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Primeira Vez

Eu já havia desmarcado essa consulta pelo menos três vezes. Algo sempre acontecia no dia e, sabe como é, as urgências atropelam os planos e somos obrigados a atendê-las.

Estava a ponto de procurar outra profissional, com vergonha de reagendar mais uma vez. Prometi a mim mesma que essa seria minha última tentativa. E parece que o dia estava disposto a colaborar comigo, já que o trabalho foi tranquilo e, sem nenhuma pendência no caminho, consegui comparecer à consulta.

Cheguei no endereço indicado pelo GPS, uma estreita porta de ferro em meio a duas lojas, bem próximo à praça, no coração do bairro. Olhei para os lados, antes de tocar o interfone. “Atende logo”, pensei, sem querer ficar exposta ali, no meio da calçada.

Ouvi o som da trava metálica se abrindo em resposta e só então localizei a pequena câmera no centro do interfone. A recepcionista deve ter me visto chegando. Ajeitei o cabelo com as mãos e respirei fundo antes de dar o primeiro passo. Estufei levemente o peito, adotando uma postura confiante e comecei a subir os degraus até a porta de entrada.

Havia uma pequena placa de vidro fixada na porta de madeira, com o nome da profissional e seu número de registro. Estava aberta, então entrei sem me anunciar. Ao contrário do que imaginava, encontrei a sala de espera vazia, sem uma recepcionista ou outros clientes. Só havia o barulho da televisão ligada ao fundo.

Localizei uma porta no canto esquerdo, ao lado de um filtro de água e supus ser o banheiro. Me encaminhei até ela e bati, sem resposta, arrisquei girar a maçaneta. Usei o banheiro, lavei as mãos e joguei um pouco de água fria no rosto.

Agora que estava aqui, o nervosismo começou a bater.

Nunca me imaginei sendo o tipo de pessoa que vai para a terapia. Nunca precisei de ajuda para resolver meus problemas. Ao contrário, sempre estive disponível para ajudar a qualquer um que precisasse. Até que descobri que era justamente esse o meu mal.

Voltei para a sala de espera e olhei as horas em meu celular, tinha alguns minutos até meu horário e, pela ausência de outras pessoas, supus que havia alguém em atendimento. Tentei prestar atenção na televisão, folheei uma revista que estava em uma das cadeiras e olhei cada uma das notificações em meu celular. Nada conseguia me distrair

E nada, absolutamente nada, parecia ser capaz de fazer o tempo passar. Contei as placas de piso no chão e, por fim, me entretive encarando uma pequena mancha que havia na parede, do outro lado da sala.

A sessão anterior atrasou. Deu meu horário e nada da porta do consultório abrir. Enquanto isso, comecei a elaborar um roteiro em minha cabeça. Eu não fazia ideia do que a psicóloga poderia perguntar, então comecei a pensar sobre como me apresentar.

Comecei a sentir um suor frio escorrendo por dentro de minha camisa social. Fui destrinchando minha história ali, em minha mente, sentada naquela cadeira dura com o som da vinheta do noticiário ao fundo. O nervosismo foi aumentando, eu me sentia nua, de tão exposta, sendo que eu ainda nem havia começado a fazer aquilo de verdade.

Salas de espera não deveriam existir, são um verdadeiro purgatório.

Escutei a trava se abrindo novamente lá embaixo e, em seguida, o som da maçaneta do consultório girando. Duas vozes no corredor, provavelmente a psicóloga e o paciente anterior, o que atrasou e invadiu um pedaço do meu horário.

Antes que pudesse resistir, agarrei minha bolsa, que descansava na cadeira ao meu lado, e saí em disparada pela escada, aproveitando que a porta estava aberta.

Hoje não deu, semana que vem eu tento novamente.

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Livro físico ou e-book: afinal, qual é a melhor opção?

Você já deve ter se perguntado – e talvez pesquisado – sobre qual é a melhor alternativa para a leitura: o bom e velho livro físico, ou o moderno e robusto leitor digital?

Eu começo este texto confessando que minha preferência ainda são os livros físicos. Como boa colecionadora, tenho uma estante repleta das mais diversas obras e gêneros literários. Porém, nos últimos anos a praticidade tem falado mais alto.

Desde que a Amazon, gigante na comercialização de livros, lançou seu próprio aparelho leitor de livros digitais, o Kindle, a disputa tem sido acirrada. Parece um sonho poder carregar milhares de exemplares em um aparelhinho que cabe na palma da mão, e o Kindle veio para revolucionar os hábitos de consumo e leitura de diversas pessoas.

Alguns leitores se posicionam como amantes fiéis do livro impresso, enquanto outros dizem que já não vivem mais sem seus dispositivos Kindle. Eu, como já disse, paguei a língua e acabei experimentando a leitura no formato digital. Apesar do meu amor pelos livros impressos, no ano passado, pela primeira vez, li mais obras no formato digital.

Como estou sempre postando sobre livros e comentando minhas leituras mais recentes, alguns amigos e pessoas da minha rede começaram a me ver como referência quando o assunto é leitura. Então, depois de notar que tantas pessoas tinham as mesmas dúvidas, resolvi escrever este artigo para expor minha visão sobre os prós e contras de cada um dos formatos.

Páginas de um livro.

Começando pelo Livro Físico, separei suas principais vantagens e desvantagens. As vantagens são:

  1. Relação Sensorial: o livro é um objeto, e tê-lo em mãos significa poder manuseá-lo e estabelecer uma relação com os diferentes sentidos. Você pode, por exemplo, apreciar a textura da capa e do papel, sentir o cheiro das páginas – mais alguém adora um cheirinho de livro novo por aí?;
  2. Explorar o livro: algo que eu gosto muito e sinto muita falta no leitor digital é poder explorar o livro antes de começar a leitura, além de dar uma espiadinha em outras páginas ocasionalmente. Na versão física, é possível ler a contra capa e orelhas do livro, ver quantas páginas o volume tem ou mesmo quanto falta para acabar um capítulo;
  3. Colecionar: o livro físico te permite criar o próprio acervo, algumas pessoas veem os livros como um item de coleção, ou mesmo de decoração. Além disso, existem algumas edições comemorativas e de luxo que são muito apreciadas pelos colecionadores;
  4. Não tem bateria: simples assim, você nunca vai precisar se preocupar em encontrar uma tomada ou interromper sua leitura por falta de bateria;
  5. Emprestar: a versão impressa de um livro permite rotatividade. Você pode emprestar, dar de presente, alugar em uma biblioteca, enfim, existem diferentes maneiras de compartilhar um livro.

