Publicado em Contos, Textos

Maçã do Amor

Maçãs do amor caramelizadas e confeitadas.

Quando concordei em participar do evento, não imaginei que teria tanto trabalho. Como se não bastasse ter que ir à maldita festa, eu havia sido encarregada de comprar bugigangas, fazer uma receita, e fora para decorar o salão algumas horas antes do grande dia.

Meu vestido já estava separado, junto com as sandálias de salto alto e os acessórios, eu sabia exatamente a maquiagem faria e como prenderia meu cabelo. O dia precisava ser perfeito, meu sorriso estaria parafusado no rosto, disso eu tinha certeza. Afinal, todos estariam lá, desviando seus olhares em minha direção. 

Cheguei em casa após algumas horas enfrentando o calor escaldante que fazia na rua, parecia impossível ser tão difícil comprar um pacote de palitos de madeira. Andei quase a avenida toda até ter algum sucesso. A volta para casa, dentro do vagão quente do metrô, serviu apenas para coroar um dia horrível. Tive medo de que as maçãs fossem amassadas, mas sobreviveram à aventura. 

Fui direto para a cozinha, depositei as sacolas e a bolsa em cima do balcão e fui até a torneira para lavar as mãos. Aproveitei e joguei um pouco de água fria no rosto e na nuca, gerando um alívio instantâneo para o calor que emanava de minha pele suada. Ainda com os olhos fechados, alcancei a gaveta de panos de prato e peguei um novo para secar o rosto. 

Desbloqueei a tela do celular, procurei a receita em meio à conversa das madrinhas e finalmente dei início ao ritual culinário. Separei, cuidadosamente, todos os ingredientes em cima da pia: açúcar, vinagre, corante, as maçãs e os benditos palitos. 

Liguei o som, deixando a música invadir a casa e meus ouvidos. Escolhi uma assadeira grande, forrei com papel manteiga enquanto cantava alto junto com Taylor Swift, pena que uma de nós sempre errasse o tom. 

Abri a torneira e lavei as maçãs, uma a uma, com cuidado, me certificando que nenhuma delas estava machucada, afinal, a aparência era de suma importância naquele dia. Tirei os cabinhos, substituindo-os por palitos de madeira, aplicando força para encaixá-los dentro de cada maçã. Bufei, irritada, ao quebrar o primeiro palito em minhas mãos. Peguei outro e tentei com menos força, até que consegui espetá-lo na maçã, rompendo sua casca e penetrando em direção ao miolo do fruto, deixando um pouco de caldo escorrer entre meus dedos. Lambi a mão, voltei a me lavar e repeti o processo em cada uma das maçãs. 

Em uma panela, misturei um pouco de água filtrada com duas xícaras bem cheias de açúcar cristal e meia colher de chá de vinagre. Torci o nariz ao sentir o cheiro forte desse último entrando em minhas narinas. Liguei o fogo para aquecer a mistura e fiquei observando até que começasse a ferver. Sem mexer, apenas usei uma espátula de silicone para ir limpando o açúcar que se acumulava nas bordas do recipiente. Depois do ponto de fervura, deixei cozinhar por cerca de vinte minutos, diminuindo o fogo e tampando a panela. 

Aproveitei o intervalo e fui até o quarto para me trocar, vesti algo mais leve e confortável, troquei os sapatos por minhas pantufas e, após prender o cabelo em um coque alto no topo da cabeça, finalmente me sentia em casa. Senti o cheiro adocicado que já dominava a casa toda e voltei bem a tempo de desligar o fogo. 

Peguei uma colherada da mistura e despejei em um pote cheio de água fria. Assim como a receita descrevia, vi a pequena massa endurecer instantaneamente, retirei, apoiando na pia e dei uma pancadinha com a colher, assistindo-a se quebrar. No ponto, firme e crocante. 

De volta à panela, acrescentei meia colher de corante vermelho em pó. Depois, fui até o armário e peguei o pequeno frasco sem rótulo que guardava atrás das xícaras. Despejei cinco gotas na mistura fervente, mexi com uma colher, e dei mais um esguicho, perdendo a conta. Faria diferença? 

Ri, aumentando ainda mais o som, e levei a panela para cima da pia. Cantei, usando a colher melada como microfone e fiquei observando enquanto a calda esfriava e parava de borbulhar. Me aproximei para sentir seu cheiro doce e convidativo. 

Inclinei a panela, e comecei a mergulhar as maçãs, uma a uma, segurando-as pelos palitos. Depois de mergulhar, levanta-as de volta e esperava o excesso de calda escorrer de volta para a panela. O passo seguinte era polvilhar com os pequenos confeitos coloridos em formato de coração. 

Fui ajeitando-as na assadeira, com algum espaço entre cada uma, para que não grudassem. Agora só precisaria esperar que esfriassem bem para então embrulhar em saquinhos transparentes, amarrados com um lacinho no topo. E assim tudo estaria finalmente pronto para o chá de panela.

Olhei para a pia com a louça suja acumulada e revirei os olhos, esperava ao menos que o noivo apreciasse meu esforço em me aproximar de sua querida futura esposa. Desliguei o som, ainda cantarolando e saí da cozinha, apagando a luz atrás de mim.

2 comentários em “Maçã do Amor

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