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Manutenção do Caos

9408074-3x2-700x467Me sinto sem lugar. Venho novamente despejar-me sobre o papel, numa tentativa de me organizar em palavras. Me faço, desfaço, refaço. Se me sinto frustrada em ter um trabalho que não gosto e, talvez até mais incomodada nos dias em que fico em casa, é porque não me sinto pertencente a lugar algum. Perdida, sem guia, GPS ou respostas, não sei qual caminho percorrer para me encontrar. Atalhos, nem pensar.

De repente fiquei nula, como se neste momento não só minha vontade não valesse, mas sequer eu devesse desejar algo. Não há espaço, tempo ou energia para investir nisso. Por quê? Tenho medo de me deparar com o esvaziamento de mim ou é uma vã tentativa de evitar a decepção de novamente ver meus planos adiados?

Estou operando em um modo de emergência há tantos meses que perdi a noção do tempo. Trabalhando igual a um verdadeiro bombeiro, esqueci como é ter paz. Feito uma roda, ando e me atropelo, passando dolorosamente por cima de mim todos os dias.

Ontem, em meio a um jantar casual, ouvi que era preciso ter calma, essa é só uma fase, vai acabar. Uma hora acaba, tem que acabar. À queima roupa, foi-me dito que hoje faço a manutenção do caos. Por mais que essas palavras tenham ferido, sei que não podiam ser mais precisas. Porque eu sei que a pior parte já passou e, apesar de ainda sentir o peso do mundo em minhas costas e de inúmeras caixas em minhas mãos, já passou muito tempo do dia em que abaixei as portas e me recolhi.

É claro que me orgulho de minha história e que esse fragmento virou parte essencial de mim, como a linha que costura os retalhos de uma colcha. Mas, ainda retalhada, sinto-me incapaz de expressar ou usufruir de meu aprendizado. Todos dizem que mudei, amadureci, que sou forte! Ah, se soubessem como minhas pernas estão cansadas de tanto caminhar.

Hoje, com tudo reacomodado em outro canto, em outra posição, de outro ângulo, a vida se refaz. E, por mais que doa admitir, eu sei que estou exatamente no lugar em que preciso estar nesse momento. Espero que um dia haja lugar para mim que não este, e que eu possa mais uma vez me refazer.

 

 

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Á Flor da Pele

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Sair da casa da minha mãe me fez aprender um monte de coisas. E, em meio ao caos da correria cotidiana e o frio na barriga de ser a responsável por uma casa, descobri uma série de coisas sobre mim.

A primeira delas é que eu gosto de cuidar: cuidar das plantas me faz um bem enorme, adoro ver minha sacada florida, descobrir e acompanhar o ciclo de cada plantinha, cuidar de cada vaso e comemorar cada botãozinho que nasce. Cuido das flores, cuido da roupa, da limpeza, da casa, do companheiro e de mim. Descobri que cozinhar é uma questão de persistência, pode queimar, salgar ou ficar tudo grudado no fundo da panela, mas dá para tentar de novo, e de novo. Uma hora dá certo! Já não morro de fome sozinha em casa.

A segunda coisa que eu aprendi é que eu sei aprender. Assim que me mudei, tinha muito medo por não saber fazer as coisas, medo de queimar a roupa ao passar, medo de não saber trocar uma lâmpada. Mas vida adulta é basicamente uma sequência de imprevistos: trocamos torneira, tomadas e vedamos as janelas com silicone na época das chuvas. Depois disso uma lâmpada queimada virou moleza.

Entrei em uma nova rotina e percebi que precisava reservar mais tempo para mim, me dar atenção. Comecei por fora, pela camada mais superficial. Cuidados com a pele são cuidados comigo, são me interessar e aprender mais sobre mim e meu corpo. São momentos de paz em meio ao caos a minha volta.

Descobri qual o meu tipo de pele e o tratamento adequado a ela, pesquisei, estudei e escolhi alguns produtos para testar: acertei e errei, joguei dinheiro fora, mas também fiz ótimas compras. Esse novo olhar me ensinou muito: um pouco sobre como compostos químicos funcionam e um pouco sobre como eu funciono.

De pesquisa em pesquisa, me deparei com a possibilidade de criar eu mesma algumas receitas. As primeiras misturinhas foram apenas por curiosidade, errei tudo, é claro! Mas o mais importante é que o cuidado virou diversão e isso me fez tentar novamente. Agora, de pele hidratada, tenho uma rotina de skincare que me relaxa, e ninguém tira a paz dos meus cinco minutinhos depois do banho. Cuido da pele, do corpo, da criatividade e da alma.

