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Dia dos Pais

Minha mãe perdeu o pai quando era bem jovem. Meu pai nunca conheceu o pai. E eu tenho, mas não tenho, pai. É complicado, vou tentar te explicar…  

Eu tenho, porque moramos juntos até meus treze anos. Mas ele não sabia qual era minha matéria favorita na escola, como eram minhas notas ou o que eu gostaria de fazer quando crescesse. 

Quando ele e minha mãe se separaram houve muita briga. Ele se afastou, roubou parte do patrimônio que construíram juntos e não pareceu se importar com o que tirou de mim e do meu irmão. Ele só nos levou para sair duas vezes, achava que nos ver em seu trabalho já era suficiente. Bem, não era. Também não pagou pensão, e ainda tentou me chantagear com esse dinheiro. Parando para pensar, acho que para ele tudo sempre girava em torno de dinheiro. 

Hoje, que sou mulher e adulta, fico ainda mais indignada com um homem que não assume a paternidade, não paga pensão e não se responsabiliza pelos filhos. Entrei para as estatísticas de brasileiros que foram criados apenas pela mãe. Essa sim sempre esteve ao meu lado.

Eu não tenho pai há pouco mais de dez anos. Em meio a uma briga, uma daquelas frequentes e pavorosas, eu me cansei. Cansei de ser o pombo correio entre o ex-casal, cansei das mentiras que ele contava e cansei de descobrir seus golpes. Sim, porque era exatamente isso que ele fazia. Tomei, por impulso, a sábia decisão de me afastar. 

E então cresci sem pai. Aprendi a conviver com uma falta que jamais será preenchida. Demorei alguns anos para conseguir lidar com o que sentia e largar uma culpa que não me pertencia. Tirei um peso enorme das costas no dia em que percebi que estava tudo bem não amá-lo, e que isso não fazia de mim nenhum monstro. “A gente não precisa amar quem machuca a gente”, repete comigo, repete quantas vezes precisar até você conseguir sentir. Foi assim que eu fiz. Demorou. 

Eu não sou mais criança para precisar aceitar seu comportamento sem poder reagir, tampouco sou inocente para lhe dar um título que ele nunca fez questão de usar. Aos poucos me refiz. Desde então, esse dia voltou a ser mais leve, porque aprendi a me virar sem ele, todos os dias.

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Liberdade

Depois que nós terminamos – ou melhor, que ele me deixou – todos os amigos tiveram a sensibilidade de perguntar se eu gostaria de cancelar nossa viagem, mas não seria justo acabar com a diversão do grupo por causa de um problema meu. Nosso. Mais meu, aparentemente. Nunca fui do tipo que gostasse de ser o centro das atenções. Além disso, no fundo, eu tinha esperanças de que até lá nós já tivéssemos nos resolvido e reatado o namoro. 

Minhas expectativas foram frustradas e, dois meses depois, fui passar as férias de verão no sítio que alugamos no interior com os amigos, ele e sua nova namorada, Vanessa. Seriam dias longos e dolorosos, mas eu não podia fraquejar. 

A ideia de acender a fogueira foi dele, o mais empolgado do grupo. Havia um espaço no meio gramado, feito de alvenaria e, o dono da casa autorizou que usássemos um pouco da lenha que havia encostada no muro dos fundos. Então, após um belo dia na piscina, todos tomamos banho, nos arrumamos e fomos jantar fora: cachorro quente no gramado, sob a luz do luar. Diferente da cidade, era possível ver as estrelas no céu, uma noite no campo era um presente para quem estava acostumado a ter apenas prédios como paisagem. 

No interior, as noites eram sempre frias, apesar da alta temperatura durante o dia, então estávamos enrolados em nossas blusas e ansiosos pelo calor do fogo. Os garotos montaram uma pequena estrutura com a lenha e levaram algum tempo até conseguir fazer o fogo pegar, gastando mais da metade da embalagem de álcool no processo. Quando conseguiram, a fogueira ganhou vida em segundos. 

Ficamos todos amontoados em volta, querendo sentir um pouquinho do calor de perto, alguns tirando fotos, outros já tentando improvisar espetos para cozinharmos as salsichas ali mesmo. Logo as conversas paralelas começaram, todos foram se ajeitando em pequenos grupos em volta do calor. E foi então que Mari apareceu com um bloquinho e algumas canetas na mão, sua proposta era fazermos um ritual de libertação, que consistia em cada um escrever em uma folha em branco um problema ou história que gostaria de deixar para trás, era preciso escrever enquanto mentalizava todas as energias negativas sobre aquilo, a ideia, segundo ela, era transferir toda a mágoa e emoções para o papel. Em seguida, dobraríamos nossos pedaços de papel e atiraríamos na fogueira. O fogo terminaria de cumprir o processo de purificação, nos renovando. Ignorando alguns risinhos, Mari disse que aquelas férias mudariam nossas vidas para sempre. 

Alguns reviraram os olhos, Gabriel foi quem mais riu da ideia, mas parou assim que viu sua namorada estendendo a mão para pegar uma caneta. Em pouco tempo todos se contagiaram e acabaram aceitando a brincadeira, afinal não faria mal algum tentar. 

Cada um recebeu uma folha e fomos revezando as canetas, enquanto alguns pensavam e demoravam a se decidir, outros pareciam já saber exatamente do que queriam se livrar. Eu sabia, é claro, só demorei para conseguir escrever no papel. Encarei minha letra trêmula antes de dobrar o papel e atirar ao fogo. Fiquei observando o papel sendo consumido pelas chamas até desaparecer. 

Juntos, queimamos angústias, medos e parte do nosso passado. Depois que todos fizeram, as brincadeiras e conversas paralelas voltaram a acontecer, alguém entrou para buscar mais cerveja e não tocamos mais no assunto. Eu me perguntava se mais alguém sentia um nó na garganta como eu. Ele ria, sem saber que era seu nome que queimava entre as chamas, era dele que eu precisava me purificar. 

Seguimos noite adentro, com comilança, risadas e cantoria. Tínhamos um violão, muitos cantores amadores e um batucador profissional, o suficiente para nos entreter por algumas horas. Aos poucos, cada um foi entrando ou arrumando um canto no grande quintal para se deitar e observar as estrelas, alguns novos casais se formaram. Eu me deitei perto de Mari e ficamos conversando sobre algumas árvores que víramos mais cedo no terreno: pé de manga, jabuticaba e até um pequeno milharal. Combinamos de colher algumas frutas no dia seguinte. 

A conversa me distraiu o suficiente para perder os dois de vista e, quando fui me deitar, não os vi em canto algum. Fiquei parada em frente à fogueira, que já diminuíra consideravelmente, mas ainda irradiava calor. Assisti à dança das chamas, que consumiam a madeira, me sentia hipnotizada por aquela imagem, a energia daquele calor. Balancei a cabeça e ri, me sentindo boba por ter deixado todo aquele papo de energia me contagiar. 

Fui até o quarto que estava dividindo com outras meninas, peguei minha necessaire e pijama dentro mala e segui até o banheiro. O cheiro de fumaça estava impregnado em meu cabelo, mas tive preguiça de tomar outro banho, então só escovei os dentes e me troquei antes de voltar para o quarto deitar em uma das camas duras e desconfortáveis que tínhamos a nosso dispor. O travesseiro era bem baixo, de tão velho e surrado que estava, ao que tudo indicava, a noite seria longa.  

