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Amarelo

Aquela tinha tudo para ser uma manhã como outra qualquer, mais um dia presa na mesma rotina. Mas então tudo mudou e mal sabia ela como desejaria voltar a sua habitual monotonia. 

Marisa acordou, como sempre, sofrendo com o som do despertador que invadia seus ouvidos, acabando com o silêncio do quarto. Ainda sem abrir os olhos, tornou-se consciente de todos os barulhos a sua volta, do som de carros passando lá fora ao tic-tac do velho relógio de parede. A respiração pesada de Toby inundou o cômodo, era bom saber que alguém ainda dormia. Um beagle gordo de meia idade que lhe fazia companhia, aliás, sua única companhia desde que o casamento terminara. 

Finalmente se rendeu, abrindo os olhos e se ajeitando para alcançar as pantufas. Esbarrou na caminha de Toby no caminho até o banheiro, provocando alguns resmungos abafados. 

Sentia como se nada funcionasse antes de beber seu sagrado primeiro gole de café. Então desceu e foi direto para a cozinha, parando apenas para abrir a porta dos fundos que dava para o pequeno quintal, assim Toby poderia usar seu banheiro também. Pegou, mecanicamente, o pó de café e o coador, contando em voz alta as colheradas, para, em seguida, levar à cafeteira, onde a mágica acontecia praticamente sozinha. 

Enquanto colocava sua solitária xícara de porcelana na mesa, começou a ouvir os latidos do cão lá embaixo. Seguiu até a escada, tentando entender o que acontecia, como não conseguiu detectar qualquer anormalidade, desceu. Assim que chegou no último degrau viu que dois de seus vasos estavam caídos no chão, provavelmente efeito do vento da madrugada. Havia terra espalhada pelo quintal e pedaços das plantas que haviam se despedaçado com a queda. Toby pisou na terra, sujando tudo ainda mais. 

Bufou, irritada, pensando que precisaria limpar as patas do cachorro antes de deixá-lo entrar em casa novamente. Só então reparou que ele estava encostado na porta que dava acesso à garagem, farejando com força pelo estreito vão até o chão. Ele se movia de um lado ao outro, tentando achar uma posição, como se quisesse passar por baixo da porta, tamanha era sua urgência. Seu bumbum empinado e os pelos eriçados indicavam uma posição de ataque. 

Foi quando se deu conta de que havia algo errado. Talvez o assassinato de suas plantas não fosse obra do vento, mas sim de algum animal noturno que tivesse se esgueirado pelo quintal durante a madrugada. Sentiu um arrepio percorrendo suas costas ao imaginar que pudesse estar dividindo sua casa com um hóspede indesejado: um rato. Afinal, Toby nunca reagira daquela maneira.  

Ela afastou o cachorro da porta, com alguma dificuldade, e abriu apenas o suficiente para conseguir entrar, deixando-o latindo furiosamente do outro lado. Acendeu a luz e pegou a primeira coisa que localizou e que poderia ajudá-la a se defender da criatura, caso houvesse alguma: um guarda-chuva que fora esquecido atrás da porta. 

Foi andando pela garagem, tentando observar qualquer movimentação estranha ou o que quer que estivesse fora do lugar. Havia uma pilha de caixas em um canto, coisas de sua filha, que saíra de casa há quase um ano, mas ainda não havia terminado de levar seus pertences, com a desculpa de que o novo apartamento era muito pequeno. Foi ela quem quis se mudar, não foi, pensou com irritação. Ela detestava aquelas caixas e o lembrete diário de sua solidão. 

Se houvesse algum animal escondido na garagem, só podia estar ali, naquele amontoado de papelão e lembranças. Tomou coragem para se aproximar, empunhando o guarda-chuva, ela apertava tanto a mão em volta do cabo que logo os nós de seus dedos ficaram doloridos. Usou-o para afastar as duas caixas que estavam à frente e deu um pulo para trás ao se deparar com um par de olhos amarelos e estreitos lhe encarando. 

A criatura não piscava ou mesmo se mexia, porém, seus olhos eram uma das coisas mais vivas que Marisa já vira. Não havia dúvidas quanto a isso. Deixando escapar um grito, deu alguns passos para trás, mantendo o guarda-chuva ainda a sua frente e parou para observar. Sentia-se hipnotizada por aquele par de olhos, mas, aos poucos, foi percebendo o rosto e finalmente o corpo do animal, completamente revestidos de um pelo negro brilhante. Era grande demais para ser um rato. Pequeno demais para ser um cão. 

