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Pisca-Pisca

43. pisca-pisca

Cheguei em casa e, ainda no escuro, procurei o fio da tomada que ligava os enfeites. Logo a sala foi invadida por luz e cores, muitas cores. Acende. Apaga. Pisca. Pisca. Era um alívio saber que eu não precisava acender a tediosa luz branca do cômodo no mês de dezembro. Não, durante trinta dias, minha casa era tomada por cores.

Abri as janelas para poder ver as luzes piscarem lá fora, no fio estendido em volta da pequena sacada do apartamento. A árvore, estrela do meu show, brilhava majestosa no canto da sala. E os pequenos enfeites faziam festa em volta dela. Todos os anos eu me preparava para o dia da decoração, colocando músicas natalinas para tocar e um gorro vermelho e branco na cabeça enquanto começava a tirar as caixas e sacolas do armário. Desembalar os enfeites era como reencontrar velhos conhecidos, estavam todos ali: o pequeno pinguim de pelúcia, a corujinha fantasiada de rena, os enfeitinhos de Papai Noel, em diferentes cores e tamanhos, e a miniatura de presépio que ganhei no último ano.

Eu arrisco o clichê de confessar que é o único período em que não me sinto sozinho dentro dos apertados sessenta metros quadrados em que vivo. As cores me acompanham aonde quer que eu vá e é a época do ano em que tudo vira festa, as pessoas ficam mais bem humoradas e os males se amenizam, ainda que temporariamente.

A noite de Natal passa muito rápido, não fazendo jus a tanto preparo e tempo que gastamos com ela. A hora da festa me traz sentimentos ambíguos, apesar de passar muitos dias ansioso por aquele momento, não há nada pior do que um feriado de família para te lembrar daqueles que já não estão mais aqui. Nada pior do que ouvir os colegas fazendo planos e saber que desta vez você não terá ninguém para dividir as festas, não haverá beijo à meia-noite e nem mesmo uma troca de mensagens. Desta vez fui só eu, eu e minha família, quero dizer, a família e  aqueles parentes que brigaram o ano todo, mas estavam ali marcando presença na sala de visitas.

Mesmo após uma semana, meu estômago ainda não se recuperara dos excessos da ceia. Todo o organismo se queixava: noites pouco e mal dormidas, música alta, parentes indesejados, saudades e comida, muita comida.

Depois de acender as centenas de pequenas lâmpadas, segui para a cozinha e abri a geladeira, todas as sobras ainda estavam lá, esquentei-as e revivi aquela refeição uma vez mais. Agora sozinho, na estreita mesa de dois lugares que preenchia a cozinha. Comi olhando para os reflexos que as luzes vindas da sala faziam na parede.

Voltei para a sala, sem me dar ao trabalho de recolher a louça suja – vantagens de morar sozinho. Sentei de frente para a árvore e observei. Acende. Apaga. Pisca. Pisca. Reparei que uma lâmpada estava queimada e não acompanhava mais a dança de suas companheiras. Olhei para os lados mas não havia ninguém com quem comentar – desvantagens de morar sozinho.

Sentado ali, me dei conta de que não queria desmontar a decoração, porque isso significava admitir que a festa acabou, que um novo ano começaria e que as promessas de emagrecer e ser mais produtivo deveriam ser colocadas em prática. Não queria voltar a chegar em casa e encontrar apenas uma deprimente luz branca e opaca. Não queria voltar ao trabalho e nem encarar as filas de estacionamento do shopping para trocar aquela camiseta apertada que ganhei da minha avó.

Natal não é só festa, é uma pausa, é quando a vida fica um pouquinho mais descomplicada e a gente não se cobra para obter metas e resultados, é quando aceitamos andar mais devagar, sair para passear e não fazer nada além de observar a decoração e detalhes dos outros prédios. Quando nos permitimos elogiar uns aos outros, reconhecendo cada feito. E assim que ele acaba é preciso voltar para a superfície, para a rotina. A única esperança é saber que em alguns meses ele estará de volta para nos preencher de luz. Acende. Apaga. Pisca. Pisca.