Eu simplesmente não conseguia dormir. Me virei de um lado para o outro na cama, contei as peças de azulejo na parede, olhei cada mancha no teto e encontrei uma pequena teia de aranha na quina. Ouvia, com inveja, uma respiração alta na cama ao lado. Ouvi quando mais alguém entrou no quarto e se deitou. E nada, meus olhos simplesmente não se fechavam. Não conseguia parar de pensar nele e em nós. Talvez fosse parte do processo, talvez eu precisasse lembrar de tudo primeiro, mais uma vez, para então conseguir esquecê-lo, para então deixar nossa história ir embora junto com as cinzas. Sentia calor, depois frio, e não conseguia encontrar uma posição confortável, meu estômago doía, revirando o jantar lá dentro. Não sei se tive febre, mas sentia minhas mãos frias, suando. 

Acho que finalmente adormeci, ou só fechei os olhos por um instante, não saberia dizer, mas abri-os novamente quando senti um cheiro forte de queimado entrando em minhas narinas, não é possível que tudo aquilo viesse do meu cabelo. Olhei pelas frestas da janela e vi a fumaça começando a entrar. Sentei-me na cama, olhando mais atentamente. 

“Fogo!”, gritei, e saí correndo para acender a luz, acordando todas as meninas em meu quarto. Acho que não conseguiria descrever os momentos que vieram em seguida, porque mal me lembro de algo que faça sentido. Ouvimos gritos, todos saíram correndo, batendo em outras portas, tentando alertar a todos, alguns lembraram de arrastar malas para fora, outros, como eu, saíram só com o pijama no corpo. Tropecei em meus próprios pés no caminho para fora e alguém me ajudou a levantar. Saímos correndo. 

Alguém ligou para os bombeiros, mas eles demoraram a aparecer, afinal, estávamos isolados no meio do mato. Assistimos a casa pegar fogo, as chamas lambiam as paredes e labaredas levantavam alto, cuspindo telhas para cima, estalos de madeira eram a trilha sonora de nossos gritos por socorro. Havia muita fumaça, senti dor em meu peito e comecei a tossir, os olhos lacrimejavam e aquele terror parecia não ter fim.

Mas então o resgate chegou e nos levaram embora dentro de alguns carros, deixando uma equipe para trás, tentando apagar a grande fogueira que virara a casa. Passamos as horas seguintes recebendo atendimento e sendo interrogados. Parece que alguém não percebeu que a fogueira continuou acesa e a brasa caiu na grama, espalhando o fogo, que logo tomou conta do lugar. Talvez o excesso de álcool usado no acendimento também fosse culpado. 

Demorei para perceber que Gabriel e Vanessa não estavam conosco, quando notei, olhei para Mari, desesperada, mas ela não entendeu. Pouco depois veio a notícia que nos confirmou: o casal ficou para trás, morreram trancados no quarto. Na correria ninguém notou que eles não estavam lá, e os bombeiros não sabem se eles permaneceram dormindo ou se tentaram sair, mas não conseguiram. Seus corpos foram encontrados ainda na cama. 

De manhã, fomos levados de volta à casa, que já nem podia mais ser chamada assim. Avistamos os destroços, conseguimos recolher alguns poucos pertences e ficamos todos paralisados, observando o que restara de nossas férias. Eu ainda vestia pijama e chinelos, nem meu celular estava comigo, não sobrara nada meu ali. 

Olhei para o gramado e vi o local onde a fogueira começara. De longe, avistei o pequeno pedaço de papel perfeitamente dobrado em meio às cinzas. Caminhei até lá, sem que ninguém notasse minha ausência, abaixei e peguei o papel, ainda quente, e guardei no bolso. Eu não precisava abrir para saber o que estava escrito ali, eu sentia dentro de mim, finalmente estava livre.

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Ensino à Distância

Me inscrevi em um curso de extensão no início do ano. Acredito que de vez em quando é bom sair da própria bolha e olhar para fora, apreender novas técnicas, descobrir as soluções que outras pessoas e empresas estão usando. As aulas começaram em março, logo após o carnaval.

Passei por um processo já conhecido, mas que ainda foi capaz de causar frio na barriga: programar o despertador e dormir mal à noite, achando que perderia a hora, conhecer um caminho novo, descobrir o andar e a sala, entrar na tal sala já cheia de pessoas. Apresentação da turma e do professor, conteúdo programático e, mais nervoso ainda, na hora de fazer a apresentação pessoal. Nunca tenho certeza sobre o que falar sobre mim… Como fazer um recorte rápido que me resuma, sem parecer esnobe, tampouco simplória? Como parecer interessante em meio a tantos estranhos?

Gaguejei, me atrapalhei na fala, sentindo uma gota de suor frio escorrendo por dentro de minha camisa nova, meticulosamente escolhida para a ocasião. Bem na minha vez fomos interrompidos por uma batida na porta. Uma funcionária da secretária veio trazer a lista de presença e nos deu um brinde de “boas-vindas”, uma caneta de tinta azul com o símbolo da universidade. Peguei a caneta, com um sorriso amarelo e esperei para poder continuar minha exposição. A caneta sequer funcionava, como comprovei assim que o professor começou a aula.

Na semana seguinte tivemos o curioso fenômeno da formação de grupos, as famosas “panelinhas”. Cheguei a comentar que éramos uma turma só de mulheres? Uma tentando lembrar o nome da outra e a empresa onde cada uma trabalhava. Demos início ao tão estimado Networking.

Mas logo em seguida a cidade entrou em quarentena. As aulas presenciais foram canceladas e os professores prontamente buscaram uma alternativa digital. Usemos a tecnologia a nosso favor, não é mesmo?! A partir da semana seguinte, passamos a nos encontrar de forma digital, com alguns recursos improvisados, outros funcionais, mas demos um jeito de seguir em frente.

Algumas pessoas desistiram do curso e saíram do grupo sem avisar. Além disso, as perdas foram inúmeras: câmeras desligadas, devido à timidez, nos privando de contato e vínculos, problemas técnicos, falhas de comunicação, aliás, pouca comunicação, baixo engajamento e pouquíssima participação.

Sinto que deixamos uma chance escapar, perdemos a chance de nos conhecer, nos ajudar e nos divertimos juntas. As aulas se tornaram online, quase como assistir um vídeo ou palestra, passivo, fraco.

Foi triste perceber quão pouco as pessoas se engajaram e como a motivação para o curso caiu com a proposta de ensino à distância. Nunca saberemos o que teria sido diferente em um curso presencial, já que ele nunca aconteceu. Viramos cumpridoras de tarefas, isoladas e frustradas com nossos planos interrompidos.

Por outro lado, mesmo à distância, o curso é uma oportunidade de entrar em contato com outras pessoas da área, nem que seja uma vez a cada sete dias. Me mantém ocupada e me dá tarefas práticas para realizar durante a semana. Tenho aproveitado o tempo – e investimento – para buscar materiais complementares em vídeos, livros e artigos.