Já as principais desvantagens são:

  1. Peso: a depender do número de páginas e do material que é feito, um livro pode ser pesado e/ou grande. Isso pode dificultar carregá-lo em sua bolsa ou mochila e, em alguns casos, os volumes podem ser tão grandes que chegam a ser incômodos de segurar para ler;
  2. Volume: nem sempre temos espaço para a estante com a qual sonhamos. Quem lê bastante pode ter problemas para conseguir armazenar todos os seus livros. E, por experiência própria, sei que eles dão um trabalhão em casos de mudança de casa, já que são pesados e ocupam muito espaço;
  3. Impacto ambiental: por mais que amemos os livros impressos, o fato é que se utiliza muito papel em sua produção, além de todo o processo de produção e logística que consome outros materiais e recursos;
  4. Preço: em geral, o livro físico é mais caro do que o digital. Claro, seu custo de produção e distribuição é maior, e isso acaba se refletindo no valor final da obra.

            A leitura do livro impresso está muito relacionada com sua experiência sensorial e física e, como vimos, isso possui aspectos positivos e negativos. Já o e-book proporciona um outro tipo de experiência, mesmo que você leia a mesma obra.

Leitor digital Kindle, da Amazon.

A seguir, listei as principais vantagens e diferenciais de ler usando um e-reader como o Kindle, da Amazon:

  1. Economia de Espaço: o Kindle, por exemplo, possui uma capacidade até de armazenamento de 8GB, o que equivale a milhares de livros digitais, e é bem provável que você se veja sem espaço. Assim, você agrupa muitos títulos em um único e compacto aparelho.
  2. Peso: o dispositivo e-reader é muito leve, pesando entre 170 e 220 gramas, por isso, é muito mais prático de transportar do que um livro físico, tornando a leitura mais confortável;
  3. Ajustes: o dispositivo permite que você ajuste o brilho da tela e tamanho da fonte, de forma que a leitura fique mais confortável. O Kindle possui oito opções de tamanho de letra, três tipos de fontes diferentes e adapta também o espaçamento entre as linhas. Assim, é possível escolher a configuração que mais lhe agrade na hora da leitura;
  4. Luz: para ler um e-book, você não precisa estar num ambiente iluminado, já que a luz vem do próprio dispositivo, como é o caso do modelo Kindle Paperwhite. A tela é opaca, então não cansa a vista, como um computador ou a tela do celular – ainda assim, não sou fã de ler no escuro;
  5. Preço: cópias digitais são mais baratas para serem produzidas e não precisam de transporte, exportação ou qualquer gasto adicional. Por esse motivo, os livros para Kindle são consideravelmente mais baratos, sendo possível encontrar mesmo muitos livros gratuitos;
  6. Concentração: o Kindle é diferente de outros aparelhos eletrônicos, como o celular e o computador. Sua interface é simples, feita especialmente para a leitura e não possui acesso a redes sociais ou notificações. É claro que você pode ler no seu smartphone, difícil é se concentrar;
  7. Rapidez: assim que você efetua o pagamento, o livro já está disponível em sua conta. Não há a necessidade de esperar a encomenda chegar e, melhor ainda, não há custos de frete;
  8. Variedade: devido ao baixo custo e a capacidade de armazenamento, quem se adapta ao e-reader acaba podendo comprar e consumir uma maior variedade de livros, uma vez em que não precisa se preocupar com o espaço que os volumes ocupariam em sua estante;
  9. Interatividade: apesar de não poder folhear o livro, lendo um e-book você tem recursos como o tempo estimado para a leitura (do livro e do capítulo), além da porcentagem já lida. Além disso, pode grifar e adicionar anotações ao seu livro sem o danificar. O Kindle memoriza automaticamente a última página lida, então não é preciso se preocupar em “marcar a página”.
  10. Conforto: no geral, o e-reader proporciona uma leitura bastante confortável, já que você pode ajustar a luz, brilho e tamanho da fonte, além de ser bem levinho.

Apesar de ser muito bom, o leitor digital também traz algumas desvantagens. As principais são:

  1. Não tem como colecionar: é verdade que você tem um acervo digital em sua conta da Amazon, mas como todos os livros se concentram no mesmo aparelho, você não pode colecionar e exibir suas obras, da maneira como faz em uma estante;
  2. Conectividade: requer conexão Wi-Fi para fazer o download dos livros. Você não precisa estar conectado o tempo todo, mas não se esqueça de baixar o livro que deseja ler antes de sair de casa;
  3. Bateria: como se trata de um dispositivo eletrônico, é preciso recarregar a bateria. Os e-readers usualmente tem uma bateria que dura vários dias em uso constante, mas, ainda assim, o objeto precisa ser alimentado de tempos em e tempos;
  4. Ausência de cores: o Kindle não possui cores, então a capa do livro, bem como qualquer imagem que possua em seu interior, são exibidas em tons de preto e branco, isso pode prejudicar a experiência da leitura, a depender do livro;
  5. Não tem como emprestar: a menos que você empreste o aparelho, não é fácil emprestar títulos virtuais como fazemos com livros impressos;
  6. Restrição de opções: apesar da variedade de títulos disponíveis na loja kindle, alguns livros ainda são comercializados somente no meio físico, especialmente obras ou edições mais antigas, ou seja, ter um e-reader não substitui completamente o consumo de livros;
  7. Custo do aparelho: apesar de saber que os e-books são mais baratos que os livros físicos, você precisa considerar o investimento inicial que é a compra do aparelho Kindle.