 

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Verdade

42. Verdade       Você disse que minhas palavras não enganariam a ninguém, e que já passara da hora de escrever algo verdadeiro, pois só uma frase verdadeira poderia revelar meu estilo e aprimorar minha escrita.

            É sinceridade que você quer? Mas eu nunca vi alguém escrever sobre suas noites mal dormidas e a fragilidade sentida ao deitar a cabeça no travesseiro, vestindo nada além de um pijama largo e fantasias que nunca se realizarão. Ninguém comenta suas dores de cabeça e o fato de sentir que não possui todos os recursos e forças cuja posse alega todos os dias como forma de sobrevivência.

            Nunca conheci ninguém que falasse abertamente sobre a vontade louca de comer doces, já que esse é um dos poucos prazeres que temos na vida. Ou sobre sua barriga apertada dentro da calça jeans após uma noite de fraqueza, recheada de guloseimas. E quem levantaria a voz para dizer que já não tem mais crédito e que ainda não sabe como fará para pagar a próxima fatura.

            Jamais vi alguém admitir que foi autor de uma injustiça, que praticou bullying nos tempos de colégio ou mesmo que espalhou aquele boato que comprometeu a promoção do concorrente. Aliás, cidadão de bem não sai por aí alegando ter concorrentes, o que tem são pessoas com inveja de seu sucesso. Mas se você é um daqueles que pensou “que sucesso?”, fique calmo, isso apenas quer dizer que você ainda não chegou lá, mas o jogo vai virar, ele sempre vira. Ou, pelo menos, é o que dizem.

            Como ser sincero e admitir publicamente que às vezes desejo outras que não minha parceira, se não tenho nem coragem de dizer a ela que gostaria de ter mais espaço só para mim, e que seu jeito pegajoso acaba por me irritar na maior parte do tempo. Adoraria que ela não quisesse conhecer toda minha agenda. E que delícia seria não ter uma, apenas me deixando levar por aí, sem planejamentos ou compromissos massacrantes.

            Como contar que eu adoraria ganhar dinheiro fácil ao invés de passar anos sentado em uma cadeira medíocre de faculdade, ouvindo a promessa de um plano de carreira. Honesto a ponto de assumir que há dias em que não tenho vontade de acordar, e sair da cama é uma tortura enorme. Arrasto minha carne flácida até o chuveiro, ansiando pela hora de poder voltar para meu quarto escuro.

            E por que não contar que eu já pensei em acabar com tudo. Por uma vez ou outra, acabar com ela ou comigo, já que em ambos os casos me parece se tratar de autodefesa. Já procurei alternativas, esgotei-me em pensamentos, mas não adiantaria me mudar e recomeçar, ou mesmo voltar no tempo com uma nova chance. Não há solução enquanto eu levar a mim na bagagem.

            Entende agora? Eu não sei se alguém se interessaria em ouvir isso.

 

 

 

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Tonalidades

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     Eu sou aquarela. Fruto das cores que me pintam e que pinto no mundo. Vou desde a pureza de uma folha em branco até o caos barulhento de uma noite negra. Sou o azul mercado pela tristeza, sofrendo a saudade de quem já não volta mais. E no outro dia acordo tingida de dourado, exalando a energia que me esbalda. Turquesa me traz tranquilidade, mas a felicidade surge é com os raios de um bom amarelo, brilhante como um dia ensolarado. Há em mim um vazio, onde o cinza preenche tudo o que vê pela frente, são dias frios, apáticos e, por vezes, fico roxa de medo, temendo que essa sensação não passe, mas logo surge uma tonalidade de rosa no horizonte, e então tenho novamente a certeza de que tudo ficará bem, o amor chegou. Só preciso me preocupar quando a intensidade é tamanha que me deixa vermelha, de paixão ou mesmo de raiva, afinal o que os separa é uma linha tênue. O laranja chega gritando por atenção, e é impossível não reconhecer a exibição que há ali. Mas há ainda o bege da preguiça, ou mesmo da desistência, afinal só alguém que já desistiu do dia usaria uma lingerie bege. Confesso que adoro acordar sentindo o cheiro do verde, que me remete à liberdade de um campo aberto, sem regras, sem cercas. Até que, em algum momento, sou invadida pela indecisão de um tom coral. Pastel. Neon. Metálico. Fosco. Vou me misturando, a intensidade e a transparência de minhas cores vão contrastando e sendo absorvidas por meu mundo, minha tela. Me impregno conforme vou colando e descolando sentidos. As tonalidades afetivas me cobrem e descobrem, e eu sigo, misturando tons, ousando e me reinventando. Uma vez pincelada, não posso voltar a ser, mas posso sempre vir-a-ser, basta acrescentar um pingo e pronto, já sou diferente. É, sou aquarela.

