Publicado em Crônicas, Textos

Eterno Rascunho

Mulher escrevendo um rascunho.

Não sei se você já reparou, mas existe algo de muito confortável em se trabalhar em um rascunho.

Quando começo a escrever um texto novo, nomeio o arquivo de “Rascunho”, seguido de seu tema principal, ou mesmo do título, se eu já tiver definido algum. Neste momento, sei que posso escrever qualquer coisa.

Posso me aventurar pelas palavras com a segurança de que a edição ainda vai chegar. Se precisar, posso apagar, reescrever e até mesmo recomeçar. E saber disso me dá uma liberdade imensa, experimento combinações e me aventuro pelas palavras.

Depois de escrever em um fluxo livre, gosto de deixar o texto e minha mente descansarem. Vou para outro trabalho e espero alguns dias passarem, e então retorno a ele com um novo olhar. Sinto que assim consigo lapidar ainda mais minhas palavras: desenvolvo melhor um pensamento, encontro erros de digitação e moldo as frases. Amarro os pensamentos de forma que o texto fique coeso e mais agradável para a leitura.

É depois disto que bate a insegurança… Quando declarar que um texto está realmente pronto? Pois sei que se eu me afastar novamente, quando retornar, terei outras alterações para fazer. Até quando vale a pena editar um rascunho? Como saberei quando declará-lo finalizado?

Vivo com o computador cheio de rascunhos e pendências, sem conseguir afirmar com certeza quando é que algo está realmente pronto. É difícil determinar o momento em que algo está concluído, que o pensamento se esgotou e eu consegui passar toda a ideia para o papel, me expressando da melhor forma que consigo – naquele momento. 

Acredito que a escrita, seja ela ficcional ou teórica, é muito influenciada pelo momento em que vivemos. Todo texto carrega um pouquinho dos nossos valores e modo de pensar, por isso, nosso estado emocional e nossa bagagem de experiências influencia as palavras que colocamos no mundo.

Sei que se eu reler um texto antigo sentirei vontade de arregaçar as mangas e começar um belo processo de edição, afinal, a pessoa que o escreveu já é diferente da que o lê hoje.

Por isso, digo que todos os textos são como eternos rascunhos, pois sempre pode-se mudar algo, e é justamente isso que torna a escrita um processo tão particular para cada autor. Então, de fato, não há muitas formas de mensurar a qualidade de um texto e decidir o momento de colocar seu ponto final.

Eu não termino um texto, apenas me canso de lhe fazer alterações.

Chega um momento em que é preciso deixá-lo partir. O texto ganha autonomia assim que o assino. Sei que ele sempre conterá minhas palavras, mas isso não quer dizer que elas ainda tenham o mesmo significado para mim e, se pudesse, sei que alteraria boa parte delas.

Caso você esteja se perguntando, esse texto foi editado algumas vezes antes da postagem e talvez seja melhor eu nunca relê-lo, pois só assim não desejarei fazer novas adições ou alterações. Dito isso, me despeço deste texto, e de você, caro leitor, com um sofrido ponto final.

Publicado em Crônicas, Textos

Será que alguém nasce querendo ser escritor?

Mesa de um escritor, com notebook, blocos de rascunho e uma xícara de café.

Quando criança, meu sonho era ser professora, assim como minha mãe.

Assim que entrei na pré-escola, meus pais penduraram uma pequena lousa no quintal. E eu passava a tarde toda lá fora, dando aula para uma fileira de bichinhos de pelúcia enquanto sujava toda minha roupa com giz.

Em seguida, comecei a desenvolver o gosto pela leitura. Os livros sempre foram bons companheiros. Primeiro herdei as antigas edições de contos de fadas que fizeram parte da infância de minha mãe, depois, chegaram os livrinhos infantis garimpados nas feirinhas da escola e, com alguma frequência, ganhava gibis da Turma da Mônica.

