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Máscara

Máscaras faciais usadas durante a pandemia do Coronavírus.

Sonhei que esquecia de vestir a máscara.

Eu entrei no elevador, desci, caminhei pelo hall do prédio e sai pela portaria, cumprimentando Julia, a funcionária do turno da manhã. Ela respondeu com um aceno, sem levantar a cabeça, e continuou fazendo anotações em seu livro de registros.

Foi só quando coloquei os pés na rua e senti uma lufada de vento gelado batendo em meu rosto que percebi. Levei as mãos ao queixo, tensa, e confirmei: estava sem a usual máscara de tecido que cobria metade da face.

Afastei rapidamente as mãos, lembrando que tocara uma série de objetos pelo caminho e ainda não havia me higienizado com álcool em gel. Foi isso que a vida virou: limpeza, preocupação e culpa.

Dei meia volta, passando pelo portão de cabeça baixa, e refiz meu caminho, andando rápido, com medo de cruzar com alguém e precisar me explicar. O condomínio aplicava multas em quem transitava em área coletiva sem máscara.

Puxei a gola da blusa, para tentar cobrir a boca e o nariz, enquanto rezava para não encontrar com nenhum vizinho no elevador. A subida foi longa, e eu estava tão nervosa que sentia os dedos trêmulos enquanto tentava encaixar a chave na fechadura.

Parece que só me permiti respirar novamente assim que me vi no aconchego de minha sala. Antes, via minha casa como um local de descanso, agora, era meu espaço seguro, possivelmente o único onde me sentia à vontade e em paz. Podendo respirar sem um tecido roçando em meu rosto, coçar os olhos, comer e tocar livremente nos objetos, desde que estivessem higienizados, é claro.

Ouvi o som de uma música invadindo a sala e rompendo com meu silêncio. E então acordei.

Era o despertador.

Levei a mão ao rosto, tateando meu queixo, boca, e nariz. Estava tudo bem, ainda estava em casa. Me afundei debaixo nas cobertas e me espreguicei, tomando coragem para levantar.

***

Passei o dia todo pensando no sonho e na aflição por me sentir despida da nova vestimenta social: a máscara facial.

É curioso como mesmo algo extremamente incômodo pode se tornar um hábito. A máscara tem dupla função: nos protege dos outros, enquanto os protege de nós. No começo, me sentia incomodada e demorava a conseguir ajeitá-la no rosto junto com os óculos, de forma que as lentes não embaçassem, por conta da respiração.

Me sentia esquisita, feia. Contava os dias para que sua obrigatoriedade acabasse. Agora, mais de um ano depois, confesso que não sei se saberia reconhecer algumas pessoas sem ela na rua. A Julia, da portaria, por exemplo, está trabalhando aqui há seis meses, o que quer dizer que, apesar de nos cumprimentarmos diariamente, nunca vi metade de seu rosto.

 Também demorei para me acostumar a não cumprimentar as pessoas com um beijo no rosto ou aperto de mãos. Me parecia falta de educação, dizer “oi” sem me aproximar. Ao mesmo tempo, é estranho pensar no quanto nos expúnhamos desnecessariamente ao tocar tantas pessoas sem saber no que elas haviam tocado antes.

Higiene, saúde e proteção foram conceitos ressignificados durante a pandemia. Apesar de sentir falta da tranquilidade de não precisar me preocupar com tantos detalhes, espero que consigamos manter alguns dos hábitos de higiene recém adquiridos. Afinal, não há mal nenhum em lavar as mãos assim que se chega em casa, não é mesmo?

Não acredito que estejamos vivendo um “novo normal”, como tantas matérias sensacionalistas insistem em dizer. Ainda vivemos em meio ao caos e, apesar das previsões, ainda não sabemos como sairemos dessa. Transformados, eu tenho certeza.

