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Arquivo Morto

55. Arquivo Morto

Tenho um arquivo morto de ideias em minha cabeça. Cadernos e dispositivos eletrônicos são as únicas testemunhas de meus rascunhos.

Tem vezes que a ideia vem pela metade, pode ser não mais do que um lampejo, apenas o suficiente para acender algo dentro de mim. Mas nem sempre ela ou eu temos maturidade o suficiente para explorar e, portanto, não nos entendemos à princípio. Tudo aquilo que não consigo lapidar vai para o arquivo, junto com os pensamentos que ouso ter, mas não me atrevo a escrever.

E assim meus trechos se acumulam, à espera de que eu viva novas e diferentes experiências que, pouco a pouco, expandem meus horizontes, mudam minha percepção e transformam a forma como vejo o mundo, o meu mundo. Isso pode me aproximar ou afastar, às vezes o insight pode vir em um momento inesperado e a história simplesmente se desenrola bem diante dos meus olhos. Em outros casos, deleto impiedosamente o arquivo de meu computador e adormeço a memória em minha mente.

Já perdi a conta de quantas vezes fui espectadora de minha mente. Embarco em minhas próprias fantasias e me sinto mera escrivã, cumprindo a ordem de escrever aquilo que aparece para mim em forma de ideia. Sou facilitadora, usando a caneta para eternizar no papel toda a criatividade que há em minha mente.

Meu arquivo é bem vivo. É um apanhado de tudo o que mora e se mexe dentro de mim. Deixo histórias descansarem para que amadureçam antes de compartilhá-las. Retomar um texto com olhos frescos e descansados é uma das experiências mais interessantes que um escritor pode ter. É reencontrar-se com suas próprias palavras e tomar a liberdade de mudar e editar seus próprios pensamentos. Como em um espelho, é deparar-se consigo e reparar nos mínimos detalhes. As palavras revelam aquilo que não conto sobre mim, a melhor forma de me entender é, sem dúvidas, lendo um conto onde falo sobre outros personagens e me desnudo por completo em meio a ações de outrem. Com eles ouso, pego rotas alternativas, exploro “e se’s” como nunca teria coragem de fazer.

Vivo e convivo com o constante barulho de rascunhos e versões alternativas que povoam meu imaginário. De tempos em tempos, tomo a difícil decisão de colocar um ponto final e declarar minha obra como concluída. Molduro trechos de quem sou e assim tenho a sorte e a tormenta de colecionar pedaços de quem já fui ou desejei ser. Me guardo nas palavras que escrevo.

 

 

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O Colecionador de Histórias

14. O Colecionador de Histórias

Caio já estava acostumado, não conformado, mas acostumado. Todos os dias fazia tudo sempre igual. Enrolava por até vinte minutos depois do despertador já ter tocado. Se arrastava até o banheiro e deixava que a água corrente em seu corpo terminasse o trabalho de lhe acordar. Depois, meio vestido, mas ainda de pantufas, seguia para a cozinha e ligava a cafeteira. Enquanto ela fazia seu trabalho matinal praticamente sozinha, ele lavava a louça da noite anterior e tentava se livrar dos vestígios que restassem pela casa. Jogava latas de cerveja fora, cheirava o resto de pizza e ponderava se aquilo servia para mais uma refeição ou não.

Toda quinta-feira, suas noites eram reservadas a jogar videogame com os amigos. Faziam diversas competições, às vezes presenciais, mas, quase sempre, online. Era mais fácil interagir com pessoas que se pareciam tanto com ele. Nada mudava seu compromisso semanal. Esse mês, estava em segundo lugar, e pretendia avançar na próxima rodada.

Fora isso, por mais que não fosse grande fã de uma rotina matutina, funcionava melhor para cumprir suas obrigações pela manhã, antes do trabalho, pois sabia que depois seria tragado por oito horas de uma função maçante e repetitiva – dez, se considerasse o trajeto, enlatado junto com outras tantas pessoas dentro de um estreito vagão a caminho de seus trabalhos entediantes e mal remunerados.

Depois de dez horas sentindo-se massacrado, à noite ele não conseguia mais ser produtivo. Só queria beber alguma coisa, jogar e relaxar. Às vezes pedia pizza e ficava assistindo vídeos em seu computador, outras vezes ficava deitado no sofá maratonando séries. E, quase sempre, se masturbava.

Fazia um ano e meio que ele fora contratado para integrar o time de TI de uma empresa de seguros. Em geral o trabalho era fácil, uma vez acostumado ao sistema, não era grande desafio resolver eventuais bugs, a pior parte era lidar com o setor de experiência do usuário, detestava quando precisava atender chamados e responder solicitações dos clientes. Afinal, o que havia de tão difícil em mexer em um computador?

Mas, não havia nada como ser taxado como o “cara do TI”. Tinha vontade de rir de desespero quando alguém aparecia em sua sala para pedir ajuda com seu computador ou então para “dar uma olhadinha” na impressora que misteriosamente parara de funcionar. Ele se sentia como um atendente de telemarketing, perguntando “você já tentou reiniciá-la?”. Sem dúvidas, lidar com pessoas sempre fora a pior parte.

Mas, com aluguel e contas para pagar, desde que brigou com a mãe e resolveu sair de sua casa, ele se submetia a uma série de infortúnios em nome do emprego e, principalmente, do salário. Por isso, repetia a si mesmo que aprender a programar fora a melhor coisa que fizera em sua adolescência. O sonho de crescer e se tornar um escritor estava trancado na gaveta já havia alguns anos. Com o ritmo de vida que vinha levando mal tinha tempo para ler, quem diria colocar suas próprias ideias no papel.

E, também, trabalhando o dia inteiro e sem tempo para viver experiências novas, sentia não ter material – ou tempo – para escrever uma história que pudesse despertar o interesse de alguém, não com tanta coisa boa já produzida no mundo. De que valiam suas histórias quando cada pessoa já estava ocupada escrevendo e vivendo a própria.

Apesar da remuneração não ser tão ruim, a verdade é que mal dava para fechar o mês, foi isso que o incentivou a aceitar um plano B, ou um “bico”, como costumava chamar. De tanto mexer com computadores, tornou-se expert em recuperação de arquivos e, como bom paranoico que era, não fazia nada sem distribuir uma boa dose de backups por aí: sistemas em nuvem e hds externos eram seus melhores amigos.