 

 

 

 

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Releitura

Woman's hand writing on a notebook with a pen on a wooden desk.

Ontem reli um texto de meu caderno e custei a acreditar que era minha a autoria de tais palavras. Um pensamento que mudou, deixou de fazer sentido, sendo substituído pelo seu oposto, até que me contentei com um meio termo insosso e menos polêmico.

Se há dias em que nem eu me reconheço, como pode alguém que estudou comigo anos atrás dizer que me conhece? É engraçado – e extremamente assustador – pensar que existem diferentes versões minhas povoando o imaginário de meus antigos conhecidos. Isso porque a imagem que as pessoas formam e guardam umas das outras costuma não acompanhar sua constante evolução.

Mas como conviver com os fantasmas de quem já fui e com as fantasias de quem serei um dia? Pior, como existir sabendo que há outros de mim que habitam a mente de outros, e esses, mais do que ninguém, escapam ao meu controle. Posso – achar – decidir quem sou, mas nunca apagar o que já fui, são opiniões e impressões que nos seguem e ferem. Tenho vergonha de palavras que já proferi um dia. Admiro a coragem que já tive aquela vez e sinto saudade da simplicidade de outra época.

Em tempos de redes sociais, onde tudo fica gravado, é difícil contentar-se em ser uno. É difícil escolher o que e quem ser. Os históricos de postagens e conversas podem vir à tona a qualquer instante. Mas eles são ou não verdadeiros? O que eu disse ainda é válido mesmo se eu já não concordar mais com aquilo? E o que será que meus ditos “seguidores” pensam de mim? Eles me conhecem? E eu, os conheço? Não ouso afirmar sequer se eu me conheço. Mas então por que fazemos tanta questão de seguirmos uns aos outros?

Ao longo dos anos me perco e me (re)encontro. Vou vivendo e tentando acompanhar quem sou, quem escolho e quem consigo ser. Reler minhas palavras, uma memória gravada, reacendeu algo por dentro. Não importa o rumo que eu tome, carrego sempre a história já escrita na bagagem. Mas, veja bem, não quero soar fatalista (ou daqui uns anos posso reler esse texto e me arrepender também!), afinal, como poderia chegar até aqui sem passar por milhares de significações e ressignificações. Sim, porque foi isso que senti ao rever meu traço cru no papel: eu ressignifiquei. Se as palavras deixaram de ter o peso que tinham na época foi porque se transformaram. E talvez nada disso faça sentido para você, leitor, mas hoje, essas palavras, que novamente insisto em registrar, significam tudo para mim.  Porque eu mudei, e sigo mudando.

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Anúncio Ativo

e-commerce concept.

Bom dia, amigo, o produto é novo? Nunca usado? É original? Tem quanto tempo de garantia? Se não servir posso trocar? Qual o tamanho? E a nota fiscal? Tem a pronta entrega? Aceita duzentos? Cento e oitenta e eu retiro ainda hoje? Tem desconto a vista? Qual o valor mínimo?

Para mim a internet tem se revelado uma amostra grátis do inferno, já estou vendo o que vou encontrar por lá. Não é bonito.

É verdade que é muito bom ter a possibilidade de fazer vendas online. O trabalho mesmo acontece apenas uma vez, depois que você cria uma base com todos os seus dados e ativa os anúncios dos produtos, pronto: a mágica acontece. Você pode fazer uma venda em pleno feriado de carnaval, ou então enquanto toma banho ou faz a janta, é cômodo vender de pijama e pantufas. Isso sem falar na delícia que é acordar e descobrir que fez uma venda durante a madrugada. Na loja virtual muitas barreiras são rompidas, não importa o horário ou localização, dá para vender até para cidades que você não sabia que existiam no mapa, é tudo uma questão de calcular o frete.

O único porém é que a internet mudou e tem mudado nosso comportamento. As interações se dão de forma distinta do bom e velho contato pessoal. Os clientes pesquisam bastante antes de comprar, é comum que saibam até mais do que você sobre o seu próprio produto, então é preciso estar afiado para responder uma série de perguntas técnicas, muito mais do que quando você e seu produto ficavam atrás de um balcão.

Há também a cultura da oferta – ou desvalorização – é comum que as pessoas tentem dar “lances” nos produtos antes de comprar, tentando pechinchar qualquer tipo de desconto. Além disso, a concorrência é feroz, e está a apenas um clique de distância. Como todos querem vender, fica-se preso a uma espécie de leilão invertido: ganha a venda quem lucra menos.

