Publicado em Crônicas, Textos

Saindo de Casa

Sacada (5)  Sair da casa dos pais é algo com que sonhamos, fantasiamos e, às vezes, desejamos com todas as nossas forças. Mas é muito difícil tomar a decisão pra valer e, não importa o quanto queremos ou nos preparamos, é simplesmente impossível estar pronto para deixar o conforto do seu quarto.
Quando chegou a minha vez, senti como se dois desafios estivessem acontecendo simultaneamente, por um lado, deixei a casa da minha mãe, minha casa, e, por outro, me vi ganhando uma nova, minha casa. Me disseram que “ganha-se muito, mas perde-se muito”, e eu não poderia concordar mais depois de sentir na pele como é ser uma dona de casa.
Perdi a tranquilidade do meu quarto de menina, deixei metade dos bichinhos de pelúcia para trás, assim como a janta sempre pronta e quentinha e a roupa passada que aparecia em cima da cama no fim do dia. Deixei o colinho de mãe que estava sempre a postos, e até o meu cachorro. Perdi tanto! Mas também ganhei uma nova relação com a minha mãe, agora permeada por saudade, desabafos e pedidos desesperados de ajuda pelo telefone para que ela me ensine a temperar uma carne ou confirme se eu posso mesmo lavar aquela blusinha de renda na máquina.
Foi difícil dar adeus ao meu cantinho, saber que da próxima vez que eu entrar naquela casa, serei uma visita – ainda que tenha as chaves. É estranho pensar que mudanças acontecerão sem que eu presencie ou mesmo perceba, e eu já não poderei opinar ou decidir como antes, agora que virei espectadora. É, talvez precise aprender a controlar minha boca, tenho que aprender a lidar com o fato de que já não tenho mais controle sobre o que acontece por lá.
Fico pensando se minha organização no armário da cozinha será mantida… acho que não por muito tempo. É difícil encarar que escolhi deixar um lugar que me recebeu tão bem, uma casa grande e confortável, um verdadeiro porto seguro.
Por outro lado, é a primeira vez que posso tomar decisões mais livremente, repensar a ordem dos talheres na gaveta da cozinha, escolher o cardápio e me aventurar em novas receitas. Comprei plantas e estou me esforçando para mantê-las vivas e saudáveis. Descobri que as roupas não são tão fáceis como eu imaginava, pois cada peça e tecido têm suas particularidades, e as tarefas tomam muito mais tempo do que o esperado. É incrível como o tempo passa e eu quase não consigo encontrar uns minutinhos para colocar a leitura em dia. O serviço doméstico consome tempo e energia, antes eu não ficava assim tão cansada no final do dia. É, não é só a casa que muda, a gente muda.
Mas confesso que enfrentar tudo isso ao lado de outra pessoa torna tudo mais fácil. O planejamento de um casamento e o friozinho na barriga ao pensar em uma vida a dois desperta a vontade de juntos conquistarmos essa independência. É gostoso conhecer mais do outro, encontrá-lo todos os dias, preparar o café da manhã e conversar sobre as coisas pequenas do dia-a-dia. Cada um traz um pouco de suas manias e dos costumes familiares, juntos descobrimos como funciona a nossa casa, e o que nós queremos para ela. As implicâncias vêm junto, é claro, mas, pensando pelo lado positivo, a coleção de livros dele passou a ser minha também. Não me julgue, estou dividindo minha poltrona de leitura. Todo mundo tem que ceder! Foi o conselho que mais ouvi até agora: minha mãe, meus sogros, amigos, conhecidos e colegas de trabalho, todos me alertaram sobre os problemas da convivência e me disseram para não esperar um mar de rosas.
É claro que estavam todos certos, e eu já sabia disso antes mesmo de me mudar, mas só nós dois conhecemos nosso relacionamento, e sabemos que ele funciona mesmo com as brigas e manias um do outro. Eu sou extremamente acelerada, enquanto ele é calmaria, e mesmo assim encontramos uma forma de fazê-lo acontecer, aprendemos juntos, compartilhamos nossas histórias, encontramos motivos bobos para rir e até nos demos novos apelidos. Quando me deito na cama de casal, ao lado dele, me lembro que minha mãe pediu que ele cuidasse de mim e ele respondeu que cuidaria, assim como eu cuidaria dele. Seguimos nos cuidando, nos amando (e passando roupa, afinal hoje é quinta-feira).

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