Uma de minhas brincadeiras favoritas era copiar as histórias dos livros em um caderno, já que eu logo terminava de ler e precisava esperar até ganhar o próximo gibi ou livro. Eu transcrevia as palavras e quase decorava uma história quando gostava dela.

Pode parecer estranho, porque era mesmo. Mas foi assim, de maneira solitária e me apoiando em outros autores, que me introduzi no mundo das palavras.

Na adolescência, comecei a me arriscar com minhas próprias ideias, escrevendo trechos de histórias sobre minha banda favorita, as famosas fanfics. Mas, sentia tanta vergonha que nunca consegui mostrar meus rascunhos para ninguém. É uma pena que eles tenham se perdido com o tempo.

Conforme fui crescendo, surgiu a curiosidade com o comportamento humano, um brilho nas aulas de filosofia. Algumas questões inquietavam minha mente adolescente e me faziam buscar respostas nos livros, foi assim, no último ano do ensino médio, que decidi ser psicóloga.

Entrei na faculdade e pensei ter encontrado meu lugar ao sol. Passei os anos seguintes  deslumbrada dentro da enorme biblioteca do campus, e se engana quem pensa que parei de estudar quando me formei. Aliás, arrisco dizer que foi só então que aprendi a estudar: sem um professor guiando meus passos, dizendo qual capítulo eu deveria ler ou o que decorar para uma prova.

Comecei a estudar filosofia e logo encontrei um grupo de estudos. As leituras coletivas me ajudaram a entender aquelas difíceis e encantadoras palavras. Os cadernos de anotações viraram meus tesouros.

Eu só não contava que a profissão fosse tão solitária. Com algumas horas vagas em meu consultório, a vontade de escrever voltou: pensamentos, frases. Foi assim que comecei a organizar meus sentimentos em um pedaço de papel.

Meu irmão foi o primeiro a dizer que um dia eu seria escritora, já que era uma ávida leitora. Eu não acreditei nele, e cheguei a rir de sua sugestão, afinal, não acreditava que eu tivesse algo de interessante a dizer.

Mas persisti, fui escrevendo a cada intervalo, dando voz à imensidão que me habitava. Ficção e realidade começaram a se misturar conforme meus pensamentos encontravam a folha em branco.

Tive a sorte de ser incentivada por amigos e familiares, que aceitaram ler meus escritos tão logo tive coragem de tirá-los da gaveta. E assim, a escrita passou a ocupar um lugar tímido em minha vida, um momento de descontração e lazer.

A verdade é que as pessoas à minha volta me reconheceram como escritora antes que eu o fizesse.

No trabalho, sempre sobrava pra mim a missão de escrever comunicados e agradecimentos, já que eu articulava tão bem as palavras. Quando precisava escrever um cartão, logo me passavam a caneta, afinal, eu era boa nisso.

O primeiro convite para publicação de um conto chegou como presente de natal atrasado, um singelo e-mail no dia vinte e seis de dezembro. Um ano depois, mais um. Mais dois anos, e eu já conto com uma pequena prateleira de participações.

Eu já deveria ter sacado à essa altura, não acha? Sinto lhe informar, caro leitor, mas demorei um pouco mais. Precisei ficar entre dois empregos, me sentindo extremamente perdida e desmotivada para olhar para os lados e perceber algo que esteve ali esse tempo todo.

Dessa vez, quando me perguntaram o que eu gostava de fazer, a resposta escapuliu: “escrever”. Foi mais forte do que eu, com gosto de sonho, mas então já era tarde. Ouvi minha própria voz ressoando por dentro e me atrevi a pensar o “e se” mais maluco da minha vida: “e se eu fosse escritora?”

Transformar esse hobby em profissão foi fácil, pois ele já estava completamente entremeado em minha vida, a rede de contatos, o blog e o portfólio feitos. A mudança de identidade simplesmente aconteceu.

Não nasci querendo ser escritora, mas foi nas palavras que descobri minha voz e tudo o que eu gostaria de dizer ao mundo.