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Para Sempre

10. Para Sempre

Quando você me deixou, achei que eu não fosse aguentar. Nunca imaginei que a vida seria tão diferente sem o som gostoso da sua risada. Ou mesmo que eu sentiria falta do seu bom humor matinal, aquele que às vezes me tirava do sério. Agora, quando acordo, a casa não tem mais aquele cheirinho quente de café, e preciso encarar meu reflexo na tampa do fogão enquanto espero a água aquecer.

Não demoro nem dez minutos para comer uma fatia de pão e deixar a mesa silenciosa para trás. Tenho medo especialmente dos finais de semana, quando a casa parece dar eco, de tão vazia. Na verdade, foi por isso que eu comecei a aceitar os convites para sair, mas deixo o pessoal pensar que estou “seguindo” em frente.

A pior parte é que a maior ilusão do desiludido é acreditar que nunca se deixará iludir novamente. Mas eu sei que não é verdade. Em algum momento, a casa deixará de parecer tão grande, e eu tão sozinho. Já não me importarei mais com o fato de dormir em uma cama enorme e comprarei um abajur ou móvel qualquer para colocar no lugar onde você deixava sua poltrona de leitura, aquela coisa velha e cheia de pelos de gato grudados. Sim, mamãe conseguiu me convencer e a jogamos fora, espero que você não se importe. E quando esse momento chegar – e eu demorarei para me dar conta disso – eu estarei pronto. Começarei a olhar para as garotas na rua novamente, finalmente despertarei interesse por alguma das garotas das extensas listas de amigas solteiras que as pessoas insistem em querer me apresentar.

Mas me interessar por alguém novamente significa que eu terei superado, não que eu acredite que possa um dia te esquecer, ou nos esquecer. Nosso casamento acabou antes de os problemas começarem e, por isso, nunca saberei se éramos realmente perfeitos um para o outro ou apenas se você foi embora antes que eu conseguisse estragar tudo – porque convenhamos, nós dois sabemos que o culpado seria eu. Tenho medo de ficar bem novamente, porque não quero que isso minimize minha perda, não posso falhar com sua memória, e dá até mesmo para senti-la escapando por entre meus dedos quando penso nisso. Cada vez que eu encontro um objeto seu pela casa e jogo dentro do armário, naquela maldita caixa, é como se eu estivesse te empurrando mais para o fundo. Só que não posso nunca deixá-la ir embora. Em mim você ainda vive, exatamente como te prometi no seu último dia. Nosso último dia.

E, quando eu estiver pronto para conhecer outra pessoa, viverei uma fase relutante, num misto de culpa e curiosidade. Até que, quando menos esperar, estarei imerso em uma nova fantasia, achando que dessa vez viverei feliz para sempre. Mas como lidar com a voz na minha cabeça que me lembra que o “para sempre” terá apenas a mesma duração que eu ou ela, o que terminar primeiro.

 

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Rosa

09. Rosa

Ela me olhou, admirada. Segurei a vontade de rir quando seu nariz encostou no meu e ela fungou, sentindo meu cheiro fresco. Sem querer me gabar, mas eu costumava mesmo despertar sorrisos como o dela, apenas com um olhar. Meu tom rosa reluzia contra o sol, fazendo as pétalas brilharem ainda mais, e ela deve ter notado, foi por isso que tirou o celular do bolso e começou a me fotografar, já que, aparentemente, é assim que as pessoas lidam com o belo hoje em dia. E então foi embora, como todos os outros.

Algum tempo depois, avistei-a novamente, em meio às pessoas que passavam apressadamente pela calçada. Ela se aproximou e me tocou, deixando-me arrepiada no lugar em que seus dedos repousaram, não estava acostumada com tamanha intimidade. Comecei a sentir cócegas com o movimento de seu toque e foi então que ela fechou a mão em torno de mim e puxou com uma força arrasadora. Nunca me senti tão despedaçada, e a dor foi tão grande que deixei meu corpo para poder escapar dela.

 

 

 

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Alface, tomate e cebola?

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É claro que era para ser temporário, afinal não é o emprego dos sonhos. Mas pagava suas contas e lhe deixava com tempo o bastante para manter todos os episódios de série em dia, então foi adiando sua saída, mesmo que sentisse vergonha todas as vezes que encontrava um conhecido na rua e este lhe perguntava o que ela andava fazendo da vida. Se bem que, vergonha mesmo, ela sentia quando se olhava no espelho e via aquela toquinha miúda prendendo seus cabelos em um coque no alto da cabeça.