Beber de outras fontes ajuda e, nesse momento, ter uma ocupação prática é um alívio enorme. Mas, me frustra me arrumar todos os sábados, para ficar com a câmera desligada, ouvindo a voz de um professor com sono, explicando o conteúdo da forma que consegue, sem o viés presencial. Me entristece o fato de que nunca saberemos como nosso encontro poderia ter sido.

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Palavras

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Ontem foi meu aniversário. Vou contar pra vocês que fazer aniversário no meio da pandemia não é legal. Acho que a data nos deixa introspectivos, faz pensar bastante e fazer aquele “balanço geral”. Me senti travada, meus desejos e expectativas parecem ser os mesmos do início do ano. Mais alguém tem a sensação de estar parado no tempo? Por aqui a vida parece em pausa. E, pior, não vi muitos motivos para comemorar em meio a tanto sofrimento e desgoverno que temos enfrentado. A cada dia uma notícia ruim e mais mortes que entram na conta. É estranho celebrar a vida em meio a tanta destruição. Mas eu, assim como tantas outras pessoas, vi o calendário correr até meu dia.

Sem poder ver meus amigos ou abraçar minha família, tive um dia bastante agitado, com algumas videochamadas cheias de carinho. O interfone tocou algumas vezes, anunciando presentes que chegaram de surpresa, alegrando e adoçando meu dia. Mas o meu maior presente foram as palavras.

O dia começou com a habitual sessão de terapia que acontece às sextas. Minha terapeuta foi a primeira a me dar suas palavras: escolheu “sonhos”, “inspiração”, “coração” e mais algumas que eu esqueci pois já estava chorando.

E assim foi pelo resto dia: as palavras vieram na voz de quem passou o dia comigo e chegaram aos montes em meu celular, via mensagens nas redes sociais, posts apaixonados, recados carinhosos em minhas caixas de entrada, áudios para me fazer sorrir, palavras escritas em cartas, palavras ditas à distância de uma tela, e até as palavras não ditas, de quem não apareceu. Terminei o dia com os bolsos cheios de dedicatórias e desejos.

Foi muito engraçado ver como sou vista aos olhos dos outros: me desejaram muitos cafés, amor, bons encontros, corujinhas, muitas aventuras caninas, plantinhas, sucesso na escrita, e eu poderia encher mais uma estante com o tanto de livros e leituras que me foram desejados (amém!).

Não achei que me sentiria renovada assim, mas aconteceu. Eu e meus cabelos, que já começam a ficar brancos, agradecemos por cada uma das palavras recebidas. Obrigada ❤️

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Castelo dos Sonhos

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Acordei sentindo uma brisa passando pelo quarto, um ar frio tocando a ponta do meu nariz e tudo o que não estava protegido embaixo do cobertor pesado e felpudo. Me estiquei na cama macia, sentindo meu corpo despertar aos poucos, mexi os pés, estiquei os braços para os lados, sem sentir as bordas da cama. Não queria abrir os olhos, então, apertei-os, lutando contra a claridade que tentava atravessar minhas pálpebras e tentei para voltar ao sono, queria retornar ao sonho exatamente do ponto em que parara, como se pudesse apertar o play naquele filme novamente.

Me virei para um lado, puxei o cobertor para cima, tampando até a cabeça. Virei para o outro, me encolhendo em volta de mim mesma. Mas era tarde, já estava acordada. Repassei o sonho na cabeça, disposta a imaginar uma continuação, já que não poderia mais ser espectadora de meu inconsciente. Me vi novamente no baile, com um vestido longo azul, a saia rodada com uma fina camada de tule repleta de pequenos pontos de brilho, a maquiagem forte em torno dos olhos os realçava, o gloss de efeito molhado brilhava nos lábios.

Talvez minha parte preferida fossem os sapatos prateados, que tinham o salto na medida certa, não apertavam e, mesmo após uma noite inteira em pé, não havia sequer uma bolha ou calo me incomodando, só podia ser imaginação mesmo.

O cabelo caía em ondas até meus ombros, mais curto do que estava acostumada, mas eu me sentia tão linda que simplesmente não mudaria nada naquela noite. Na verdade, mudaria apenas o tempo: adoraria fazê-lo parar. Gostaria de poder viver ali, naquela festa, naquele castelo. Sim, pode me chamar de boba, mas era isso o que aquela mansão parecia. O jardim que eu via lá embaixo, pelas grandes janelas do salão só podiam ser descritos como vindos de um sonho.

Eu não podia terminar aquela noite senão desta maneira, em uma cama confortável, sem hora para acordar e com ele ao meu lado. Aí começava a parte da imaginação, já que eu estava sozinha em minha cama.

Gemi, e finalmente tomei coragem para abrir os olhos e enxergar a realidade. A luz me invadiu, causando um arrependimento instantâneo. Pisquei algumas vezes para me acostumar e então olhei para frente. O vestido, que mais parecia de uma fada, estava lá, azul e com todo o brilho que eu me lembrava. Os sapatos descansavam no chão e uma pequena bolsa estava em cima da cadeira. Passei as mãos sobre o cobertor e não o reconheci como meu. Olhei em volta e para mim, apenas para constatar o óbvio: aquela não era minha cama, muito menos o meu quarto.

Eu vestia uma camisola preta, rendada que não cobria muito do meu corpo, não era à toa que sentia frio. Olhei para os lados, só para ter certeza de que estava sozinha e então dei um beliscão em meu braço: doeu de verdade. Mas o que era verdade, afinal?

Sentei-me na cama e olhei para baixo, onde encontrei duas pantufas de pelúcia aguardando para um encaixe perfeito em meus pés. Havia também um roupão apoiado na cabeceira da cama. Enrolei-o em volta do corpo e parecia que estava carregando um cobertor comigo. Levantei e segui até a janela. Lá estava meu jardim dos sonhos, a vista mais bonita que eu já vira em uma manhã, os raios de sol cortavam o horizonte, apesar da baixa temperatura. Fiquei apoiada, olhando a imensidão a minha frente. Olhei para as janelas ao lado, todas fechadas.

Fiquei ali até ouvir o barulho de chave girando na fechadura atrás de mim. Sua voz chegou aos meus ouvidos junto com o cheirinho quente de café que invadiu todo o quarto.

– Já está acordada? Saía daí ou vai se resfriar.

– Achei que eu estivesse sonhando – perguntei, me virando e encarando-o de frente.

Ele também vestia um roupão e pantufas semelhantes às minhas, mas, ao contrário de mim, parecia se sentir realmente à vontade ali.

– A noite passada pode ter sido, mas espero que todos os nossos dias sejam assim a partir de agora.

Ele deixou a bandeja que carregava apoiada na cômoda ao lado da cama e se aproximou, me envolvendo em um abraço apertado.

Respirei seu perfume, o mesmo de ontem à noite. Não era um sonho, afinal.

 

 

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Quarentena

Estou em casa há vinte e cinco dias. Trancada em regime de semiliberdade. Sem previsão de quando poderei sair. Falar em segurança hoje parece irrisório. As pessoas se cobrem, se lavam o tempo inteiro e estão mais conscientes do que nunca sobre a frequência que costumam tocar o próprio rosto. Hábitos de higiene que já deveriam ser rotineiros são ensinados a todos pela televisão, como informações novas e revolucionárias. Máscaras de pano são improvisadas e o álcool em gel virou item de necessidade básica, presente em todas as listas de compra feitas no último mês. 

