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e-commerce concept.

Bom dia, amigo, o produto é novo? Nunca usado? É original? Tem quanto tempo de garantia? Se não servir posso trocar? Qual o tamanho? E a nota fiscal? Tem a pronta entrega? Aceita duzentos? Cento e oitenta e eu retiro ainda hoje? Tem desconto a vista? Qual o valor mínimo?

Para mim a internet tem se revelado uma amostra grátis do inferno, já estou vendo o que vou encontrar por lá. Não é bonito.

É verdade que é muito bom ter a possibilidade de fazer vendas online. O trabalho mesmo acontece apenas uma vez, depois que você cria uma base com todos os seus dados e ativa os anúncios dos produtos, pronto: a mágica acontece. Você pode fazer uma venda em pleno feriado de carnaval, ou então enquanto toma banho ou faz a janta, é cômodo vender de pijama e pantufas. Isso sem falar na delícia que é acordar e descobrir que fez uma venda durante a madrugada. Na loja virtual muitas barreiras são rompidas, não importa o horário ou localização, dá para vender até para cidades que você não sabia que existiam no mapa, é tudo uma questão de calcular o frete.

O único porém é que a internet mudou e tem mudado nosso comportamento. As interações se dão de forma distinta do bom e velho contato pessoal. Os clientes pesquisam bastante antes de comprar, é comum que saibam até mais do que você sobre o seu próprio produto, então é preciso estar afiado para responder uma série de perguntas técnicas, muito mais do que quando você e seu produto ficavam atrás de um balcão.

Há também a cultura da oferta – ou desvalorização – é comum que as pessoas tentem dar “lances” nos produtos antes de comprar, tentando pechinchar qualquer tipo de desconto. Além disso, a concorrência é feroz, e está a apenas um clique de distância. Como todos querem vender, fica-se preso a uma espécie de leilão invertido: ganha a venda quem lucra menos.

O cliente exige excelência, mas sem querer pagar por ela. São raras as vendas onde não há ao menos uma tentativa de barganha. Na minha opinião é a parte mais desgastante de todo o processo. Me pergunto se essas pessoas se comportam da mesma forma quando vão a uma loja física e conversam com um funcionário cara a cara, olho no olho. A barreira do respeito é quebrada por diversas vezes, mas é preciso continuar respondendo com paciência e educação, pois no pós-venda há uma avaliação que determina sua reputação. Aquelas cinco estrelinhas determinarão se os próximos clientes fecharão ou não suas compras com você.

É preciso ainda lidar com trocas e defeitos, assumir prejuízos, pagar comissão para o portal e parte de seu lucro vai para o governo. Não sobra muito no final do mês, principalmente considerando que você precisa reabastecer o estoque. Ainda assim é uma opção mais barata do que manter a estrutura das portas abertas e afixadas em um bairro.

Desde que comecei a vender online, mudei minha forma de comprar, pois sei como funciona do outro lado do anúncio. Há uma pessoa tentando trabalho, lucrar ou mesmo zerando seu estoque para sair do ramo. Talvez alguém que, como eu, ri das perguntas antes de respirar fundo e responder. 

O que me consola é que enquanto termino de editar esse texto, fiz mais uma venda.

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Cada coisa em seu lugar

Escrivaninha (7)

Arrumar é eliminar temporariamente a bagunça, como costumamos fazer na maior parte das vezes, apenas tirando as coisas do meio do caminho, dando um jeitinho de fazer tudo caber em algum lugar. Assim, pelo menos por um breve período, o espaço fica agradável aos olhos e tudo parece bem. Pode ser só um “tapinha” mesmo, não precisa perder tempo se preocupando com a funcionalidade da coisa. Quer dizer, funciona, mas só até o momento em que é preciso encontrar algo.

Já quando falamos em organizar, queremos realmente eliminar a bagunça, usando um método lógico que ajude a tornar o ambiente funcional e adequado, personalizado para o uso, por isso não há regras ou segredos. Na organização cada coisa encontra um lugar. Categorizando e tornando a rotina mais prática, não há necessidade de bagunçar tudo apenas para encontrar um item, porque você passa a conhecer a morada de cada peça que habita seu armário.

