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Noite de (são) João

Imagem de festa junina, é noite e há luzes e bandeirinhas espalhadas pela rua.

A lenha estalava na fogueira, fazendo com que algumas fagulhas pulassem pelo chão. A noite de São João era sempre muito fria, por isso estava feliz por ter vestido uma blusa de lã por baixo da camisa xadrez vermelha e preta.

Todos os anos, no final do mês de junho, eu vinha para São Manuel visitar minha avó. A cidade era pequena, não chegando aos cinquenta mil habitantes, completamente diferente do agito da capital que eu estava habituada. Mas uma coisa era certa: essa pequena cidade sabia fazer as melhores festas juninas do mundo inteiro. Desde criança, eu ficava ansiosa pela data: as comidas, os cheiros e o calor da fogueira recheavam algumas de minhas melhores memórias. A camisa que eu vestia era praticamente meu uniforme, a primeira coisa que eu lembrava de colocar na mala quando vinha para a cidade.

Minha tia era responsável por levar meus primos e eu até a praça, no centro, onde acontecia o arraiá. Com o passar dos anos, começamos a ir sozinhos, sem supervisão dos adultos. Agora que já éramos adultas, minha prima, Márcia, fazia parte da organização da festa. E foi assim que acabei sendo escalada para ficar na barraca de bebidas.

Aprendi a fazer vinho quente e prometi que passaria parte da noite recolhendo fichas dos visitantes e trocando por copinhos de isopor cheios de bebida. Estava triste por perder parte da festa, mas animada em conhecer os bastidores. E, como pagamento, ganhei uma cartela de fichas para gastar nas outras barracas.

– A base do quentão é a cachaça, enquanto o vinho quente é feito com vinho tinto e especiarias – explicava, pela milésima vez para um grupinho de moças que já estavam bêbadas.

Elas riram como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que eu pudesse dizer.

No fim, o trabalho não era tão glamoroso, eu precisava conferir a identidade de adolescentes que tentavam comprar bebidas alcoólicas e então vender-lhes algo da geladeira dos não alcoólicos: água, chá gelado ou refrigerante.

Alguém chegou e me pediu uma caipirinha, como se estivéssemos em um bar, mas então percebi que era uma cantada de mal gosto, dado que eu estava maquiada como caipira, com excesso de blush nas bochechas e pintinhas cuidadosamente desenhadas com lápis delineador. Também tinha um remendo em formato de coração costurado no bolso traseiro de minha jeans, algo que vovó aprontou mais cedo em minha calça.

Paçoca, milho verde e bolo de fubá, eu só conseguia pensar nas comidas que me aguardavam enquanto servia bebidas e ouvia a música sertaneja que ecoava pelas ruas ao redor da praça. O antigo coreto estava todo decorado com bandeirinhas coloridas, que balançavam com o vento da noite.

Uma música animada começou a tocar e algumas pessoas se reuniram em volta da fogueira para dançar. Aproveitei a baixa no movimento para olhar a festa. Peguei meu celular, que estava dentro da bolsa, e comecei a tirar algumas fotos das decorações e dos figurinos. Ele se destacava no meio da multidão, vestindo uma calça jeans justa, uma camisa xadrez em tons de azul e um grande chapéu de palha pendurado na cabeça.

– E ai, Fabi, como estão as coisas? – Márcia perguntou, se apoiando no balcão.

– Tudo bem por aqui, mas eu quero aproveitar um pouco da festa – respondi com cara de pidona.

Funcionou, minha prima recolheu a cestinha de fichas da barraca, anotou o que precisava trazer e disse que logo voltaria para recarregar a geladeira e com alguém para me substituir. Fiz mais uma receita de vinho quente na panela que estava no pequeno fogão à gás improvisado na estrutura metálica da barraca, e logo Márcia voltou com um rapaz carregando um carrinho cheio de latinhas de refrigerante. Os dois encheram a geladeira e ele já assumiu meu posto.

Agradeci-lhe e sai, de braços dados com Márcia.

– E então, já conheceu algum gatinho? – ela perguntou, me cutucando.

– Só alguns bêbados que me passaram uma cantada ruim.

– Não é possível, não quero que você vá embora com essa imagem aqui do interior. Depois você volta para São Paulo e todo mundo fica me perguntando sobre minha prima chique da capital. E você, o que tem para falar sobre mim?

– Deixa de fazer drama, sua boba. Eu só tenho coisas boas para falar sobre você e sobre a cidade. E até parece que alguém pergunta sobre mim.

– Perguntam sim, minhas amigas, e alguns garotos. Aquele ali inclusive – disse, fazendo um gesto discreto com a cabeça – o João, no ano passado ele ficou um tempão atrás de mim fazendo perguntas sobre a senhorita. Mas você já estava no ônibus de volta a São Paulo.

