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Verdade

42. Verdade       Você disse que minhas palavras não enganariam a ninguém, e que já passara da hora de escrever algo verdadeiro, pois só uma frase verdadeira poderia revelar meu estilo e aprimorar minha escrita.

            É sinceridade que você quer? Mas eu nunca vi alguém escrever sobre suas noites mal dormidas e a fragilidade sentida ao deitar a cabeça no travesseiro, vestindo nada além de um pijama largo e fantasias que nunca se realizarão. Ninguém comenta suas dores de cabeça e o fato de sentir que não possui todos os recursos e forças cuja posse alega todos os dias como forma de sobrevivência.

            Nunca conheci ninguém que falasse abertamente sobre a vontade louca de comer doces, já que esse é um dos poucos prazeres que temos na vida. Ou sobre sua barriga apertada dentro da calça jeans após uma noite de fraqueza, recheada de guloseimas. E quem levantaria a voz para dizer que já não tem mais crédito e que ainda não sabe como fará para pagar a próxima fatura.

            Jamais vi alguém admitir que foi autor de uma injustiça, que praticou bullying nos tempos de colégio ou mesmo que espalhou aquele boato que comprometeu a promoção do concorrente. Aliás, cidadão de bem não sai por aí alegando ter concorrentes, o que tem são pessoas com inveja de seu sucesso. Mas se você é um daqueles que pensou “que sucesso?”, fique calmo, isso apenas quer dizer que você ainda não chegou lá, mas o jogo vai virar, ele sempre vira. Ou, pelo menos, é o que dizem.

            Como ser sincero e admitir publicamente que às vezes desejo outras que não minha parceira, se não tenho nem coragem de dizer a ela que gostaria de ter mais espaço só para mim, e que seu jeito pegajoso acaba por me irritar na maior parte do tempo. Adoraria que ela não quisesse conhecer toda minha agenda. E que delícia seria não ter uma, apenas me deixando levar por aí, sem planejamentos ou compromissos massacrantes.

            Como contar que eu adoraria ganhar dinheiro fácil ao invés de passar anos sentado em uma cadeira medíocre de faculdade, ouvindo a promessa de um plano de carreira. Honesto a ponto de assumir que há dias em que não tenho vontade de acordar, e sair da cama é uma tortura enorme. Arrasto minha carne flácida até o chuveiro, ansiando pela hora de poder voltar para meu quarto escuro.

            E por que não contar que eu já pensei em acabar com tudo. Por uma vez ou outra, acabar com ela ou comigo, já que em ambos os casos me parece se tratar de autodefesa. Já procurei alternativas, esgotei-me em pensamentos, mas não adiantaria me mudar e recomeçar, ou mesmo voltar no tempo com uma nova chance. Não há solução enquanto eu levar a mim na bagagem.

            Entende agora? Eu não sei se alguém se interessaria em ouvir isso.

 

 

 

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Tonalidades

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     Eu sou aquarela. Fruto das cores que me pintam e que pinto no mundo. Vou desde a pureza de uma folha em branco até o caos barulhento de uma noite negra. Sou o azul mercado pela tristeza, sofrendo a saudade de quem já não volta mais. E no outro dia acordo tingida de dourado, exalando a energia que me esbalda. Turquesa me traz tranquilidade, mas a felicidade surge é com os raios de um bom amarelo, brilhante como um dia ensolarado. Há em mim um vazio, onde o cinza preenche tudo o que vê pela frente, são dias frios, apáticos e, por vezes, fico roxa de medo, temendo que essa sensação não passe, mas logo surge uma tonalidade de rosa no horizonte, e então tenho novamente a certeza de que tudo ficará bem, o amor chegou. Só preciso me preocupar quando a intensidade é tamanha que me deixa vermelha, de paixão ou mesmo de raiva, afinal o que os separa é uma linha tênue. O laranja chega gritando por atenção, e é impossível não reconhecer a exibição que há ali. Mas há ainda o bege da preguiça, ou mesmo da desistência, afinal só alguém que já desistiu do dia usaria uma lingerie bege. Confesso que adoro acordar sentindo o cheiro do verde, que me remete à liberdade de um campo aberto, sem regras, sem cercas. Até que, em algum momento, sou invadida pela indecisão de um tom coral. Pastel. Neon. Metálico. Fosco. Vou me misturando, a intensidade e a transparência de minhas cores vão contrastando e sendo absorvidas por meu mundo, minha tela. Me impregno conforme vou colando e descolando sentidos. As tonalidades afetivas me cobrem e descobrem, e eu sigo, misturando tons, ousando e me reinventando. Uma vez pincelada, não posso voltar a ser, mas posso sempre vir-a-ser, basta acrescentar um pingo e pronto, já sou diferente. É, sou aquarela.