Organizando, ganha-se tempo, espaço e ainda se economiza. Mas, o motivo principal de querer organizar tudo o que vejo pela frente é a calma que me proporciona. Quando estou agitada, ansiosa ou preocupada com alguma coisa, costumo canalizar toda a energia em organização: passo horas reorganizando as peças de meu guarda-roupa, recategorizando os arquivos do meu computador e até redecorando a sala. Mexer nas minhas coisas, relembrar tudo o que tenho, mudar coisas de lugar, colocar no uso, por algum motivo me acalma.

Organizar é pensar, refletir sobre a distribuição e espaço das coisas, não é sobre rigidez e meticulosidade, é sobre praticidade. Por isso, organizar me ajuda a pensar, estruturar o ambiente externo me ajuda a ir organizando os pensamentos e sentimentos também, além da sensação de retomar o controle e de estar fazendo algo ativamente, já que nem sempre podemos agir diante de uma determinada situação.

Me acalma saber que a minha volta tudo tem um propósito, escolho o lugar de cada um dos objetos que me pertencem, ganho tempo para fazer outras coisas, tempo para me concentrar e me ocupar de outras coisas, já que o que é meu está bem resolvido.

Organização é um conceito, aplico-o em minha rotina com várias ferramentas, desde agenda até os mais variados aplicativos que estão à disposição. Assim, otimizo meu tempo, não perco prazos ou compromissos e estou – quase – sempre em dia com as tarefas. Minha escrivaninha é um alvo constante e sei que parece bobo, pois passo horas mexendo em meus papéis e canetas e parece que nada mudou, mas é assim que surgem algumas ideias, que controlo minha ansiedade e que me torno mais produtiva.

Aprendi a me organizar de fora para dentro.

 

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Término

48. TérminoQuando algo termina? É no último contato ou antes, assim que se toma a decisão? É quando a ideia surge pela primeira vez à mente, como um rápido lampejo ou é apenas depois de dolorosos meses quando finalmente paramos de pensar no assunto?

No ano passado, decidi parar um curso. Encerrei todo um ciclo e fechei uma etapa importante da minha vida. Naquele momento, mudando de profissão, o curso perdeu a necessidade e também o espaço em minha apertada rotina. Foi difícil tomar a decisão e pior ainda contar ao grupo que eu ficaria apenas até o final do mês, só mais um pouquinho, para fazer os devidos encerramentos.

No primeiro dia, quando dei a notícia, chorei, choramos todos juntos. Tentaram me convencer do contrário, mas foram todos compreensivos, deram o apoio que eu tanto precisava naquele momento. Na semana seguinte, senti um mal-estar enorme e me faltava vontade de aparecer por lá. Parece que não havia sentido em ir quando estaríamos todos contando os dias até meu término. Me arrastei, eu precisava ir! Precisava encerrar direito, honrar com minha palavra e compromisso. Mas, uma vez que a decisão foi tomada, as cores do caminho mudaram, os sons já não eram os mesmos, a graça de ouvir as histórias dos colegas se fora, deixando no lugar uma dolorosa pontada que me lembrava de que eu não acompanharia o desenrolar de nenhuma daquelas histórias e, por mais que prometêssemos uns aos outros que manteríamos contato, nunca mais sairíamos da aula para tomar um cafézinho, ou nos ajudaríamos mediante a uma crise no trabalho ou mesmo trocaríamos as tão pessoais confidências como costumávamos fazer.

Na semana seguinte, com mais dificuldade ainda, fui sabendo que em breve deixaria de participar das histórias que o grupo construía junto, logo eu deixaria de conhecer as brincadeiras e participar das decisões. Contei, acanhada, sobre meus encerramentos e encaminhamentos, tudo praticamente finalizado. Um misto de alívio e uma precoce nostalgia se misturavam em meu peito.

O dia do último encontro, meu último encontro, foi o mais difícil. E foi então que me peguei pensando se aquele ciclo se encerrava ali ou se eu já tinha fechado aquela porta ao tomar e comunicar minha decisão. E, se fosse esse o caso, como eu faria para suportar aqueles instantes finais? Como eu podia encerrar algo que já estava acabado?

Se eu faltasse, me sentiria covarde, incapaz de lidar com algo que eu mesma escolhi, com a sensação de não conseguir terminar. Porém, a partir do momento em que tomei a decisão, passei a me sentir esvaziada, como se já não tivesse mais motivos para estar ali, tendo em vista o eminente fim de tudo aquilo.