O inimigo é invisível e, por não sabermos se ele está lá, nos comportamos como se estivesse em todos os cantos. Uma simples ida ao supermercado é acompanhada de uma dose de ansiedade e bastante paranoia. E não sou só eu, noto que as pessoas se olham desconfiadas, com medo umas das outras, pois qualquer um pode ser o portador do mal que nos rodeia.

Agradecemos pela internet e aplicativos que nos permitem fazer compras online, no conforto e segurança de nossos sofás. Mas alimentamos um sistema que obriga trabalhadores a continuarem se expondo diariamente para dar conta da logística e das entregas. 

Vivemos um cenário que até então só havíamos visto em livros e filmes, fruto de mentes criativas. Conhecendo a dita natureza humana, algumas previsões se mostraram precisas, porém agora mudamos de papel, ao invés de espectadores, somos protagonistas de um verdadeiro show de horror. Em muitos momentos vemos o egoísmo prevalecer, o medo falar mais alto e o pânico nos dominar. Porém, também presenciamos, recebemos ou damos, gestos de amor e empatia. Precisamos, de uma vez por todas, entender que estamos juntos nessa e é apenas assim que teremos forças para superar e continuar. 

Ver as ruas vazias, o céu claro e limpo com a diminuição da poluição é lindo e assustador na mesma proporção. A vida se escancara diante dos nossos olhos, o impacto do ser humano na natureza fica nítido sem toda a fumaça e caos que produzimos diariamente. Que o tempo em casa nos faça repensar valores, que a saudade nos ajude a melhorar nossas relações e que o susto nos obrigue a redefinir prioridades. Cuidar do realmente importa, valorizar aquilo que descobrimos ser essencial. 

Mais do que ficar em casa, é tempo de voltar-se para dentro, revisitar-se e aprender a se sentir bem na própria companhia. Encontrar sim refúgios, pois há momentos em que é preciso fugir da realidade que nos assombra a partir da porta de casa, quando não do lado dentro. Mas também cuidar-se, valorizar-se. Não se iludir com a falsa noção de produtividade. Tudo bem ficar mal, o mundo está doente, afinal. Mas também é preciso saber levantar e se adaptar: adotar uma rotina – provisória – para que a vida siga, precisamos ter algo em prol do que lutar. É uma fase e, seja lá qual for a curva, a humanidade há de superá-la. 

Estou tentando viver um dia de cada vez. Às vezes acordo disposta e consigo ter um dia produtivo de trabalho, aproveito para assistir aulas online e consumir um pouco do conteúdo que tantas empresas nos disponibilizaram nesse período. No dia seguinte posso acordar sem apetite, sem vontade de tomar banho ou até sem coragem de sair da cama. As notícias assustam e tiram o sono, pensar em pessoas que vivem em situação de maior vulnerabilidade do que a minha me traz um sentimento de impotência que dói no peito. Respiro fundo e torço para que o próximo dia seja melhor. Dias melhores para mim e para nós, é o que desejo. 

Ponte Estaiada

Foto: Eduardo Frazão

06/04/2020

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Dentro de mim

Árvores (48)

Ansiedade é o nome daquele monstro que mora debaixo do meu travesseiro e me mantém acordada madrugadas adentro. É aquilo que me prende com os dois pés no chão, me faz sentir medo de experimentar coisas novas e, ao mesmo tempo, é quem não me deixa ficar parada. Relaxar? Nunca! Afinal, o que está bem hoje pode não estar amanhã.

Às vezes ela fala mais alto do que qualquer outra voz, nem adianta gritar ou espernear, quando quer: ela (me) vence! É constante tormento, motivo de alguns dos meus banhos mais longos, quando ao invés de lavar o corpo, encharco a mente com fantasias que talvez nunca venham a acontecer – mas vai quê!

Aflição, frio no estômago, vazio, ânsia, cansaço, tontura, apatia, tremor, depressão, suor. Nos misturamos uma na outra, como galhos entrelaçados, ela com seus sintomas e eu com meus sentimentos. Carrego afeto por onde vou, e ela vem na bagagem. É impossível sermos uma sem a outra.

Nos dias mais difíceis, escrevo. Cartas, poemas, crônicas. O simples movimento das mãos me lembra que estou no controle, que posso, que escolho, que faço. As palavras são um lembrete de que sinto, sinto tanto que transbordo em letras. Ela se acanha quando eu domino, mas sei que o jogo pode virar novamente, é só uma questão de tempo. Pronto, já virou.

Entendi que vamos precisar conviver, já que nenhuma de nós vai a lugar algum. Ela tem a forma que eu dou, é contorno dos meus receios, alimento dos meus anseios. Aprendi que não preciso temê-la, mas temo que ela me afaste de você.

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Arquivo Morto

55. Arquivo Morto

Tenho um arquivo morto de ideias em minha cabeça. Cadernos e dispositivos eletrônicos são as únicas testemunhas de meus rascunhos.

Tem vezes que a ideia vem pela metade, pode ser não mais do que um lampejo, apenas o suficiente para acender algo dentro de mim. Mas nem sempre ela ou eu temos maturidade o suficiente para explorar e, portanto, não nos entendemos à princípio. Tudo aquilo que não consigo lapidar vai para o arquivo, junto com os pensamentos que ouso ter, mas não me atrevo a escrever.

E assim meus trechos se acumulam, à espera de que eu viva novas e diferentes experiências que, pouco a pouco, expandem meus horizontes, mudam minha percepção e transformam a forma como vejo o mundo, o meu mundo. Isso pode me aproximar ou afastar, às vezes o insight pode vir em um momento inesperado e a história simplesmente se desenrola bem diante dos meus olhos. Em outros casos, deleto impiedosamente o arquivo de meu computador e adormeço a memória em minha mente.

Já perdi a conta de quantas vezes fui espectadora de minha mente. Embarco em minhas próprias fantasias e me sinto mera escrivã, cumprindo a ordem de escrever aquilo que aparece para mim em forma de ideia. Sou facilitadora, usando a caneta para eternizar no papel toda a criatividade que há em minha mente.

Meu arquivo é bem vivo. É um apanhado de tudo o que mora e se mexe dentro de mim. Deixo histórias descansarem para que amadureçam antes de compartilhá-las. Retomar um texto com olhos frescos e descansados é uma das experiências mais interessantes que um escritor pode ter. É reencontrar-se com suas próprias palavras e tomar a liberdade de mudar e editar seus próprios pensamentos. Como em um espelho, é deparar-se consigo e reparar nos mínimos detalhes. As palavras revelam aquilo que não conto sobre mim, a melhor forma de me entender é, sem dúvidas, lendo um conto onde falo sobre outros personagens e me desnudo por completo em meio a ações de outrem. Com eles ouso, pego rotas alternativas, exploro “e se’s” como nunca teria coragem de fazer.

Vivo e convivo com o constante barulho de rascunhos e versões alternativas que povoam meu imaginário. De tempos em tempos, tomo a difícil decisão de colocar um ponto final e declarar minha obra como concluída. Molduro trechos de quem sou e assim tenho a sorte e a tormenta de colecionar pedaços de quem já fui ou desejei ser. Me guardo nas palavras que escrevo.