 

 

 

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Silêncio

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   A palavra silêncio é definida no dicionário como “o estado de quem se cala ou se abstém de falar. Privação, voluntária ou não, de sons e comunicação”. Ou seja, só se cala aquele que tem algo a dizer. E ele só se faz presente, só o percebemos, ao notar a ausência de som.

   Eu conheço vários tipos de silêncio. Tem aquele do começo da manhã, quando todos ainda estão dormindo, ou pelo menos deitados em suas camas, e não consigo ouvir nada além de meus próprios pensamentos, que me invadem no momento exato do despertar. E também existe aquele que gosto menos que é o da casa vazia, esse me assombra desde que o Max nos deixou, pois a sala está sempre escura e sem vida quando chego, sem latidos ou alegria me esperando na porta.

 Tem o silêncio constrangedor de uma sala de espera, quando desconhecidos compartilham um momento juntos e ninguém quer ser o primeiro a falar. É mais fácil ouvir o virar de uma página de revista ou uma fungada do que o calor de uma voz. Esse, para mim, é o silêncio do tédio.

   Depois vem o silêncio de tensão, que é aquele que se pode escutar numa sala de aula na hora da prova, apenas respirações ofegantes e destinos ansiosos, mas nenhuma palavra. Pior do que ele, só aquele que acompanha o climão de um reencontro indesejado. Não desejo nunca mais passar por um assim.

   Tem aquele silêncio incômodo que surge depois que dizemos algo forte. É difícil sustentá-lo, mesmo que às vezes seja necessário, porque é o tempo que o ouvinte tem para digerir as palavras que acabaram de lhe atingir. E, apesar da ausência de som, fervilhamos por dentro, com tudo o que foi dito ou poderia ter sido dito.

   Aprendi que o silêncio pode também ser uma resposta. Como quando você se declara para alguém e não recebe nenhuma manifestação em troca: sempre achei que precisava esperar uma recusa antes de engolir meu orgulho e partir para outra, mas acontece que a falta de resposta também é uma resposta, já que nem todos conseguem se comunicar através de sons ou palavras.

   Existe o silêncio de quando não há nada a se dizer e o silêncio de quando não precisamos dizer nada. São raros os momentos em que esse último aparece, quando duas pessoas conseguem estar juntas e compartilhar de um silêncio que não é caracterizado pelo vazio ou ausência, mas sim pela mais forte presença de sentido. E você sabe que não existem palavras suficientes ou mesmo necessárias para superar aquele momento.

 

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Rock Show!

11. Rock Show!

   Eles são minha banda preferida há quase quinze anos. É isso mesmo, nosso amor resistiu ao tempo e não terminou junto com a puberdade, como meu irmão mais velho costumava dizer que aconteceria. Fui a cinco shows, todos os que eles fizeram em minha cidade, e em cada um deles conheci pessoas que compartilhavam meus sentimentos, que entendiam o valor que cada uma daquelas músicas tinha. Fiz alguns amigos assim, migramos por diferentes redes sociais ao longo dos anos e, graças à internet e aos novos álbuns lançados, nunca perdemos contato.

   Sempre faltei na aula para ir aos shows, pois, por mais que a apresentação só acontecesse à noite, a experiência começava na fila, onde reencontrava os amigos e fazia alguns novos. Tentava garantir meu lugar na fila, sabendo que seria recompensada com uma boa visão do palco quando chegasse à pista. E, de qualquer forma, seria impossível ter um dia produtivo com toda aquela ansiedade explodindo dentro de mim.