Sei que a pandemia não acabou, a doença é uma ameaça, e o comportamento de algumas pessoas também. Luto diariamente para cuidar de minha saúde física e mental, estou aprendendo a conviver com minha ansiedade, já que ambas habitamos as paredes de minha casa. Tento cuidar das pessoas queridas à distância e cuido do coletivo ao colaborar, não saindo sem necessidade e tomando todas as precauções possíveis.

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Confinada

Confinada, olhando por janela fechada com grades.

Eu sei que todo mundo já está cansado de ouvir falar em quarentena e que cada um tem o seu relato. Mas eu precisava escrever sobre isso, então me desculpe. A escrita é, para mim, uma forma de expurgar os sentimentos, coloco para fora tudo aquilo que não cabe em mim. E hoje, meus amigos, transbordo.

Completamos um ano de pandemia. Dá para contar nos dedos quantas vezes vi minha mãe, meu irmão e minha família. Os amigos eu não vejo desde janeiro do ano anterior. Lembro de todas as conversas que tive com a minha mãe, preparando-a com antecedência em cada data, já com a certeza de que não comemoraríamos nossos aniversários ou o Natal.

Fazer aniversário foi uma experiência muito estranha, porque eu adoro comemorar. Mas, me senti muito mal em celebrar a vida em meio a tanta destruição. Tantas famílias arrasadas, tanto desgoverno.

Terminamos uma volta ao sol e tudo ainda parece parado. Fomos pegos de surpresa, mandados para casa no susto, com nossos notebooks embaixo do braço e um suposto home office.

Só que nós não estamos trabalhando em casa, estamos de quarentena! É muito difícil fazer absolutamente todas as atividades dentro do mesmo ambiente, sinto que não descanso, não paro nunca. E, quando faço uma pausa, me vejo perturbada com as notícias, os números crescentes e as decisões mortais do governo. A ansiedade é tanta que não consigo dormir. Me encolho na cama, perdida em pensamentos e medos. Logo o despertador toca e começa tudo de novo: exercício, trabalho, almoço, jantar, cama.

Sinto-me impedida, estou em casa há mais de um ano, sem ir caminhar em um parque, como tanto amo, sem fazer uma compra que não seja no supermercado. Sair é uma experiência perturbadora agora: manter o distanciamento em relação a outras pessoas, o elástico da máscara apertando a orelha, o suor sempre escorrendo por dentro da máscara e abafando a respiração. O álcool que protege é o mesmo que resseca as mãos.

A vida parou, mas não voltará a ser como antes. A verdade é que ainda não sabemos como tudo será. Sem pessoas queridas, sem tantos comércios que não resistiram à devastação da economia. Ninguém sabe ainda como iremos nos comportar socialmente. Aglomerações me parecem uma realidade tão distante hoje, e digo isso com ingressos de shows comprados e guardados na gaveta. Será que me sentirei segura para ir a um evento? Provavelmente não.

Apesar de tudo, todas as noites agradeço por meus privilégios, tenho uma casa confortável, uma pessoa maravilhosa ao meu lado, e minha família ainda está bem. Sinto uma tristeza enorme dentro de mim ao pensar em quantas famílias estão enlutadas neste momento, enquanto pessoas como eu reclamam alergias na mão; ou pessoas como muitos de meus colegas nas redes sociais, que reclamam por não irem à praia.

Sinto um buraco enorme no peito, tristeza e ansiedade têm sido companheiras constantes. É horrível encarar a morte tão de perto ˗ e eu nem sei o que é estar em uma linha de frente ˗ e não saber até quando estarei bem. Por quanto tempo ainda aguentarei até minha saúde física e/ou mental desabar?

Cada dia é uma batalha, e estamos sobrevivendo: à Covid, à economia e às doenças emocionais que nos atingem. Minha luta diária, e o que eu desejo a todos, é que se protejam e sejam gentis consigo e com todos à sua volta. Não estamos motivados ou superprodutivos porque vivemos um período histórico digno de uma distopia.

Infelizmente é real.

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Ritual

Mesa preparada para escrever, com Notebook, caderno e uma xícara de café.