 

 

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O Colecionador de Histórias

14. O Colecionador de Histórias

Caio já estava acostumado, não conformado, mas acostumado. Todos os dias fazia tudo sempre igual. Enrolava por até vinte minutos depois do despertador já ter tocado. Se arrastava até o banheiro e deixava que a água corrente em seu corpo terminasse o trabalho de lhe acordar. Depois, meio vestido, mas ainda de pantufas, seguia para a cozinha e ligava a cafeteira. Enquanto ela fazia seu trabalho matinal praticamente sozinha, ele lavava a louça da noite anterior e tentava se livrar dos vestígios que restassem pela casa. Jogava latas de cerveja fora, cheirava o resto de pizza e ponderava se aquilo servia para mais uma refeição ou não.

Toda quinta-feira, suas noites eram reservadas a jogar videogame com os amigos. Faziam diversas competições, às vezes presenciais, mas, quase sempre, online. Era mais fácil interagir com pessoas que se pareciam tanto com ele. Nada mudava seu compromisso semanal. Esse mês, estava em segundo lugar, e pretendia avançar na próxima rodada.

Fora isso, por mais que não fosse grande fã de uma rotina matutina, funcionava melhor para cumprir suas obrigações pela manhã, antes do trabalho, pois sabia que depois seria tragado por oito horas de uma função maçante e repetitiva – dez, se considerasse o trajeto, enlatado junto com outras tantas pessoas dentro de um estreito vagão a caminho de seus trabalhos entediantes e mal remunerados.

Depois de dez horas sentindo-se massacrado, à noite ele não conseguia mais ser produtivo. Só queria beber alguma coisa, jogar e relaxar. Às vezes pedia pizza e ficava assistindo vídeos em seu computador, outras vezes ficava deitado no sofá maratonando séries. E, quase sempre, se masturbava.

Fazia um ano e meio que ele fora contratado para integrar o time de TI de uma empresa de seguros. Em geral o trabalho era fácil, uma vez acostumado ao sistema, não era grande desafio resolver eventuais bugs, a pior parte era lidar com o setor de experiência do usuário, detestava quando precisava atender chamados e responder solicitações dos clientes. Afinal, o que havia de tão difícil em mexer em um computador?

Mas, não havia nada como ser taxado como o “cara do TI”. Tinha vontade de rir de desespero quando alguém aparecia em sua sala para pedir ajuda com seu computador ou então para “dar uma olhadinha” na impressora que misteriosamente parara de funcionar. Ele se sentia como um atendente de telemarketing, perguntando “você já tentou reiniciá-la?”. Sem dúvidas, lidar com pessoas sempre fora a pior parte.

Mas, com aluguel e contas para pagar, desde que brigou com a mãe e resolveu sair de sua casa, ele se submetia a uma série de infortúnios em nome do emprego e, principalmente, do salário. Por isso, repetia a si mesmo que aprender a programar fora a melhor coisa que fizera em sua adolescência. O sonho de crescer e se tornar um escritor estava trancado na gaveta já havia alguns anos. Com o ritmo de vida que vinha levando mal tinha tempo para ler, quem diria colocar suas próprias ideias no papel.

E, também, trabalhando o dia inteiro e sem tempo para viver experiências novas, sentia não ter material – ou tempo – para escrever uma história que pudesse despertar o interesse de alguém, não com tanta coisa boa já produzida no mundo. De que valiam suas histórias quando cada pessoa já estava ocupada escrevendo e vivendo a própria.

Apesar da remuneração não ser tão ruim, a verdade é que mal dava para fechar o mês, foi isso que o incentivou a aceitar um plano B, ou um “bico”, como costumava chamar. De tanto mexer com computadores, tornou-se expert em recuperação de arquivos e, como bom paranoico que era, não fazia nada sem distribuir uma boa dose de backups por aí: sistemas em nuvem e hds externos eram seus melhores amigos.

Por ser conhecido na empresa como o tal “cara do TI”, os colegas também começaram a procurá-lo para resolver problemas em seus dispositivos pessoais. E, já que precisaria trabalhar e socializar com aquelas pessoas após o expediente, resolveu cobrar por isso. Em pouco tempo foi indicado de uma pessoa a outra e conseguiu um volume considerável de clientes.

Em geral, recebia máquinas infestadas de vírus e pedidos desesperados de ajuda, pois sempre havia uma foto ou documento importante demais para ser apagado, por isso, formatar nunca era uma opção. Trabalhando com uma boa margem de sucesso, em geral conseguia recuperar as informações do hd e só depois formatava a máquina, devolvendo-a limpinha, com seus preciosos arquivos intactos. Inconformado com a falta de precaução das pessoas, também começou a fazer uma espécie de consultoria de backups. Fornecia opções de sistemas e locais, e ensinava cada um a criar seus próprios métodos de salvar e proteger arquivos para a posterioridade.

Era de se estranhar, para alguém que se irritava tão facilmente em atender pessoas no dia a dia do trabalho, mas a verdade é que era divertido ver como as pessoas tinham tanto apego a arquivos de alguns kbytes. A quantia de fotos tremidas que as pessoas tratavam como tesouros era um mistério a ser estudado. Mas ele, apaixonado por bancos de dados, se divertia tratando dos arquivos e espalhando cópias de tudo na rede.

Aos poucos, por mais que não quisesse admitir, começou a se interessar pelas pessoas cujos computadores consertava. Havia um código de ética instalado em sua cabeça, e assim, tentava manusear os arquivos sem abri-los. Quase nunca havia a necessidade de abrir um documento ou foto, só precisava garantir que conseguiria recuperar tudo, eram dados, o conteúdo pouco importava. Mas, com tantas noites solitárias em casa, começou a traçar perfis de seus clientes. Alguns gastavam um número inexplicável de gigas apenas para armazenar fotos. Fotos de quê? Animais fofinhos? Comida? Paisagens? Talvez selfies? Foi assim que ele começou a dar uma espiadinha aqui, outra ali, apenas para garantir que estava fazendo um bom trabalho, para que nenhum arquivo lhe escapasse antes da formatação irreversível da máquina.

Mas os fragmentos que os computadores lhe contavam só serviam para lhe despertar ainda mais curiosidade acerca de seus donos. O que uma máquina revela sobre seu usuário? O que um conjunto de arquivos ajuda a entender sobre alguém? Foi assim que começou a pesquisar pelo nome de cada um na internet, era fácil descobrir seus perfis em redes sociais e transitar por praticamente tudo o que houvesse de informação pública compartilhada. A internet e suas redes, era muito fácil pescar um peixe.

Seu primeiro desvio aconteceu por culpa de um artigo acadêmico. O amigo de um rapaz que trabalhava com ele lhe procurou, através de boas recomendações: estava escrevendo sua tese de doutorado e o computador lhe deixou na mão. Ele estava desesperado e daria qualquer coisa para reaver seus arquivos. Combinaram um valor e ele passou em sua casa para deixar o laptop. Caio pediu a já habitual pizza de muçarela com pepperoni e começou o trabalho. O doutorando cometera um erro de principiante ao clicar em um link de um e-mail totalmente suspeito e infestar a máquina de vírus. Ah, a curiosidade humana!