O cliente exige excelência, mas sem querer pagar por ela. São raras as vendas onde não há ao menos uma tentativa de barganha. Na minha opinião é a parte mais desgastante de todo o processo. Me pergunto se essas pessoas se comportam da mesma forma quando vão a uma loja física e conversam com um funcionário cara a cara, olho no olho. A barreira do respeito é quebrada por diversas vezes, mas é preciso continuar respondendo com paciência e educação, pois no pós-venda há uma avaliação que determina sua reputação. Aquelas cinco estrelinhas determinarão se os próximos clientes fecharão ou não suas compras com você.

É preciso ainda lidar com trocas e defeitos, assumir prejuízos, pagar comissão para o portal e parte de seu lucro vai para o governo. Não sobra muito no final do mês, principalmente considerando que você precisa reabastecer o estoque. Ainda assim é uma opção mais barata do que manter a estrutura das portas abertas e afixadas em um bairro.

Desde que comecei a vender online, mudei minha forma de comprar, pois sei como funciona do outro lado do anúncio. Há uma pessoa tentando trabalho, lucrar ou mesmo zerando seu estoque para sair do ramo. Talvez alguém que, como eu, ri das perguntas antes de respirar fundo e responder. 

O que me consola é que enquanto termino de editar esse texto, fiz mais uma venda.

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Cada coisa em seu lugar

Escrivaninha (7)

Arrumar é eliminar temporariamente a bagunça, como costumamos fazer na maior parte das vezes, apenas tirando as coisas do meio do caminho, dando um jeitinho de fazer tudo caber em algum lugar. Assim, pelo menos por um breve período, o espaço fica agradável aos olhos e tudo parece bem. Pode ser só um “tapinha” mesmo, não precisa perder tempo se preocupando com a funcionalidade da coisa. Quer dizer, funciona, mas só até o momento em que é preciso encontrar algo.

Já quando falamos em organizar, queremos realmente eliminar a bagunça, usando um método lógico que ajude a tornar o ambiente funcional e adequado, personalizado para o uso, por isso não há regras ou segredos. Na organização cada coisa encontra um lugar. Categorizando e tornando a rotina mais prática, não há necessidade de bagunçar tudo apenas para encontrar um item, porque você passa a conhecer a morada de cada peça que habita seu armário.

Organizando, ganha-se tempo, espaço e ainda se economiza. Mas, o motivo principal de querer organizar tudo o que vejo pela frente é a calma que me proporciona. Quando estou agitada, ansiosa ou preocupada com alguma coisa, costumo canalizar toda a energia em organização: passo horas reorganizando as peças de meu guarda-roupa, recategorizando os arquivos do meu computador e até redecorando a sala. Mexer nas minhas coisas, relembrar tudo o que tenho, mudar coisas de lugar, colocar no uso, por algum motivo me acalma.

Organizar é pensar, refletir sobre a distribuição e espaço das coisas, não é sobre rigidez e meticulosidade, é sobre praticidade. Por isso, organizar me ajuda a pensar, estruturar o ambiente externo me ajuda a ir organizando os pensamentos e sentimentos também, além da sensação de retomar o controle e de estar fazendo algo ativamente, já que nem sempre podemos agir diante de uma determinada situação.

Me acalma saber que a minha volta tudo tem um propósito, escolho o lugar de cada um dos objetos que me pertencem, ganho tempo para fazer outras coisas, tempo para me concentrar e me ocupar de outras coisas, já que o que é meu está bem resolvido.

Organização é um conceito, aplico-o em minha rotina com várias ferramentas, desde agenda até os mais variados aplicativos que estão à disposição. Assim, otimizo meu tempo, não perco prazos ou compromissos e estou – quase – sempre em dia com as tarefas. Minha escrivaninha é um alvo constante e sei que parece bobo, pois passo horas mexendo em meus papéis e canetas e parece que nada mudou, mas é assim que surgem algumas ideias, que controlo minha ansiedade e que me torno mais produtiva.

Aprendi a me organizar de fora para dentro.

 

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Término

48. TérminoQuando algo termina? É no último contato ou antes, assim que se toma a decisão? É quando a ideia surge pela primeira vez à mente, como um rápido lampejo ou é apenas depois de dolorosos meses quando finalmente paramos de pensar no assunto?

No ano passado, decidi parar um curso. Encerrei todo um ciclo e fechei uma etapa importante da minha vida. Naquele momento, mudando de profissão, o curso perdeu a necessidade e também o espaço em minha apertada rotina. Foi difícil tomar a decisão e pior ainda contar ao grupo que eu ficaria apenas até o final do mês, só mais um pouquinho, para fazer os devidos encerramentos.