O que me motivou a ir foi saber que eu precisava me despedir, precisava agradecer a todos por aqueles três anos passados dentro daquela sala, todo o fortalecimento que aquele aprendizado me trouxe, precisava de cada troca de olhar, de cada abraço que eu queria dar e receber. Mas por que essa mania de esperar a hora da despedida para dizer aquilo que sentimos e pensamos? Por que esperar o momento da perda para nomear tudo o que acontecia diariamente ali?

Eu não sei quando tudo começou a terminar, mas foi um processo longo, doloroso e muito bonito, saí com a certeza de que era muito querida e de que deixava um pedaço meu naquele grupo, levando em troca um pouquinho de cada um que se encontrava naquela sala, toda terça-feira, logo depois do almoço. Talvez tenha acabado apenas hoje, quase um ano depois, quando finalmente revisitei essas memórias e comecei a escrever esse texto. Ou talvez ainda não tenha terminado, já que me importo o bastante para ainda pensar sobre isso e terminar com as mãos trêmulas no teclado sem saber onde, como ou quando colocar um ponto final aqui.

 

 

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Sem Título

47. Sem Título

Eu tentei escrever, mas hoje me faltam palavras. Eu, que sempre me refugiei em meio às páginas de meus livros, que sempre invejei os personagens que moram nas paredes de minha estante, me encontro agora incapaz de usar minhas mais potentes armas. Sinto as letras me escapando, escorrendo por entre meus dedos antes que eu consiga agarrá-las. Sem nada reter, tudo me escapa, não há limites ou filtros que me ajudem a criar contorno, me sinto vazio ao fim do dia. Todos os dias.

A falta de recursos não me deixa expressar ou mesmo entender com clareza o que sinto. Sem poder traduzir o que vivo, sufoco com aquilo que não é dito. O som entala e não sai pela garganta, as mãos trêmulas não conseguem desenhar a caligrafia e eu me afundo. Me enterro no conjunto desajeitado de funções que sou.

Perdida, é como se nenhuma peça se encaixasse no quebra-cabeças que a vida me fez. Sinto arrepios ao olhar para a folha em branco, mas os dedos continuam ali, apertando a caneta, tentando dominá-la. O caderno surrado que mora no fundo da minha mochila vive a me chamar, como um lembrete diário de que eu devo voltar, de que é preciso voltar, porque é isso que eu sei fazer. É em meio ao rascunho que eu me encontro. Me reconstruo, letra a letra, encaixando peça por peça, quantas vezes precisar, afinal sei que essa não é a primeira e nem será minha última crise com as palavras.

É sempre difícil recomeçar, quando os moldes antigos já não servem mais, mas não há nada que me comporte, nenhum apoio ou conforto enquanto me retalho procurando um fio que dê a liga que preciso. Confusa, busco novos caminhos, e me surpreendo quando me deparo com uma velha esquina, há muito conhecida, bem no meio do trajeto. Não existe mapa para quem não sabe onde quer chegar, as linhas pouco servem de guia para alguém que não saber como dizer o que quer dizer. Aos poucos os rabiscos voltam a tomar forma, os traços desconexos viram letras, que se misturam até que as palavras surgem no papel e frases inteiras se montam bem diante dos meus olhos. Novos textos chegam para contar as histórias que vivo, sinto e crio. A tinta que marca o papel é testemunha de meu primeiro encontro com aquilo que já morava em mim, histórias que se mostram a mim e conheço conforme escrevo.

Hoje, estou apenas tentando achar o caminho de volta às palavras, escrevendo mais um trecho de minha própria e singela história. Me desculpe por te fazer ler tantos rabiscos.

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Por Trás das Minhas Lentes

Ótica (4)

 

Nosso caminho foi interrompido. Você nunca foi planejada, mesmo assim foi concebida. Eu não posso dizer que tenha sido um sonho, porque nunca realmente te quis pra mim, mas confesso que o mundo que se abriu quando você chegou foi bem interessante. Tudo era novidade, era leve, elegante. Me diverti bastante montando, escolhendo e enchendo suas prateleiras. Aprendi muito, mas nunca senti a seriedade de te ter em minha vida. Me esforcei muito para que você começasse, passei dias trabalhando para que você acontecesse.

Contigo aprendi a apreciar o formato do meu rosto, agucei meu senso estético com todos os seus acessórios, a ponto de mal me reconhecer sem os meus óculos. Todos eles: o preto, o azul, o vermelho, o roxo, o outro azul e aquele pintadinho que todo mundo quer saber o nome. Todos praticamente do mesmo modelo (minha marca registrada), mas únicos aos meus olhos.