 

 

 

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Silêncio

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   A palavra silêncio é definida no dicionário como “o estado de quem se cala ou se abstém de falar. Privação, voluntária ou não, de sons e comunicação”. Ou seja, só se cala aquele que tem algo a dizer. E ele só se faz presente, só o percebemos, ao notar a ausência de som.

   Eu conheço vários tipos de silêncio. Tem aquele do começo da manhã, quando todos ainda estão dormindo, ou pelo menos deitados em suas camas, e não consigo ouvir nada além de meus próprios pensamentos, que me invadem no momento exato do despertar. E também existe aquele que gosto menos que é o da casa vazia, esse me assombra desde que o Max nos deixou, pois a sala está sempre escura e sem vida quando chego, sem latidos ou alegria me esperando na porta.

 Tem o silêncio constrangedor de uma sala de espera, quando desconhecidos compartilham um momento juntos e ninguém quer ser o primeiro a falar. É mais fácil ouvir o virar de uma página de revista ou uma fungada do que o calor de uma voz. Esse, para mim, é o silêncio do tédio.

   Depois vem o silêncio de tensão, que é aquele que se pode escutar numa sala de aula na hora da prova, apenas respirações ofegantes e destinos ansiosos, mas nenhuma palavra. Pior do que ele, só aquele que acompanha o climão de um reencontro indesejado. Não desejo nunca mais passar por um assim.

   Tem aquele silêncio incômodo que surge depois que dizemos algo forte. É difícil sustentá-lo, mesmo que às vezes seja necessário, porque é o tempo que o ouvinte tem para digerir as palavras que acabaram de lhe atingir. E, apesar da ausência de som, fervilhamos por dentro, com tudo o que foi dito ou poderia ter sido dito.

   Aprendi que o silêncio pode também ser uma resposta. Como quando você se declara para alguém e não recebe nenhuma manifestação em troca: sempre achei que precisava esperar uma recusa antes de engolir meu orgulho e partir para outra, mas acontece que a falta de resposta também é uma resposta, já que nem todos conseguem se comunicar através de sons ou palavras.

   Existe o silêncio de quando não há nada a se dizer e o silêncio de quando não precisamos dizer nada. São raros os momentos em que esse último aparece, quando duas pessoas conseguem estar juntas e compartilhar de um silêncio que não é caracterizado pelo vazio ou ausência, mas sim pela mais forte presença de sentido. E você sabe que não existem palavras suficientes ou mesmo necessárias para superar aquele momento.

 

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Noite de Leitura

39. Noite de Leitura

   Todo domingo à noite, eu coloco meu pijama, vou para o sofá e nada pode interromper meu momento de leitura. Às vezes tenho um chá quente ou café como companhia, mas o que importa mesmo são as palavras que desfilam nas páginas a minha frente. Ler é como entrar em outros mundos sem precisar deixar o meu. Me transporto para outras realidades, me permito explorar hipóteses e viajar em possibilidades, afinal, “e se?”.

   A leitura não é apenas um ato racional, indo muito além, desperta emoções, devaneios, reacende memórias e é capaz de provocar as mais diversas sensações. Um mesmo livro nunca é lido da mesma forma por seus leitores, e o que torna cada contato uma experiência única é o fato de que lemos carregando nossa própria bagagem, então interpretamos a partir de nossas concepções de mundo e vivências anteriores. Portanto, nossa história afeta a forma como entramos em contato com outras histórias.

