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Amor na Quarentena

Máscaras de Tecido usadas durante a quarentena da pandemia Covid-19.

Mal posso dizer que me lembro da primeira vez que nos vimos. Estávamos no supermercado, ambos usando máscaras no rosto e com as mãos ainda úmidas do mandatório álcool em gel. Não era comum encontrar muitas pessoas fazendo compras às três da tarde, ainda assim, lá estávamos nós. Reparei nele em frente ao balcão da padaria, parado, esperando pacientemente com uma cesta em mãos. Eu, empurrando meu carrinho, parei na seção de frutas e verduras e comecei a escolher tomates, depois cenouras e, por último, maçãs. 

Estava pensando se devia pegar mais cenouras para fazer um bolo quando ele passou carregando um nas mãos. Salivei, constatando que realmente seria mais fácil comprar um bolo pronto. Mas, uma das metas que estabeleci na quarentena foi justamente a de me aprimorar na cozinha. Enquanto estava trabalhando não tinha tempo para nada e vivia dependendo de restaurantes e comida congelada, mas desde a demissão, estava usando a cozinha como forma de relaxar, uma dentre as várias tentativas de não surtar. 

Passava algumas horas diárias em frente ao computador, enviando currículos, mesmo que houvesse pouca esperança de conseguir um emprego em meio à pandemia. E, no restante do tempo, precisava me ocupar com outras coisas, certo? Voltei e enchi um saco com mais cenouras, além de escolher algumas mandioquinhas para fazer aquela receita de sopa que havia encontrado no dia anterior.

Perdi meu companheiro de vista por algum tempo e só fui reencontrá-lo no caixa, quando percebi que ele parou atrás de mim em uma fila composta por nós dois e mais uma senhora de bastante idade. Esvaziei meu carrinho, colocando tudo em cima do balcão e cumprimentei a atendente que passava os produtos em frente ao scanner, concentrada demais para me responder. Fui até a outra ponta para colocar os itens em sacolas e travei uma batalha silenciosa com o pedaço de plástico em minhas mãos. Eu tinha o hábito de molhar a pontinha do dedo com saliva para conseguir abrir a sacolinha, hábito banal antigamente, mas que seria brutalmente condenado em tempos de coronavírus. 

– Deixa que eu te ajudo – ele disse, se aproximando e pegando uma sacola de cima do balcão – Faz assim – roçou as pontas do plástico uma na outra até que se desprenderam. 

Virei, olhando-o de perto dessa vez. Tudo o que pude concluir foi que seus olhos eram bonitos. Ainda estava me habituando a ler expressões faciais apenas pelas sobrancelhas, então não consegui sequer precisar se ele sorria por baixo da máscara ou não. 

– Obrigada – respondi e voltei a me concentrar em meus produtos. 

Terminei de guardar, inseri meu cartão na maquininha e fui embora, com sacolas penduradas em ambos os braços e feliz por estar com as mãos ocupadas e não poder coçar meus olhos, que insistiam em arder em horas impróprias. Ainda era estranho não poder tocar meu próprio rosto, e respeitar todas as novas normas de higiene exigia esforço. De repente me sentia extremamente consciente de tudo o que fazia quando estava na rua. 

Voltei para o prédio, esperei o elevador esvaziar para entrar – outra norma de segurança – e subi. Tirei os sapatos antes de entrar em casa, passei mais uma camada de álcool nas mãos com o frasco que agora ficava em cima de um vaso de planta ao lado da porta e, finalmente, entrei.

Não pensei mais nisso, até que, dois dias depois, achei tê-lo visto saindo do elevador. Eu havia descido para levar o lixo até a garagem. Mas, como estava sem óculos, e só o vira uma vez – e apenas metade de seu rosto – não podia afirmar. Pensando bem, podia ser qualquer um. Era difícil identificar as pessoas tão cobertas, especialmente porque em geral em saía sem meus óculos, já que as lentes ficavam completamente embaçadas com a respiração abafada pela máscara de tecido. 

