Publicado em Crônicas, Textos

Poção do Amor

Mesa com ingredientes e poções místicas. A Poção do amor está no meio.

Eu pesquisei no Google, e agora o histórico de navegação me assombra. Mas, conhecimento adquirido é conhecimento compartilhado, então vamos lá:

“Poção do amor é uma forma mítica de beberagem, feita por feiticeiros, que é capaz de provocar em alguém os sentimentos amorosos em relação a outrem. É uma forma de feitiço de amor.”

Os sites vão ficando mais obscuros com o rolar da página. Descobri que, para a bruxaria, trata-se de um afrodisíaco que tem o poder de fazer uma pessoa se apaixonar pela outra. Existem diversas e inusitadas receitas disponíveis ao alcance de um clique. Mas cuidado, algumas advertem que a paixão pode acontecer pela primeira pessoa com quem fizer contato visual. Imagina o estrago?!

Pois eu não caio nessa. Se apaixonar é fácil, é leve, dá um friozinho gostoso na barriga. Não preciso de uma poção para fazer alguém se apaixonar por mim, isso eu sei fazer. Teve uma vez que deixei um cara caidinho por mim em uma festa, tenho certeza de que foi meu vestido decotado e o copo de bebida em minhas mãos, que chacoalhava enquanto eu dançava e ria com meus amigos, que o conquistou. Difícil foi fazer o encanto sobreviver a um encontro no final de semana seguinte, sóbrios, com iluminação neutra e som ambiente.

Teve também uma vez que fiz uma garota se apaixonar por mim, estávamos ambas sozinhas em uma manifestação, até que começamos a conversar e a caminhar lado a lado. Sabe como é, é bom estar acompanhado na multidão. Nosso papo tinha um cheiro afrodisíaco, também senti. Dividimos a garrafa de água que eu tinha na bolsa e paramos em uma lanchonete para comer um salgado, antes de nos separarmos na plataforma do metrô. Até chegar em casa, já estávamos mais íntimas, conversando por mensagem. No dia seguinte, ela tomou coragem e me chamou para sair. Eu é que não encarei, apesar da vontade, nunca saí com outra garota.

Teve ainda meu mais antigo caso de sucesso – ou fracasso – no quesito amor. Meu melhor amigo de faculdade, que passou os melhores anos de sua vida apaixonado por mim, logo eu, que nem o notava. Mantive o pobre coitado na friendzone por muitos anos. Quando percebi o que tinha feito, já era tarde. Sabe, com o tempo a gente descobre que existe uma linha tênue entre o amor e o ódio. Senti na pele como um sentimento consegue se transformar no outro, bastou uma faísca.

É por isso que eu digo, se apaixonar é moleza. Difícil mesmo é ter paciência e persistência. Porque o relacionamento leva tempo para ser construído, moldado de um jeitinho que fique bom para os dois.

Eu preciso de uma poção que me ajude a manter relacionamentos, uma que, magicamente, me revele como responder mensagens com pedidos de ajuda; que não me faça sair correndo quando sinto que já estamos muito íntimos; que feche a minha boca quando eu estiver prestes a dizer aquilo que estragará tudo.

Mas parece que para isso a bruxaria ainda não inventou uma fórmula com ervas e especiarias, ou então, o Google é que não sabe como me mostrar a resposta.

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