Aquele era o trigésimo sanduíche que preparava em menos de duas horas de serviço, ou talvez o trigésimo segundo, perdera a conta depois que um cara a obrigou a refazer todo o seu lanche, só porque ela confundiu os frascos e deu um esguicho de maionese em cima de seu frango. “Temperada, eu pedi maionese temperada!”. Ela não tinha culpa se todos aqueles movimentos repetitivos já haviam se tornado automáticos e suas mãos trabalhavam sozinhas, às vezes realmente sem comando algum de seu cérebro.

Despertou de seus pensamentos assim que o viu parado na fila. De repente estava extremamente consciente dos ingredientes em sua mão, seu uniforme surrado e do suor que se acumulava em sua testa. Ele olhava para cima, distraidamente, escolhendo seu lanche no painel que exibia o cardápio com as ofertas do dia. Não via Christian desde os tempos de colégio, mas nunca se esquecera do formato quadradinho e másculo de seu queixo perfeito.

Levou a mão até a cabeça, desejando poder tirar aquela touca, mas sabia que seu cabelo amassado lá dentro não lhe conferiria um melhor estado. Trocou de lado com Lilian, ficando responsável pelos vegetais e empurrando a colega para o setor de recheios, adiando assim seu inevitável encontro com o ex-namorado. E quem sabe, com um pouco de sorte, um buraco não se abriria no chão e a sugaria, poupando-lhe do constrangimento que estava prestes a acontecer.

Mas, três lanches depois, ali estava ele, pedindo um lanche de salame com pepperoni, com sua voz rouca, e sexy. Ela sentia a pele de suas bochechas ardendo, e não era pelo calor do forno. Lilian levou a bandeja com seu lanche até lá e ela se virou, apoiando a mão no puxador engordurado e tentando se concentrar em contar os segundos que o aparelho levava para aquecer e derreter a porção extra de queijo suíço.

Pouco depois, com as mãos trêmulas carregando o sanduíche, colocou-o no balcão entre eles e finalmente o encarou, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente: “alface, tomate e cebola?”. Ele apenas concordou com um aceno, olhando distraidamente para os ingredientes. “E picles, por favor”. Completou seu pedido com uma farta dose de molho parmesão e embrulhou o lanche, ainda sem acreditar.

“Obrigado”, disse, olhando em seus olhos, ainda sem reconhecê-la, e seguiu para o caixa, no final do balcão que os separava. “Por nada, Christian”, suas palavras ecoaram pelo salão antes que ela pudesse controlá-las, e obrigando-a a fechar os olhos para não ver sua expressão quando ele se virou.

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Despedida

34. Despedida

Toda segunda-feira. No início às cinco da tarde, depois passamos para às onze horas da manhã, pois seus compromissos mudaram e minha agenda precisou acompanhá-la. O mais importante era que fosse sempre às segundas-feiras, seu dia livre. No começo ela vinha de uniforme, direto da escola, mas depois passou a usar aquelas calças rasgadas no joelho, que estavam na moda. Éramos ambas meninas quando nos conhecemos, apesar da idade que nos separava. Ela nunca soube que eu dividia alguns de seus maiores medos e, muito menos, que achava outros engraçados, lembrando que eu também já os sentira um dia. “Isso passa, fique tranquila”, tive vontade de dizer-lhe inúmeras vezes, mas sempre me contive, já que eu estava ali para acompanhá-la em sua jornada, e não para lhe guiar por passos que talvez não fossem seus. Rimos muito juntas, pois nem sempre conseguia manter a seriedade diante dela. Aprendi coisas novas e me atualizei, notando como o tempo passa e que eu já não entendo mais todas as gírias que os jovens usam. Hoje, depois de dois anos e meio, viemos para nosso último encontro, passamos uma hora conversando sobre os mais diversos temas da vida, de sua vida. Não teve clima de despedida, já que nós não gostaríamos que terminasse. Mas, quando os ponteiros terminaram de dar a volta no relógio, levantamos de nossas confortáveis poltronas e seguimos para o corredor, em silêncio. Na porta, eu lhe agradeci pela oportunidade e pelo prazer que foi acompanhá-la por todo esse tempo. Ela, em resposta, me abraçou e disse que era ela quem precisava me agradecer, afinal crescera tanto com nossos encontros e conversas. Ah! Se ela soubesse o quanto eu também cresci desde aqueles primeiros dias, meus primeiros como Psicóloga.