No primeiro dia, quando dei a notícia, chorei, choramos todos juntos. Tentaram me convencer do contrário, mas foram todos compreensivos, deram o apoio que eu tanto precisava naquele momento. Na semana seguinte, senti um mal-estar enorme e me faltava vontade de aparecer por lá. Parece que não havia sentido em ir quando estaríamos todos contando os dias até meu término. Me arrastei, eu precisava ir! Precisava encerrar direito, honrar com minha palavra e compromisso. Mas, uma vez que a decisão foi tomada, as cores do caminho mudaram, os sons já não eram os mesmos, a graça de ouvir as histórias dos colegas se fora, deixando no lugar uma dolorosa pontada que me lembrava de que eu não acompanharia o desenrolar de nenhuma daquelas histórias e, por mais que prometêssemos uns aos outros que manteríamos contato, nunca mais sairíamos da aula para tomar um cafézinho, ou nos ajudaríamos mediante a uma crise no trabalho ou mesmo trocaríamos as tão pessoais confidências como costumávamos fazer.

Na semana seguinte, com mais dificuldade ainda, fui sabendo que em breve deixaria de participar das histórias que o grupo construía junto, logo eu deixaria de conhecer as brincadeiras e participar das decisões. Contei, acanhada, sobre meus encerramentos e encaminhamentos, tudo praticamente finalizado. Um misto de alívio e uma precoce nostalgia se misturavam em meu peito.

O dia do último encontro, meu último encontro, foi o mais difícil. E foi então que me peguei pensando se aquele ciclo se encerrava ali ou se eu já tinha fechado aquela porta ao tomar e comunicar minha decisão. E, se fosse esse o caso, como eu faria para suportar aqueles instantes finais? Como eu podia encerrar algo que já estava acabado?

Se eu faltasse, me sentiria covarde, incapaz de lidar com algo que eu mesma escolhi, com a sensação de não conseguir terminar. Porém, a partir do momento em que tomei a decisão, passei a me sentir esvaziada, como se já não tivesse mais motivos para estar ali, tendo em vista o eminente fim de tudo aquilo.

O que me motivou a ir foi saber que eu precisava me despedir, precisava agradecer a todos por aqueles três anos passados dentro daquela sala, todo o fortalecimento que aquele aprendizado me trouxe, precisava de cada troca de olhar, de cada abraço que eu queria dar e receber. Mas por que essa mania de esperar a hora da despedida para dizer aquilo que sentimos e pensamos? Por que esperar o momento da perda para nomear tudo o que acontecia diariamente ali?

Eu não sei quando tudo começou a terminar, mas foi um processo longo, doloroso e muito bonito, saí com a certeza de que era muito querida e de que deixava um pedaço meu naquele grupo, levando em troca um pouquinho de cada um que se encontrava naquela sala, toda terça-feira, logo depois do almoço. Talvez tenha acabado apenas hoje, quase um ano depois, quando finalmente revisitei essas memórias e comecei a escrever esse texto. Ou talvez ainda não tenha terminado, já que me importo o bastante para ainda pensar sobre isso e terminar com as mãos trêmulas no teclado sem saber onde, como ou quando colocar um ponto final aqui.

 

 

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Saudade

Paisagens (21)Estava aqui pensando e me lembrei de você. Na verdade, estava olhando para o teto e foi ele que me fez pensar em você, porque lembrei de todas aquelas tardes em que brincamos de fazer nada juntos. Poucos compromissos, nenhuma preocupação e absolutamente nada entre nós, ou, era o que eu achava.

Eu vou parar de enrolar e dizer de uma vez que estou escrevendo porque sinto saudade. É, falei mesmo, você sabe que eu não sou de dar voltas. Um “bocão”, como costumava me chamar.

Você foi um dia aquele que sabia de todos os meus pensamentos, que conseguia me decifrar apenas por um olhar, sabia me ler e me entender melhor do que eu mesma jamais fui capaz. Sempre tão presente, era pra ti que eu queria contar tudo o que me acontecia, era pra quem eu guardava uma piada boba ou um fato curioso, era como um verdadeiro travesseiro fofo para desabafos, meu espelho, que tão bem refletia e me fazia refletir sobre minhas atitudes.

