que teremos forças para superar e continuar. 

Ver as ruas vazias, o céu claro e limpo com a diminuição da poluição é lindo e assustador na mesma proporção. A vida se escancara diante dos nossos olhos, o impacto do ser humano na natureza fica nítido sem toda a fumaça e caos que produzimos diariamente. Que o tempo em casa nos faça repensar valores, que a saudade nos ajude a melhorar nossas relações e que o susto nos obrigue a redefinir prioridades. Cuidar do realmente importa, valorizar aquilo que descobrimos ser essencial. 

Mais do que ficar em casa, é tempo de voltar-se para dentro, revisitar-se e aprender a se sentir bem na própria companhia. Encontrar sim refúgios, pois há momentos em que é preciso fugir da realidade que nos assombra a partir da porta de casa, quando não do lado dentro. Mas também cuidar-se, valorizar-se. Não se iludir com a falsa noção de produtividade. Tudo bem ficar mal, o mundo está doente, afinal. Mas também é preciso saber levantar e se adaptar: adotar uma rotina – provisória – para que a vida siga, precisamos ter algo em prol do que lutar. É uma fase e, seja lá qual for a curva, a humanidade há de superá-la. 

Estou tentando viver um dia de cada vez. Às vezes acordo disposta e consigo ter um dia produtivo de trabalho, aproveito para assistir aulas online e consumir um pouco do conteúdo que tantas empresas nos disponibilizaram nesse período. No dia seguinte posso acordar sem apetite, sem vontade de tomar banho ou até sem coragem de sair da cama. As notícias assustam e tiram o sono, pensar em pessoas que vivem em situação de maior vulnerabilidade do que a minha me traz um sentimento de impotência que dói no peito. Respiro fundo e torço para que o próximo dia seja melhor. Dias melhores para mim e para nós, é o que desejo. 

Ponte Estaiada

Foto: Eduardo Frazão

06/04/2020

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Dentro de mim

Árvores (48)

Ansiedade é o nome daquele monstro que mora debaixo do meu travesseiro e me mantém acordada madrugadas adentro. É aquilo que me prende com os dois pés no chão, me faz sentir medo de experimentar coisas novas e, ao mesmo tempo, é quem não me deixa ficar parada. Relaxar? Nunca! Afinal, o que está bem hoje pode não estar amanhã.

Às vezes ela fala mais alto do que qualquer outra voz, nem adianta gritar ou espernear, quando quer: ela (me) vence! É constante tormento, motivo de alguns dos meus banhos mais longos, quando ao invés de lavar o corpo, encharco a mente com fantasias que talvez nunca venham a acontecer – mas vai quê!

Aflição, frio no estômago, vazio, ânsia, cansaço, tontura, apatia, tremor, depressão, suor. Nos misturamos uma na outra, como galhos entrelaçados, ela com seus sintomas e eu com meus sentimentos. Carrego afeto por onde vou, e ela vem na bagagem. É impossível sermos uma sem a outra.

Nos dias mais difíceis, escrevo. Cartas, poemas, crônicas. O simples movimento das mãos me lembra que estou no controle, que posso, que escolho, que faço. As palavras são um lembrete de que sinto, sinto tanto que transbordo em letras. Ela se acanha quando eu domino, mas sei que o jogo pode virar novamente, é só uma questão de tempo. Pronto, já virou.

Entendi que vamos precisar conviver, já que nenhuma de nós vai a lugar algum. Ela tem a forma que eu dou, é contorno dos meus receios, alimento dos meus anseios. Aprendi que não preciso temê-la, mas temo que ela me afaste de você.

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Arquivo Morto

55. Arquivo Morto

Tenho um arquivo morto de ideias em minha cabeça. Cadernos e dispositivos eletrônicos são as únicas testemunhas de meus rascunhos.

Tem vezes que a ideia vem pela metade, pode ser não mais do que um lampejo, apenas o suficiente para acender algo dentro de mim. Mas nem sempre ela ou eu temos maturidade o suficiente para explorar e, portanto, não nos entendemos à princípio. Tudo aquilo que não consigo lapidar vai para o arquivo, junto com os pensamentos que ouso ter, mas não me atrevo a escrever.

E assim meus trechos se acumulam, à espera de que eu viva novas e diferentes experiências que, pouco a pouco, expandem meus horizontes, mudam minha percepção e transformam a forma como vejo o mundo, o meu mundo. Isso pode me aproximar ou afastar, às vezes o insight pode vir em um momento inesperado e a história simplesmente se desenrola bem diante dos meus olhos. Em outros casos, deleto impiedosamente o arquivo de meu computador e adormeço a memória em minha mente.

Já perdi a conta de quantas vezes fui espectadora de minha mente. Embarco em minhas próprias fantasias e me sinto mera escrivã, cumprindo a ordem de escrever aquilo que aparece para mim em forma de ideia. Sou facilitadora, usando a caneta para eternizar no papel toda a criatividade que há em minha mente.

Meu arquivo é bem vivo. É um apanhado de tudo o que mora e se mexe dentro de mim. Deixo histórias descansarem para que amadureçam antes de compartilhá-las. Retomar um texto com olhos frescos e descansados é uma das experiências mais interessantes que um escritor pode ter. É reencontrar-se com suas próprias palavras e tomar a liberdade de mudar e editar seus próprios pensamentos. Como em um espelho, é deparar-se consigo e reparar nos mínimos detalhes. As palavras revelam aquilo que não conto sobre mim, a melhor forma de me entender é, sem dúvidas, lendo um conto onde falo sobre outros personagens e me desnudo por completo em meio a ações de outrem. Com eles ouso, pego rotas alternativas, exploro “e se’s” como nunca teria coragem de fazer.

Vivo e convivo com o constante barulho de rascunhos e versões alternativas que povoam meu imaginário. De tempos em tempos, tomo a difícil decisão de colocar um ponto final e declarar minha obra como concluída. Molduro trechos de quem sou e assim tenho a sorte e a tormenta de colecionar pedaços de quem já fui ou desejei ser. Me guardo nas palavras que escrevo.