   Mais curioso ainda é que nem mesmo eu sou capaz de ler o mesmo livro duas vezes. Ao reler uma obra, anos depois, minhas concepções já mudaram e eu vivi coisas que alteraram meu entendimento das palavras há muito tingidas no papel. A grande obra prima de minha adolescência pode não fazer sentido algum na vida adulta. Mas é claro que isso não tira seu imenso valor em meus anos mais jovem.

   Confesso que às vezes leio porque quero dar um tempo da realidade, me afastar de interações humanas e me permitir ser apenas espectadora por um momento, mas então caio na armadilha de que não há nada mais revelador do universo humano do que as palavras conservadas em papel. Lá me deparo não apenas com a minha realidade, mas com infinitas outras.

   A experiência da leitura, através do contato solitário com o livro, me convoca a entrar em contato com minhas particularidades existenciais, ao mesmo tempo que me permite experimentar e expandir vivências e conhecimentos. Fica mais fácil me arriscar por meio de um personagem, sem precisar sair de meu sofá. Assim, a literatura abre uma nova maneira de compreender e me relacionar com minha própria história. É exatamente por isso que eu acho que não há nada mais reconfortante para o fim do domingo do que um bom livro, que me desperta curiosidade e vontade para começar uma nova semana.

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Saindo de Casa

Sacada (5)  Sair da casa dos pais é algo com que sonhamos, fantasiamos e, às vezes, desejamos com todas as nossas forças. Mas é muito difícil tomar a decisão pra valer e, não importa o quanto queremos ou nos preparamos, é simplesmente impossível estar pronto para deixar o conforto do seu quarto.
Quando chegou a minha vez, senti como se dois desafios estivessem acontecendo simultaneamente, por um lado, deixei a casa da minha mãe, minha casa, e, por outro, me vi ganhando uma nova, minha casa. Me disseram que “ganha-se muito, mas perde-se muito”, e eu não poderia concordar mais depois de sentir na pele como é ser uma dona de casa.
Perdi a tranquilidade do meu quarto de menina, deixei metade dos bichinhos de pelúcia para trás, assim como a janta sempre pronta e quentinha e a roupa passada que aparecia em cima da cama no fim do dia. Deixei o colinho de mãe que estava sempre a postos, e até o meu cachorro. Perdi tanto! Mas também ganhei uma nova relação com a minha mãe, agora permeada por saudade, desabafos e pedidos desesperados de ajuda pelo telefone para que ela me ensine a temperar uma carne ou confirme se eu posso mesmo lavar aquela blusinha de renda na máquina.
Foi difícil dar adeus ao meu cantinho, saber que da próxima vez que eu entrar naquela casa, serei uma visita – ainda que tenha as chaves. É estranho pensar que mudanças acontecerão sem que eu presencie ou mesmo perceba, e eu já não poderei opinar ou decidir como antes, agora que virei espectadora. É, talvez precise aprender a controlar minha boca, tenho que aprender a lidar com o fato de que já não tenho mais controle sobre o que acontece por lá.
Fico pensando se minha organização no armário da cozinha será mantida… acho que não por muito tempo. É difícil encarar que escolhi deixar um lugar que me recebeu tão bem, uma casa grande e confortável, um verdadeiro porto seguro.
Por outro lado, é a primeira vez que posso tomar decisões mais livremente, repensar a ordem dos talheres na gaveta da cozinha, escolher o cardápio e me aventurar em novas receitas. Comprei plantas e estou me esforçando para mantê-las vivas e saudáveis. Descobri que as roupas não são tão fáceis como eu imaginava, pois cada peça e tecido têm suas particularidades, e as tarefas tomam muito mais tempo do que o esperado. É incrível como o tempo passa e eu quase não consigo encontrar uns minutinhos para colocar a leitura em dia. O serviço doméstico consome tempo e energia, antes eu não ficava assim tão cansada no final do dia. É, não é só a casa que muda, a gente muda.
Mas confesso que enfrentar tudo isso ao lado de outra pessoa torna tudo mais fácil. O planejamento de um casamento e o friozinho na barriga ao pensar em uma vida a dois desperta a vontade de juntos conquistarmos essa independência. É gostoso conhecer mais do outro, encontrá-lo todos os dias, preparar o café da manhã e conversar sobre as coisas pequenas do dia-a-dia. Cada um traz um pouco de suas manias e dos costumes familiares, juntos descobrimos como funciona a nossa casa, e o que nós queremos para ela. As implicâncias vêm junto, é claro, mas, pensando pelo lado positivo, a coleção de livros dele passou a ser minha também. Não me julgue, estou dividindo minha poltrona de leitura. Todo mundo tem que ceder! Foi o conselho que mais ouvi até agora: minha mãe, meus sogros, amigos, conhecidos e colegas de trabalho, todos me alertaram sobre os problemas da convivência e me disseram para não esperar um mar de rosas.
É claro que estavam todos certos, e eu já sabia disso antes mesmo de me mudar, mas só nós dois conhecemos nosso relacionamento, e sabemos que ele funciona mesmo com as brigas e manias um do outro. Eu sou extremamente acelerada, enquanto ele é calmaria, e mesmo assim encontramos uma forma de fazê-lo acontecer, aprendemos juntos, compartilhamos nossas histórias, encontramos motivos bobos para rir e até nos demos novos apelidos. Quando me deito na cama de casal, ao lado dele, me lembro que minha mãe pediu que ele cuidasse de mim e ele respondeu que cuidaria, assim como eu cuidaria dele. Seguimos nos cuidando, nos amando (e passando roupa, afinal hoje é quinta-feira).