Por ser conhecido na empresa como o tal “cara do TI”, os colegas também começaram a procurá-lo para resolver problemas em seus dispositivos pessoais. E, já que precisaria trabalhar e socializar com aquelas pessoas após o expediente, resolveu cobrar por isso. Em pouco tempo foi indicado de uma pessoa a outra e conseguiu um volume considerável de clientes.

Em geral, recebia máquinas infestadas de vírus e pedidos desesperados de ajuda, pois sempre havia uma foto ou documento importante demais para ser apagado, por isso, formatar nunca era uma opção. Trabalhando com uma boa margem de sucesso, em geral conseguia recuperar as informações do hd e só depois formatava a máquina, devolvendo-a limpinha, com seus preciosos arquivos intactos. Inconformado com a falta de precaução das pessoas, também começou a fazer uma espécie de consultoria de backups. Fornecia opções de sistemas e locais, e ensinava cada um a criar seus próprios métodos de salvar e proteger arquivos para a posterioridade.

Era de se estranhar, para alguém que se irritava tão facilmente em atender pessoas no dia a dia do trabalho, mas a verdade é que era divertido ver como as pessoas tinham tanto apego a arquivos de alguns kbytes. A quantia de fotos tremidas que as pessoas tratavam como tesouros era um mistério a ser estudado. Mas ele, apaixonado por bancos de dados, se divertia tratando dos arquivos e espalhando cópias de tudo na rede.

Aos poucos, por mais que não quisesse admitir, começou a se interessar pelas pessoas cujos computadores consertava. Havia um código de ética instalado em sua cabeça, e assim, tentava manusear os arquivos sem abri-los. Quase nunca havia a necessidade de abrir um documento ou foto, só precisava garantir que conseguiria recuperar tudo, eram dados, o conteúdo pouco importava. Mas, com tantas noites solitárias em casa, começou a traçar perfis de seus clientes. Alguns gastavam um número inexplicável de gigas apenas para armazenar fotos. Fotos de quê? Animais fofinhos? Comida? Paisagens? Talvez selfies? Foi assim que ele começou a dar uma espiadinha aqui, outra ali, apenas para garantir que estava fazendo um bom trabalho, para que nenhum arquivo lhe escapasse antes da formatação irreversível da máquina.

Mas os fragmentos que os computadores lhe contavam só serviam para lhe despertar ainda mais curiosidade acerca de seus donos. O que uma máquina revela sobre seu usuário? O que um conjunto de arquivos ajuda a entender sobre alguém? Foi assim que começou a pesquisar pelo nome de cada um na internet, era fácil descobrir seus perfis em redes sociais e transitar por praticamente tudo o que houvesse de informação pública compartilhada. A internet e suas redes, era muito fácil pescar um peixe.

Seu primeiro desvio aconteceu por culpa de um artigo acadêmico. O amigo de um rapaz que trabalhava com ele lhe procurou, através de boas recomendações: estava escrevendo sua tese de doutorado e o computador lhe deixou na mão. Ele estava desesperado e daria qualquer coisa para reaver seus arquivos. Combinaram um valor e ele passou em sua casa para deixar o laptop. Caio pediu a já habitual pizza de muçarela com pepperoni e começou o trabalho. O doutorando cometera um erro de principiante ao clicar em um link de um e-mail totalmente suspeito e infestar a máquina de vírus. Ah, a curiosidade humana!

E, por falar em curiosidade, começou a abrir os artigos acadêmicos usados de referência para a tese. Apenas por precaução, para conferir se nada fora corrompido. A tese escrita pela metade já estava repousando seguramente na pasta de recuperados. Um dos textos lhe chamou a atenção, algo sobre os hábitos de consumo das pessoas e uma ousada projeção sobre em quantos anos o comércio físico seria completamente substituído pelas vendas online e marketplaces. Ele levou o artigo para a nova pasta e criou uma cópia em sua própria máquina, para ler com mais calma em outro momento. Não viu nenhum problema naquilo, afinal era um artigo já publicado e acessível. Ele apenas se poupou o trabalho de procurá-lo novamente na internet.

Pouco tempo depois, em uma noite particularmente solitária, estava consertando a máquina de uma das meninas da recepção quando abriu sua pasta de fotos. Foi impossível resistir a tantos álbuns! O que ela tanto guardava ali? Acontece que ele acabou esquecendo de apagar uma ou duas fotos de sua máquina depois de concluir o trabalho no computador dela. Talvez tenham sido mais, o fato é que algumas fotos ficaram ali perdidas em uma pasta de seu próprio computador. E foi assim que suas pequenas transgressões começaram a evoluir.

Organizado como era, criou uma planilha com os dados dos donos das máquinas, as especificações das mesmas e o valor recebido por cada serviço. Depois, um tanto quanto ousadamente, criou pastas e um sistema de categorização para os arquivos que ficavam eventualmente esquecidos em sua máquina, cópias de fragmentos da vida de outras pessoas.

Foi em um sábado que fez seu primeiro exercício. Pegou a foto de um grupo estranho de pessoas e ficou observando por algum tempo. Conhecia apenas a pessoa que tirara a foto, a mesma garota que lhe pagou para ter aquelas fotos de volta. Ficou olhando a foto, pesquisou seu perfil nas redes sociais e tentou imaginar que história aquela foto contava, o que havia para além daquele arquivo de dois mega contrabandeado em seu computador. Abriu um documento novo e ficou encarando a tela em branco à sua frente até começar.

Criar aquela história foi um exercício surpreendentemente prazeroso. Tinha um quê de transgressão misturado com aventura, sem contar a satisfação de sentir seus dedos desenferrujando a cada toque nas teclas. Fazia tempos que não escrevia nada e, de repente, era como se aquela garota estranha lhe trouxesse de volta à vida.

E assim foi avançando, usando o que conhecia daquelas pessoas para criar mundos, situações e personagens. Aos poucos até deixou de se importar com o trabalho investigativo – stalker – na internet. Parecia que quanto menos soubesse da pessoa, melhor sua versão ficava. Ele só precisava de conteúdo, pedaços de uma história real que servissem como gatilho para suas próprias alternativas e finais. Caio gostava de suas versões.

Como não podia deixar de ser, guardava seus textos, bem como as devidas referências, em diversos backups espalhados em seu computador, em sistemas de nuvem gratuitos e pagos. Precaução nunca era exagero, esse era o seu lema.