Mas isso já faz tanto tempo! Nosso afastamento aconteceu de repente, e eu não o vi chegando, apesar de todos os indícios. Sei que para você doía continuar perto, mas do lado de cá doeu muito aprender a ficar longe. Senti sua falta lentamente, um pouco a cada dia. Pensei, repensei e pensei mais um pouco, mas nem pedir sua opinião eu podia… Me vi sozinha, sem meu melhor amigo para pedir um conselho e sem poder consolá-lo, já que fora eu a causadora da sua angústia.

Aqui nesse meu monólogo, o teto perguntou se hoje eu faria diferente, e mesmo depois de tantos anos eu não sou capaz de responder a essa pergunta. Porque eu não podia mudar o que eu sentia, ou melhor, o que eu não sentia por você. Queria ter feito melhor, é claro. Queria que nós tivéssemos lidado com isso juntos, mas nós dois saímos perdendo: você perdeu um amor que nunca foi seu, e eu perdi um amigo que, bem, será que foi meu algum dia? Me pego pensando sobre o que sentíamos ou achávamos sentir naquela época, dois adolescentes descobrindo o mundo. Eu ainda tinha tanta coisa para te contar, e nós podíamos ter vivido tantas histórias juntos.

Gostaria de ter tido mais tempo ao seu lado, mas eu não pude fazer nada a não ser aceitar sua decisão. Tudo aconteceu depressa, de um dia para o outro você já não me respondeu mais, deixou um buraco no meu peito e nas minhas tardes. Sinto saudade mesmo sem saber se a vida teria nos levado a caminhos diferentes, mesmo sem saber se nossa amizade teria durado. Às vezes me culpo por não ter correspondido aos seus sentimentos, mas na maior parte do tempo te culpo por tê-los sentido.

Eu sei que nunca mais voltaremos a ser o que já fomos um dia. Eu mudei, suponho que você também, e o vão que há entre nós é difícil de ignorar. Mas tem dias que eu só queria poder saber como você está, e também se você se pergunta sobre mim. Espero que sim.

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Sem Título

47. Sem Título

Eu tentei escrever, mas hoje me faltam palavras. Eu, que sempre me refugiei em meio às páginas de meus livros, que sempre invejei os personagens que moram nas paredes de minha estante, me encontro agora incapaz de usar minhas mais potentes armas. Sinto as letras me escapando, escorrendo por entre meus dedos antes que eu consiga agarrá-las. Sem nada reter, tudo me escapa, não há limites ou filtros que me ajudem a criar contorno, me sinto vazio ao fim do dia. Todos os dias.

A falta de recursos não me deixa expressar ou mesmo entender com clareza o que sinto. Sem poder traduzir o que vivo, sufoco com aquilo que não é dito. O som entala e não sai pela garganta, as mãos trêmulas não conseguem desenhar a caligrafia e eu me afundo. Me enterro no conjunto desajeitado de funções que sou.

Perdida, é como se nenhuma peça se encaixasse no quebra-cabeças que a vida me fez. Sinto arrepios ao olhar para a folha em branco, mas os dedos continuam ali, apertando a caneta, tentando dominá-la. O caderno surrado que mora no fundo da minha mochila vive a me chamar, como um lembrete diário de que eu devo voltar, de que é preciso voltar, porque é isso que eu sei fazer. É em meio ao rascunho que eu me encontro. Me reconstruo, letra a letra, encaixando peça por peça, quantas vezes precisar, afinal sei que essa não é a primeira e nem será minha última crise com as palavras.

É sempre difícil recomeçar, quando os moldes antigos já não servem mais, mas não há nada que me comporte, nenhum apoio ou conforto enquanto me retalho procurando um fio que dê a liga que preciso. Confusa, busco novos caminhos, e me surpreendo quando me deparo com uma velha esquina, há muito conhecida, bem no meio do trajeto. Não existe mapa para quem não sabe onde quer chegar, as linhas pouco servem de guia para alguém que não saber como dizer o que quer dizer. Aos poucos os rabiscos voltam a tomar forma, os traços desconexos viram letras, que se misturam até que as palavras surgem no papel e frases inteiras se montam bem diante dos meus olhos. Novos textos chegam para contar as histórias que vivo, sinto e crio. A tinta que marca o papel é testemunha de meu primeiro encontro com aquilo que já morava em mim, histórias que se mostram a mim e conheço conforme escrevo.

Hoje, estou apenas tentando achar o caminho de volta às palavras, escrevendo mais um trecho de minha própria e singela história. Me desculpe por te fazer ler tantos rabiscos.