Quando me virei para ver de quem ela falava, dei de cara com o rapaz do chapéu de palha.

– Ele é daqui? – perguntei

– Não, ele é de São Paulo também, mas faz faculdade em Bauru, ele e os amigos sempre vem pra cá na época das festas. Por que, se interessou?

– Não – gaguejei – só estou perguntando.

– Hum, sei – só falta você vir até minha cidade e arrumar um namorado primeiro que eu! – ela interrompeu nossa caminhada assim que chegamos na frente da casa da Dona Lourdes, que cedera sua garagem como depósito para a festa – Prima, posso te deixar um pouquinho? Preciso visitar outras barracas e conferir se está tudo certo.

– Sem problemas, vou aproveitar para ir comer, estou faminta. É uma tortura ficar sentindo esse cheirinho de milho verde no ar.

– Vai lá, e descobre se o caipira tem um amigo pra me apresentar!

Mostrei a língua, em sinal de brincadeira, e continuei caminhando pela festa. Comecei a passear entre as barracas, deixando os sons e cheiros me invadirem, reacendendo as boas lembranças que tinha daquele lugar.

Fiz minha primeira parada na barraca do milho, onde comprei uma pamonha. Fui até a fogueira para me aquecer enquanto comia. Não percebi que ele vinha em minha direção, caminhando distraído, enquanto digitava uma mensagem, até que ele esbarrou em mim, derrubando quase toda minha comida no chão.

– Ei, olha por onde anda! – falei, irritada.

– Desculpa, moça, eu te compro outra – ele se virou e só então o reconheci.

– Não, tudo bem, estou com mais fichas aqui.

– Espera, eu te conheço? – perguntou.

Senti meu rosto corar sob seu olhar fixo e agradeci por estar com as bochechas revestidas de maquiagem.

– Não sei, minha prima disse que você ficou perguntando sobre mim no ano passado – provoquei.

Ele ficou parado por algum tempo e eu pude perceber que vasculhava sua mente em busca de mais informações.

– A Márcia – completei.

– Você é prima da Marcinha? Não pode acreditar em tudo o que essa garota diz, não. Espera, você é a prima de São Paulo.

– A própria. Fabiana – disse, estendendo a mão. Ele se esquivou de minha mão e me cumprimentou com um beijo no rosto.

– João, prazer.

– Mais de um João na mesma noite, o santo e você.

Ele riu e se ofereceu novamente para comprar outra pamonha. Recusei, mas disse que aceitava sua companhia para comprar um cachorro quente.

Fomos caminhando até a barraquinha e ficamos conversando enquanto esperávamos na fila. João estava no terceiro ano da faculdade de engenharia civil em Bauru, e tinha planos de abrir um escritório assim que terminasse a graduação. Ficou interessado quando lhe contei que cursava psicologia e me encheu de perguntas sobre filósofos e pensadores da área.

Sentamos em um banco da praça para que eu pudesse comer meu lanche e ele a maçã do amor que comprara de uma moça que andava pela festa com uma grande cesta de doces. Quando percebi, já estava falando sobre Freud e Jung, como uma típica caloura de psicologia.

– E você pensa em voltar então? – perguntei.

– Sim – respondeu, ainda mastigando – em sampa tem mais oportunidades, e minha mãe me mataria se eu não voltasse. Eu vou pra casa pelo menos um final de semana por mês, para ficar com meus pais.

– Deve ser difícil passar tanto tempo longe de casa.

– Por um bom motivo eu voltaria todos os finais de semana.

Sorri e dei uma mordida em meu cachorro quente, sem saber o que responder. Mastiguei lentamente enquanto ele me olhava, sorrindo.

Olha a cobraaaaa!

É mentira!

Fomos interrompidos pelo som estridente da quadrilha que começou a ecoar pelas caixas de som.

– Dança comigo? – ele perguntou. Jogamos nossos pratinhos no lixo e seguimos para o centro da praça, onde todos se reuniam para dançar quadrilha, ao lado da fogueira.

Olha a chuva!

Já passou!

Nos posicionamos na fila de casais e começamos a dançar. João sorria e eu me sentia hipnotizada por seu olhar. Demos as mãos para passar dentro do túnel e eu não conseguia parar de rir. Apesar de frequentar a festa anualmente, eu sempre dava um jeito de me esconder na hora da dança. Mas essa noite, o ritual estava completo.

Assim que os casais se dispersaram novamente pela praça, João se aproximou e segurou em minha mão. Me aproximei, e ele se abaixou, juntando nossos lábios. Um beijo doce, como maçã do amor.

Lembrei que ainda precisava perguntar se ele tinha um amigo para apresentarmos a Márcia.