Depois de uma aproximação tão intensa, você caminhou sozinha e eu me afastei bastante, hoje me arrependo um pouco. Eu não percebia porque me acostumei a tê-la sempre por perto, logo ali ao lado. Não dei o seu devido valor.

No último ano tudo mudou e, de repente, você virou minha morada. Vieram os problemas de rotina, os imprevistos. Comprar café, ligar no suporte do sistema, correr no banco, fazer anúncio, resolver troca e imprimir nota fiscal.

Aos poucos nos reaproximamos e eu fui te domando. Apesar de não ter o conhecimento técnico, não podia ser tão difícil! Não quando você sempre fora parte de mim. Mas dado o momento e as circunstâncias, me vi ameaçada e, pela primeira vez em todos esses anos, senti o peso enorme de ser a dona da assinatura em todos aqueles papéis.

A decisão de te deixar partir não foi nada fácil. Eu relutei e procurei alternativas, mas o peso era tão grande! Eu fiz de tudo e não consegui, naufraguei. Encerrar foi como matar um pedaço daquilo que mora em mim.

De um dia para o outro vi portas sendo abaixadas, pedaços da nossa história sendo cobiçados, pechinchados, objetificados e descartados. Parte de mim foi encaixotada junto com tudo o que um dia, apesar de não ter sido sonho, foi realização.

Eu montei cinco lojas na minha vida, desmontei duas, você foi a melhor e mais gostosa de começar e a mais dolorosa de encerrar. E eu não podia deixa-la na mão, terminei aquilo que comecei. Aquilo que, apesar de não ser meu, era meu. Agora com o dobro de maturidade e responsabilidade, carregando todo o seu peso nas costas, me sentindo terrivelmente sozinha. Encerro com alívio e a paz de saber que estou fazendo a coisa certa, mas isso não minimiza o sofrimento de ver suas paredes vazias e nós duas encolhidas em algumas poucas caixas sem saber ao certo o que nos resta.

 

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Eu Planto

Suculentas (32)            Sempre gostei da beleza das flores, e com o tempo aprendi a apreciar a vida das folhas, identificando as nuances de diferentes tons de verde. Mas foi sujar as mãos de terra que me ensinou que aquilo que apreciamos requer muito trabalho e que o processo nem sempre é bonito.

            Plantando, aprendi que a terra dá apenas as condições, mas é a semente que desabrocha, revelando aquilo que carrega em si, aquilo que consegue, pode e tem de ser. Já percebi que deixo um pedaço de mim em cada vaso que faço, registrando ali meus traços, estilo e escolhas. E me permito levar um pouco de sua graça e espontaneidade comigo, além dos resquícios de terra que ficam impregnados por baixo de minhas unhas.

            As plantas também me ensinaram a dividir e a me conectar com outras pessoas. Troco mudinhas com minha mãe e avó e assim três gerações conversam sobre suas técnicas e cuidados. Ouço histórias sobre o jardim de minha mãe e sobre como minha avó trocava mudinhas com suas vizinhas. Agora nos presenteamos e saímos juntas para procurar novas espécies para nossos quintais. Juntas, nos divertimos por uma tarde inteira, não fazendo nada além de sujar nossas mãos e o chão a nossa volta. Não tem problema se os outros não entendem o motivo de passarmos tantas horas entretidas com algo tão pequeno, nós entendemos – e nos entendemos.

            Por trás de toda delicadeza e fragilidade de uma flor há nutrientes, afinal ninguém sobrevive sem um pouco de cuidado. Há também raízes e húmus, mantendo-as em pé. Precisei me mudar de casa e comprar minhas próprias plantas, com o singelo intuito de decorar, para aprender com elas que cada um tem o poder e o dever de fazer sua morada. As raízes pertencem à planta, independentemente do tamanho ou formato do vaso, é nela que crescem, agarrando-se à terra enquanto se atém à vida.

            Assim como nós, elas vivem em ciclos. O sentido de plantar não é observar a beleza estática das flores, como em um retrato, mas justamente o contrário: é observar seu movimento, testemunhando a vida que acontece bem diante dos nossos olhos, do lado de fora, na rua ou no quintal, ou ainda a incrível capacidade de adaptação da flor que é eleita para ficar dentro de casa, com ar e luz reduzidos.