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Sandra

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A escola nunca fizera um evento como aquele antes. Os alunos estavam empolgados com a ideia de passar a noite toda acordados na escola, ainda mais sem precisar vestir o uniforme. Raramente tinham a chance de exibirem-se uns aos outros. Algumas meninas investiram em decotes e rendas, enquanto os garotos abusavam das marcas e cores de seus armários.

É claro que Sandra não se sentia bem ali. Ela simplesmente não se encaixava, era desajustada. Não tinha roupas da última moda para desfilar, e seu corpo, bem, ela nem sabia como definir seu corpo, imagine exibi-lo por aí. Mas ela sabia que seria pior se faltasse, não daria esse gostinho a eles, não deixaria sua ausência virar tema de risinhos e piadas, mais risinhos e piadas do que o habitual. Foi assim que ela acabou escolhendo usar o macacão Jeans que encontrou no armário da mãe. Fez uma trança nos cabelos e calçou seus recém lavados all stars brancos.

Conforme chegavam, os alunos eram encaminhados para o auditório por inspetores com cara de sono. Era engraçado vê-los ali àquela hora da noite. A ideia de simular um festival de cinema fora da professora de Artes, ela já havia tentado antes, mas só o novo coordenador apoiou a causa, por achar que poderia ser uma boa oportunidade de integrar os alunos novos. Eles precisavam entender que o Ensino Médio não era apenas sobre provas e cobranças, afinal de contas, os alunos eram adolescentes e precisavam explorar sua vida social. No final, as relações e amizades eram o que todos levavam para além dos muros da escola.

Sandra discordava. Tinha certeza de que jamais olharia para a cara de um dos colegas de sala assim que se formassem. Não falaria novamente com nenhum deles, nem que a obrigassem. Mesmo assim, lá estava ela, sentada ao lado de duas outras garotas que conversavam entre si através de mensagens de celular. Sua vontade era de esmagar os aparelhos no chão, só para que parassem de fazer aqueles apitos irritantes e as duas tivessem que ter uma conversa real, olho no olho. Quando e como foi que o contato se perdeu?

O cheiro de pipoca dominava o ambiente, duas inspetoras distribuíam alegremente saquinhos de pipoca aos alunos. Aos poucos o auditório se encheu e os anfitriões da noite subiram ao palco para agradecer a presença de todos e falarem sobre a importância do cinema como forma expressão artística. Definitivamente, coordenadores frustrados não deveriam poder falar em um microfone para um auditório cheio de adolescentes, ele se embaraçava cada vez mais. Olivia tentou fazer valer seu diploma de história da arte, mas não era muito melhor do que ele. E então Sandra se distraiu ao começar a se perguntar se aquilo realmente era arte ou se só mais uma coisa deturpada em produto midiático.

Só voltou a prestar atenção quando as luzes se apagaram e o primeiro filme começou, enchendo a sala com luzes coloridas e uma trilha sonora de suspense. Logo a imagem de uma menina andando de bicicleta em meio à rodovia surgiu na tela. Sandra se ajeitou na poltrona e olhou para o relógio, mas ainda faltavam muitas horas até ela poder sair dali.

Lá pela quarta ou quinta cena do filme, Sandra começou a se distrair, olhando para os lados e observando como cada pessoa reagia ao filme, além de notar quem, assim como ela, não conseguia manter os olhos na tela. Foi então que reparou em Juliana. Três fileiras à frente, duas cadeiras à direita. O perfil da garota era esporadicamente iluminado pelas luzes do filme, sua risada era doce e ela jogava a cabeça e os ombros para trás enquanto ria, era quase imperceptível, a menos que você estivesse prestando atenção. Apesar de não estar olhando diretamente para seu rosto, Sandra se lembrava também que a garota tinha um dente ligeiramente torto que ficava a mostra quando ela sorria, pois ela era daquelas pessoas que sorria com a boca aberta, espontânea e descontraída, o extremo oposto dela mesma. Talvez por isso que suas características lhe fossem tão chamativas.

No meio do filme, a apresentação foi interrompida para um breve intervalo, para que os alunos pudessem ir ao banheiro ou reabastecer seus saquinhos de pipoca. Ela se levantou, apenas para sair de perto de suas irritantes vizinhas que ainda conversavam pelo celular. Deu uma volta pela sala e se sentou um pouco mais para trás, sozinha.

Fechou os olhos, desejando que isso acelerasse o tempo e diminuísse a distância entre ela e a saída. Sentia sono.

– Com licença, esse lugar está ocupado?

