Publicado em Crônicas, Textos

Arquivo Morto

55. Arquivo Morto

Tenho um arquivo morto de ideias em minha cabeça. Cadernos e dispositivos eletrônicos são as únicas testemunhas de meus rascunhos.

Tem vezes que a ideia vem pela metade, pode ser não mais do que um lampejo, apenas o suficiente para acender algo dentro de mim. Mas nem sempre ela ou eu temos maturidade o suficiente para explorar e, portanto, não nos entendemos à princípio. Tudo aquilo que não consigo lapidar vai para o arquivo, junto com os pensamentos que ouso ter, mas não me atrevo a escrever.

E assim meus trechos se acumulam, à espera de que eu viva novas e diferentes experiências que, pouco a pouco, expandem meus horizontes, mudam minha percepção e transformam a forma como vejo o mundo, o meu mundo. Isso pode me aproximar ou afastar, às vezes o insight pode vir em um momento inesperado e a história simplesmente se desenrola bem diante dos meus olhos. Em outros casos, deleto impiedosamente o arquivo de meu computador e adormeço a memória em minha mente.

Já perdi a conta de quantas vezes fui espectadora de minha mente. Embarco em minhas próprias fantasias e me sinto mera escrivã, cumprindo a ordem de escrever aquilo que aparece para mim em forma de ideia. Sou facilitadora, usando a caneta para eternizar no papel toda a criatividade que há em minha mente.

Meu arquivo é bem vivo. É um apanhado de tudo o que mora e se mexe dentro de mim. Deixo histórias descansarem para que amadureçam antes de compartilhá-las. Retomar um texto com olhos frescos e descansados é uma das experiências mais interessantes que um escritor pode ter. É reencontrar-se com suas próprias palavras e tomar a liberdade de mudar e editar seus próprios pensamentos. Como em um espelho, é deparar-se consigo e reparar nos mínimos detalhes. As palavras revelam aquilo que não conto sobre mim, a melhor forma de me entender é, sem dúvidas, lendo um conto onde falo sobre outros personagens e me desnudo por completo em meio a ações de outrem. Com eles ouso, pego rotas alternativas, exploro “e se’s” como nunca teria coragem de fazer.

Vivo e convivo com o constante barulho de rascunhos e versões alternativas que povoam meu imaginário. De tempos em tempos, tomo a difícil decisão de colocar um ponto final e declarar minha obra como concluída. Molduro trechos de quem sou e assim tenho a sorte e a tormenta de colecionar pedaços de quem já fui ou desejei ser. Me guardo nas palavras que escrevo.

 

 

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