   Ah! Um outro detalhe que esqueci de comentar é que minhas idas a shows sempre foram patrocinadas pelos meus pais, como presentes de aniversário, natal, ou por mera insistência mesmo. Essa foi a primeira vez que me vi forçada a fazer tudo diferente. Aos 25 anos, tenho meu emprego, a vida ativa de quem acabou de se formar e está trabalhando muito, ainda querendo acreditar nas promessas que ouviu na graduação e já ciente de que nada acontecerá sem muito esforço e alguns sacrifícios. Pois é, dessa vez precisei bancar meu ingresso, em três dolorosas parcelas, que implicaram em uma severa contenção de despesas nos meses seguintes.

   Não pude faltar no trabalho para passar o dia todo na fila, não consegui folga, por mais que tenha pedido com meses de antecedência, mas consegui negociar com uma colega para trocarmos de turno, então estaria liberada no meio da tarde. Combinei com o pessoal de nos encontrarmos na fila, assim quem chegasse primeiro já faria mais alguns amigos e nos garantiria um bom lugar.

   Quando o grande dia chegou, não consegui dormir, tive um desempenho ruim no trabalho, pois parte de mim já estava no show. Como eu podia me concentrar sabendo que eles já estavam em terras brasileiras?

   Quando o relógio anunciou o tão esperado momento, corri para meu armário e peguei a mochila já pronta. Passei no banheiro e troquei o uniforme quente por uma bermudinha leve e uma camiseta preta com o nome da banda estampado. Preferi me maquiar e colocar a bandana no caminho, dentro do ônibus mesmo, afinal, eu ainda teria uma reputação a zelar no trabalho no dia seguinte

   Mandei mensagem para meus amigos avisando que estava a caminho e parei apenas em uma lanchonete, onde comprei alguns lanches e uma garrafa grande de refrigerante gelado. O estômago precisa estar bem forrado para aguentar uma noite daquelas.

   Atipicamente, esperei apenas uma hora até a abertura dos portões e, graças à Dani, conseguimos um bom lugar na pista, nós duas ficamos numa posição estratégica, bem em frente ao lado direito do palco, onde Seb, o guitarrista, costumava ficar. Combinamos com o restante do pessoal que nos encontraríamos no final do show, em frente aos banheiros, e assim cada um foi procurar um lugar que lhe desse melhor visão do palco.

   Sentamos na pista e ficamos aguardando, Dani me contava sobre sua vontade de pedir demissão, motivo inclusive que fez com que ela não se importasse em faltar para garantir nossos lugares na fila. Eu entendia como ela se sentia, às vezes eu também sentia aquela vontade de jogar tudo para o alto. Tudo mesmo. O desabafo rolava solto até o momento em que as luzes da casa se apagaram.

   Acho que mesmo que eu me esforçasse, não seria capaz de descrever com exatidão como foram as duas horas seguintes. Shows sempre são uma experiência única, mas me despertam as mesmas sensações: o arrepio em cada parte do corpo quando as luzes se apagam e o silêncio impera por alguns segundos, antes que os instrumentos comecem a tocar; a voz do vocalista, anunciando a entrada da banda; a expectativa pela próxima música – será que eles vão tocar aquela?; a surpresa quando tocam algo que não costuma estar no repertório; ou o sorriso que surge no rosto quando eles se arriscam a falar em nossa língua. Mas não há nada comparável à sensação de união de quando todo o público, milhares de estranhos, se unem em uma só voz, cantando uma música junto com eles. Não importa se o ritmo ou a pronúncia das palavras está correta, tudo o que importa é saber que você divide aquelas notas com aquelas pessoas e que aquele momento nunca se repetirá.

   Quando a noite terminou, demorei para me situar novamente, foi difícil coordenar os pés que tentavam me arrastar para fora do estádio. Não sei muito bem como cheguei ao táxi ou sobre o que conversei com o motorista até chegarmos em minha casa. Sem nem tomar um banho, despenquei em minha cama e adormeci assim que a cabeça encostou no travesseiro, de tanto cansaço. No dia seguinte, ainda parecia anestesiada e sabia que seria muito difícil voltar ao normal, pois eu já não era a mesma, era uma das vozes do coro.

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Noite de Leitura

39. Noite de Leitura

   Todo domingo à noite, eu coloco meu pijama, vou para o sofá e nada pode interromper meu momento de leitura. Às vezes tenho um chá quente ou café como companhia, mas o que importa mesmo são as palavras que desfilam nas páginas a minha frente. Ler é como entrar em outros mundos sem precisar deixar o meu. Me transporto para outras realidades, me permito explorar hipóteses e viajar em possibilidades, afinal, “e se?”.