No final do ano, Alessandra, uma corretora de vendas, lhe procurou, desesperada, pois seu sobrinho derrubara seu computador no chão e, além da tela trincada, agora o dispositivo não queria ligar. Todas suas fotos estavam ali, todo seu material de trabalho, inúmeros arquivos importantes, praticamente toda sua vida pertencia àquela máquina! Ele pensou em recusar o trabalho, pois no final daquela semana entrariam em recesso e ele passaria duas semanas sem precisar encontrar nenhuma das caras semi-conhecidas do trabalho. Mas ela parecia realmente desesperada, então algo nele cedeu.

Como a tela havia estragado, ele passou o hd da moça para outro aparelho e passou algumas horas realizando a extração de arquivos, foi dormir e deixou a máquina trabalhando durante toda a noite. Na manhã seguinte, fez sua cópia pessoal dos arquivos, para mais tarde, e salvou tudo o que seria devolvido para Alessandra em um hd externo, que ela poderia plugar em qualquer máquina para reaver seus tão queridos arquivos: fotos, planilhas, apresentações de slide e muitas músicas pirateadas da internet. Aparentemente, ela ainda frequentava sites de torrent para baixar músicas. Em pouco tempo seria considerada vintage.

Acabou se atrasando para o trabalho porque tomou café da manhã olhando as fotos da última viagem à praia que a moça fizera com três amigas. Talvez uma delas fosse sua prima, pois também aparecia nas fotos de família do último natal.

Chegando na empresa foi direto para sua sala e só pôde encontrá-la no final do dia, quando lhe entregou o pequeno aparelho embrulhado em uma sacola plástica e a velha máquina quebrada. Ela abriu um sorriso enorme e praticamente pulou em seu pescoço, em um abraço desengonçado de agradecimento. Após o que pareceu muito mais tempo do que os de fato seis segundos, ela se afastou, com um sorriso tímido no canto da boca, agradeceu novamente.

– Caio, muitíssimo obrigada! Você salvou a minha vida, tudo que eu tenho está aqui.

– Até que foi fácil, como eu te falei, o que estragou foi a máquina, mas os arquivos estavam intactos. Agora, se você quiser a gente se senta para conversar qualquer dia e eu te explico mais sobre formas de dar mais segurança a seus arquivos.

– Sim, os backups, né? Eu quero sim, por favor. Você está livre na sexta? Podemos conversar aqui depois do trabalho, ou vamos lá no Astor e nos sentamos para bater um papo e você me explica tudo isso um pouco melhor.

Ela estava lhe chamando para ir a um bar depois do expediente? Foi difícil conter a sensação quente que percorreu seu corpo. Alê não era de se jogar fora, ainda mais depois de ver todas aquelas fotos dela dentro de biquinis.

– Claro, como for melhor para você.

– Ótimo, nos encontramos por aqui e então decidimos. Agora deixa eu ir que já estou atrasada para a aula de pilates. Ah, já fiz o depósito do seu pagamento, deve cair na sua conta amanhã, você confere?

– Obrigado.

Ela se inclinou para lhe dar um beijo na bochecha como despedida e saiu animada da sala segurando o notebook como se fosse uma pasta em suas mãos.

Aula de pilates, quintas às 19 horas. Ele sabia, é claro. Viu o contrato de matrícula escaneado entre seus arquivos.

Foi para casa um tanto quanto curioso e aflito com a perspectiva de um encontro no dia seguinte, o último dia antes do recesso de fim de ano. Não que fosse um encontro, é claro.

Porém, para sua extrema decepção, Alê cancelou com ele no dia seguinte, por uma mensagem um tanto quanto vaga. Aquilo incomodou mais do que deveria e ele trabalhou com um humor ácido, contando os minutos para poder ir embora e ficar duas semanas afastado daquele lugar e daquelas pessoas.

*

Após o recesso, seu lema era “Ano novo, vida nova” e passada a mágoa com Alessandra, Caio voltou tranquilo ao trabalho e sua tediosa rotina. Um pouco de descanso lhe fizera bem, as miniférias e a virada do ano na praia com os amigos também. “Amigos” talvez fosse um exagero, ele conhecia apenas os dois ex-colegas de faculdade, Pedro e Diogo. Pedro os convidara para uma festa de réveillon na casa de praia da família no litoral norte. Foram dias agitados, com quinze pessoas na casa. Ele conheceu Laís, com quem passou algumas noites. Mas nada além disso, um amor que não sobreviveu à subida da serra, sentimento que aparentemente era mútuo.

Logo no primeiro dia recebeu um recado de Alessandra pedindo para lhe encontrar e fazendo um convite para almoçarem juntos. Sem motivos para negar, ele foi até o pequeno restaurante por quilo onde costumava gastar todo seu vale refeição e ficou sentado esperando pela moça, que atrasou exatos sete minutos.

Se cumprimentaram com um meio abraço constrangedor e ela lhe desejou um feliz ano novo, ao que ele retribuiu e fez sinal para que ela se sentasse na cadeira a sua frente.

– Olha, Caio. Eu te chamei aqui porque…

– Quer beber alguma coisa? – ele a interrompeu, chamando uma garçonete

– Não, obrigada – ela pareceu não gostar da interrupção – Bem, eu não aguento isso, vou direto ao ponto. Naquele dia em que conversamos, assim que cheguei em casa, peguei o computador de minha irmã emprestado para dar uma conferida nos arquivos, eu estava tão feliz por saber que eu não havia perdido nada… Mas o que havia lá dentro, aquele conteúdo não era meu. Ou seu. Era muita gente, muita gente mesmo, muito mais do que eu gostaria de ter visto. Ah, sim, também tinha algumas coisas minhas ali dentro. Você pode me explicar? Porque eu acho que já entendi, mas eu quero mesmo te dar uma chance, espero estar errada.

Ele arregalou os olhos, depois desviou-os para o teto, pois era impossível continuar encarando-a. Ela ficou parada também, assistindo enquanto ele processava a informação sobre a troca dos backups.

Ele abriu a boca, fechou, abriu de novo e finalmente gaguejou. Parecia não encontrar palavras.

– Alê, eu posso explicar. É só… não é nada – disse, abaixando a cabeça.

– Tem que ser alguma coisa. Você é uma espécie de psicopata? Por que guardar todas aquelas informações sobre as pessoas? Por que ficar com fotos e documentos que não são seus? Isso é roubo, é crime, sei lá! É errado. Eu estou em perigo ou algo assim? Você vai me perseguir ou sequestrar alguém da minha família, porque de repente parece que você sabe demais sobre mim, e eu não sei nada sobre você!