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Perdi

Avenida Radial Leste (5)
Hoje eu perdi. Alguém que esteve presente nos últimos seis anos. No começo não nos dávamos bem. Eu não gostava muito dele, tinha medo de sua forma estranha e imponente. Tentei até ignorar sua existência, mas alguém sempre fazia o favor de me lembrar de sua presença, e eu sentia um arrepio ao ouvir seus roncos, era assustador vê-lo acordado e pensar que eu deveria fazer algo a respeito. Chegava a me envergonhar de dizer seu nome em voz alta. O passar do tempo só fazia aumentar minha vergonha e a sensação de incapacidade de lidar com algo que era meu, já que me fora dado. E, mesmo que ninguém me dissesse, eu sempre soube da ingratidão dos meus atos.

Aos poucos fui perdendo o medo, me desafiei e nos desafiei a andarmos juntos. Fui aprendendo a apreciar sua companhia. Comecei a sentir um frio gostoso na barriga ao me aproximar dele, pois agora era eu quem estava no controle. Depois de algum tempo passei a apreciar as vantagens de tê-lo: a agilidade, o espaço disponível. Me tornei mais atirada e independente, exatamente como minha mãe previra e falou inúmeras vezes. E hoje, que o sinto como meu, perdi.

Veja bem, ele não me foi tirado, pelo contrário, fui eu quem recuei e me dispus a abrir mão de toda sua praticidade e conforto. Mas, prometermos que é provisório não torna o fato mais fácil de aceitar. Por algum tempo não o terei mais a minha disposição, ele não será meu companheiro e não me ajudará nas tarefas mais simples do cotidiano, como ir ao trabalho ou ao mercado. Tampouco fará parte de meus desafios, acompanhando-me a novos destinos, por trajetos desconhecidos.

Abrir mão de algo que por tanto tempo não me foi necessário me pareceu a atitude mais justa e sensata a ser feita. Crescer não é só aprender a dirigir, é saber a hora de frear também. Hoje, tiro os pés do acelerador e entrego minhas chaves. Não serei mais a prioridade quando ambas precisarmos sair, mas sei que isso não me impede de dar uma voltinha com ele de vez em quando. E, por mais que ele volte, nós já não seremos os mesmos, agora que alguns quilômetros rodados nos afastam. Quem diria, às vezes o caminho nos faz sofrer.