   A leitura não é apenas um ato racional, indo muito além, desperta emoções, devaneios, reacende memórias e é capaz de provocar as mais diversas sensações. Um mesmo livro nunca é lido da mesma forma por seus leitores, e o que torna cada contato uma experiência única é o fato de que lemos carregando nossa própria bagagem, então interpretamos a partir de nossas concepções de mundo e vivências anteriores. Portanto, nossa história afeta a forma como entramos em contato com outras histórias.

   Mais curioso ainda é que nem mesmo eu sou capaz de ler o mesmo livro duas vezes. Ao reler uma obra, anos depois, minhas concepções já mudaram e eu vivi coisas que alteraram meu entendimento das palavras há muito tingidas no papel. A grande obra prima de minha adolescência pode não fazer sentido algum na vida adulta. Mas é claro que isso não tira seu imenso valor em meus anos mais jovem.

   Confesso que às vezes leio porque quero dar um tempo da realidade, me afastar de interações humanas e me permitir ser apenas espectadora por um momento, mas então caio na armadilha de que não há nada mais revelador do universo humano do que as palavras conservadas em papel. Lá me deparo não apenas com a minha realidade, mas com infinitas outras.

   A experiência da leitura, através do contato solitário com o livro, me convoca a entrar em contato com minhas particularidades existenciais, ao mesmo tempo que me permite experimentar e expandir vivências e conhecimentos. Fica mais fácil me arriscar por meio de um personagem, sem precisar sair de meu sofá. Assim, a literatura abre uma nova maneira de compreender e me relacionar com minha própria história. É exatamente por isso que eu acho que não há nada mais reconfortante para o fim do domingo do que um bom livro, que me desperta curiosidade e vontade para começar uma nova semana.

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Saindo de Casa

Sacada (5)  Sair da casa dos pais é algo com que sonhamos, fantasiamos e, às vezes, desejamos com todas as nossas forças. Mas é muito difícil tomar a decisão pra valer e, não importa o quanto queremos ou nos preparamos, é simplesmente impossível estar pronto para deixar o conforto do seu quarto.
Quando chegou a minha vez, senti como se dois desafios estivessem acontecendo simultaneamente, por um lado, deixei a casa da minha mãe, minha casa, e, por outro, me vi ganhando uma nova, minha casa. Me disseram que “ganha-se muito, mas perde-se muito”, e eu não poderia concordar mais depois de sentir na pele como é ser uma dona de casa.
Perdi a tranquilidade do meu quarto de menina, deixei metade dos bichinhos de pelúcia para trás, assim como a janta sempre pronta e quentinha e a roupa passada que aparecia em cima da cama no fim do dia. Deixei o colinho de mãe que estava sempre a postos, e até o meu cachorro. Perdi tanto! Mas também ganhei uma nova relação com a minha mãe, agora permeada por saudade, desabafos e pedidos desesperados de ajuda pelo telefone para que ela me ensine a temperar uma carne ou confirme se eu posso mesmo lavar aquela blusinha de renda na máquina.
Foi difícil dar adeus ao meu cantinho, saber que da próxima vez que eu entrar naquela casa, serei uma visita – ainda que tenha as chaves. É estranho pensar que mudanças acontecerão sem que eu presencie ou mesmo perceba, e eu já não poderei opinar ou decidir como antes, agora que virei espectadora. É, talvez precise aprender a controlar minha boca, tenho que aprender a lidar com o fato de que já não tenho mais controle sobre o que acontece por lá.
Fico pensando se minha organização no armário da cozinha será mantida… acho que não por muito tempo. É difícil encarar que escolhi deixar um lugar que me recebeu tão bem, uma casa grande e confortável, um verdadeiro porto seguro.
Por outro lado, é a primeira vez que posso tomar decisões mais livremente, repensar a ordem dos talheres na gaveta da cozinha, escolher o cardápio e me aventurar em novas receitas. Comprei plantas e estou me esforçando para mantê-las vivas e saudáveis. Descobri que as roupas não são tão fáceis como eu imaginava, pois cada peça e tecido têm suas particularidades, e as tarefas tomam muito mais tempo do que o esperado. É incrível como o tempo passa e eu quase não consigo encontrar uns minutinhos para colocar a leitura em dia. O serviço doméstico consome tempo e energia, antes eu não ficava assim tão cansada no final do dia. É, não é só a casa que muda, a gente muda.
Mas confesso que enfrentar tudo isso ao lado de outra pessoa torna tudo mais fácil. O planejamento de um casamento e o friozinho na barriga ao pensar em uma vida a dois desperta a vontade de juntos conquistarmos essa independência. É gostoso conhecer mais do outro, encontrá-lo todos os dias, preparar o café da manhã e conversar sobre as coisas pequenas do dia-a-dia. Cada um traz um pouco de suas manias e dos costumes familiares, juntos descobrimos como funciona a nossa casa, e o que nós queremos para ela. As implicâncias vêm junto, é claro, mas, pensando pelo lado positivo, a coleção de livros dele passou a ser minha também. Não me julgue, estou dividindo minha poltrona de leitura. Todo mundo tem que ceder! Foi o conselho que mais ouvi até agora: minha mãe, meus sogros, amigos, conhecidos e colegas de trabalho, todos me alertaram sobre os problemas da convivência e me disseram para não esperar um mar de rosas.
É claro que estavam todos certos, e eu já sabia disso antes mesmo de me mudar, mas só nós dois conhecemos nosso relacionamento, e sabemos que ele funciona mesmo com as brigas e manias um do outro. Eu sou extremamente acelerada, enquanto ele é calmaria, e mesmo assim encontramos uma forma de fazê-lo acontecer, aprendemos juntos, compartilhamos nossas histórias, encontramos motivos bobos para rir e até nos demos novos apelidos. Quando me deito na cama de casal, ao lado dele, me lembro que minha mãe pediu que ele cuidasse de mim e ele respondeu que cuidaria, assim como eu cuidaria dele. Seguimos nos cuidando, nos amando (e passando roupa, afinal hoje é quinta-feira).