Viu o rabo se mexer e deu mais um passo para trás, se assustando quando suas costas encontraram a parede fria de gesso. Não havia mais para onde recuar. Toby, que parecia ser capaz de sentir seu medo, voltou a latir do outro lado da porta. A criatura ficou com os pelos eriçados, soltou um ruído e desviou seu olhar amarelento para a porta. Um olhar que parecia humano, de tão concentrado. 

Se não era um rato, aquela coisa devia ser um gato. E ela odiava gatos, seu cheiro nauseante, o excesso de pelos, a língua áspera e asquerosa, além daquelas pupilas estreitas e horripilantes. 

Marisa bateu com a ponta do guarda-chuva no chão, tentando espantá-lo, mas a criatura não mexia nada além do olhar, que vagueava atento por todo o cômodo. Ela não sabia como ele tinha entrado ali, ou mesmo há quanto tempo estava em sua casa. Esse último pensamento a fez estremecer. 

Saiu novamente da garagem, encontrando um Toby irritadiço que a cheirava com força, quase como acusando-a de uma traição. “Eu sei, também não o quero aqui”, respondeu a seus protestos. Pegou uma vassoura e preparou-se para voltar, desviando do cão novamente. 

Bateu a vassoura no chão, acendeu as luzes e gritou, tudo para tentar assustá-lo. Impassível, o gato virou de costas, se embrenhando ainda mais entre as caixas, deixando apenas o volumoso rabo à mostra. Assim ele se parecia ainda mais com um rato imundo. 

Tentou se aproximar, mas não conseguia, sua pele se arrepiava só de pensar em precisar tocá-lo. É claro que ela não queria machucá-lo, só precisava tirá-lo dali. Ele precisava ir embora. Conseguiu, com muito esforço, chegar perto o suficiente para enxotá-lo com a vassoura. Tentou empurrar seu pequeno traseiro, mas não conseguiu nada além de um forte miado. O som entrou e ficou ecoando em sua cabeça. Toby intensificou os latidos, em sua defesa. 

Nervosa, sentia as gotas de suor escorrendo por dentro de sua blusa, saiu novamente da garagem, subiu e alcançou o celular que ficara em cima da mesa. Pensou em ligar para sua vizinha, talvez ela não se importasse em ajudá-la, mas, automaticamente, ligou para ele

Uma voz ainda cheia de sono lhe respondeu no terceiro toque. Ela se enrolou nas palavras, sentindo um misto de vergonha e arrependimento quando ele pediu que se acalmasse e explicasse o que estava acontecendo. Se era urgente? Claro que sim! Respirou fundo e contou, dessa vez devagar, que havia um gato enorme preso em sua garagem. Ele não fez nada além de rir, disse sentir pena do gato e pediu que ela se acalmasse, pois o pobre bichinho era, com certeza, o mais assustado dos dois.  

Desligou o telefone humilhada e com duas sugestões: a primeira era borrifar um pouquinho de água nele, pois gatos não gostavam de se molhar e, a segunda, era deixar o portão aberto para que ele fosse embora sozinho. Que grande ajuda. 

O animal era rápido, saiu correndo pela garagem assim que ela borrifou água no meio das caixas de papelão. Deu uma volta completa e então foi se esconder debaixo do carro. Sua corrida de um esconderijo a outro fora tão eficiente que Marisa continuava no escuro, sem saber se era macho ou fêmea, se ainda era um filhote, ou mesmo se estava ferido. Pelo tamanho – enorme – não parecia ser um filhote, mas parecia bastante magro. 

Ela também sentia pena do bichinho, sabia que ele estava perdido e assustado, mas era mais forte do que ela, simplesmente não podia se agachar e tirá-lo dali. Ela queria ajudá-lo a sair da casa para que reencontrasse seu caminho, mas não conseguia. Torceu para que ele não estivesse ferido, não queria lidar com a culpa de tirar um cadáver de sua garagem. 

Tentou se acalmar para seguir a segunda dica do ex-marido. Subiu e tomou seu café, apesar de não sentir o gosto da comida em sua boca. Tomou banho e se arrumou com os pensamentos ainda presos ao bichano. Cuidou de Toby preferiu deixá-lo trancado dentro de casa. 

Ele ainda estava embaixo do carro quando ela voltou para a garagem. Agora ronronava, provocando-a. O som era lento e arrastado, como um motor velho. Ela apertou as chaves na mão e clicou no botão do alarme, destravando o carro. O animal teve um leve sobressalto com o barulho e as luzes que piscaram no automóvel, porém voltou a se acomodar. 