 

 

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Mensagem de Adeus

36. Mensagem de Adeus

 

   Eu gostaria que essa história fosse bonita, poética, como uma carta de despedida. Mas nossa história nunca foi realmente bela e, além disso, são tempos modernos, sabe como é. Terminamos por mensagem mesmo. E quando digo que “terminamos”, quero dizer que eu terminei, e o que você fará a respeito já não me importa mais.

   Levei pouco mais de uma década para compreender algumas coisas e, por isso, sei que não conseguirei traduzi-las nessas poucas palavras. A primeira delas é que você estragou tudo, e eu não consigo esquecer nada do que vivi ou senti ao seu lado, então, minhas lembranças também estragaram qualquer possibilidade de reconciliação. Percebi que você não mudou e que não adianta eu esperar que mude. A novidade foi entender que, ainda que tudo fosse diferente hoje, nós não daríamos certo. Tive que me readaptar, para conviver com uma constante falta em minha vida e, adivinhe só, eu consegui! Mesmo com sua nova aparição, nada mudou, pois já não há mais espaço para você em minha vida, em quem eu sou hoje. Uma pessoa bem melhor, se quer saber minha opinião.

   Veja bem, não quero dizer que não faça falta, pelo contrário, o buraco ainda está lá, mas eu descobri que ele é meu e sempre será, de nada adianta tentar encaixar algo que há muito não cabe mais.

   Aprendi que a gente muda, cresce, amadurece. E o tempo também faz seu trabalho, ele passa. Todo o restante foi se acomodando, a ponto de hoje eu me ver como um quebra-cabeças: falta uma peça, não é difícil perceber, mas a imagem ainda está lá, e você consegue entendê-la só de olhar.

   Queria te contar que aprender a conviver com uma ausência é doloroso. Afinal só pode ser ausente o que já foi presente um dia. Eu sinto falta, e estaria mentindo se dissesse que não gostaria que tudo fosse diferente. Mas a vida, eu e você somos assim: incompletos.

   Eu gostaria muito de ter dito tudo isso pessoalmente, acho que merecíamos um encontro. Mas somos tão diferentes que tive a sensação de que não falávamos mais a mesma língua. Acho que não é fraqueza admitir que eu não dei conta de dizer tudo isso frente a frente, pois acho que você não me entenderia, ou sequer respeitaria.

   Mandei um textão por mensagem mesmo. A resposta frustrou, mas confirmou uma vez mais o quão incompatíveis nós sempre fomos, apesar do mesmo sangue. Por fim, como ser humano maduro que sou, te bloqueei. Mas, pela primeira vez não fiz por não querer mais te ouvir, e sim por saber que já não havia nada mais a ouvir.

   Enrolei tanto para enfrentar este momento, achando que eu tinha medo de você, sem saber que na verdade o medo era de lidar com minhas próprias emoções. Ah! Se eu soubesse a leveza que eu sentiria depois de colocar um ponto final nesse capítulo de minha história. Espero que entenda que não lhe quero mal, apenas não lhe quero mais.

 

 

 

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Alface, tomate e cebola?

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É claro que era para ser temporário, afinal não é o emprego dos sonhos. Mas pagava suas contas e lhe deixava com tempo o bastante para manter todos os episódios de série em dia, então foi adiando sua saída, mesmo que sentisse vergonha todas as vezes que encontrava um conhecido na rua e este lhe perguntava o que ela andava fazendo da vida. Se bem que, vergonha mesmo, ela sentia quando se olhava no espelho e via aquela toquinha miúda prendendo seus cabelos em um coque no alto da cabeça.

Aquele era o trigésimo sanduíche que preparava em menos de duas horas de serviço, ou talvez o trigésimo segundo, perdera a conta depois que um cara a obrigou a refazer todo o seu lanche, só porque ela confundiu os frascos e deu um esguicho de maionese em cima de seu frango. “Temperada, eu pedi maionese temperada!”. Ela não tinha culpa se todos aqueles movimentos repetitivos já haviam se tornado automáticos e suas mãos trabalhavam sozinhas, às vezes realmente sem comando algum de seu cérebro.