E, por falar em curiosidade, começou a abrir os artigos acadêmicos usados de referência para a tese. Apenas por precaução, para conferir se nada fora corrompido. A tese escrita pela metade já estava repousando seguramente na pasta de recuperados. Um dos textos lhe chamou a atenção, algo sobre os hábitos de consumo das pessoas e uma ousada projeção sobre em quantos anos o comércio físico seria completamente substituído pelas vendas online e marketplaces. Ele levou o artigo para a nova pasta e criou uma cópia em sua própria máquina, para ler com mais calma em outro momento. Não viu nenhum problema naquilo, afinal era um artigo já publicado e acessível. Ele apenas se poupou o trabalho de procurá-lo novamente na internet.

Pouco tempo depois, em uma noite particularmente solitária, estava consertando a máquina de uma das meninas da recepção quando abriu sua pasta de fotos. Foi impossível resistir a tantos álbuns! O que ela tanto guardava ali? Acontece que ele acabou esquecendo de apagar uma ou duas fotos de sua máquina depois de concluir o trabalho no computador dela. Talvez tenham sido mais, o fato é que algumas fotos ficaram ali perdidas em uma pasta de seu próprio computador. E foi assim que suas pequenas transgressões começaram a evoluir.

Organizado como era, criou uma planilha com os dados dos donos das máquinas, as especificações das mesmas e o valor recebido por cada serviço. Depois, um tanto quanto ousadamente, criou pastas e um sistema de categorização para os arquivos que ficavam eventualmente esquecidos em sua máquina, cópias de fragmentos da vida de outras pessoas.

Foi em um sábado que fez seu primeiro exercício. Pegou a foto de um grupo estranho de pessoas e ficou observando por algum tempo. Conhecia apenas a pessoa que tirara a foto, a mesma garota que lhe pagou para ter aquelas fotos de volta. Ficou olhando a foto, pesquisou seu perfil nas redes sociais e tentou imaginar que história aquela foto contava, o que havia para além daquele arquivo de dois mega contrabandeado em seu computador. Abriu um documento novo e ficou encarando a tela em branco à sua frente até começar.

Criar aquela história foi um exercício surpreendentemente prazeroso. Tinha um quê de transgressão misturado com aventura, sem contar a satisfação de sentir seus dedos desenferrujando a cada toque nas teclas. Fazia tempos que não escrevia nada e, de repente, era como se aquela garota estranha lhe trouxesse de volta à vida.

E assim foi avançando, usando o que conhecia daquelas pessoas para criar mundos, situações e personagens. Aos poucos até deixou de se importar com o trabalho investigativo – stalker – na internet. Parecia que quanto menos soubesse da pessoa, melhor sua versão ficava. Ele só precisava de conteúdo, pedaços de uma história real que servissem como gatilho para suas próprias alternativas e finais. Caio gostava de suas versões.

Como não podia deixar de ser, guardava seus textos, bem como as devidas referências, em diversos backups espalhados em seu computador, em sistemas de nuvem gratuitos e pagos. Precaução nunca era exagero, esse era o seu lema.

No final do ano, Alessandra, uma corretora de vendas, lhe procurou, desesperada, pois seu sobrinho derrubara seu computador no chão e, além da tela trincada, agora o dispositivo não queria ligar. Todas suas fotos estavam ali, todo seu material de trabalho, inúmeros arquivos importantes, praticamente toda sua vida pertencia àquela máquina! Ele pensou em recusar o trabalho, pois no final daquela semana entrariam em recesso e ele passaria duas semanas sem precisar encontrar nenhuma das caras semi-conhecidas do trabalho. Mas ela parecia realmente desesperada, então algo nele cedeu.

Como a tela havia estragado, ele passou o hd da moça para outro aparelho e passou algumas horas realizando a extração de arquivos, foi dormir e deixou a máquina trabalhando durante toda a noite. Na manhã seguinte, fez sua cópia pessoal dos arquivos, para mais tarde, e salvou tudo o que seria devolvido para Alessandra em um hd externo, que ela poderia plugar em qualquer máquina para reaver seus tão queridos arquivos: fotos, planilhas, apresentações de slide e muitas músicas pirateadas da internet. Aparentemente, ela ainda frequentava sites de torrent para baixar músicas. Em pouco tempo seria considerada vintage.

Acabou se atrasando para o trabalho porque tomou café da manhã olhando as fotos da última viagem à praia que a moça fizera com três amigas. Talvez uma delas fosse sua prima, pois também aparecia nas fotos de família do último natal.

Chegando na empresa foi direto para sua sala e só pôde encontrá-la no final do dia, quando lhe entregou o pequeno aparelho embrulhado em uma sacola plástica e a velha máquina quebrada. Ela abriu um sorriso enorme e praticamente pulou em seu pescoço, em um abraço desengonçado de agradecimento. Após o que pareceu muito mais tempo do que os de fato seis segundos, ela se afastou, com um sorriso tímido no canto da boca, agradeceu novamente.

– Caio, muitíssimo obrigada! Você salvou a minha vida, tudo que eu tenho está aqui.

– Até que foi fácil, como eu te falei, o que estragou foi a máquina, mas os arquivos estavam intactos. Agora, se você quiser a gente se senta para conversar qualquer dia e eu te explico mais sobre formas de dar mais segurança a seus arquivos.

– Sim, os backups, né? Eu quero sim, por favor. Você está livre na sexta? Podemos conversar aqui depois do trabalho, ou vamos lá no Astor e nos sentamos para bater um papo e você me explica tudo isso um pouco melhor.

Ela estava lhe chamando para ir a um bar depois do expediente? Foi difícil conter a sensação quente que percorreu seu corpo. Alê não era de se jogar fora, ainda mais depois de ver todas aquelas fotos dela dentro de biquinis.

– Claro, como for melhor para você.

– Ótimo, nos encontramos por aqui e então decidimos. Agora deixa eu ir que já estou atrasada para a aula de pilates. Ah, já fiz o depósito do seu pagamento, deve cair na sua conta amanhã, você confere?

– Obrigado.

Ela se inclinou para lhe dar um beijo na bochecha como despedida e saiu animada da sala segurando o notebook como se fosse uma pasta em suas mãos.

Aula de pilates, quintas às 19 horas. Ele sabia, é claro. Viu o contrato de matrícula escaneado entre seus arquivos.

Foi para casa um tanto quanto curioso e aflito com a perspectiva de um encontro no dia seguinte, o último dia antes do recesso de fim de ano. Não que fosse um encontro, é claro.

Porém, para sua extrema decepção, Alê cancelou com ele no dia seguinte, por uma mensagem um tanto quanto vaga. Aquilo incomodou mais do que deveria e ele trabalhou com um humor ácido, contando os minutos para poder ir embora e ficar duas semanas afastado daquele lugar e daquelas pessoas.

*

Após o recesso, seu lema era “Ano novo, vida nova” e passada a mágoa com Alessandra, Caio voltou tranquilo ao trabalho e sua tediosa rotina. Um pouco de descanso lhe fizera bem, as miniférias e a virada do ano na praia com os amigos também. “Amigos” talvez fosse um exagero, ele conhecia apenas os dois ex-colegas de faculdade, Pedro e Diogo. Pedro os convidara para uma festa de réveillon na casa de praia da família no litoral norte. Foram dias agitados, com quinze pessoas na casa. Ele conheceu Laís, com quem passou algumas noites. Mas nada além disso, um amor que não sobreviveu à subida da serra, sentimento que aparentemente era mútuo.