Plantando (1)

            Quando uma flor murcha e cai, um botão cresce em seu lugar. Aprendi que posso replantar as folhas que caem, assim sou presenteada com uma

 nova muda, que cresce em seu lugar. Plantar me ensinou a ser paciente, regar e oferecer luz, proteger da chuva, e fazer tudo isso com um único propósito: deixar ser. Cuido de algumas plantas o ano inteiro apenas para vê-las florir uma vez ao ano. Outras possuem ciclos tão rápidos que mal as percebo mudando. Uma folha que cresce, um ramo que nasce. Botões que surgem aos meus olhos em sequência.

      O cheiro da terra recém molhada e dos diferentes temperos que crescem desordenadamente na pequena jardineira em minha sacada são um lembrete diário de que eu sei cuidar, de que eu também estou sendo aquilo que posso ser.

 

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Uma Última Vez

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Me sinto no direito de dizer que nós crescemos juntas. Quando pequena, brinquei em seu quintal e corri por seus corredores. Fiz lição com o caderno apoiado embaixo do balcão e brinquei de bonecas na mesa do refeitório. Passava tanto tempo lá que até fui eleita a responsável pelo café, arma poderosa para combater aquele soninho do turno da tarde.

Você passou por um rompimento de sociedade e eu de família. Perdemos partes vitais, ficamos sem energia e foi difícil nos reerguermos, eu diria que só conseguimos por estarmos juntas. E foi assim que amadurecemos, sob o mesmo teto.

Já que estamos conversando, preciso te contar que eu nunca me senti muito íntima de ti. Acho que em partes porque passei anos te culpando por tudo o que aconteceu em minha vida, mesmo sabendo que prateleiras de metal não vão embora e mercadorias não tomam decisões. Foi por isso que saí sem olhar para trás, deixei sua familiar rotina para seguir outro caminho, outra profissão, uma de minha escolha.

Com a cabeça cheia de razões, resisti a voltar. Passei dois anos tentando me convencer de que havia espaço para nós duas e que eu podia aprender a conviver contigo, te encaixando em algum canto dentro de mim. Relacionei prós e contras: a família, as finanças e, principalmente, a liberdade de voltar por escolha própria.

Encaramos uma reforma juntas, ou melhor, uma reestruturação, como gosto de chamar. Você foi quebrada, recortada e remodelada, ficando inabitável por alguns meses, até ganhar uma nova forma e ficar irreconhecível. Mas, não há tinta no mundo que apague a história de uma velha parede. Não, o lugar continuou impregnado de lembranças.

Distraída por sua nova beleza e tentando te organizar dentro de mim, não percebi que, apesar da carcaça reluzente, você começava a apodrecer. Um miolo estragado que foi capaz de consumir cada um de nossos recursos, começando pelos seus, até chegar aos meus.

Pouco a pouco, sem notar, sinto que perdi tudo. Fiquei vazia. E ainda é difícil acreditar que, pela primeira vez, já não posso contar com seu apoio. Desta fonte já não sai sequer uma gota. Então me diz o que fazer com essa sede que queima a minha garganta todos os dias?

Larguei tudo para voltar… Parece que há uma força que nos atrai, não é mesmo? Mas só se volta para um barco naufragando quando há algo de muito valor a ser resgatado. Pois bem, meu bem mais precioso estava lá, enterrado nos fundos de um escritório, sem querer arredar o pé, o que nos custou tempo e energia, até que começássemos a nadar todos juntos para a saída. Uma saída que logo se tornou qualquer saída.

Juntas, conseguimos encontrar alguém que acreditou em nós: em seu potencial e em minha história. “Demos sorte”, dizem. Mas nada disso ameniza a dor que senti ao ter que sair uma última vez por suas portas, sabendo que já não seria mais bem-vinda e que nós duas, tão familiares, já não nos pertencíamos mais.

Parece que eu ainda não digeri tudo. Não importa de quantas reuniões de planejamento eu participe ou de quão forte eu finja ser durante o expediente, a verdade é que eu estou perdida, sem saber o que fazer sem você. Outro dia quase não a reconheci, quando te vi do outro lado da praça, transvestida em sua aparência e essência, cheia de mercadorias e vazia de identidade.

Como foi que nós viemos parar aqui? E para onde eu vou agora?