– O que você quer saber?

– O motivo de tudo isso. Isso é… é doentio, Caio!

– Eu escrevo.

– O quê? – ela perguntou ofegante, num quase grito bem agudo.

– Começou por curiosidade, eu deixei um artigo em minha máquina para ler depois, um artigo publicado, disponível na internet, não foi roubo, como você colocou, nem nada. E depois, eu comecei a ficar curioso, ficava tentando imaginar quais eram as outras peças daquele quebra-cabeças que a pessoa me trazia. Sim, porque todos os documentos nos contam algo sobre seu dono, mas o que mais aquela pessoa era? Quem mais? Eu fui me deixando imaginar e então comecei a escrever. Aquilo que você viu, o conteúdo das pastas são apenas inspirações, dali eu tirei personagens que coloquei em situações que me permiti imaginar e viver dentro de minha cabeça. Eu posso te mostrar, tenho uma pasta cheia de rascunhos.

– Você escreve? – ela repetiu com uma voz fria e mecânica, como se apenas parte dela estivesse ali comigo, naquela mesa.

– Sim, posso te mostrar, se você quiser.

– Mas isso é errado também! – ela disse, voltando a me encarar, mas já parecendo um pouco menos perturbada – Você não tem direito de se inspirar ou como queira chamar, no conteúdo de outras pessoas sem autorização. Então ninguém faz ideia de que você copia os arquivos?

– Eu não sei. Eu sinceramente não tenho uma resposta para te dar. Eu só comecei a fazer e é o que eu faço desde então, me distrai. Eu só coleciono, entende?

– Arquivos?

– Histórias, hipóteses, possibilidades. Chame como preferir, não me importa.

Ficaram em silêncio por algum tempo, ambos com o coração disparado e a cabeça fervendo em pensamentos.

– Está errado, Caio, está errado.

Ele se sentiu realmente mal por vê-la tão aflita.

– O que você vai fazer? – finalmente perguntou.

– Eu não sei, sinto que eu preciso contar para alguém, isso tem que parar.

– Olha, por favor, não conta para ninguém, foi bobeira, coisa inocente, de alguém que mora sozinho e estava entediado demais com a própria vida. Mas eu realmente preciso do emprego.

– Eu preciso pensar. Você tem tudo aquilo salvo em outros locais? Ora, que pergunta, é claro que tem! Você tem que prometer que vai deletar tudo e que vai parar. Eu vou pensar e então nós conversamos. Você promete?

– Eu vou parar – concordou.

Desnecessário dizer que eles não comeram, já que não havia tempero capaz de adoçar aquele encontro. Ela se levantou, deixando-o sozinho ali.

Não se encontraram nos dois dias que se seguiram. No terceiro, ele a avistou esperando próximo ao bebedouro que ficava no final de seu corredor. Ela estava estrategicamente posicionada, de forma que ele precisaria passar por ela para ir embora.

– Alessandra – disse, cortês.

– Caio – a moça respondeu, fazendo um aceno com a cabeça.

Por que em alguns momentos é tão difícil encontrar palavras a dizer? Será que é pelo ensurdecedor barulho ecoando dentro de nossas cabeças?

– Podemos conversar? – finalmente perguntou.

– Claro, eu já estou saindo, vou embora de metrô, quer me acompanhar até a estação? – perguntou, afinal sabia que a moça fazia todos os dias o mesmo trajeto que ele.

Entraram e saíram do elevador em silêncio, sem ousarem trocar uma palavra sequer na presença de estranhos. Era curiosa a sensação que percorria e pele dele, tanto quanto o frio no estômago dela. Havia uma conexão, algo agora os unia.

– E então…?

– Eu não sei. Essa história toda tem tirado meu sono! Por mais inocente que seja, ainda me parece errado, entende?

– Entendo.

Ok, não era essa a resposta que ela esperava. Ele nem tentou se explicar, e ela sentiu inveja de sua firmeza.

– Bom, vou perguntar de uma vez e aí você me julga e pronto – ela disse mantendo os olhos fixos no chão à sua frente.

– Quem sou eu para julgar?

– A pessoa mais capacitada, eu diria, já que você tem informações de todo mundo.

Ele riu, gargalhou, na verdade.

– Essa é só uma forma de ver as coisas.

– Nós trabalhamos em uma empresa de seguros, merda! – riu também – e aparentemente ninguém ali está seguro.

– Nós não vendemos senão uma ilusão de segurança. Você, mais do que ninguém, deveria saber.

Ela parou de andar, fazendo-o parar também e virar para encará-la.

– Ok, o que eu queria saber é se você tem informações sobre o Diogo.

– Diogo? Diogo seu chefe?

– O próprio.

– Que tipo de informação? O que você acha que eu faço?

– Me diga você.

– Não muito, não tenho nenhuma cópia oculta dos arquivos dele, se é isso o que você quer saber.

– Hum. tudo bem, obrigada.

– Por quê?

– Nada, esquece que eu perguntei – ela disse e voltou a andar, apressando o passo.

– Ei, espera.

Ele foi atrás dela e segurou em seu braço, fazendo-a parar novamente. E então ela lhe contou. Contou tudo, sobre como o chefe começara a lhe olhar de um jeito diferente, como se ofereceu para “olhar seus números” e ajudá-la nas vendas. As insinuações sobre o cumprimento de metas e possíveis bônus. Até que as coisas evoluíram para beijos melados em sua bochecha para cumprimentá-la, uma mão em seu ombro quando estava sentada e, finalmente, uma apalpada em sua coxa durante a reunião da semana anterior. E, por fim, disse que sabia que ela não era seu primeiro e muito menos seu último alvo.

Ela contou tudo muito séria, era visível seu constrangimento, e Caio sentiu um incômodo enorme em vê-la em tal situação. Como era difícil lidar com garotas.

– Acho que podemos trabalho juntos – disse.

– O quê?

– Eu te ajudo a pegar ele. O cara não pode fazer o que quiser com você, é abuso de poder.

E, com um sorriso de cumplicidade, o pacto foi selado. O plano na verdade foi muito simples. Caio o flagraria e Alessandra teria o prazer de expô-lo perante seus superiores. Ele só precisou criar uma conta de e-mail falsa, se passando por alguém e lhe mandar uma mensagem infestada por malwares. Brincadeira de criança: um link com um suposto vídeo picante tendo como protagonista uma atriz famosa. É claro que ele caiu. E então Alê fez a recomendação dos serviços de Caio, aquele rapaz do TI que usava óculos. Em três dias e o computador já estava em suas mãos. Ele fez uma cópia completa de seus arquivos, só por garantia, mas foi muito fácil de achar material comprometedor ali. Fácil até demais.