Logo no primeiro dia recebeu um recado de Alessandra pedindo para lhe encontrar e fazendo um convite para almoçarem juntos. Sem motivos para negar, ele foi até o pequeno restaurante por quilo onde costumava gastar todo seu vale refeição e ficou sentado esperando pela moça, que atrasou exatos sete minutos.

Se cumprimentaram com um meio abraço constrangedor e ela lhe desejou um feliz ano novo, ao que ele retribuiu e fez sinal para que ela se sentasse na cadeira a sua frente.

– Olha, Caio. Eu te chamei aqui porque…

– Quer beber alguma coisa? – ele a interrompeu, chamando uma garçonete

– Não, obrigada – ela pareceu não gostar da interrupção – Bem, eu não aguento isso, vou direto ao ponto. Naquele dia em que conversamos, assim que cheguei em casa, peguei o computador de minha irmã emprestado para dar uma conferida nos arquivos, eu estava tão feliz por saber que eu não havia perdido nada… Mas o que havia lá dentro, aquele conteúdo não era meu. Ou seu. Era muita gente, muita gente mesmo, muito mais do que eu gostaria de ter visto. Ah, sim, também tinha algumas coisas minhas ali dentro. Você pode me explicar? Porque eu acho que já entendi, mas eu quero mesmo te dar uma chance, espero estar errada.

Ele arregalou os olhos, depois desviou-os para o teto, pois era impossível continuar encarando-a. Ela ficou parada também, assistindo enquanto ele processava a informação sobre a troca dos backups.

Ele abriu a boca, fechou, abriu de novo e finalmente gaguejou. Parecia não encontrar palavras.

– Alê, eu posso explicar. É só… não é nada – disse, abaixando a cabeça.

– Tem que ser alguma coisa. Você é uma espécie de psicopata? Por que guardar todas aquelas informações sobre as pessoas? Por que ficar com fotos e documentos que não são seus? Isso é roubo, é crime, sei lá! É errado. Eu estou em perigo ou algo assim? Você vai me perseguir ou sequestrar alguém da minha família, porque de repente parece que você sabe demais sobre mim, e eu não sei nada sobre você!

– O que você quer saber?

– O motivo de tudo isso. Isso é… é doentio, Caio!

– Eu escrevo.

– O quê? – ela perguntou ofegante, num quase grito bem agudo.

– Começou por curiosidade, eu deixei um artigo em minha máquina para ler depois, um artigo publicado, disponível na internet, não foi roubo, como você colocou, nem nada. E depois, eu comecei a ficar curioso, ficava tentando imaginar quais eram as outras peças daquele quebra-cabeças que a pessoa me trazia. Sim, porque todos os documentos nos contam algo sobre seu dono, mas o que mais aquela pessoa era? Quem mais? Eu fui me deixando imaginar e então comecei a escrever. Aquilo que você viu, o conteúdo das pastas são apenas inspirações, dali eu tirei personagens que coloquei em situações que me permiti imaginar e viver dentro de minha cabeça. Eu posso te mostrar, tenho uma pasta cheia de rascunhos.

– Você escreve? – ela repetiu com uma voz fria e mecânica, como se apenas parte dela estivesse ali comigo, naquela mesa.

– Sim, posso te mostrar, se você quiser.

– Mas isso é errado também! – ela disse, voltando a me encarar, mas já parecendo um pouco menos perturbada – Você não tem direito de se inspirar ou como queira chamar, no conteúdo de outras pessoas sem autorização. Então ninguém faz ideia de que você copia os arquivos?

– Eu não sei. Eu sinceramente não tenho uma resposta para te dar. Eu só comecei a fazer e é o que eu faço desde então, me distrai. Eu só coleciono, entende?

– Arquivos?

– Histórias, hipóteses, possibilidades. Chame como preferir, não me importa.

Ficaram em silêncio por algum tempo, ambos com o coração disparado e a cabeça fervendo em pensamentos.

– Está errado, Caio, está errado.

Ele se sentiu realmente mal por vê-la tão aflita.

– O que você vai fazer? – finalmente perguntou.

– Eu não sei, sinto que eu preciso contar para alguém, isso tem que parar.

– Olha, por favor, não conta para ninguém, foi bobeira, coisa inocente, de alguém que mora sozinho e estava entediado demais com a própria vida. Mas eu realmente preciso do emprego.

– Eu preciso pensar. Você tem tudo aquilo salvo em outros locais? Ora, que pergunta, é claro que tem! Você tem que prometer que vai deletar tudo e que vai parar. Eu vou pensar e então nós conversamos. Você promete?

– Eu vou parar – concordou.

Desnecessário dizer que eles não comeram, já que não havia tempero capaz de adoçar aquele encontro. Ela se levantou, deixando-o sozinho ali.

Não se encontraram nos dois dias que se seguiram. No terceiro, ele a avistou esperando próximo ao bebedouro que ficava no final de seu corredor. Ela estava estrategicamente posicionada, de forma que ele precisaria passar por ela para ir embora.

– Alessandra – disse, cortês.

– Caio – a moça respondeu, fazendo um aceno com a cabeça.

Por que em alguns momentos é tão difícil encontrar palavras a dizer? Será que é pelo ensurdecedor barulho ecoando dentro de nossas cabeças?

– Podemos conversar? – finalmente perguntou.

– Claro, eu já estou saindo, vou embora de metrô, quer me acompanhar até a estação? – perguntou, afinal sabia que a moça fazia todos os dias o mesmo trajeto que ele.

Entraram e saíram do elevador em silêncio, sem ousarem trocar uma palavra sequer na presença de estranhos. Era curiosa a sensação que percorria e pele dele, tanto quanto o frio no estômago dela. Havia uma conexão, algo agora os unia.

– E então…?

– Eu não sei. Essa história toda tem tirado meu sono! Por mais inocente que seja, ainda me parece errado, entende?

– Entendo.

Ok, não era essa a resposta que ela esperava. Ele nem tentou se explicar, e ela sentiu inveja de sua firmeza.

– Bom, vou perguntar de uma vez e aí você me julga e pronto – ela disse mantendo os olhos fixos no chão à sua frente.

– Quem sou eu para julgar?

– A pessoa mais capacitada, eu diria, já que você tem informações de todo mundo.

Ele riu, gargalhou, na verdade.

– Essa é só uma forma de ver as coisas.

– Nós trabalhamos em uma empresa de seguros, merda! – riu também – e aparentemente ninguém ali está seguro.

– Nós não vendemos senão uma ilusão de segurança. Você, mais do que ninguém, deveria saber.

Ela parou de andar, fazendo-o parar também e virar para encará-la.

– Ok, o que eu queria saber é se você tem informações sobre o Diogo.

– Diogo? Diogo seu chefe?

– O próprio.

– Que tipo de informação? O que você acha que eu faço?

– Me diga você.

– Não muito, não tenho nenhuma cópia oculta dos arquivos dele, se é isso o que você quer saber.

– Hum. tudo bem, obrigada.

– Por quê?

– Nada, esquece que eu perguntei – ela disse e voltou a andar, apressando o passo.