Também acho importante esclarecer que não é essencial comprar um Kindle para ler e-books. Você pode lê-los em seu celular, computador ou tablet, basta baixar o aplicativo do Kindle. Eu, inclusive, comecei assim, para testar a leitura digital antes de investir no aparelho. O diferencial do aparelho é a leveza e facilidade para a leitura, ele é muito mais confortável do que as outras telas.

A conclusão de tudo isso é que ambos os formatos são interessantes. Apesar do livro ser o mesmo, a experiência de leitura muda de acordo com o meio escolhido. Não tenho a pretensão de te indicar um melhor formato ou o ideal. Tudo depende de seu uso e intenções.

Para finalizar, vou contar um pouquinho da minha trajetória. Tenho quatro estantes abarrotadas de livros, e assim cheguei num impasse: ou paro de comprar livros ou preciso me mudar. Como paulistana, sei que me mudar para um espaço maior não é uma opção; e como leitora, jamais pararia de comprar livros! Então, a solução que encontrei foi investir no dispositivo, comprei o Kindle Paperwhite 8ª geração.

Vi no e-reader a chance de economizar dinheiro e espaço. Comecei comprando livros teóricos na versão digital, mas logo parti para a literatura. Hoje, compro a versão física apenas de livros que gosto ou quero muito ter em minha coleção. Penso muito bem antes de ocupar mais um pedacinho da estante, já que o espaço está acabando. Comigo tem funcionado, aprendi a transitar entre as leituras, às vezes revezo para não me cansar do formato.

Antes de decidir se você investe na compra do Kindle ou não, sugiro que você pense em seus gostos e necessidades, assim saberá se ele se adequa a você ou não. Mas, em geral, a melhor alternativa é variar entre os formatos. O mais importante continua sendo apreciar boas leituras.

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Coisa boa do dia

Não sei se também acontece com você, mas eu fico muito introspectiva na virada do ano. Como contei recentemente, todos os anos, ao longo do mês de dezembro, faço uma retrospectiva dos acontecimentos que mais marcaram o meu ano: podem ser coisas positivas ou negativas; grandes ou pequenas. A ideia é ter uma oportunidade de olhar para o ano como um todo, ou como um ciclo, como costumamos chamar.

Isso me ajuda a perceber o quanto mudei e como venho lidando com esses eventos. Sinto que começo o novo ano mais consciente do meu momento: atenta a como estão as diversas áreas da minha vida, com o que estou satisfeita e quais devem ser os pontos de melhoria para o novo ciclo que se inicia.            

Outra coisa que sempre me ajudou muito é tentar ver o lado positivo das coisas. Eu, particularmente, encontrei um pequeno ritual que tem funcionado pelos últimos oito anos (este será o nono 😊). É o que vou te ensinar a fazer hoje, pois é uma boa forma de começar o ano e, assim, você pode se exercitar e levar essa postura com você ao longo dos próximos meses – ou anos, espero.

Você já parou para notar que, quando nos tornamos mais conscientes sobre alguma coisa, começamos a prestar mais atenção e isso se torna mais recorrente? Parece que quando nos concentramos em um tema, ele começa a aparecer cada vez mais em nossas vidas.

A neurociência chama esse fenômeno de S.A.R., ou Sistema Ativador Reticular. Esse sistema fica em nosso cérebro, e é o grande responsável por filtrar as informações que estamos recebendo o tempo todo. Ele funciona como um filtro, levando para a consciência tudo aquilo que for relevante. É assim que conseguimos nos focar nas coisas que são realmente importantes.

Algumas pessoas chamam isso de mentalização ou de energia. Seja qual for o nome que você quiser dar, a ideia é a seguinte: você deve se focar naquilo que acontece de bom no seu dia.

Simples assim. Ao invés de nos focarmos nos problemas, como geralmente fazemos, podemos treinar nosso olhar para perceber as coisas boas que acontecem em nossa rotina. Repare que eu nem estou falando em grandes acontecimentos, me refiro aos detalhes mesmo: qualquer coisa que melhore o seu dia ou te deixe com a sensação de que aquele dia valeu a pena.

Com esse novo foco, você aprenderá a praticar a gratidão, ou seja, será grato às pequenas coisas que tornam a sua rotina mais agradável. É comprovado que pessoas gratas são mais felizes e tendem a ser mais saudáveis, uma vez que o sentimento de gratidão é um ótimo combatente ao estresse e sintomas dele derivados.

Mas, em meio à correria do dia a dia, pode ser difícil se lembrar de fazer isso, não é mesmo? Eu concordo. Por isso, criei um sistema estruturado e que funciona para mim. Eu peguei uma caixa e coloquei um bloco de papel e uma caneta dentro. Todas as noites, antes de dormir, eu anoto em uma pequena folha algo que aconteceu de bom no meu dia.

Anotar me ajuda a pensar. Paro uns minutinhos para fazer esse ritual e, assim, repasso o dia todo em minha mente e localizo as pequenas alegrias e prazeres pelos quais sou grata.

Pode ser qualquer coisa mesmo. Tem dias em que é mais fácil, ou tenho mais de uma coisa boa pela qual agradecer, como encontrar um amigo, almoçar minha comida favorita, sair com meu namorado, conhecer um lugar novo ou viajar. Mas, na maioria das vezes, é algo bastante simples e cotidiano, como: tomar um banho quente após um dia longo, deitar no sofá com a minha cachorrinha, saber que quando eu chegar em casa poderei conversar com alguém sobre o dia difícil que tive no trabalho ou ler no caminho para um compromisso.

Alguns dias são horríveis, eu sei! Mas, mesmo neles, podemos tentar. Para mim, o pior dia até hoje foi em 2014, quando perdi meu cãozinho, o Max. Naquele dia, fiquei encarando a folha em branco, com raiva. Mas então pensei em como foi bom poder me despedir dele, ainda que por alguns minutos, no hospital veterinário. Foi isso que anotei: “Pude me despedir do Max e sei que agora ele está descansando, suas dores terminaram”.

