Achados e Perdidos

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Trabalho no metrô de São Paulo há anos e, agora que estou para me aposentar, fui transferido para o setor de achados e perdidos. No começo estranhei bastante, fui da agitação das estações para uma salinha mal iluminada no final do corredor.  Era como se eu estivesse ali para não atrapalhar, assim como os objetos à minha volta, e me perguntava se para meus superiores eu também tinha um prazo de validade na sala que servia como lar temporário dos pertences de outras pessoas.

O sistema é eficiente, porém burocrático. São encaminhados para a central objetos cujos proprietários podem ser identificados, como documentos e agendas. O restante é encaminhado para uma casa de solidariedade. E, se depois de sessenta dias, o tal proprietário não aparecer, seus pertences também são doados, ou então vão parar na lixeira, apesar de nunca admitirmos isso. Existe uma cláusula no meu contrato de emprego que me impede de revelar tal dado.

Bom, eu passo o dia todo nessa sala abafada, sozinho e cercado de objetos perdidos. Ou achados, se preferir. Muitas vezes, as pessoas não sabem onde os perderam, se foi no trajeto ou em seu destino final, então a maioria delas não se dá ao trabalho de vir procurar aqui, ou ao menos cogita tal hipótese. Outras sabem que perderam seus bens no transporte, mas não acreditam que eles tenham chegado em minha sala, tendo plena certeza de que alguém já se apossou deles no caminho.

Essa série de esquecimentos e mal-entendidos faz com que eu tenha muito tempo livre. E foi assim que tudo começou. Primeiro, comecei a com uma jaqueta jeans: perguntei-me porque ela estava lá, e encontrei a resposta em seu bolso, na forma de uma carteira de habilitação. Peguei o documento e li todas suas informações, pertencia a um homem, de vinte e seis anos. Então, tudo o que eu sabia sobre essa pessoa era que ele sabia dirigir, gostava de jeans, tinha uma jaqueta e fora distraído o suficiente para perdê-la.

Depois encontrei uma nécessaire feminina que tinha como chaveiro uma etiqueta de identificação, e ali estava o nome de sua proprietária. Sabendo que a chance de ser flagrado era mínima, eu não contive o impulso de abrir o zíper para espiar seu conteúdo. Me senti tão íntimo daquela mulher ao ver o que ela carregava: havia um pouco de tudo! Uma miniatura de frasco de perfume, alguns itens de maquiagem, incluindo um chamativo batom vermelho, lenços de papel, grampos de cabelo, um espelho, uma caneta azul, lixa de unha, analgésicos e preservativos. Fiquei me perguntando se ela carregava aquilo todos os dias ou se aquela era uma ocasião especial.

E então essa curiosidade foi se tornando parte de minha rotina, era um jogo que eu jogava sozinho, pegava um objeto e tentava conhecer seu dono. Um caderno, por exemplo, me dizia o conteúdo que seu dono estudava e eu tentava conhecer traços de sua personalidade por meio de sua letra.

A brincadeira se tornava ainda mais emocionante quando eu conhecia o dono do objeto investigado. Eu torcia para que acontecesse em meu turno, e ficava decepcionado se o objeto não estivesse mais lá quando eu chegava para um novo plantão. Pois nesse momento, eu tinha a chance de ver uma pessoa real a minha frente, e assim confirmava ou refutava algumas de minhas hipóteses. Mas apenas as mais superficiais, afinal esse único contato não era suficiente para me revelar aquilo que seus objetos perdidos haviam me contado.

Ás vezes até me emocionava ao assistir o reencontro do objeto perdido com seu dono. Descobri que as pessoas desenvolvem uma relação afetiva com as coisas mais improváveis do mundo. E muitas me agradeciam como se fosse eu mesmo quem os tivesse encontrado. Ah, se elas soubessem!

Dessa forma, encontrei um meio de ser menos solitário, em meio àquilo que outras pessoas tinham perdido, ou simplesmente deixado para trás. Até que conheci Denise, uma simpática jovem de cinquenta e seis anos, que começou a trabalhar na limpeza.

Ela foi escalada para trabalhar no mesmo horário que eu e, um dia, foi limpar minha sala. Começamos a conversar e ela pareceu interessada em saber um pouco mais sobre o meu trabalho, o que me deixou muito feliz, pois nunca pude dividir com ninguém o entusiasmo pelos objetos perdidos e seus curiosos sujeitos.

Acho que foi por isso que ela começou a me visitar de vez em quando. Às vezes vinha fazer uma faxina, mas tinha dias que só passava para dar um oi mesmo. Sempre que ela aparecia nós conversávamos um pouco, sobre amenidades, sobre o clima, sobre novelas. E ela continuava demonstrando interesse na rotina da sala de achados e perdidos.