 

 

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Pisca-Pisca

43. pisca-pisca

Cheguei em casa e, ainda no escuro, procurei o fio da tomada que ligava os enfeites. Logo a sala foi invadida por luz e cores, muitas cores. Acende. Apaga. Pisca. Pisca. Era um alívio saber que eu não precisava acender a tediosa luz branca do cômodo no mês de dezembro. Não, durante trinta dias, minha casa era tomada por cores.

Abri as janelas para poder ver as luzes piscarem lá fora, no fio estendido em volta da pequena sacada do apartamento. A árvore, estrela do meu show, brilhava majestosa no canto da sala. E os pequenos enfeites faziam festa em volta dela. Todos os anos eu me preparava para o dia da decoração, colocando músicas natalinas para tocar e um gorro vermelho e branco na cabeça enquanto começava a tirar as caixas e sacolas do armário. Desembalar os enfeites era como reencontrar velhos conhecidos, estavam todos ali: o pequeno pinguim de pelúcia, a corujinha fantasiada de rena, os enfeitinhos de Papai Noel, em diferentes cores e tamanhos, e a miniatura de presépio que ganhei no último ano.

Eu arrisco o clichê de confessar que é o único período em que não me sinto sozinho dentro dos apertados sessenta metros quadrados em que vivo. As cores me acompanham aonde quer que eu vá e é a época do ano em que tudo vira festa, as pessoas ficam mais bem humoradas e os males se amenizam, ainda que temporariamente.

A noite de Natal passa muito rápido, não fazendo jus a tanto preparo e tempo que gastamos com ela. A hora da festa me traz sentimentos ambíguos, apesar de passar muitos dias ansioso por aquele momento, não há nada pior do que um feriado de família para te lembrar daqueles que já não estão mais aqui. Nada pior do que ouvir os colegas fazendo planos e saber que desta vez você não terá ninguém para dividir as festas, não haverá beijo à meia-noite e nem mesmo uma troca de mensagens. Desta vez fui só eu, eu e minha família, quero dizer, a família e  aqueles parentes que brigaram o ano todo, mas estavam ali marcando presença na sala de visitas.

Mesmo após uma semana, meu estômago ainda não se recuperara dos excessos da ceia. Todo o organismo se queixava: noites pouco e mal dormidas, música alta, parentes indesejados, saudades e comida, muita comida.

Depois de acender as centenas de pequenas lâmpadas, segui para a cozinha e abri a geladeira, todas as sobras ainda estavam lá, esquentei-as e revivi aquela refeição uma vez mais. Agora sozinho, na estreita mesa de dois lugares que preenchia a cozinha. Comi olhando para os reflexos que as luzes vindas da sala faziam na parede.

Voltei para a sala, sem me dar ao trabalho de recolher a louça suja – vantagens de morar sozinho. Sentei de frente para a árvore e observei. Acende. Apaga. Pisca. Pisca. Reparei que uma lâmpada estava queimada e não acompanhava mais a dança de suas companheiras. Olhei para os lados mas não havia ninguém com quem comentar – desvantagens de morar sozinho.

Sentado ali, me dei conta de que não queria desmontar a decoração, porque isso significava admitir que a festa acabou, que um novo ano começaria e que as promessas de emagrecer e ser mais produtivo deveriam ser colocadas em prática. Não queria voltar a chegar em casa e encontrar apenas uma deprimente luz branca e opaca. Não queria voltar ao trabalho e nem encarar as filas de estacionamento do shopping para trocar aquela camiseta apertada que ganhei da minha avó.

Natal não é só festa, é uma pausa, é quando a vida fica um pouquinho mais descomplicada e a gente não se cobra para obter metas e resultados, é quando aceitamos andar mais devagar, sair para passear e não fazer nada além de observar a decoração e detalhes dos outros prédios. Quando nos permitimos elogiar uns aos outros, reconhecendo cada feito. E assim que ele acaba é preciso voltar para a superfície, para a rotina. A única esperança é saber que em alguns meses ele estará de volta para nos preencher de luz. Acende. Apaga. Pisca. Pisca.

 

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Verdade

42. Verdade       Você disse que minhas palavras não enganariam a ninguém, e que já passara da hora de escrever algo verdadeiro, pois só uma frase verdadeira poderia revelar meu estilo e aprimorar minha escrita.