Eu continuei triste depois de anotar, e esse continua sendo um dos piores dias da minha vida até hoje, mas sou muito grata por saber que eu fiz tudo o que podia por ele.

Depois de algum tempo anotando, percebi como foi ficando mais fácil, como ao longo dia penso “isso foi bom!” ou “já sei o que anotarei hoje”. Depois de um pouco de treino, as mudanças são perceptíveis – não só na criação do hábito, mas em seu humor e emoções. Você aprende a reparar no que te faz bem e isso te permite repetir aquilo mais e mais vezes.

Esse hábito funciona também como uma espécie de reserva emocional para que, mesmo em momentos de crise, você consiga se lembrar daquilo que te ajuda a se sentir melhor.

            Resumidamente, meu lema é:

“nem todo dia é bom, mas todo dia tem algo de bom”.

Eu espero que esse exercício te ajude tanto quanto eu sinto que me ajuda, diariamente. E, por favor, me conte se você experimentar, quem sabe nossa conversa não se torna a minha coisa boa daquele dia? 😉

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Retrospectiva

Por aqui, eu já entrei em clima de final de ano!

Veja bem, não estou falando de preguiça ou cansaço; nem de happy hours ou confraternizações. É claro que tudo isso faz parte, não me leve a mal. Mas estou falando do clima de encerramento de ciclos que o fim do ano provoca em mim. Tudo, desde o último encontro com os amigos, a última confraternização com a equipe de trabalho, até a última – e dolorosa – sessão de terapia do ano.

Todos os anos, sinto que faço um “balanço geral”, lembrando de tudo o que aconteceu e marcou a trajetória daquele ano em especial. Até que certa vez resolvi formalizar: fiz uma lista com 31 eventos que aconteceram no decorrer do ano e escrevi um parágrafo sobre cada um deles, do dia 01 a 31 de dezembro. A experiência foi tão marcante que resolvi repetir, e é o que venho fazendo desde então.

Os itens variam tanto quanto os acontecimentos do ano, e abrangem todas as áreas que tiveram importância nos últimos meses: vida afetiva, trabalho, saúde, família, amizades ou qualquer outra.

Fazer esta lista me ajuda a visualizar melhor minhas realizações, além de contribuir muito com minha memória temporal. Anotando, fica mais fácil retornar àquilo no futuro. É curioso perceber como algumas questões evoluem, enquanto outras são temas recorrentes.

Escrever sobre cada um destes eventos é uma chance de me reencontrar, olhar para o passado – recente ou não – com um novo olhar, e assim posso ressignificar como os acontecimentos me tocaram.

A escrita sempre teve um quê de ritual em minha vida. Me ajuda a pensar melhor, a enxergar fatos, sentimentos e, consequentemente, a tomar decisões mais assertivas. Escrever me possibilita guardar minhas memórias no papel, assim elas não precisam ocupar tanto espaço entre meus pensamentos, o que me ajuda a controlar a ansiedade.

Dá realmente a sensação de encerrar um ciclo e me preparar para o começo de outro. Assim, durante todo o mês de dezembro, faço um balanço da minha vida e me preparo para o que está por vir.

No fim, ao narrar minhas histórias, falo sobre mim. Consigo perceber a ligação entre alguns pontos, como uma decisão acabou por influenciar outras, como me comportei de maneira semelhante em diferentes áreas ou em relação a diferentes pessoas.

Isso também me ajuda a começar a pensar em metas para o próximo ano, que podem ser uma continuidade dos meus feitos ou algo completamente novo. O fato é que esse olhar para minha história me ajuda a pensar em quais os próximos passos que desejo dar.

E não pense que é difícil encontrar trinta e um acontecimentos não, viu?

A ideia é justamente escolher uma grande variedade de temas, para que você perceba com mais clareza todas as dimensões de sua vida. Pode ser desde uma mudança de emprego, até uma nova amizade, uma viagem, uma data ou evento em particular, um hobbie recém descoberto ou aquela receita que você finalmente experimentou fazer.

O principal objetivo é que você aprenda a perceber as pequenas coisas que compõe sua rotina e assim consiga visualizar como seu ano vai se desenrolando. E, não deixa de ser também um exercício para praticar a gratidão, enxergando os pequenos detalhes e as coisas boas que nos acontecem e que devemos aprender a valorizar.

Espero que você goste da ideia e que essa sugestão te inspire a criar sua própria versão de retrospectiva pessoal.

Não há regras, apenas a sugestão de que você pare um pouco e preste atenção em sua própria história.

Este ano, escrevo minha retrospectiva pela décima vez. Isso significa que tenho um caderno repleto com trechos de minha própria história (sou das antigas, adoro escrever no papel – mas faça como você preferir). Às vezes releio um trechinho ou outro e me pergunto se foi a mesma pessoa que escreveu todas aquelas palavras. Meu traço mudou, meus sentimentos mudaram e minha vida… Ah! Essa definitivamente mudou.

Nos vemos no próximo ano. Um abraço 🙂

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O observatório da Praça de Alimentação

Se vamos ser honestos um com o outro, preciso fazer uma confissão: eu gosto de observar pessoas na praça de alimentação. Pronto, falei.

É como observar uma espécie em seu habitat natural e, como paulistana, eu diria que o lugar mais apropriado é o shopping.

Toda vez em que eu preciso dar uma saidinha de casa, para mudar um pouco de ambiente, pego meu caderno de rascunhos e meu laptop e vou almoçar ou tomar um café fora de casa. A vantagem de morar perto de um shopping é a diversidade de opções que existem na praça de alimentação. Então, sento-me em alguma mesa estrategicamente posicionada no canto do salão, quase escondida e esquecida por todos, mas com um ótimo ângulo para observar tudo o que acontece ao redor.