A voz doce de Juliana entrou em seus ouvidos com tamanha surpresa que, apesar de abrir a boca, não conseguiu emitir nenhum som, então apenas balançou a cabeça, em uma negativa.

– Que ótimo. Vou ficar por aqui então. Toda aquela luz da primeira fileira já estava me deixando com dor de cabeça. Aqui no escurinho é melhor.

Sentia o cheiro do perfume floral da garota bem perto dela, o sono foi embora com a corrente elétrica que subitamente pareceu percorrer seu corpo e, de repente, ela estava mais desperta e consciente do que antes.

– Pipoca? – Juliana ofereceu.

– Ah, obrigada – aceitou, pegando timidamente um punhado e colocando em suas mãos.

Sandra foi comendo as pipocas da colega uma a uma, saboreando devagar. E feliz por ter algo para fazer e se distrair.

A sessão voltou a rolar e elas ficaram em silêncio, a garota lhe estendeu o pacote novamente, e assim elas foram dividindo aquele momento, grão a grão. Mais de uma vez seus dedos se encontraram dentro do apertado saco de papel. Sandra se arrepiou com o toque áspero dos dedos sujos de sal de Juliana. Ela pediu desculpas, num sussurro, mas a outra apenas riu, balançando a cabeça e levando a mão à boca para lamber as pontas dos dedos. Em seguida passou a mão pela calça jeans e deixou-a ali, pousada sobre sua coxa.

Sandra sentia o calor subindo por seu corpo, aquele canto da sala estava tão abafado! Com um movimento lento, quase ensaiado, se aproximou mais da cadeira ao lado. Mesmo sabendo que aquela noite não passava de uma fantasia, não havia motivos para não aproveitá-la. Uma garota como Juliana jamais olharia para ela em dias comuns, ao menos nunca olhara antes. Enquanto ela reparava na colega desde a sexta série, quando seus corpos começaram a mudar. Notou como Juliana estava mais alta na volta das férias de verão, como se tivesse aproveitado os dias de folga para esticar. Reparou quando as ondulações de seu cabelo foram alisadas e queimadas por uma chapinha. E lembrava-se de quando os colegas começaram a chamá-la apenas de Juli, como se fossem muito íntimos para dizer seu nome todo.

Por algum motivo, Sandra parecia conhecer mais os traços das outras garotas do que os seus próprios. Talvez sua insegurança fosse tão intensa que ela costumava gastar tempo demais reparando e se comparando com outras pessoas. Elas eram como um espelho e devia ser por isso que ela sentia desejá-las. Aquilo era normal, não era? Era o que ela se perguntava.

Teve seus pensamentos interrompidos quando a voz rouca de Juliana chamou seu nome em um sussurro. Ela lhe pedia passagem para se levantar e sair da estreita fileira de cadeiras improvisada. Sandra se encolheu, trazendo as pernas para mais perto de seu assento e ficou olhando enquanto a outra passava, não conseguindo evitar um arrepio no joelho quando suas pernas esbarraram uma na outra.

Dois longos minutos se passaram, ela sabia, pois estivera encarando o relógio em seu pulso. Mesmo sabendo que aquilo era errado, irracional, indecente, se levantou, tentando não fazer barulho, e seguiu pelo mesmo corredor, indo parar na porta do banheiro feminino.

Entrou e tentou não encarar a garota, que se olhava no espelho enquanto retocava o batom vermelho dos lábios. Seus olhares se cruzaram por um segundo, antes que Sandra conseguisse desviar e entrar em uma cabine. Ela estava ainda mais bonita com os lábios pintados!

Sandra esperou alguns segundos, até sentir o rubor de sua face amenizar. Apertou a descarga antes de abrir a porta, como uma tentativa de justificar seu tempo ali, e então saiu para lavar as mãos, aproveitando para jogar um pouco de água fria no rosto. Olhou ao redor pelo reflexo do espelho e, num misto de alívio e frustração, percebeu que estava sozinha.

Rumava para a saída quando a viu parada na última cabine, a sua espera. Juliana pegou em seu braço, sentiu os dedos finos e de unhas compridas da garota se fechando em torno de seu pulso e puxando-a para dentro.

Não houve tempo para palavras ou explicações. Até mesmo a surpresa ficou entalada na garganta ao ser calada com um beijo. Um beijo roubado e aguardado, quente, com um leve gosto de pipoca. Aquele beijo adolescente, que tem um sorriso no meio. O único tipo que Sandra conhecera até ali, em seus meros dezessete anos de vida. Um beijo que não durou tanto quanto podia ter durado. Seu término precoce talvez se devesse à expectativa de poderem se olhar, ou então ao medo de serem pegas ali.