Sofro do que chamo de procrastinação produtiva. Sou uma pessoa extremamente acelerada, daquelas que não consegue ficar parada, estou sempre fazendo algo e já pensando na lista das próximas atividades. Até o fim do dia já terei acrescentado mais itens e, se der tempo, passo a lista a limpo, porque ninguém merece ficar olhando para uma folha toda rabiscada. 

Ordem e método são palavras que fazem carinho a meus ouvidos. Mas, apesar de ser super produtiva, isso não significa que eu seja sempre assertiva. É vergonhosa a quantidade de vezes em que na verdade não sou. 

O fato de não ficar parada dá a falsa sensação de que estou sempre em dia com os compromissos. Mas acabo perdendo muito tempo criando pequenos rituais, ou refazendo o que já estava feito, em busca de uma falsa sensação de perfeição que me traz alívio, ainda que momentâneo.

Tento resolver pequenas pendências antes de começar a fazer o que realmente importa. Por um lado, tiro um monte de coisas da mente e coloco alguns compromissos em dia. Por outro, já estou cansada quando finalmente vou começar o dia, parece que o relógio vive correndo contra mim.

Por exemplo, antes de escrever, escolho um caderno para colocar os primeiros rascunhos. Abro a pasta do computador onde guardo meus arquivos, releio trechos, reorganizo a ordem dos textos, crio pastas para categorizá-los e passo algum tempo remexendo no que já foi feito.

Em seguida, preparo meu espaço de trabalho e gasto muito tempo criando as condições ideais: luz, espaço, um chazinho ou café para acompanhar. Tem dias em que até acendo uma velinha aromática para dar um toque ao ambiente. Tudo precisa estar confortável e propício para a atividade, como se fosse isso que a possibilitasse. Crio uma mesa digna do Pinterest, aí paro para tirar uma foto, é claro.

Depois, finalmente me concentro e começo a rabiscar, crio tópicos para estruturar o texto. Por vezes me distraio com uma ideia nova que surge e paro para fazer anotações em paralelo. É sabido que perdemos tempo na troca de contexto. E assim, demoro para voltar minha concentração para a ideia original.  

Faço tudo antes de fazer o que realmente importa: sentar e começar a escrever. Não importa muito se o primeiro rascunho será feito no computador, em um caderno ou em um guardanapo amassado. O mais importante é me permitir deixar as ideias fluírem, tornar minha mão com a caneta um instrumento criativo. Escrever sem filtros ou bloqueio. A revisão fica para um segundo momento, com seus próprios rituais.

Não espere o momento perfeito, considere o agora como o sinal que você estava esperando. Comece, só assim poderá testar, conhecer seus resultados e progredir.

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Furo no tempo

Imagem de relógio para contar o Tempo.

“Você acha que eu tenho tempo pra isso?”, foi a resposta que ouvi ao meu pedido. Recolhi minha mágoa, guardando-a para lidar na terapia. Passaria horas destrinchando a rejeição, parecida com aquela outra que sofri na infância e que, provavelmente, era a responsável por eu me sentir da forma como me sentia hoje. 

Mas quem tem tempo para alguma coisa nos dias de hoje? Além de extremamente ocupados com nossos afazeres, desperdiçamos horas em nossos smartphones e usamos a boa e velha desculpa do tempo. Ninguém contesta, pois, eventualmente, todos usam a mesma carta. 

Eu sei como é não ter tempo para almoçar e só comer um lanchinho, matar a ida à academia por falta de espaço na agenda, pedir uma pizza porque não deu para cozinhar, perder uma consulta por ter calculado mal o trânsito, remarcar um cinema porque precisou trabalhar até mais tarde, perder a hora porque foi deitar exausto na noite anterior. E, meu favorito: combinar de combinar um almoço entre amigas e nunca chegar às vias de fato, porque parece impossível encontrar compatibilidade entre as agendas – spoiler: quanto maior o grupo de amigas, mais difícil. 