Tem de tudo um pouco: casais que criam uma brecha no dia só para se encontrar e, momentaneamente esquecer do mundo nos braços um do outro; pequenos grupos de estudantes uniformizados que saem juntos após a aula; mães que não quiseram ou não tiveram tempo de fazer o almoço; pequenas reuniões de negócios; novos matchs do Tinder se formando bem ali – em local público; almas solitárias que encontram companhia em seus livros logo após a refeição; pessoas que prestam mais atenção no celular do que nas garfadas que levam até a boca; funcionários de diferentes restaurantes aproveitando o horário de intervalo para interagirem entre si.

Tem atendente do McDonald’s conversando com chapeiro do Burger King, cozinheiro de restaurante por quilo almoçando comida mexicana. A mistura de culturas e de mundos que acontece dentro de uma praça de alimentação é inesgotável.

A comida tem um valor social muito grande, dizem que ela nos une, não é mesmo? O fato é que a maioria dos encontros, seja pessoal ou de negócios, acaba por envolver sentar-se em volta de uma mesa. Pelo menos um cafezinho pode ter certeza de que vai rolar.

É difícil me concentrar em qualquer atividade, mas volto para casa com o bolso cheio de referências para as próximas histórias, uma verdadeira aula prática de construção de personagens. Observo gestos, tons de voz, encontros e desencontros, o que as pessoas fazem quando estão sozinhas e como reagem quando seus encontros chegam. É praticamente um estudo antropológico.

Gosto de observar os detalhes que acontecem à minha volta e, eventualmente, dou uma olhadinha ao redor na procura de um estranho me observando. Tenho certeza de que alguém já escreveu sobre a garota solitária que passa a tarde dividindo a mesa – quase sempre a mesma mesa – com um computador e uma xícara de café e, ao invés de trabalhar, observa todos à sua volta. Fazendo anotações esporádicas em seu caderno. O que será que ela tanto anota?

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Guia do Home Office: 10 dicas para manter a produtividade

O home office é uma modalidade de trabalho que permite que os funcionários de uma empresa se conectem remotamente. Não existe fronteira geográfica que limite o trabalho, basta ter conexão com a internet e usar algumas ferramentas que facilitem a comunicação e garantam a segurança da informação.

Com a tecnologia que temos à disposição hoje, essa modalidade é possível em diversas empresas e segmentos. Porém ainda existem uma série de desafios a serem superados, além da necessidade de uma mudança na cultura das empresas que decidem aderir ao modelo, uma vez que é preciso gerar transformações comportamentais nas equipes.

Trabalhando à distância, precisamos encontrar formas de manter a comunicação entre os membros da equipe, minimizando ruídos e interferências que podem surgir nas relações. A empresa deve ainda se preocupar com as condições físicas e emocionais de seus funcionários, para que as pessoas não se sintam desmotivadas pela falta de contato e proximidade. Além disso, é preciso encontrar maneiras de incluir momentos de descontração para que os laços se estreitem, favorecendo o entrosamento da equipe.

A pandemia do Coronavírus nos obrigou a ficar em casa. Muitas empresas que ainda não haviam experimentado o home office, precisaram se adaptar rapidamente, para manter as pessoas em segurança e minimizar os riscos de contágio. Isso fez com que diversas pessoas improvisassem um cantinho de suas residências para poder trabalhar.

Trabalhar em casa, à primeira vista, pode parecer extremamente atrativo, pois oferece maior privacidade, independência e autonomia, flexibilizando desde os horários até as roupas que vestimos. Sem perder tempo no trânsito e com a oportunidade de comer comida caseira, ganha-se também em qualidade de vida, com notável redução de estresse.

Porém, logo descobrimos que é difícil não misturar o trabalho e a vida pessoal quando todas as atividades são exercidas dentro do mesmo ambiente. Corre-se o risco de trabalhar em excesso, ao mesmo tempo que a produtividade pode cair se não houver um bom gerenciamento de tarefas.

Já vivemos essa realidade há mais de um ano e, para algumas empresas, essa será a modalidade definitiva. Muitas optaram por remanejar seus escritórios e manter parte, ou mesmo toda a equipe, em trabalho remoto.

É preciso considerar que o que vivemos hoje é um momento de isolamento social, ocasionado por uma crise sanitária. Além de trabalhar dentro de casa, todas as atividades estão restritas, bem como o lazer e o contato social com nossos pares. Isso pode provocar efeitos emocionais negativos, como tristeza, melancolia, angústia e sensação de isolamento. É fundamental ter uma rede de apoio — ainda que online — e contar com o suporte das empresas para cuidar da saúde mental, caso necessite de ajuda profissional. A expectativa é que, no futuro, mesmo aqueles que permanecerem trabalhando remotamente, poderão encontrar os colegas para reuniões ou eventos presenciais, fortalecendo os contatos, além da retomada das atividades de lazer.

Para trabalhar em casa, é preciso estabelecer horários, se concentrar e não cair em armadilhas como distrações e procrastinação. Em algumas situações, trabalhar fora do escritório pode ser mais complicado do que parece. É preciso muito foco e algumas mudanças de comportamentos e hábitos para conseguir se adaptar e estabelecer uma rotina mais funcional e saudável.

Foi pensando em como manter a produtividade no trabalho mesmo em um momento tão turbulento como esse, que separei essas dicas para te ajudar na organização do ambiente e rotina de trabalho. Confira!