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Por que a demora?

33. Por Que a Demora

Sou o que as pessoas chamam de ansiosa. E todo esse exagero é porque sofro quando alguém demora a me responder uma mensagem.

A tecnologia fez isso conosco, a comunicação tornou-se quase instantânea, e eu sinceramente não sei como seria viver em uma época em que uma conversa se dava por meio de uma troca de cartas, me arrepio só de pensar em precisar esperar uma semana inteira até ter notícias do outro novamente. Mas, o fato de os meios serem ágeis não significa que as pessoas também o sejam.

Quando envio um e-mail de trabalho, é porque estou com uma dúvida ou preciso do auxílio de alguém para prosseguir, então preciso de uma resposta rápida, é uma questão de otimizar o tempo, de produtividade, e não vejo qual a dificuldade de ler alguns parágrafos e digitar algo em retorno.

Na vida pessoal não é muito mais tranquilo do que isso: se envio uma mensagem para uma amiga, fico impaciente até receber sua resposta. Um verdadeiro pesadelo se instala caso ela demore, ou pior, não responda. Não há dor maior do que uma mensagem que foi visualizada e deixada de lado. Logo começo a repassar em minha cabeça nosso último contato e a me perguntar se ela está brava, afinal, eu devo ter feito algo para merecer ser punida com tanto silêncio.

Mas, o pior cenário de todos é quando encontro um cara, nós saímos e começamos a trocar mensagens ao longo da semana para nos conhecermos melhor. Se ele não me responde em um intervalo constante, começo a imaginar que não é só comigo que ele está conversando, talvez tenha outra. Ou então, quem sabe não esteja tão afim assim, já que não pode parar o que está fazendo nem por um segundo para falar comigo. E, pensando bem, não sei se quero me envolver com alguém que não tem tempo para mim, para nós. Começo a estipular prazos e, se ele não responder até lá, entendo o sinal de que não vale a pena insistir.

Às vezes me acalmo e tento pensar em outras possibilidades, talvez esteja ocupado, longe do celular, em uma reunião importante, ou vai ver que sua bateria acabou no meio do dia – você acredita nessa? Pois é, eu também não.

Continuo imaginando tudo o que pode estar se passando do outro lado, no outro aparelho. Quanto maior for o intervalo, mais fantasias elaboro, e olha que eu sei ser bem criativa. Outro dia, pensei que talvez ele estivesse… Opa, respondeu!

 

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Feliz Ano Novo!

07. Feliz Ano Novo

Último dia do ano, última festa do ano, última chance de conhecer alguém. Passei a noite toda observando-o, mas ele nem me notava. Parecia muito ocupado cumprimentando cada pessoa que passava pela porta e conversando com alguns amigos que o rodeavam. Quem era ele?

Faltava um minuto para o ano acabar. Alguém desligou o som e todos gritaram, então corremos para a área externa do salão para assistir à queima de fogos de artifício. A contagem regressiva começou, todos contávamos juntos, em uma só voz, ansiosos pelo término de um ciclo e início de outro, acreditando que alguma coisa em nossas vidas mudaria junto com os ponteiros do relógio.

Eu me distraí, entrando no clima, até que me senti observada…

Dez, ele olhou em minha direção. Nove, arqueou as sobrancelhas, parecendo me notar pela primeira vez ali. Oito, começou a andar, se aproximando. Sete, finalmente parou, bem na minha frente. Seis, olhou em meus olhos e sorriu. Cinco, encostou seu copo no meu, brindando, e bebeu todo seu champanhe em um único gole. Quatro, tirou o outro copo de minha mão e o apoiou na mesa atrás de nós. Três, colocou a mão em minha cintura, eliminando a distância entre nós. Dois, senti sua respiração perigosamente próxima à minha. Um, me beijou. Meia noite, “feliz ano novo”, sussurrou entre o beijo, ainda roçando seus lábios nos meus.