Despertou de seus pensamentos assim que o viu parado na fila. De repente estava extremamente consciente dos ingredientes em sua mão, seu uniforme surrado e do suor que se acumulava em sua testa. Ele olhava para cima, distraidamente, escolhendo seu lanche no painel que exibia o cardápio com as ofertas do dia. Não via Christian desde os tempos de colégio, mas nunca se esquecera do formato quadradinho e másculo de seu queixo perfeito.

Levou a mão até a cabeça, desejando poder tirar aquela touca, mas sabia que seu cabelo amassado lá dentro não lhe conferiria um melhor estado. Trocou de lado com Lilian, ficando responsável pelos vegetais e empurrando a colega para o setor de recheios, adiando assim seu inevitável encontro com o ex-namorado. E quem sabe, com um pouco de sorte, um buraco não se abriria no chão e a sugaria, poupando-lhe do constrangimento que estava prestes a acontecer.

Mas, três lanches depois, ali estava ele, pedindo um lanche de salame com pepperoni, com sua voz rouca, e sexy. Ela sentia a pele de suas bochechas ardendo, e não era pelo calor do forno. Lilian levou a bandeja com seu lanche até lá e ela se virou, apoiando a mão no puxador engordurado e tentando se concentrar em contar os segundos que o aparelho levava para aquecer e derreter a porção extra de queijo suíço.

Pouco depois, com as mãos trêmulas carregando o sanduíche, colocou-o no balcão entre eles e finalmente o encarou, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente: “alface, tomate e cebola?”. Ele apenas concordou com um aceno, olhando distraidamente para os ingredientes. “E picles, por favor”. Completou seu pedido com uma farta dose de molho parmesão e embrulhou o lanche, ainda sem acreditar.

“Obrigado”, disse, olhando em seus olhos, ainda sem reconhecê-la, e seguiu para o caixa, no final do balcão que os separava. “Por nada, Christian”, suas palavras ecoaram pelo salão antes que ela pudesse controlá-las, e obrigando-a a fechar os olhos para não ver sua expressão quando ele se virou.

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Despedida

34. Despedida

Toda segunda-feira. No início às cinco da tarde, depois passamos para às onze horas da manhã, pois seus compromissos mudaram e minha agenda precisou acompanhá-la. O mais importante era que fosse sempre às segundas-feiras, seu dia livre. No começo ela vinha de uniforme, direto da escola, mas depois passou a usar aquelas calças rasgadas no joelho, que estavam na moda. Éramos ambas meninas quando nos conhecemos, apesar da idade que nos separava. Ela nunca soube que eu dividia alguns de seus maiores medos e, muito menos, que achava outros engraçados, lembrando que eu também já os sentira um dia. “Isso passa, fique tranquila”, tive vontade de dizer-lhe inúmeras vezes, mas sempre me contive, já que eu estava ali para acompanhá-la em sua jornada, e não para lhe guiar por passos que talvez não fossem seus. Rimos muito juntas, pois nem sempre conseguia manter a seriedade diante dela. Aprendi coisas novas e me atualizei, notando como o tempo passa e que eu já não entendo mais todas as gírias que os jovens usam. Hoje, depois de dois anos e meio, viemos para nosso último encontro, passamos uma hora conversando sobre os mais diversos temas da vida, de sua vida. Não teve clima de despedida, já que nós não gostaríamos que terminasse. Mas, quando os ponteiros terminaram de dar a volta no relógio, levantamos de nossas confortáveis poltronas e seguimos para o corredor, em silêncio. Na porta, eu lhe agradeci pela oportunidade e pelo prazer que foi acompanhá-la por todo esse tempo. Ela, em resposta, me abraçou e disse que era ela quem precisava me agradecer, afinal crescera tanto com nossos encontros e conversas. Ah! Se ela soubesse o quanto eu também cresci desde aqueles primeiros dias, meus primeiros como Psicóloga.