  1. Organize seu ambiente de trabalho: sempre que possível, escolha um ambiente ou cômodo da casa só para você. Monte sua estação de trabalho com computador, bloco de notas e todas as ferramentas e dispositivos que forem necessários para o desempenho de suas tarefas. Pense também no conforto, como a luz ideal e uma cadeira ergonômica. Essa separação de ambientes ajuda a estimular a criatividade e produtividade, evitando distrações e demarcando os momentos de trabalho, assim, ao final do dia, você deixa a mesa de trabalho e pode aproveitar os outros ambientes da casa com sua família. Parece algo simples, mas isso ajuda nosso cérebro a entender quando estamos em um ambiente de trabalho e precisamos de foco e concentração para realizar as atividades diárias;
  2. Faça combinados com a família: um dos maiores desafios de trabalhar em casa é conseguir estabelecer limites para as pessoas com quem você mora. Por isso, é importante fazer combinados quanto ao horário de trabalho e os barulhos na casa. Se todos cooperarem, é possível adaptar a rotina da família sem que ninguém seja prejudicado. Também é fundamental que entendam e respeitem que não é porque você está em casa que está livre para ajudar em outras tarefas. É claro que para quem tem filhos em casa, a dificuldade na adaptação pode ser maior;
  3. Organize sua rotina: sem a rotina habitual como o horário para sair de casa e o trajeto até o trabalho, é necessário estabelecer novos horários e definir uma rotina. Tenha um horário para acordar, tomar café da manhã e estabeleça um horário de trabalho. Lembre-se de respeitar o horário de almoço e fazer algumas pausas ao longo do dia. Nosso organismo precisa de rotina para ser mais produtivo;
  4. Planeje suas tarefas: não dispense um bom planejamento semanal. Faça combinados com sua equipe e estabeleça, se possível, metas pessoais. Isso te ajudará a não perder o foco, mantendo a motivação e o ritmo de trabalho. Crie um cronograma de atividades, e use recursos como gerenciadores de tarefas, agendas e listas;
  5. Elimine distrações: as distrações podem ser maiores e mais frequentes em casa do que no escritório, já que os ambientes se misturam. Evite trabalhar no sofá, na cama ou com a televisão ligada. Faça uso moderado de redes sociais e desative as notificações para se focar. Tenha períodos de atenção concentrada, deixe as distrações para suas pausas;
  6. Se arrume para trabalhar: parte importante de manter uma rotina diz respeito a tirar o pijama e se vestir para trabalhar. É claro que, se seu trabalho permitir, poderá optar por roupas mais confortáveis, mas tirar a roupa de dormir envia para o cérebro a mensagem de que o dia começou e está na hora de ser ativo. Além disso, é importante estar pronto para uma reunião online ou outro imprevisto que gere a necessidade de ligar a câmera;
  7. Faça pausas: tão importante quanto trabalhar com concentração, é fazer pausas ao longo do dia. Levante, vá ao banheiro e beba água, pode tirar uns minutinhos para conferir as notificações do celular. As pausas, além de necessárias para a saúde, têm um efeito revigorante no trabalho;
  8. Respeite o horário de almoço: assim como você se levantava e ia até o refeitório ou um restaurante, é importante fazer uma pausa prolongada para o almoço. Muitas pessoas têm que cozinhar o próprio almoço, cuidar dos filhos, lavar a louça. Esse é um momento que você volta a “se sentir em casa”, por isso é importante que dedique esse tempo a si e a sua família. Depois, volte para o cômodo onde trabalha e retome suas atividades;
  9. Estabeleça um horário limite: saiba a hora de parar, caso contrário, você pode cair na cilada de trabalhar o dia inteiro, já que não há trânsito na ida ou na volta, por exemplo. Respeite o momento que estipulou para desligar a tela de seu computador e sair de sua mesa, assim como encerraria o expediente no escritório para ir embora;
  10. Mantenha uma boa comunicação com a equipe: padronize a comunicação entre seus pares, escolha um canal para trocar informações e se comunicar. No trabalho remoto, é fundamental que as rotinas sejam documentadas e que os colegas possam acompanhar o andamento das atividades. Faça vídeo-chamadas e reuniões periódicas para manter a comunicação e um bom clima entre o grupo, isso colabora para que ninguém se sinta isolado, além de diminuir possíveis ruídos de uma comunicação assíncrona.

A verdade é que nós não temos a capacidade de ser multitarefas, precisamos aprender a gerenciar o tempo para ter uma rotina produtiva e adaptada ao ambiente em que estivermos. Trabalhar remotamente exige um esforço inicial de adaptação que envolve não apenas a sua rotina, mas a de todos que vivem com você.

Fazendo combinados, estabelecendo horários e mantendo uma boa comunicação com a empresa, é possível usufruir dos benefícios dessa modalidade. Inclua atividades de lazer e cuide de sua saúde, lembre-se de que o trabalho não é tudo!

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Poção do Amor

Eu pesquisei no Google, e agora o histórico de navegação me assombra. Mas, conhecimento adquirido é conhecimento compartilhado, então vamos lá:

“Poção do amor é uma forma mítica de beberagem, feita por feiticeiros, que é capaz de provocar em alguém os sentimentos amorosos em relação a outrem. É uma forma de feitiço de amor.”

Os sites vão ficando mais obscuros com o rolar da página. Descobri que, para a bruxaria, trata-se de um afrodisíaco que tem o poder de fazer uma pessoa se apaixonar pela outra. Existem diversas e inusitadas receitas disponíveis ao alcance de um clique. Mas cuidado, algumas advertem que a paixão pode acontecer pela primeira pessoa com quem fizer contato visual. Imagina o estrago?!

Pois eu não caio nessa. Se apaixonar é fácil, é leve, dá um friozinho gostoso na barriga. Não preciso de uma poção para fazer alguém se apaixonar por mim, isso eu sei fazer. Teve uma vez que deixei um cara caidinho por mim em uma festa, tenho certeza de que foi meu vestido decotado e o copo de bebida em minhas mãos, que chacoalhava enquanto eu dançava e ria com meus amigos, que o conquistou. Difícil foi fazer o encanto sobreviver a um encontro no final de semana seguinte, sóbrios, com iluminação neutra e som ambiente.

Teve também uma vez que fiz uma garota se apaixonar por mim, estávamos ambas sozinhas em uma manifestação, até que começamos a conversar e a caminhar lado a lado. Sabe como é, é bom estar acompanhado na multidão. Nosso papo tinha um cheiro afrodisíaco, também senti. Dividimos a garrafa de água que eu tinha na bolsa e paramos em uma lanchonete para comer um salgado, antes de nos separarmos na plataforma do metrô. Até chegar em casa, já estávamos mais íntimas, conversando por mensagem. No dia seguinte, ela tomou coragem e me chamou para sair. Eu é que não encarei, apesar da vontade, nunca saí com outra garota.