 

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Um Corpo Escultural

Paris (117)A ideia de passar as férias aqui foi do Pedro. Aliás, férias dele, pois eu ainda estava no período de licença e acho que se dependesse da minha vontade, ainda estaríamos em casa. Quando o médico me disse a data da cirurgia, seis meses atrás, senti muito medo, não me sentia pronta, apesar de desejar tanto as mudanças que eu acreditava estarem por vir. A mistura de sentimentos foi tão grande que nem me ocorreu calcular a data das férias de meu marido, eu só conseguia pensar que precisava aceitar e que a partir daquele momento não havia mais volta. Então foi o que fiz.

Pedro me acompanhou durante todo o processo, me apoiou na decisão, já que eu achava que isso era o melhor para mim, como ele disse. Compareceu a algumas consultas comigo e me ouviu pacientemente contando sobre os detalhes das que perdeu. Me levou para fazer os exames preparatórios e conseguiu folga no trabalho quando o grande dia chegou. Passou horas sentado na poltrona dura do quarto de enfermaria, respondendo as mensagens e ligações que não paravam de chegar em meu celular.

Depois ele fez piadas e nós rimos do dia entediante que ele passou no hospital, mas eu sei que na verdade estava nervoso. Encontrei-o cochilando quando fui levada para o quarto em cima de uma maca e com uma série de agulhas e aparelhos conectados a meu corpo. Ele acordou assustado e quase pulou de seu assento, mas se recompôs bem a tempo e abriu seu sorriso, ligeiramente torto, enquanto caminhava em minha direção. Eu, ainda sob efeito da anestesia, não consegui fazer nada além de uma leve pressão em sua mão que segurava a minha. Mas tudo bem, pois palavras não eram necessárias.

No fim do dia, fui encaminhada para outro quarto, onde fiquei por dois dias, em observação. A recuperação foi lenta, mas correu bem. A pior parte foram as restrições alimentares. Nunca pensei em como seria difícil ingerir apenas líquidos por sete dias. Quase chorei de emoção quando o médico disse que eu estava autorizada a começar a incluir coisas ligeiramente pastosas em minha dieta. Nunca comi uma sopa tão saborosa antes.

Apesar de estar bem, sentia-me fraca, a verdade é que as mudanças na alimentação me abalaram muito, mais do que eu gostaria de admitir. O médico me alertara sobre tudo isso antes, mas, em estado de euforia, nem pensei a respeito, apenas disse que eu aceitava, aceitava qualquer coisa desde que mudasse pra valer.

Tudo era recompensado conforme eu sentia as roupas ficando largas e escorregando de meu corpo. Eu não via a hora de fazer compras! Queria ficar bem para poder me exibir por ai.  Mas, apesar de estar ansiosa para começar a vida nova, fiquei espantada em como Pedro se mostrou impassível diante de minha sugestão de adiarmos a viagem. Disse que eu ainda teria tempo o bastante para me recuperar até lá e que eu já realizara meu desejo, agora era sua vez, com as tão sonhadas férias.

Tentei me animar, afinal ele estava certo. Chamei minha irmã para ir ao shopping comigo e escolher algumas coisas novas para viajar. Fiz compras para um corpo já dezoito quilos mais leve e uns bons centímetros menor. Realizei o sonho de entrar naquelas lojas de departamento e escolher o que quisesse provar, pois agora a numeração não era mais um problema. Estava tão deslumbrada que nem olhei para o outro lado do corredor, onde as lojas que me serviram por tantos anos me observavam. Percebi o olhar de inveja que Bruna lançava para meu corpo toda vez que saía de um provador com um modelito diferente. Logo ela, que foi contra o procedimento até o fim, dizendo sempre que achava a cirurgia uma medida radical e que eu acabaria com minha saúde.

É indescritível a sensação de vestir roupas largas para variar e eu estava aproveitando cada segundo. Mas era tão difícil deixar de comer! No começo era porque eu não podia, depois descobri que mesmo se quisesse, eu não aguentava, pois bastava engolir algumas garfadas que eu já me sentia saciada e até enjoada. Aos poucos, fui me cansando de tentar, já não tinha ânimo para fazer minhas deliciosas sobremesas, afinal eu não aguentaria mais do que prová-las.

Quando me dei conta, estava evitando convites para almoço ou qualquer coisa que envolvesse ficar sentada em uma mesa com um prato de comida a minha frente. Meu corpo rejeitava as refeições que minha mente desejava. Eu fiquei esbelta, mas ainda era aquela que adorava cozinhar e se esbaldar.