Um dia, quando ela chegou, eu estava folheando um caderno florido. Eu me assustei com sua entrada e o fechei rapidamente. Ela riu e perguntou o que eu estava fazendo, e eu menti, dizendo que procurava alguma informação que identificasse seu dono.

– E você não tem curiosidade de ler, não? – ela perguntou.

Fiquei tão desconcertado que não fui capaz de dar uma resposta rápida. Ela não pareceu notar e completou dizendo que ela teria.

– Dá curiosidade mesmo – ri e concordei com ela.

Tinha chegado no meu limite, sentia meu segredo transbordando dentro de mim, eu precisava dividir com alguém, e por quê não com Denise?

Parei de resistir e resolvi abrir meu jogo com ela, contando sobre meu passatempo de adivinhações e, para minha surpresa, ela perguntou se podia brincar também.

Finalmente deixei de ser só, agora que ela vinha todos os dias para ver o que se perdera na noite anterior – ou o que fora achado. Em pouco tempo nós já dividíamos algumas piadas, cujo significado apenas nós conhecíamos e um já conseguia saber o que o outro estava pensando, apenas com um olhar. Também conversávamos sobre nós dois, é claro. E foi assim que descobri que ela era viúva, como eu, porém mãe de dois filhos e avó de um neto, diferente de mim, que nunca constitui família, sendo sempre apenas eu e Rose, até que ela me deixou.

Já fazia alguns anos desde que minha esposa se fora, e eu não me interessara por ninguém desde então. Foi uma surpresa quando me dei conta de que sentia falta de Denise se ela não aparecia para me ver. Me flagrei observando os traços de seu rosto enquanto ela olhava entusiasmada para a pilha de itens recém-chegados.

Ela me fez sentir um friozinho gostoso na barriga que há muito eu deixara de sentir. Demorei dois meses para ter coragem de chamá-la para sair, mas quando aconteceu, ela aceitou ir ao cinema comigo.

No dia, eu mal conseguia lembrar o caminho para o cinema, de tão agitado que estava. Fiz questão de pagar nossas entradas, alegando que fora eu quem lhe fizera o convite. Ela riu e respondeu que se eu não a tivesse convidado, ela acabaria fazendo. Confesso que depois disso não consegui prestar muita atenção no filme que se desenrolava a minha frente, me senti novamente como um adolescente em seu primeiro encontro. Saindo de lá tomamos um sorvete e eu a acompanhei até em casa.

Pensei que seria estranho encontrá-la no trabalho no dia seguinte, mas ela já estava tão impregnada em minha rotina que nosso encontro foi muito natural, e acho que esquisito seria não vê-la rondando minha sala, ou então apoiada em seu esfregão enquanto conversávamos ou investigávamos a identidade de um dono de documento perdido.

Algumas semanas depois, Denise me contou que seu aniversário se aproximava e que ela faria uma festinha para comemorar com os filhos e o neto. Sorri e antes que pudesse fazer um comentário, ela se enrolou toda em sua fala, me convidando.

– Será só um bolinho mesmo, pois as crianças insistem que não posso deixar passar em branco. Fazer o quê se fui eu quem os ensinou assim.

Gaguejei uma resposta, confirmando que estaria em sua casa no sábado à noite. E, não tive como fugir do compromisso: conhecer sua casa e família. De repente me dei conta de que entraria também em sua intimidade, a veria em seu habitat natural. Ri da ironia, afinal eu só conhecia alguns aspectos dela, desde que ela se perdera em minha sala.

No sábado, fui munido de um buquê de flores, que me pareceram um bom presente de aniversário. Ela me recebeu na porta, toda sorridente, e reparei que ela estava mais perfumada do que o habitual, e maquiada, o que era uma novidade. Ela pegou as flores de minhas mãos, agradecendo, e me puxou para dentro.

Assim que entramos pelo corredor, fomos parar em sua pequena sala de estar, onde uma moça brincava com um menininho, que devia ter no máximo uns cinco anos. Sua filha e neto, pensei.

Ela me apresentou para eles como um colega de trabalho, “aquele que comentei com você outro dia”. Fiquei tenso, imaginando o que ela havia falado de mim para a filha.

– O moço dos achados e perdidos. Mamãe, a vovó encontrou um namorado nos achados e perdidos, não é engraçado? – disse o menino.

A mãe lhe deu uma bronca, mas não havia como retirar suas palavras do ar. Então Denise segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos e disse:

– Sim, ele estava lá. Não sei quando se perdeu, mas estava pronto para ser encontrado.

Eu não pude deixar de sorrir enquanto apertava sua mão no meio da minha.


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