Marisa sabia que poderia acabar com aquilo de maneira fácil, bastava ligar o carro, e ninguém saberia. Apenas ela saberia, pelo resto de sua vida, tanto quanto sabia que jamais teria coragem de fazer mal a um ser vivo. 

Irritada, pegou novamente o guarda-chuva e deu pancadas na lateral do carro, obrigando-o a sair. Encolheu-se toda enquanto a criatura fazia seu caminho de volta ao ninho, notou que ele já parecia íntimo da montanha de caixas. Deixou a porta aberta, na expectativa de que ele aproveitasse a casa escura e silenciosa para sair pelos fundos, da mesma forma como devia ter entrado.

*

Desnecessário dizer que quase não conseguiu trabalhar naquele dia. Não conseguia prestar atenção no que as pessoas falavam com ela, não reparava em quem lhe dirigia a atenção e cometeu erros mais de uma vez, algo pouco comum. Seu chefe ficou irritado ao receber uma planilha repleta de erros de digitação. Ela se desculpou, dizendo que não dormira bem e estava tendo problemas em casa. Ele sabia do divórcio, é claro. 

No almoço, a comida não descia pela garganta, que parecia arranhada. Largou a marmita pela metade e foi para área de descanso, mas havia um rapaz cochilando sentado em uma cadeira, e ela podia jurar que sua respiração era semelhante à daquele que lhe aguardava em casa. Já começava a sentir-se perseguida. 

A dificuldade para se concentrar acompanhou-a pelo resto do dia e, até chegar em casa, já se sentia exausta. Estacionou em frente ao portão, fechou os olhos e afundou as unhas no volante, com as mãos trêmulas. Apertou um botão no pequeno controle, abrindo o portão automático. Em vão, estreitou os olhos, tentando enxergar no escuro: nada. Manobrou o carro, entrando de ré na garagem. A câmera traseira lhe ajudou a estacionar, porém pouco revelou sobre o indesejado visitante. Talvez ele tivesse ido embora, afinal!

Assim que desceu do carro e bateu a porta, o leve ronronar voltou a ecoar em sua cabeça. Ali, no meio das caixas ainda jaziam os olhos amarelados. Praguejou mentalmente, se perguntando se o bicho não tinha fome. 

Sentiu-se culpada, no entanto, ao se dar conta de que o animal sequer bebera água o dia todo. A contra gosto, subiu, recebeu a festa de Toby, que ficava sempre muito feliz com sua chegada, e foi em direção à pia. Usou um pote velho para encher de água e desceu novamente, equilibrando o líquido em suas mãos e desviando do cachorro que, ainda animado, pulava à sua volta. Na porta da garagem, ele voltou a farejar, se abaixando e empinando o rabo, os pelos traseiros se eriçaram de raiva enquanto ele latia. 

Com dificuldade, afastou-o da porta para poder entrar. Mesmo tendo perdido quase metade da água no caminho, ainda havia o suficiente para que deixasse o pote no chão. Não conseguiu colocar perto dele, não conseguiria se abaixar e muito menos tocá-lo. Então apenas encostou o pote na parede mais próxima e saiu em passos rápidos, sem olhar para trás. 

Pensou em lhe dar leite, ou então um pouco de atum, sabia que ainda havia uma latinha de conserva no fundo do armário, mas teve medo de que, se ele gostasse, poderia querer voltar por mais. Ela não podia se arriscar. 

No banho, passou uns bons minutos debaixo da água, esfregando o corpo, sentia-se mais suja do que o comum naquele dia. Vasculhava seu corpo à procura de pelos ou qualquer cheiro que lembrasse o animal. Mesmo ali, com o barulho da água e a sensação quente em sua pele, se fechasse os olhos, parecia ouvir seu ronronar ecoando pelas paredes. 

Ligou para a casa da vizinha da frente, mas a chamada se esgotou antes que alguém atendesse. Olhou pela janela e viu que a casa estava toda apagada. Sem saber a quem recorrer, entendeu sua sina: seria obrigada a passar a noite com aquele ser asqueroso em sua casa. Prendeu Toby dentro de casa e deixou a porta que separava a garagem do quintal aberta, na expectativa de que durante a noite o animal fizesse seu percurso de volta e sumisse da mesma forma como havia aparecido. 

Deitada na cama, não conseguia fechar os olhos sem ver o olhar amarelo a sua frente. Sentiu-se ridícula por levantar e acender a luz do corredor. Mas naquela noite não conseguiria dormir no breu. Em silêncio, ouvia as batidas do relógio e o estalar da geladeira no andar de baixo, até que de repente, começou a escutar também o mesmo som de motor velho que lhe perseguira durante todo o dia, era como se ele estivesse rindo dela. 