Teve ainda meu mais antigo caso de sucesso – ou fracasso – no quesito amor. Meu melhor amigo de faculdade, que passou os melhores anos de sua vida apaixonado por mim, logo eu, que nem o notava. Mantive o pobre coitado na friendzone por muitos anos. Quando percebi o que tinha feito, já era tarde. Sabe, com o tempo a gente descobre que existe uma linha tênue entre o amor e o ódio. Senti na pele como um sentimento consegue se transformar no outro, bastou uma faísca.

É por isso que eu digo, se apaixonar é moleza. Difícil mesmo é ter paciência e persistência. Porque o relacionamento leva tempo para ser construído, moldado de um jeitinho que fique bom para os dois.

Eu preciso de uma poção que me ajude a manter relacionamentos, uma que, magicamente, me revele como responder mensagens com pedidos de ajuda; que não me faça sair correndo quando sinto que já estamos muito íntimos; que feche a minha boca quando eu estiver prestes a dizer aquilo que estragará tudo.

Mas parece que para isso a bruxaria ainda não inventou uma fórmula com ervas e especiarias, ou então, o Google é que não sabe como me mostrar a resposta.

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Primeiro Dia de Aula

Talvez eu esteja começando a entender minha mãe, mais de vinte anos depois dela sentir o que sinto hoje: a agonia frente ao primeiro dia de aula do filho.

Acordei cedo, preparei a lancheirinha, revisei tudo uma porção de vezes só para garantir que não esqueceria nada. Já pensou se a minha menina passa vergonha no primeiro dia?

Lotei a caixa de mensagens da responsável pela creche, para confirmar os horários de entrada e saída. Não quero que minha filha cresça com o trauma de ser a última a ser buscada depois da aula.

Assim que tudo foi confirmado, fiz alguns combinados com a pequena. Prometi que seria divertido e que as outras crianças gostariam dela. Sim, é claro que ela poderia voltar para casa mais cedo se algo acontecesse, mamãe estaria pronta para ela, era só pedir para a tia me ligar.

Na noite anterior, fiquei mais nervosa do que ela, me revirando na cama, sem conseguir pegar no sono. Enquanto ela dormia profundamente em sua caminha, sem saber o que esperar do dia seguinte.

Finalmente o momento chegou. Saímos de casa mais cedo, já que eu não conhecia o trânsito nesse horário. Estacionei a duas quadras da creche e demorei para conseguir tirá-la do carro. Acho que o nervosismo bateu, e então suas unhas agarraram o banco traseiro.

Conversei, esperei que ela se acalmasse e a carreguei no colo até a calçada. Fomos até a porta e uma funcionaria sorridente veio em nossa direção, já com a mão estendida para pegar a lancheira de minhas mãos.

Maya balançou o rabo timidamente, ainda insegura. Quando confirmou que a mulher tentava pegar sua guia da minha mão, virou-se, pulando em mim e pedindo colo.

Voltei a lhe dizer que tudo ficaria bem, ela passaria o dia se divertindo com os outros cachorros e, de noite, eu voltaria para levá-la para nossa casa. A moça se abaixou e fez um carinho atrás de sua orelha, seu ponto fraco. Maya foi amansando, até que aceitou se afastar de mim.

Cachorrinha com mochila nas costas, pronta para o primeiro dia de aula na creche.

A funcionária, paciente, me garantiu que só o início seria difícil, mas, após algumas semanas, ela entenderia que aquela era sua nova rotina: viria brincar e sempre voltaria para casa depois.

“Posso buscá-la mais cedo, se necessário?”, perguntei.

Ela me tranquilizou, afirmando que não seria necessário. Maya ficaria bem.

Sim, mas e eu? Tive vontade de perguntar.

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Será que alguém nasce querendo ser escritor?

Quando criança, meu sonho era ser professora, assim como minha mãe.

Assim que entrei na pré-escola, meus pais penduraram uma pequena lousa no quintal. E eu passava a tarde toda lá fora, dando aula para uma fileira de bichinhos de pelúcia enquanto sujava toda minha roupa com giz.

Em seguida, comecei a desenvolver o gosto pela leitura. Os livros sempre foram bons companheiros. Primeiro herdei as antigas edições de contos de fadas que fizeram parte da infância de minha mãe, depois, chegaram os livrinhos infantis garimpados nas feirinhas da escola e, com alguma frequência, ganhava gibis da Turma da Mônica.

Uma de minhas brincadeiras favoritas era copiar as histórias dos livros em um caderno, já que eu logo terminava de ler e precisava esperar até ganhar o próximo gibi ou livro. Eu transcrevia as palavras e quase decorava uma história quando gostava dela.

Pode parecer estranho, porque era mesmo. Mas foi assim, de maneira solitária e me apoiando em outros autores, que me introduzi no mundo das palavras.

Na adolescência, comecei a me arriscar com minhas próprias ideias, escrevendo trechos de histórias sobre minha banda favorita, as famosas fanfics. Mas, sentia tanta vergonha que nunca consegui mostrar meus rascunhos para ninguém. É uma pena que eles tenham se perdido com o tempo.

Conforme fui crescendo, surgiu a curiosidade com o comportamento humano, um brilho nas aulas de filosofia. Algumas questões inquietavam minha mente adolescente e me faziam buscar respostas nos livros, foi assim, no último ano do ensino médio, que decidi ser psicóloga.

Entrei na faculdade e pensei ter encontrado meu lugar ao sol. Passei os anos seguintes  deslumbrada dentro da enorme biblioteca do campus, e se engana quem pensa que parei de estudar quando me formei. Aliás, arrisco dizer que foi só então que aprendi a estudar: sem um professor guiando meus passos, dizendo qual capítulo eu deveria ler ou o que decorar para uma prova.