Após tanto tempo em casa, me sentia melancólica, com saudade de pequenas coisas, como ver o rosto de alguém por inteiro. Isso sem contar na falta que me fazia uma caminhada ao ar livre, sentindo o sol batendo em minha pele enquanto andava com Nina em um parque, me deixando levar por seus puxões na coleira. Sentia falta de almoçar fora, pedir um suco, escolher uma sobremesa, ver pessoas aleatoriamente ao longo do dia, e não apenas alguns poucos rostos conhecidos em chamadas pré combinadas pela tela do celular.

Enquanto estava em casa me protegendo, sentia falta da vida. 

O interfone tocou, me tirando de meus devaneios e os latidos de Nina me trouxeram de volta à realidade. Um homem, que se apresentou como “Miguel, o vizinho do cento e vinte três”, disse que precisava comprar máscaras de tecido e que alguém do prédio havia me indicado. Logo imaginei dona Tereza, anunciando de andar em andar meu novo serviço. 

Fui demitida da agência assim que a pandemia começou. Sabíamos que enfrentaríamos um período de recessão e, numa medida preventiva, a empresa demitiu metade do time de marketing, inclusive eu. Passando o dia todo em casa, desenterrei a máquina de costura que herdei de vovó, assisti alguns tutoriais na internet e voilà! Usei alguns restos de tecido e elástico para criar minhas próprias máscaras. Basicamente, alternava entre mandar currículos, cozinhar, costurar e maratonar episódios de séries. Me guiava pelos horários de refeições de Nina e agradecia todos os dias por ter sua companhia. 

A campainha tocou e ela começou a latir, prendi-a na cozinha para poder atender. Miguel, como você já deve ter adivinhado, era o tal mascarado do supermercado. Nos apresentamos e ele disse que precisava comprar algumas máscaras, pois as que encontrava por aí sempre tinham elásticos justos e o deixavam com dor nas orelhas. Ri e disse que não havia problema, eu podia fazer do tamanho que ele desejasse. 

Convidei-o a entrar e passamos pelo desajeitado ritual de tirar os sapatos, passar álcool em gel nas mãos e manter as máscaras no rosto. Era a primeira vez que alguém entrava em casa em muito tempo. Fui até a lavanderia em busca de minha caixa de tecidos e Nina escapou sem que eu percebesse. Quando voltei para a sala, encontrei Miguel sentado no chão fazendo carinho do pescoço da cadelinha que não parava de se balançar, não era apenas o rabo que ela abanava, era o corpo inteiro. Talvez Nina estivesse ainda mais sedenta do que eu por contato humano. 

Mostrei uma máscara pronta a ele, os tecidos que tinha em casa e tirei algumas medidas de seu rosto. Ele escolheu algumas cores neutras e combinamos que eu lhe avisaria quando as máscaras estivessem prontas. Isso implicou em trocarmos nossos números de telefones. 

Daí em diante, passamos a nos ver quase todos os dias pelo prédio, na garagem, elevador ou portaria. Provavelmente nunca havíamos nos encontrado antes porque nenhum dos dois parava em casa, mas agora estávamos todos forçosamente presos em nossos ceps. Ele era programador e estava trabalhando em casa desde o início da quarentena.

Também começamos a trocar mensagens e conversar sobre temas aleatórios. Era divertido ter alguém para conversar em meio à pandemia, falar sobre qualquer outra coisa que não fosse “e a vacina, quando será que fica pronta?”. É claro que eu ainda saía de casa para fazer algumas compras e também visitava minha mãe, ainda que sem descer do carro, mas me apresentar a uma pessoa nova era uma forma de não esquecer quem eu era. O que parecia positivo, após tanto tempo em casa olhando para as paredes e fazendo monólogos com um cachorro. 