            É sinceridade que você quer? Mas eu nunca vi alguém escrever sobre suas noites mal dormidas e a fragilidade sentida ao deitar a cabeça no travesseiro, vestindo nada além de um pijama largo e fantasias que nunca se realizarão. Ninguém comenta suas dores de cabeça e o fato de sentir que não possui todos os recursos e forças cuja posse alega todos os dias como forma de sobrevivência.

            Nunca conheci ninguém que falasse abertamente sobre a vontade louca de comer doces, já que esse é um dos poucos prazeres que temos na vida. Ou sobre sua barriga apertada dentro da calça jeans após uma noite de fraqueza, recheada de guloseimas. E quem levantaria a voz para dizer que já não tem mais crédito e que ainda não sabe como fará para pagar a próxima fatura.

            Jamais vi alguém admitir que foi autor de uma injustiça, que praticou bullying nos tempos de colégio ou mesmo que espalhou aquele boato que comprometeu a promoção do concorrente. Aliás, cidadão de bem não sai por aí alegando ter concorrentes, o que tem são pessoas com inveja de seu sucesso. Mas se você é um daqueles que pensou “que sucesso?”, fique calmo, isso apenas quer dizer que você ainda não chegou lá, mas o jogo vai virar, ele sempre vira. Ou, pelo menos, é o que dizem.

            Como ser sincero e admitir publicamente que às vezes desejo outras que não minha parceira, se não tenho nem coragem de dizer a ela que gostaria de ter mais espaço só para mim, e que seu jeito pegajoso acaba por me irritar na maior parte do tempo. Adoraria que ela não quisesse conhecer toda minha agenda. E que delícia seria não ter uma, apenas me deixando levar por aí, sem planejamentos ou compromissos massacrantes.

            Como contar que eu adoraria ganhar dinheiro fácil ao invés de passar anos sentado em uma cadeira medíocre de faculdade, ouvindo a promessa de um plano de carreira. Honesto a ponto de assumir que há dias em que não tenho vontade de acordar, e sair da cama é uma tortura enorme. Arrasto minha carne flácida até o chuveiro, ansiando pela hora de poder voltar para meu quarto escuro.

            E por que não contar que eu já pensei em acabar com tudo. Por uma vez ou outra, acabar com ela ou comigo, já que em ambos os casos me parece se tratar de autodefesa. Já procurei alternativas, esgotei-me em pensamentos, mas não adiantaria me mudar e recomeçar, ou mesmo voltar no tempo com uma nova chance. Não há solução enquanto eu levar a mim na bagagem.

            Entende agora? Eu não sei se alguém se interessaria em ouvir isso.

 

 

 

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Tonalidades

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     Eu sou aquarela. Fruto das cores que me pintam e que pinto no mundo. Vou desde a pureza de uma folha em branco até o caos barulhento de uma noite negra. Sou o azul mercado pela tristeza, sofrendo a saudade de quem já não volta mais. E no outro dia acordo tingida de dourado, exalando a energia que me esbalda. Turquesa me traz tranquilidade, mas a felicidade surge é com os raios de um bom amarelo, brilhante como um dia ensolarado. Há em mim um vazio, onde o cinza preenche tudo o que vê pela frente, são dias frios, apáticos e, por vezes, fico roxa de medo, temendo que essa sensação não passe, mas logo surge uma tonalidade de rosa no horizonte, e então tenho novamente a certeza de que tudo ficará bem, o amor chegou. Só preciso me preocupar quando a intensidade é tamanha que me deixa vermelha, de paixão ou mesmo de raiva, afinal o que os separa é uma linha tênue. O laranja chega gritando por atenção, e é impossível não reconhecer a exibição que há ali. Mas há ainda o bege da preguiça, ou mesmo da desistência, afinal só alguém que já desistiu do dia usaria uma lingerie bege. Confesso que adoro acordar sentindo o cheiro do verde, que me remete à liberdade de um campo aberto, sem regras, sem cercas. Até que, em algum momento, sou invadida pela indecisão de um tom coral. Pastel. Neon. Metálico. Fosco. Vou me misturando, a intensidade e a transparência de minhas cores vão contrastando e sendo absorvidas por meu mundo, minha tela. Me impregno conforme vou colando e descolando sentidos. As tonalidades afetivas me cobrem e descobrem, e eu sigo, misturando tons, ousando e me reinventando. Uma vez pincelada, não posso voltar a ser, mas posso sempre vir-a-ser, basta acrescentar um pingo e pronto, já sou diferente. É, sou aquarela.