– Ei, espera.

Ele foi atrás dela e segurou em seu braço, fazendo-a parar novamente. E então ela lhe contou. Contou tudo, sobre como o chefe começara a lhe olhar de um jeito diferente, como se ofereceu para “olhar seus números” e ajudá-la nas vendas. As insinuações sobre o cumprimento de metas e possíveis bônus. Até que as coisas evoluíram para beijos melados em sua bochecha para cumprimentá-la, uma mão em seu ombro quando estava sentada e, finalmente, uma apalpada em sua coxa durante a reunião da semana anterior. E, por fim, disse que sabia que ela não era seu primeiro e muito menos seu último alvo.

Ela contou tudo muito séria, era visível seu constrangimento, e Caio sentiu um incômodo enorme em vê-la em tal situação. Como era difícil lidar com garotas.

– Acho que podemos trabalho juntos – disse.

– O quê?

– Eu te ajudo a pegar ele. O cara não pode fazer o que quiser com você, é abuso de poder.

E, com um sorriso de cumplicidade, o pacto foi selado. O plano na verdade foi muito simples. Caio o flagraria e Alessandra teria o prazer de expô-lo perante seus superiores. Ele só precisou criar uma conta de e-mail falsa, se passando por alguém e lhe mandar uma mensagem infestada por malwares. Brincadeira de criança: um link com um suposto vídeo picante tendo como protagonista uma atriz famosa. É claro que ele caiu. E então Alê fez a recomendação dos serviços de Caio, aquele rapaz do TI que usava óculos. Em três dias e o computador já estava em suas mãos. Ele fez uma cópia completa de seus arquivos, só por garantia, mas foi muito fácil de achar material comprometedor ali. Fácil até demais.

O cara tinha uma pasta só com fotos e vídeos dele com outras funcionárias. Caio conseguiu reconhecer vários rostos ali. Algumas fotos sequer mostravam suas faces, mas era o suficiente para qualquer um entender.

O bônus foi uma planilha um tanto quanto pervertida onde o cara guardava informações sobre as mulheres e seus encontros. Havia uma sessão só para classificar e ranquear as garotas. Trabalho minucioso, com tudo separado por cores, marcadores e legendas. Ele ficou feliz por saber que o nome de Alê nunca precisaria ocupar uma posição ali.

No dia seguinte, os dois saíram para almoçar juntos e ele lhe explicou tudo o que encontrara. Ela variou entre nojo, raiva e uma série de palavrões que ele nunca ouvira uma boca feminina proferir antes. Ela era boa naquilo.

Trabalhando juntos, Caio sabia que seu segredo estaria à salvo. Ela demorou alguns dias para tomar uma decisão, pensou em chantagear Diogo para que saísse de seu pé, mas empurrá-lo até a próxima vítima não era algo que ela considerasse solução. Então decidiu entregá-lo. Solicitou uma reunião com a administração da empresa, relatou o assédio que vinha sofrendo e, manteve o pendrive com as fotos e a planilha em sua bolsa, para usar assim que precisasse. A surpresa, entretanto, foi que não precisou. Lhe agradeceram pela informação e disseram que tudo seria averiguado. No dia seguinte outras garotas foram chamadas para reuniões individuais e em pouco tempo a história se espalhou e se confirmou. Um relato deu coragem ao próximo e assim sucessivamente.

*

– Eu não acredito que nós conseguimos! Obrigada – Ela disse praticamente pulando em seus braços na saída, enquanto caminhavam até o metrô.

– Foi você quem conseguiu – ele respondeu, retribuindo de forma desengonçada.

Não estava acostumado a ter mulheres – mulheres de verdade, não as de suas fantasias – se jogando para cima dele.

– Não seja modesto. Foi um trabalho em equipe, só o fato de ter certeza e provas me deu coragem de agir.

– Fico feliz então.

– Mas e você, o que ganhou com isso? Quero dizer, eu consegui tirá-lo do meu pé, mas e você?

– Ganhei um final para minha próxima história – disse, com um sorriso no canto dos lábios.

– Não diga que você está escrevendo sobre mim! – ela reagiu com um leve tapa em seu braço.

– Nunca revelo minhas fontes, você sabe: tudo é apenas inspiração.

– Espera um pouco. Você sabia que isso ia acontecer? Você – ela foi absorvendo as palavras conforme elas entravam em sua mente – você fez de propósito?

Continuaram caminhando em silêncio.

 

 

 

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Está servido?

54. Está ServidoTodo dia (útil) faço tudo sempre igual: quando o despertador começa a gritar em meus ouvidos, acordo assustada, me viro, tento abafar o som com o travesseiro, até que me rendo e deslizo o dedo sobre a tela para fazer a música parar. De tempos em tempos preciso escolher uma nova música, nunca pode ser uma muito boa, pois logo passo a detestá-la, tendo arrepios só de ouvir as primeiras notas. 

Esse é um momento crucial, assim que o som para, preciso me forçar a levantar rápido, tenho poucos minutos antes de cair no sono novamente. Sigo, de olhos fechados, para o banheiro. Acordo mesmo é de baixo do chuveiro, quando a água começa a correr pelo meu corpo. Depois me seco e enrolo a toalha na cabeça. Só depois me escolher minha roupa e calçar minhas confortáveis pantufas é que vou para a cozinha. Apesar da rotina pré-matinal, o dia só começa mesmo quando coloco a água para ferver e o pó no coador. O cheirinho quente do café termina de me despertar. É então que eu sei que mais um dia começou. Vou para a mesa e tomo meu sagrado café da manhã. Depois de comer, encho mais uma xícara e fico olhando as notificações do celular, notícias da noite anterior e do dia que começa. 

Conheço muitas pessoas que dizem que só bebem café quando precisam acordar. A cafeína desperta. Sinceramente? Já não sinto esse efeito há tempos. Apesar de não conseguir ficar sem meu ritual matinal, ao longo do dia, não sinto que uma xícara de café consiga me despertar ou dar mais energia. Eu tomo é porque é gostoso mesmo. Um copinho quando chego no trabalho, mais um quando passo pela garrafa no caminho para o banheiro. E mais alguns durante a tarde – mas, quem está contando? 

Forte, suave ou encorpado, cada um tem seu gosto. Aqui em casa temos sempre três tipos: o coado de todas as manhãs, o solúvel para quando estamos com pressa, e em cápsulas, que fazemos todos os finais de semana desde que ganhei uma daquelas máquinas modernas em meu último aniversário.

Tem gente que gosta com aroma, misturado com leite, sem açúcar ou até com gelo. O que eu mais gosto no café, para além do paladar, é seu valor social. O famoso “vamos marcar um café”, promotor de inúmeros encontros, pessoais, amorosos ou profissionais. Além do “tomar um cafézinho” para ter uma conversa discreta fora do local de trabalho ou mesmo no cantinho da área de descanso. Em momentos difíceis, alguém vai para a cozinha e passa um café rápido. As energias são revigoradas assim que a bebida quente passa pela garganta. 

Também é um ótimo companheiro quando você precisa terminar um projeto ou ficar até mais tarde no trabalho. Agora mesmo, intercalo palavras com goles quentes enquanto escrevo esse texto. Assopro, escrevo, bebo. Está servido?