O cara tinha uma pasta só com fotos e vídeos dele com outras funcionárias. Caio conseguiu reconhecer vários rostos ali. Algumas fotos sequer mostravam suas faces, mas era o suficiente para qualquer um entender.

O bônus foi uma planilha um tanto quanto pervertida onde o cara guardava informações sobre as mulheres e seus encontros. Havia uma sessão só para classificar e ranquear as garotas. Trabalho minucioso, com tudo separado por cores, marcadores e legendas. Ele ficou feliz por saber que o nome de Alê nunca precisaria ocupar uma posição ali.

No dia seguinte, os dois saíram para almoçar juntos e ele lhe explicou tudo o que encontrara. Ela variou entre nojo, raiva e uma série de palavrões que ele nunca ouvira uma boca feminina proferir antes. Ela era boa naquilo.

Trabalhando juntos, Caio sabia que seu segredo estaria à salvo. Ela demorou alguns dias para tomar uma decisão, pensou em chantagear Diogo para que saísse de seu pé, mas empurrá-lo até a próxima vítima não era algo que ela considerasse solução. Então decidiu entregá-lo. Solicitou uma reunião com a administração da empresa, relatou o assédio que vinha sofrendo e, manteve o pendrive com as fotos e a planilha em sua bolsa, para usar assim que precisasse. A surpresa, entretanto, foi que não precisou. Lhe agradeceram pela informação e disseram que tudo seria averiguado. No dia seguinte outras garotas foram chamadas para reuniões individuais e em pouco tempo a história se espalhou e se confirmou. Um relato deu coragem ao próximo e assim sucessivamente.

*

– Eu não acredito que nós conseguimos! Obrigada – Ela disse praticamente pulando em seus braços na saída, enquanto caminhavam até o metrô.

– Foi você quem conseguiu – ele respondeu, retribuindo de forma desengonçada.

Não estava acostumado a ter mulheres – mulheres de verdade, não as de suas fantasias – se jogando para cima dele.

– Não seja modesto. Foi um trabalho em equipe, só o fato de ter certeza e provas me deu coragem de agir.

– Fico feliz então.

– Mas e você, o que ganhou com isso? Quero dizer, eu consegui tirá-lo do meu pé, mas e você?

– Ganhei um final para minha próxima história – disse, com um sorriso no canto dos lábios.

– Não diga que você está escrevendo sobre mim! – ela reagiu com um leve tapa em seu braço.

– Nunca revelo minhas fontes, você sabe: tudo é apenas inspiração.

– Espera um pouco. Você sabia que isso ia acontecer? Você – ela foi absorvendo as palavras conforme elas entravam em sua mente – você fez de propósito?

Continuaram caminhando em silêncio.

 

 

 

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Está servido?

54. Está ServidoTodo dia (útil) faço tudo sempre igual: quando o despertador começa a gritar em meus ouvidos, acordo assustada, me viro, tento abafar o som com o travesseiro, até que me rendo e deslizo o dedo sobre a tela para fazer a música parar. De tempos em tempos preciso escolher uma nova música, nunca pode ser uma muito boa, pois logo passo a detestá-la, tendo arrepios só de ouvir as primeiras notas. 

Esse é um momento crucial, assim que o som para, preciso me forçar a levantar rápido, tenho poucos minutos antes de cair no sono novamente. Sigo, de olhos fechados, para o banheiro. Acordo mesmo é de baixo do chuveiro, quando a água começa a correr pelo meu corpo. Depois me seco e enrolo a toalha na cabeça. Só depois me escolher minha roupa e calçar minhas confortáveis pantufas é que vou para a cozinha. Apesar da rotina pré-matinal, o dia só começa mesmo quando coloco a água para ferver e o pó no coador. O cheirinho quente do café termina de me despertar. É então que eu sei que mais um dia começou. Vou para a mesa e tomo meu sagrado café da manhã. Depois de comer, encho mais uma xícara e fico olhando as notificações do celular, notícias da noite anterior e do dia que começa. 

Conheço muitas pessoas que dizem que só bebem café quando precisam acordar. A cafeína desperta. Sinceramente? Já não sinto esse efeito há tempos. Apesar de não conseguir ficar sem meu ritual matinal, ao longo do dia, não sinto que uma xícara de café consiga me despertar ou dar mais energia. Eu tomo é porque é gostoso mesmo. Um copinho quando chego no trabalho, mais um quando passo pela garrafa no caminho para o banheiro. E mais alguns durante a tarde – mas, quem está contando? 

Forte, suave ou encorpado, cada um tem seu gosto. Aqui em casa temos sempre três tipos: o coado de todas as manhãs, o solúvel para quando estamos com pressa, e em cápsulas, que fazemos todos os finais de semana desde que ganhei uma daquelas máquinas modernas em meu último aniversário.

Tem gente que gosta com aroma, misturado com leite, sem açúcar ou até com gelo. O que eu mais gosto no café, para além do paladar, é seu valor social. O famoso “vamos marcar um café”, promotor de inúmeros encontros, pessoais, amorosos ou profissionais. Além do “tomar um cafézinho” para ter uma conversa discreta fora do local de trabalho ou mesmo no cantinho da área de descanso. Em momentos difíceis, alguém vai para a cozinha e passa um café rápido. As energias são revigoradas assim que a bebida quente passa pela garganta. 

Também é um ótimo companheiro quando você precisa terminar um projeto ou ficar até mais tarde no trabalho. Agora mesmo, intercalo palavras com goles quentes enquanto escrevo esse texto. Assopro, escrevo, bebo. Está servido?

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Manutenção do Caos

9408074-3x2-700x467Me sinto sem lugar. Venho novamente despejar-me sobre o papel, numa tentativa de me organizar em palavras. Me faço, desfaço, refaço. Se me sinto frustrada em ter um trabalho que não gosto e, talvez até mais incomodada nos dias em que fico em casa, é porque não me sinto pertencente a lugar algum. Perdida, sem guia, GPS ou respostas, não sei qual caminho percorrer para me encontrar. Atalhos, nem pensar.