Comecei a estudar filosofia e logo encontrei um grupo de estudos. As leituras coletivas me ajudaram a entender aquelas difíceis e encantadoras palavras. Os cadernos de anotações viraram meus tesouros.

Eu só não contava que a profissão fosse tão solitária. Com algumas horas vagas em meu consultório, a vontade de escrever voltou: pensamentos, frases. Foi assim que comecei a organizar meus sentimentos em um pedaço de papel.

Meu irmão foi o primeiro a dizer que um dia eu seria escritora, já que era uma ávida leitora. Eu não acreditei nele, e cheguei a rir de sua sugestão, afinal, não acreditava que eu tivesse algo de interessante a dizer.

Mas persisti, fui escrevendo a cada intervalo, dando voz à imensidão que me habitava. Ficção e realidade começaram a se misturar conforme meus pensamentos encontravam a folha em branco.

Tive a sorte de ser incentivada por amigos e familiares, que aceitaram ler meus escritos tão logo tive coragem de tirá-los da gaveta. E assim, a escrita passou a ocupar um lugar tímido em minha vida, um momento de descontração e lazer.

A verdade é que as pessoas à minha volta me reconheceram como escritora antes que eu o fizesse.

No trabalho, sempre sobrava pra mim a missão de escrever comunicados e agradecimentos, já que eu articulava tão bem as palavras. Quando precisava escrever um cartão, logo me passavam a caneta, afinal, eu era boa nisso.

O primeiro convite para publicação de um conto chegou como presente de natal atrasado, um singelo e-mail no dia vinte e seis de dezembro. Um ano depois, mais um. Mais dois anos, e eu já conto com uma pequena prateleira de participações.

Eu já deveria ter sacado à essa altura, não acha? Sinto lhe informar, caro leitor, mas demorei um pouco mais. Precisei ficar entre dois empregos, me sentindo extremamente perdida e desmotivada para olhar para os lados e perceber algo que esteve ali esse tempo todo.

Dessa vez, quando me perguntaram o que eu gostava de fazer, a resposta escapuliu: “escrever”. Foi mais forte do que eu, com gosto de sonho, mas então já era tarde. Ouvi minha própria voz ressoando por dentro e me atrevi a pensar o “e se” mais maluco da minha vida: “e se eu fosse escritora?”

Transformar esse hobby em profissão foi fácil, pois ele já estava completamente entremeado em minha vida, a rede de contatos, o blog e o portfólio feitos. A mudança de identidade simplesmente aconteceu.

Não nasci querendo ser escritora, mas foi nas palavras que descobri minha voz e tudo o que eu gostaria de dizer ao mundo.

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8 Dicas para não errar na hora de nomear um Arquivo

Você já passou pela situação de escrever um documento, salvar o arquivo e depois perdê-lo completamente em sua máquina?

Além de ser muito importante fazer backups e salvar cópias de seus arquivos como medida de segurança, é preciso nomear cada um deles de forma que seja fácil encontrá-los e acessá-los sempre que necessário.

A melhor forma de nomear seus arquivos é definir um padrão lógico que seja fácil de lembrar e ser seguido por você, ou por sua equipe, caso seja compartilhado com mais pessoas. Foi pensando nisso que preparei esse guia rápido com dicas que te ajudarão a nunca mais perder um arquivo em seu computador. Confira!

  1. Crie uma nomenclatura padrão que seja comum a todos da equipe: assim, o acesso aos arquivos fica mais fácil, ágil e democrático;
  2. Dê nomes simples: escolha nomes que digam, em poucas palavras, o tema principal do conteúdo do arquivo. Evite nomes genéricos como “relatório” ou “documento”, mas também não seja extremamente específico, para evitar visitas indesejadas em seus documentos;
  3. Evite criar códigos: criar um código para nomear seus arquivos pode parecer uma boa ideia, mas a longo prazo isso tende a atrapalhar, pois o sistema de códigos pode deixar de ser familiar para você, além de não ser compreendido por outras pessoas;
  4. Registre versões: sempre que realizar uma edição, não se esqueça de atribuir uma versão para o arquivo. Para grandes alterações, use “v.1”, por exemplo; quando fizer uma correção ou alteração simples, você pode considerar como versão “v.1.1”. Fuja de nomes como “versão final” ou “corrigido”;
  5. Atribua a data: no final do nome, coloque a data invertida (ano, mês, dia), assim, sempre saberá quando foi feita a última alteração no arquivo;
  6. Crie pastas: depois de nomear, organize seus arquivos em pastas. E lembre-se de que toda a organização deve seguir uma lógica de nomenclatura, ou seja, não adianta nomear e agrupar seus documentos para guardá-los em uma pasta chamada “nova pasta”;
  7. Não guarde arquivos desnecessários: exclua duplicatas e evite acumular arquivos desnecessários, que podem poluir e atrapalhar a visualização daquilo que realmente importa. Crie pastas e arquive aquilo que é importante, mas já não está em uso. Deixe à mão apenas o que for necessário, assim não se confundirá na hora de abrir ou enviar um documento;
  8. Mantenha sua organização: toda vez que iniciar um documento, já salve com o nome de acordo com o padrão pré-definido por você e na pasta correspondente. Evite acumular pendências desnecessariamente.

Manter os arquivos bem nomeados e agrupados é fundamental para evitar que qualquer informação se perca. Seguindo essas dicas, você não perderá mais tempo procurando ou refazendo um documento.

Se desejar, você pode criar uma planilha ou mapa mental para guardar o nome de seus arquivos e assim criar um guia de consulta rápida que ajude a lembrar sobre o que se trata cada documento e onde pode encontrá-lo. Porém, tome cuidado com informações sigilosas, lembre-se de que a segurança deve vir em primeiro lugar.

Me conta aqui nos comentários se você conhece mais alguma dica para a nomenclatura e categorização de arquivos, vou adorar saber!

Obrigada, e até a próxima 🙂