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Perdi

Avenida Radial Leste (5)
Hoje eu perdi. Alguém que esteve presente nos últimos seis anos. No começo não nos dávamos bem. Eu não gostava muito dele, tinha medo de sua forma estranha e imponente. Tentei até ignorar sua existência, mas alguém sempre fazia o favor de me lembrar de sua presença, e eu sentia um arrepio ao ouvir seus roncos, era assustador vê-lo acordado e pensar que eu deveria fazer algo a respeito. Chegava a me envergonhar de dizer seu nome em voz alta. O passar do tempo só fazia aumentar minha vergonha e a sensação de incapacidade de lidar com algo que era meu, já que me fora dado. E, mesmo que ninguém me dissesse, eu sempre soube da ingratidão dos meus atos.

Aos poucos fui perdendo o medo, me desafiei e nos desafiei a andarmos juntos. Fui aprendendo a apreciar sua companhia. Comecei a sentir um frio gostoso na barriga ao me aproximar dele, pois agora era eu quem estava no controle. Depois de algum tempo passei a apreciar as vantagens de tê-lo: a agilidade, o espaço disponível. Me tornei mais atirada e independente, exatamente como minha mãe previra e falou inúmeras vezes. E hoje, que o sinto como meu, perdi.

Veja bem, ele não me foi tirado, pelo contrário, fui eu quem recuei e me dispus a abrir mão de toda sua praticidade e conforto. Mas, prometermos que é provisório não torna o fato mais fácil de aceitar. Por algum tempo não o terei mais a minha disposição, ele não será meu companheiro e não me ajudará nas tarefas mais simples do cotidiano, como ir ao trabalho ou ao mercado. Tampouco fará parte de meus desafios, acompanhando-me a novos destinos, por trajetos desconhecidos.

Abrir mão de algo que por tanto tempo não me foi necessário me pareceu a atitude mais justa e sensata a ser feita. Crescer não é só aprender a dirigir, é saber a hora de frear também. Hoje, tiro os pés do acelerador e entrego minhas chaves. Não serei mais a prioridade quando ambas precisarmos sair, mas sei que isso não me impede de dar uma voltinha com ele de vez em quando. E, por mais que ele volte, nós já não seremos os mesmos, agora que alguns quilômetros rodados nos afastam. Quem diria, às vezes o caminho nos faz sofrer.