De repente fiquei nula, como se neste momento não só minha vontade não valesse, mas sequer eu devesse desejar algo. Não há espaço, tempo ou energia para investir nisso. Por quê? Tenho medo de me deparar com o esvaziamento de mim ou é uma vã tentativa de evitar a decepção de novamente ver meus planos adiados?

Estou operando em um modo de emergência há tantos meses que perdi a noção do tempo. Trabalhando igual a um verdadeiro bombeiro, esqueci como é ter paz. Feito uma roda, ando e me atropelo, passando dolorosamente por cima de mim todos os dias.

Ontem, em meio a um jantar casual, ouvi que era preciso ter calma, essa é só uma fase, vai acabar. Uma hora acaba, tem que acabar. À queima roupa, foi-me dito que hoje faço a manutenção do caos. Por mais que essas palavras tenham ferido, sei que não podiam ser mais precisas. Porque eu sei que a pior parte já passou e, apesar de ainda sentir o peso do mundo em minhas costas e de inúmeras caixas em minhas mãos, já passou muito tempo do dia em que abaixei as portas e me recolhi.

É claro que me orgulho de minha história e que esse fragmento virou parte essencial de mim, como a linha que costura os retalhos de uma colcha. Mas, ainda retalhada, sinto-me incapaz de expressar ou usufruir de meu aprendizado. Todos dizem que mudei, amadureci, que sou forte! Ah, se soubessem como minhas pernas estão cansadas de tanto caminhar.

Hoje, com tudo reacomodado em outro canto, em outra posição, de outro ângulo, a vida se refaz. E, por mais que doa admitir, eu sei que estou exatamente no lugar em que preciso estar nesse momento. Espero que um dia haja lugar para mim que não este, e que eu possa mais uma vez me refazer.

 

 

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Á Flor da Pele

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Sair da casa da minha mãe me fez aprender um monte de coisas. E, em meio ao caos da correria cotidiana e o frio na barriga de ser a responsável por uma casa, descobri uma série de coisas sobre mim.

A primeira delas é que eu gosto de cuidar: cuidar das plantas me faz um bem enorme, adoro ver minha sacada florida, descobrir e acompanhar o ciclo de cada plantinha, cuidar de cada vaso e comemorar cada botãozinho que nasce. Cuido das flores, cuido da roupa, da limpeza, da casa, do companheiro e de mim. Descobri que cozinhar é uma questão de persistência, pode queimar, salgar ou ficar tudo grudado no fundo da panela, mas dá para tentar de novo, e de novo. Uma hora dá certo! Já não morro de fome sozinha em casa.

A segunda coisa que eu aprendi é que eu sei aprender. Assim que me mudei, tinha muito medo por não saber fazer as coisas, medo de queimar a roupa ao passar, medo de não saber trocar uma lâmpada. Mas vida adulta é basicamente uma sequência de imprevistos: trocamos torneira, tomadas e vedamos as janelas com silicone na época das chuvas. Depois disso uma lâmpada queimada virou moleza.

Entrei em uma nova rotina e percebi que precisava reservar mais tempo para mim, me dar atenção. Comecei por fora, pela camada mais superficial. Cuidados com a pele são cuidados comigo, são me interessar e aprender mais sobre mim e meu corpo. São momentos de paz em meio ao caos a minha volta.

Descobri qual o meu tipo de pele e o tratamento adequado a ela, pesquisei, estudei e escolhi alguns produtos para testar: acertei e errei, joguei dinheiro fora, mas também fiz ótimas compras. Esse novo olhar me ensinou muito: um pouco sobre como compostos químicos funcionam e um pouco sobre como eu funciono.

De pesquisa em pesquisa, me deparei com a possibilidade de criar eu mesma algumas receitas. As primeiras misturinhas foram apenas por curiosidade, errei tudo, é claro! Mas o mais importante é que o cuidado virou diversão e isso me fez tentar novamente. Agora, de pele hidratada, tenho uma rotina de skincare que me relaxa, e ninguém tira a paz dos meus cinco minutinhos depois do banho. Cuido da pele, do corpo, da criatividade e da alma.

 

 

 

 

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Releitura

Woman's hand writing on a notebook with a pen on a wooden desk.

Ontem reli um texto de meu caderno e custei a acreditar que era minha a autoria de tais palavras. Um pensamento que mudou, deixou de fazer sentido, sendo substituído pelo seu oposto, até que me contentei com um meio termo insosso e menos polêmico.

Se há dias em que nem eu me reconheço, como pode alguém que estudou comigo anos atrás dizer que me conhece? É engraçado – e extremamente assustador – pensar que existem diferentes versões minhas povoando o imaginário de meus antigos conhecidos. Isso porque a imagem que as pessoas formam e guardam umas das outras costuma não acompanhar sua constante evolução.

Mas como conviver com os fantasmas de quem já fui e com as fantasias de quem serei um dia? Pior, como existir sabendo que há outros de mim que habitam a mente de outros, e esses, mais do que ninguém, escapam ao meu controle. Posso – achar – decidir quem sou, mas nunca apagar o que já fui, são opiniões e impressões que nos seguem e ferem. Tenho vergonha de palavras que já proferi um dia. Admiro a coragem que já tive aquela vez e sinto saudade da simplicidade de outra época.

Em tempos de redes sociais, onde tudo fica gravado, é difícil contentar-se em ser uno. É difícil escolher o que e quem ser. Os históricos de postagens e conversas podem vir à tona a qualquer instante. Mas eles são ou não verdadeiros? O que eu disse ainda é válido mesmo se eu já não concordar mais com aquilo? E o que será que meus ditos “seguidores” pensam de mim? Eles me conhecem? E eu, os conheço? Não ouso afirmar sequer se eu me conheço. Mas então por que fazemos tanta questão de seguirmos uns aos outros?

Ao longo dos anos me perco e me (re)encontro. Vou vivendo e tentando acompanhar quem sou, quem escolho e quem consigo ser. Reler minhas palavras, uma memória gravada, reacendeu algo por dentro. Não importa o rumo que eu tome, carrego sempre a história já escrita na bagagem. Mas, veja bem, não quero soar fatalista (ou daqui uns anos posso reler esse texto e me arrepender também!), afinal, como poderia chegar até aqui sem passar por milhares de significações e ressignificações. Sim, porque foi isso que senti ao rever meu traço cru no papel: eu ressignifiquei. Se as palavras deixaram de ter o peso que tinham na época foi porque se transformaram. E talvez nada disso faça sentido para você, leitor, mas hoje, essas palavras, que novamente insisto em registrar, significam tudo para mim.  Porque eu mudei, e sigo mudando.

