Publicado em Crônicas, Textos

Primeira Vez

Eu já havia desmarcado essa consulta pelo menos três vezes. Algo sempre acontecia no dia e, sabe como é, as urgências atropelam os planos e somos obrigados a atendê-las.

Estava a ponto de procurar outra profissional, com vergonha de reagendar mais uma vez. Prometi a mim mesma que essa seria minha última tentativa. E parece que o dia estava disposto a colaborar comigo, já que o trabalho foi tranquilo e, sem nenhuma pendência no caminho, consegui comparecer à consulta.

Cheguei no endereço indicado pelo GPS, uma estreita porta de ferro em meio a duas lojas, bem próximo à praça, no coração do bairro. Olhei para os lados, antes de tocar o interfone. “Atende logo”, pensei, sem querer ficar exposta ali, no meio da calçada.

Ouvi o som da trava metálica se abrindo em resposta e só então localizei a pequena câmera no centro do interfone. A recepcionista deve ter me visto chegando. Ajeitei o cabelo com as mãos e respirei fundo antes de dar o primeiro passo. Estufei levemente o peito, adotando uma postura confiante e comecei a subir os degraus até a porta de entrada.

Havia uma pequena placa de vidro fixada na porta de madeira, com o nome da profissional e seu número de registro. Estava aberta, então entrei sem me anunciar. Ao contrário do que imaginava, encontrei a sala de espera vazia, sem uma recepcionista ou outros clientes. Só havia o barulho da televisão ligada ao fundo.

Localizei uma porta no canto esquerdo, ao lado de um filtro de água e supus ser o banheiro. Me encaminhei até ela e bati, sem resposta, arrisquei girar a maçaneta. Usei o banheiro, lavei as mãos e joguei um pouco de água fria no rosto.

Agora que estava aqui, o nervosismo começou a bater.

Nunca me imaginei sendo o tipo de pessoa que vai para a terapia. Nunca precisei de ajuda para resolver meus problemas. Ao contrário, sempre estive disponível para ajudar a qualquer um que precisasse. Até que descobri que era justamente esse o meu mal.

Voltei para a sala de espera e olhei as horas em meu celular, tinha alguns minutos até meu horário e, pela ausência de outras pessoas, supus que havia alguém em atendimento. Tentei prestar atenção na televisão, folheei uma revista que estava em uma das cadeiras e olhei cada uma das notificações em meu celular. Nada conseguia me distrair

E nada, absolutamente nada, parecia ser capaz de fazer o tempo passar. Contei as placas de piso no chão e, por fim, me entretive encarando uma pequena mancha que havia na parede, do outro lado da sala.

A sessão anterior atrasou. Deu meu horário e nada da porta do consultório abrir. Enquanto isso, comecei a elaborar um roteiro em minha cabeça. Eu não fazia ideia do que a psicóloga poderia perguntar, então comecei a pensar sobre como me apresentar.

Comecei a sentir um suor frio escorrendo por dentro de minha camisa social. Fui destrinchando minha história ali, em minha mente, sentada naquela cadeira dura com o som da vinheta do noticiário ao fundo. O nervosismo foi aumentando, eu me sentia nua, de tão exposta, sendo que eu ainda nem havia começado a fazer aquilo de verdade.

Salas de espera não deveriam existir, são um verdadeiro purgatório.

Escutei a trava se abrindo novamente lá embaixo e, em seguida, o som da maçaneta do consultório girando. Duas vozes no corredor, provavelmente a psicóloga e o paciente anterior, o que atrasou e invadiu um pedaço do meu horário.

Antes que pudesse resistir, agarrei minha bolsa, que descansava na cadeira ao meu lado, e saí em disparada pela escada, aproveitando que a porta estava aberta.

Hoje não deu, semana que vem eu tento novamente.

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