Nenhuma das duas ousou dizer a primeira palavra. Sandra assistiu em câmera lenta enquanto Juliana passava um dedo sobre seus lábios, limpando o batom que havia borrado e depois quando se virou e saiu do banheiro, ainda em silêncio. Sozinha, saiu da cabine e foi até o espelho, apoiou-se na pia e levantou o rosto, tomando coragem de encarar-se e ver que o batom borrado também estava ali, sujando seus lábios e testemunhando o que acabara de acontecer. Mesmo sem querer, passou os dedos, limpando as marcas vermelhas e apagando os vestígios de Juli.

Voltou, com as pernas bambas para seu lugar. As duas ficaram sentadas, lado a lado, dividindo calor e um segredo. Agora a garota estava ainda mais consciente da presença e proximidade da outra, sentindo seu cheiro e vendo seu reflexo com o canto dos olhos. Sandra não era mais capaz de distinguir quem eram os atores que desfilavam na trama da tela, porém achava que seria capaz de distinguir e reconhecer cada traço daquele belo rosto que ainda há pouco estivera tão próximo do seu.

Ela não sabia o que aconteceria na segunda-feira. Voltariam a agir como estranhas? Cada uma em sua pequena tribo? Juliana voltaria a ignorar sua existência? Como em um sonho, era preciso aproveitar aquela noite. Assim que a luz da tela se apagou e os créditos começaram a rolar, lentamente e em letras miúdas, Sandra se levantou e saiu da sala, não foi preciso se virar para saber que estava sendo seguida.

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Por Trás das Minhas Lentes

Ótica (4)

 

Nosso caminho foi interrompido. Você nunca foi planejada, mesmo assim foi concebida. Eu não posso dizer que tenha sido um sonho, porque nunca realmente te quis pra mim, mas confesso que o mundo que se abriu quando você chegou foi bem interessante. Tudo era novidade, era leve, elegante. Me diverti bastante montando, escolhendo e enchendo suas prateleiras. Aprendi muito, mas nunca senti a seriedade de te ter em minha vida. Me esforcei muito para que você começasse, passei dias trabalhando para que você acontecesse.

Contigo aprendi a apreciar o formato do meu rosto, agucei meu senso estético com todos os seus acessórios, a ponto de mal me reconhecer sem os meus óculos. Todos eles: o preto, o azul, o vermelho, o roxo, o outro azul e aquele pintadinho que todo mundo quer saber o nome. Todos praticamente do mesmo modelo (minha marca registrada), mas únicos aos meus olhos.

Depois de uma aproximação tão intensa, você caminhou sozinha e eu me afastei bastante, hoje me arrependo um pouco. Eu não percebia porque me acostumei a tê-la sempre por perto, logo ali ao lado. Não dei o seu devido valor.

No último ano tudo mudou e, de repente, você virou minha morada. Vieram os problemas de rotina, os imprevistos. Comprar café, ligar no suporte do sistema, correr no banco, fazer anúncio, resolver troca e imprimir nota fiscal.

Aos poucos nos reaproximamos e eu fui te domando. Apesar de não ter o conhecimento técnico, não podia ser tão difícil! Não quando você sempre fora parte de mim. Mas dado o momento e as circunstâncias, me vi ameaçada e, pela primeira vez em todos esses anos, senti o peso enorme de ser a dona da assinatura em todos aqueles papéis.

A decisão de te deixar partir não foi nada fácil. Eu relutei e procurei alternativas, mas o peso era tão grande! Eu fiz de tudo e não consegui, naufraguei. Encerrar foi como matar um pedaço daquilo que mora em mim.

De um dia para o outro vi portas sendo abaixadas, pedaços da nossa história sendo cobiçados, pechinchados, objetificados e descartados. Parte de mim foi encaixotada junto com tudo o que um dia, apesar de não ter sido sonho, foi realização.

Eu montei cinco lojas na minha vida, desmontei duas, você foi a melhor e mais gostosa de começar e a mais dolorosa de encerrar. E eu não podia deixa-la na mão, terminei aquilo que comecei. Aquilo que, apesar de não ser meu, era meu. Agora com o dobro de maturidade e responsabilidade, carregando todo o seu peso nas costas, me sentindo terrivelmente sozinha. Encerro com alívio e a paz de saber que estou fazendo a coisa certa, mas isso não minimiza o sofrimento de ver suas paredes vazias e nós duas encolhidas em algumas poucas caixas sem saber ao certo o que nos resta.