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Anúncio Ativo

e-commerce concept.

Bom dia, amigo, o produto é novo? Nunca usado? É original? Tem quanto tempo de garantia? Se não servir posso trocar? Qual o tamanho? E a nota fiscal? Tem a pronta entrega? Aceita duzentos? Cento e oitenta e eu retiro ainda hoje? Tem desconto a vista? Qual o valor mínimo?

Para mim a internet tem se revelado uma amostra grátis do inferno, já estou vendo o que vou encontrar por lá. Não é bonito.

É verdade que é muito bom ter a possibilidade de fazer vendas online. O trabalho mesmo acontece apenas uma vez, depois que você cria uma base com todos os seus dados e ativa os anúncios dos produtos, pronto: a mágica acontece. Você pode fazer uma venda em pleno feriado de carnaval, ou então enquanto toma banho ou faz a janta, é cômodo vender de pijama e pantufas. Isso sem falar na delícia que é acordar e descobrir que fez uma venda durante a madrugada. Na loja virtual muitas barreiras são rompidas, não importa o horário ou localização, dá para vender até para cidades que você não sabia que existiam no mapa, é tudo uma questão de calcular o frete.

O único porém é que a internet mudou e tem mudado nosso comportamento. As interações se dão de forma distinta do bom e velho contato pessoal. Os clientes pesquisam bastante antes de comprar, é comum que saibam até mais do que você sobre o seu próprio produto, então é preciso estar afiado para responder uma série de perguntas técnicas, muito mais do que quando você e seu produto ficavam atrás de um balcão.

Há também a cultura da oferta – ou desvalorização – é comum que as pessoas tentem dar “lances” nos produtos antes de comprar, tentando pechinchar qualquer tipo de desconto. Além disso, a concorrência é feroz, e está a apenas um clique de distância. Como todos querem vender, fica-se preso a uma espécie de leilão invertido: ganha a venda quem lucra menos.

O cliente exige excelência, mas sem querer pagar por ela. São raras as vendas onde não há ao menos uma tentativa de barganha. Na minha opinião é a parte mais desgastante de todo o processo. Me pergunto se essas pessoas se comportam da mesma forma quando vão a uma loja física e conversam com um funcionário cara a cara, olho no olho. A barreira do respeito é quebrada por diversas vezes, mas é preciso continuar respondendo com paciência e educação, pois no pós-venda há uma avaliação que determina sua reputação. Aquelas cinco estrelinhas determinarão se os próximos clientes fecharão ou não suas compras com você.

É preciso ainda lidar com trocas e defeitos, assumir prejuízos, pagar comissão para o portal e parte de seu lucro vai para o governo. Não sobra muito no final do mês, principalmente considerando que você precisa reabastecer o estoque. Ainda assim é uma opção mais barata do que manter a estrutura das portas abertas e afixadas em um bairro.

Desde que comecei a vender online, mudei minha forma de comprar, pois sei como funciona do outro lado do anúncio. Há uma pessoa tentando trabalho, lucrar ou mesmo zerando seu estoque para sair do ramo. Talvez alguém que, como eu, ri das perguntas antes de respirar fundo e responder. 

O que me consola é que enquanto termino de editar esse texto, fiz mais uma venda.

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Cada coisa em seu lugar

Escrivaninha (7)

Arrumar é eliminar temporariamente a bagunça, como costumamos fazer na maior parte das vezes, apenas tirando as coisas do meio do caminho, dando um jeitinho de fazer tudo caber em algum lugar. Assim, pelo menos por um breve período, o espaço fica agradável aos olhos e tudo parece bem. Pode ser só um “tapinha” mesmo, não precisa perder tempo se preocupando com a funcionalidade da coisa. Quer dizer, funciona, mas só até o momento em que é preciso encontrar algo.

Já quando falamos em organizar, queremos realmente eliminar a bagunça, usando um método lógico que ajude a tornar o ambiente funcional e adequado, personalizado para o uso, por isso não há regras ou segredos. Na organização cada coisa encontra um lugar. Categorizando e tornando a rotina mais prática, não há necessidade de bagunçar tudo apenas para encontrar um item, porque você passa a conhecer a morada de cada peça que habita seu armário.

Organizando, ganha-se tempo, espaço e ainda se economiza. Mas, o motivo principal de querer organizar tudo o que vejo pela frente é a calma que me proporciona. Quando estou agitada, ansiosa ou preocupada com alguma coisa, costumo canalizar toda a energia em organização: passo horas reorganizando as peças de meu guarda-roupa, recategorizando os arquivos do meu computador e até redecorando a sala. Mexer nas minhas coisas, relembrar tudo o que tenho, mudar coisas de lugar, colocar no uso, por algum motivo me acalma.

Organizar é pensar, refletir sobre a distribuição e espaço das coisas, não é sobre rigidez e meticulosidade, é sobre praticidade. Por isso, organizar me ajuda a pensar, estruturar o ambiente externo me ajuda a ir organizando os pensamentos e sentimentos também, além da sensação de retomar o controle e de estar fazendo algo ativamente, já que nem sempre podemos agir diante de uma determinada situação.

Me acalma saber que a minha volta tudo tem um propósito, escolho o lugar de cada um dos objetos que me pertencem, ganho tempo para fazer outras coisas, tempo para me concentrar e me ocupar de outras coisas, já que o que é meu está bem resolvido.

Organização é um conceito, aplico-o em minha rotina com várias ferramentas, desde agenda até os mais variados aplicativos que estão à disposição. Assim, otimizo meu tempo, não perco prazos ou compromissos e estou – quase – sempre em dia com as tarefas. Minha escrivaninha é um alvo constante e sei que parece bobo, pois passo horas mexendo em meus papéis e canetas e parece que nada mudou, mas é assim que surgem algumas ideias, que controlo minha ansiedade e que me torno mais produtiva.

Aprendi a me organizar de fora para dentro.

 

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Término

48. TérminoQuando algo termina? É no último contato ou antes, assim que se toma a decisão? É quando a ideia surge pela primeira vez à mente, como um rápido lampejo ou é apenas depois de dolorosos meses quando finalmente paramos de pensar no assunto?