Foi Pedro quem notou que algo estava acontecendo, disse que não entendia o que eu estava fazendo: finalmente caminhava para meu peso ideal, e ainda assim não parecia satisfeita. Eu neguei, é claro que estava! Não estava? Era o corpo dos sonhos! Ou seria, assim que eu desse um jeito nas cicatrizes e começasse a fazer exercícios físicos para combater a flacidez da pele.

Ainda assim, ele insistiu em voltarmos ao médico. Só que o doutor já não parecia mais interessado em meu caso e encaminhou-me para um colega, psiquiatra, e foi então que recebi o diagnóstico de depressão.

Loucura! Eu disse a mim mesma. Não tinha depressão antes, como poderia desenvolver agora, quando tudo começava a se ajeitar? Tentei seguir com a rotina, saboreando os elogios que recebia sobre meu corpo. Senti que fraquejava a cada dia, até me render e aceitar a licença médica que ele estipulou como prazo para minha recuperação.

Pedro, sem abrir mão das férias, nos levou para o outro lado do mundo. Minha mala estava irreconhecível, apenas com peças de roupas novas e muito mais ousadas do que as habituais, que cobriam e escondiam meu corpo. Só que eu não queria ir, imaginava a insatisfação de meus patrões e as fofocas que rolariam entre meus colegas de trabalho ao saberem que eu viajara em meio a um período de recuperação. “Pra viajar ela não tem depressão, não é?”, imaginava Sônia sussurrando pelos corredores com sua risadinha áspera.

Após longas horas de voo, chegamos a nosso destino. Foi estranho me acostumar aos sons da cidade, com tantas pessoas falando em um idioma que me era irreconhecível. Resgatei as aulas de inglês na memória e pensei que eram tudo o que eu dispunha, já que não entendia uma palavra sequer do francês que ouvíamos a líamos por todos os lados. Somente no hotel, enquanto meu marido conversava com a recepcionista, é que os sons foram virando palavras que faziam sentido em meus ouvidos.

Na manhã seguinte, ele recebeu uma ligação de trabalho, algo sobre um problema urgente que aparecera no escritório e a equipe precisava de sua ajuda para resolver. Seu olhar pedia desculpas, e eu sabia que aquilo seria inadiável, o trabalho era prioridade, sempre fora. Observei enquanto ele tirava o notebook da mala e me perguntei como fora parar ali, será que sabia que precisaria usá-lo?

Para não perder o dia, resolvi sair e explorar as cidades. As ruas eram pacatas e eu me sentia como em um dos muitos filmes que assistira neste cenário. Segui o caminho que o mapa da recepção do hotel me indicava e em alguns minutos cheguei no jardim de Rodin, um passeio que sei que Pedro não sentiria por perder.

Andei pelas árvores, tentando me manter nos corredores de pedra que cercavam todo o espaço. Desviava dos turistas que pareciam mais interessados em suas selfies do que nas esculturas tão divinamente esculpidas e expostas entre as árvores e arbustos.

Perdi a noção do tempo que estava parada ali, em frente ao bloco sólido de bronze, que percebi ter um formato mais humano que meu próprio corpo. Cada um de seus detalhes era característico, impossível confundí-lo com qualquer outra pessoa. Finalmente me dei conta de que era assim que eu me sentia desde a cirurgia, como se tivesse perdido a noção da humanidade. Eu já não reconhecia minhas partes, meus detalhes, era só mais uma, igual a tantas outras que passavam por inúmeras intervenções, na vaga tentativa de suprir o descontentamento que a sociedade nos ensinou a ter com nossos próprios corpos.

Percebi que o desespero daquele ser inanimado era mais real do que qualquer uma de minhas reações dentro deste corpo que já não mais me pertencia. Fazia meses que já não me sentia como antes, parecia até que toda minha essência se esvaziara pelo corte da cirurgia, como se o médico não tivesse costurado minha pele a tempo.

Senti o ar indo embora de meus pulmões conforme ficava ofegante. Apoiei-me em um tronco para evitar o desequilíbrio e pisquei os olhos repetidas vezes, desejando que a tontura passasse. A última coisa que vi antes de cair foi que a assinatura do artista nos pés da escultura lembrava vagamente a cicatriz que marcava a região de meu umbigo.