Sentia-se fraca, impotente, não sabia como podia lidar com tantas coisas sozinha e, ainda assim, ficar sem ação diante de algo tão insignificante. Era vergonhoso! Mas o embaraço não era tão grande quanto o asco que sentia só de pensar em tocá-lo. Tentou imaginar sua mão nos pelos ensebados do animal e não conseguiu. Porém, virou refém das imagens que invadiram sua mente: sabia que o gato ainda estava lá, provavelmente lambendo o próprio corpo com a língua áspera e sujando toda sua casa de pelos negros. O ronronar ficou mais alto e ela se encolheu na cama, apertando as cobertas em torno do corpo. Olhou para os lados, mesmo sabendo que não havia nada ali. Ele estava longe, tinha de estar. Ela conferira três vezes se a porta da cozinha estava trancada à chave. E sabia também que nenhuma janela ficara aberta.  

Olhou para Toby, que respirava fundo, em um sono pesado, encolhido em sua caminha. Fechou os olhos novamente, sentindo-os pesados, e teve ainda mais um vislumbre dos olhos amarelos antes de finalmente conseguir adormecer. 

*

Agradecida pela chegada da manhã, escovou os dentes com pressa, olhando pela janela, como se esperasse encontrar o animal parado no meio da rua. Nada. Calçou as pantufas e desceu direto para a garagem. Toby estranhou a quebra do ritual matinal de sua dona, resmungou por não poder descer e fazer xixi perto do ralo, como sempre. 

Ela seguiu até a garagem e nem precisou acender a luz para encontrá-lo lá. Paralisado na mesma posição, com o olhar fixo nela. Ele vencera e os dois sabiam disso. Sentiu seus olhos arderem de raiva e segurou as lágrimas que tentavam cair. Secou uma solitária, virando-se de costas para que ele não a visse. 

Sua primeira atitude foi ligar novamente para o ex. Ele gargalhou ao telefone e ela podia imaginá-lo jogando o pescoço para trás ao balançar a cabeça, como fazia quando achava graça em algo.

Cerca de uma hora depois, ela desceu para lhe abrir a porta. Se trocara, vestindo uma blusa nova e calças jeans, tentando parecer casual, mas não casual demais. Aquilo não era um encontro, afinal. Difícil dizer quem estava mais empolgado com sua chegada, Toby ou ela. 

Ofereceu-lhe uma xícara de café e então desceram para fazer o que precisava ser feito. Ela deixou que ele fosse na frente, algo que ele notou com humor. Porém, ao chegar na garagem, ele acendeu a luz, se agachou, chamou, e nada, não havia nenhum sinal do felino. 

“Mas ele estava aí, eu juro!” disse e lhe contou sobre como seguira em vão suas dicas, molhando as caixas e deixando a casa aberta. Contou como ele havia arranhado o papelão e sem parar de encará-la o dia todo. O ex-marido, cético, apenas balançou a cabeça, dizendo que não havia nada ali, nenhum arranhão ou marca nas caixas intactas da filha, nenhum pelo para contar história. 

Ele lhe encarou, olhando no fundo de seus olhos, e perguntou se ela tinha mesmo certeza do que estava dizendo. Seu olhar a feriu mais do que um dia inteiro sendo encarada pelas pupilas estreitas do animal. Para evitar maiores constrangimentos, ele disse, brincando, que o animal devia ter finalmente se cansado dela e encontrado a saída da casa. 

Na hora de ir embora, pediu que ela não lhe ligasse a menos que houvesse uma emergência de verdade, pois ele andava bastante ocupado com o trabalho e não tinha tempo a perder. Além do quê, já era hora dela se virar sozinha, fazia quase seis meses que ele saíra de casa. Virou as costas, entrou em seu carro e saiu, sem olhar para trás.

Marisa sentia-se humilhada. Derrotada, outra vez. 

Entrou, levou a louça até a pia, tentando se concentrar nas tarefas domésticas, para manter a mente ocupada. Foi então que ouviu um ronco, mais um e mais outro. O velho motor foi ganhando vida novamente, primeiro baixinho, porém aumentando gradativamente. Desceu, afobada, as escadas, com Toby em seu encalço. Entrou na garagem e foi correndo até as caixas, afastou uma após a outra, até enxergar a parede ao fundo. Nada. O barulho ficou mais alto, mais perto de suas pernas, então se virou para trás e a última coisa que viu foi o amarelo vivo. 

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