No ano passado, decidi parar um curso. Encerrei todo um ciclo e fechei uma etapa importante da minha vida. Naquele momento, mudando de profissão, o curso perdeu a necessidade e também o espaço em minha apertada rotina. Foi difícil tomar a decisão e pior ainda contar ao grupo que eu ficaria apenas até o final do mês, só mais um pouquinho, para fazer os devidos encerramentos.

No primeiro dia, quando dei a notícia, chorei, choramos todos juntos. Tentaram me convencer do contrário, mas foram todos compreensivos, deram o apoio que eu tanto precisava naquele momento. Na semana seguinte, senti um mal-estar enorme e me faltava vontade de aparecer por lá. Parece que não havia sentido em ir quando estaríamos todos contando os dias até meu término. Me arrastei, eu precisava ir! Precisava encerrar direito, honrar com minha palavra e compromisso. Mas, uma vez que a decisão foi tomada, as cores do caminho mudaram, os sons já não eram os mesmos, a graça de ouvir as histórias dos colegas se fora, deixando no lugar uma dolorosa pontada que me lembrava de que eu não acompanharia o desenrolar de nenhuma daquelas histórias e, por mais que prometêssemos uns aos outros que manteríamos contato, nunca mais sairíamos da aula para tomar um cafézinho, ou nos ajudaríamos mediante a uma crise no trabalho ou mesmo trocaríamos as tão pessoais confidências como costumávamos fazer.

Na semana seguinte, com mais dificuldade ainda, fui sabendo que em breve deixaria de participar das histórias que o grupo construía junto, logo eu deixaria de conhecer as brincadeiras e participar das decisões. Contei, acanhada, sobre meus encerramentos e encaminhamentos, tudo praticamente finalizado. Um misto de alívio e uma precoce nostalgia se misturavam em meu peito.

O dia do último encontro, meu último encontro, foi o mais difícil. E foi então que me peguei pensando se aquele ciclo se encerrava ali ou se eu já tinha fechado aquela porta ao tomar e comunicar minha decisão. E, se fosse esse o caso, como eu faria para suportar aqueles instantes finais? Como eu podia encerrar algo que já estava acabado?

Se eu faltasse, me sentiria covarde, incapaz de lidar com algo que eu mesma escolhi, com a sensação de não conseguir terminar. Porém, a partir do momento em que tomei a decisão, passei a me sentir esvaziada, como se já não tivesse mais motivos para estar ali, tendo em vista o eminente fim de tudo aquilo.

O que me motivou a ir foi saber que eu precisava me despedir, precisava agradecer a todos por aqueles três anos passados dentro daquela sala, todo o fortalecimento que aquele aprendizado me trouxe, precisava de cada troca de olhar, de cada abraço que eu queria dar e receber. Mas por que essa mania de esperar a hora da despedida para dizer aquilo que sentimos e pensamos? Por que esperar o momento da perda para nomear tudo o que acontecia diariamente ali?

Eu não sei quando tudo começou a terminar, mas foi um processo longo, doloroso e muito bonito, saí com a certeza de que era muito querida e de que deixava um pedaço meu naquele grupo, levando em troca um pouquinho de cada um que se encontrava naquela sala, toda terça-feira, logo depois do almoço. Talvez tenha acabado apenas hoje, quase um ano depois, quando finalmente revisitei essas memórias e comecei a escrever esse texto. Ou talvez ainda não tenha terminado, já que me importo o bastante para ainda pensar sobre isso e terminar com as mãos trêmulas no teclado sem saber onde, como ou quando colocar um ponto final aqui.

 

 

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Saudade

Paisagens (21)Estava aqui pensando e me lembrei de você. Na verdade, estava olhando para o teto e foi ele que me fez pensar em você, porque lembrei de todas aquelas tardes em que brincamos de fazer nada juntos. Poucos compromissos, nenhuma preocupação e absolutamente nada entre nós, ou, era o que eu achava.

Eu vou parar de enrolar e dizer de uma vez que estou escrevendo porque sinto saudade. É, falei mesmo, você sabe que eu não sou de dar voltas. Um “bocão”, como costumava me chamar.

Você foi um dia aquele que sabia de todos os meus pensamentos, que conseguia me decifrar apenas por um olhar, sabia me ler e me entender melhor do que eu mesma jamais fui capaz. Sempre tão presente, era pra ti que eu queria contar tudo o que me acontecia, era pra quem eu guardava uma piada boba ou um fato curioso, era como um verdadeiro travesseiro fofo para desabafos, meu espelho, que tão bem refletia e me fazia refletir sobre minhas atitudes.

Mas isso já faz tanto tempo! Nosso afastamento aconteceu de repente, e eu não o vi chegando, apesar de todos os indícios. Sei que para você doía continuar perto, mas do lado de cá doeu muito aprender a ficar longe. Senti sua falta lentamente, um pouco a cada dia. Pensei, repensei e pensei mais um pouco, mas nem pedir sua opinião eu podia… Me vi sozinha, sem meu melhor amigo para pedir um conselho e sem poder consolá-lo, já que fora eu a causadora da sua angústia.

Aqui nesse meu monólogo, o teto perguntou se hoje eu faria diferente, e mesmo depois de tantos anos eu não sou capaz de responder a essa pergunta. Porque eu não podia mudar o que eu sentia, ou melhor, o que eu não sentia por você. Queria ter feito melhor, é claro. Queria que nós tivéssemos lidado com isso juntos, mas nós dois saímos perdendo: você perdeu um amor que nunca foi seu, e eu perdi um amigo que, bem, será que foi meu algum dia? Me pego pensando sobre o que sentíamos ou achávamos sentir naquela época, dois adolescentes descobrindo o mundo. Eu ainda tinha tanta coisa para te contar, e nós podíamos ter vivido tantas histórias juntos.

Gostaria de ter tido mais tempo ao seu lado, mas eu não pude fazer nada a não ser aceitar sua decisão. Tudo aconteceu depressa, de um dia para o outro você já não me respondeu mais, deixou um buraco no meu peito e nas minhas tardes. Sinto saudade mesmo sem saber se a vida teria nos levado a caminhos diferentes, mesmo sem saber se nossa amizade teria durado. Às vezes me culpo por não ter correspondido aos seus sentimentos, mas na maior parte do tempo te culpo por tê-los sentido.

Eu sei que nunca mais voltaremos a ser o que já fomos um dia. Eu mudei, suponho que você também, e o vão que há entre nós é difícil de ignorar. Mas tem dias que eu só queria poder saber como você está, e também se você se pergunta sobre mim. Espero que sim.