Assim que terminei as máscaras, avisei-lhe por mensagem. Ele, em resposta, disse que teria reuniões por vídeos até o fim do dia, então só poderia vir buscá-las no dia seguinte. Antes que eu pudesse me oferecer para subir e entregá-las, veio o convite. Miguel perguntou se eu gostaria de jantar com ele na sexta-feira, em casa, claro. Senti um frio no estômago só de imaginar como seria ter contato de verdade com alguém após seis meses de isolamento social. Já que ambos morávamos sozinhos e estávamos respeitando todas as regras, topei. Pedi que fosse em minha casa, para não deixar Nina sozinha, e ele pareceu animado com a oportunidade de revê-la. 

Então, na sexta-feira, após o expediente, ele enviou uma mensagem e desceu até meu apartamento. Trouxe uma garrafa de vinho e já chegou tirando os sapatos, e só então me dei conta de que não deveria deixá-lo descalço por tanto tempo. Ofereci-lhe uma de minhas pantufas e ele escolheu a de unicórnios. E foi assim que, de repente, havia mais alguém na casa além de mim, uma cadela e algumas plantas. 

– É bom ter alguém para conversar – disse enquanto ia até a cozinha buscar taças e um abridor para a garrafa. 

– Também acho – respondeu se sentando em uma cadeira e acariciando os pelos do pescoço de Nina – eu já estava enlouquecendo. 

Eu já sabia que ele era carioca, por seu sotaque inconfundível. Enquanto conversávamos, ele contou que toda a família morava no Rio de Janeiro, e ele veio para São Paulo assim que se formou porque conseguiu um emprego aqui. Sua companhia eram os colegas de trabalho e um amigo dos tempos de escola que também havia se mudado. Agora, trabalhando de casa, estava privado de contato físico com todos. Eu lhe contei que havia sido demitida e que estava numa corrida por um emprego novo, algo que obviamente estava ainda mais difícil nesse momento. 

Pedimos uma pizza e ele fez questão de descer para buscar e pagar quando chegou. Quando voltou, eu já o esperava na porta, com álcool gel em mãos. Higienizei a embalagem da pizza e nos servi. Nina deitou aos pés dele enquanto comíamos. 

– Me sinto traída! – brinquei apontando para a cadelinha adormecida. 

– O que posso fazer? Ela tem bom gosto – riu. 

Trocamos dicas de filmes e seriados, criticamos a má conduta do governo e no fim já estávamos trocando receitas. Ele prometeu que faria seu famoso hambúrguer caseiro em nosso próximo jantar.

Eu levei nossos pratos para a cozinha enquanto Miguel ficou na sala brincando com Nina, depois me juntei a eles e ficamos os três sentados no tapete. Era estranho estar perto de alguém após tantos meses sozinha, mais estranho ainda era me sentir à vontade com esse alguém. 

– O que foi? – perguntou e de repente me tornei consciente do fato que devia estar encarando-o há algum tempo. 

– Estava só pensando que é engraçado morarmos no mesmo prédio há tanto tempo e só nos conhecermos agora. 

– Viu, nem tudo o que está acontecendo esse ano é ruim. Fico feliz por ter te conhecido. 

Parou de afagar o pescoço de Nina e se apoiou no tapete, com a mão roçando na minha. Tentei puxar, em uma reação automática, mas ele a pressionou levemente. Era bom sentir um calorzinho ali. 

– Eu também – respondi, fechando os olhos quando o vi se aproximando para um beijo.

Nina latiu, nos fazendo rir, com os lábios ainda colados um ao outro. A sensação quente de sua respiração tão próximo a mim me fez estremecer. Ele me abraçou e eu me aconcheguei em seu peito. Nina pulou no meu colo, ficando entre nós, abanando o rabo. 

– Acho que era tudo o que ela queria – brinquei. 

– Eu também – ele respondeu, sussurrando em meu ouvido. 

4 comentários em “Amor na Quarentena

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