Heidegger dizia que é a temporalidade que nos define. Mas provavelmente ele não se referia a como nos tornamos escravos de nossas vidas pela falta dele. Vivemos em falta, sempre adiando e nos esquecendo de perguntar o que realmente importa. Será que um compromisso de trabalho é mesmo mais importante do que um final de semana de folga? Nunca vi alguém exausto conseguir ser produtivo. 

Temos relógios, mas não temos equilíbrio. Esquecemos há muito que somos nós mesmos os responsáveis por administrar as 24 horas que o dia nos dá, e o dia seguinte também, e depois o outro. E não adianta resmungar, o primeiro item da agenda deve ser organizar a própria, ou o resto vira um caos.

Escolhemos o que fazer com nossa limitação de tempo, por isso, aprender sobre prioridades deveria fazer parte do currículo básico das escolas. Ficamos frustrados por não conseguir dar conta de tudo o que gostaríamos e, invariavelmente, chateados se não somos escolhidos – ou priorizados – por outras pessoas. 

Por isso, quando meu irmão disse que não tinha tempo para me ajudar a instalar meu quadro novo fiquei chateada: ou ele não me priorizou, ou apenas usou a desculpa do seu relógio. É apenas um furo na parede, pelo amor de Deus!

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Ensino à Distância

Mesa de estudos preparada para ensino à distância.

Me inscrevi em um curso de extensão no início do ano. Acredito que de vez em quando é bom sair da própria bolha e olhar para fora, apreender novas técnicas, descobrir as soluções que outras pessoas e empresas estão usando. As aulas começaram em março, logo após o carnaval.

Passei por um processo já conhecido, mas que ainda foi capaz de causar frio na barriga: programar o despertador e dormir mal à noite, achando que perderia a hora, conhecer um caminho novo, descobrir o andar e a sala, entrar na tal sala já cheia de pessoas. Apresentação da turma e do professor, conteúdo programático e, mais nervoso ainda, na hora de fazer a apresentação pessoal. Nunca tenho certeza sobre o que falar sobre mim… Como fazer um recorte rápido que me resuma, sem parecer esnobe, tampouco simplória? Como parecer interessante em meio a tantos estranhos?

Gaguejei, me atrapalhei na fala, sentindo uma gota de suor frio escorrendo por dentro de minha camisa nova, meticulosamente escolhida para a ocasião. Bem na minha vez fomos interrompidos por uma batida na porta. Uma funcionária da secretária veio trazer a lista de presença e nos deu um brinde de “boas-vindas”, uma caneta de tinta azul com o símbolo da universidade. Peguei a caneta, com um sorriso amarelo e esperei para poder continuar minha exposição. A caneta sequer funcionava, como comprovei assim que o professor começou a aula.

Na semana seguinte tivemos o curioso fenômeno da formação de grupos, as famosas “panelinhas”. Cheguei a comentar que éramos uma turma só de mulheres? Uma tentando lembrar o nome da outra e a empresa onde cada uma trabalhava. Demos início ao tão estimado Networking.

Mas logo em seguida a cidade entrou em quarentena. As aulas presenciais foram canceladas e os professores prontamente buscaram uma alternativa digital. Usemos a tecnologia a nosso favor, não é mesmo?! A partir da semana seguinte, passamos a nos encontrar de forma digital, com alguns recursos improvisados, outros funcionais, mas demos um jeito de seguir em frente.

Algumas pessoas desistiram do curso e saíram do grupo sem avisar. Além disso, as perdas foram inúmeras: câmeras desligadas, devido à timidez, nos privando de contato e vínculos, problemas técnicos, falhas de comunicação, aliás, pouca comunicação, baixo engajamento e pouquíssima participação.

Sinto que deixamos uma chance escapar, perdemos a chance de nos conhecer, nos ajudar e nos divertimos juntas. As aulas se tornaram online, quase como assistir um vídeo ou palestra, passivo, fraco.

Foi triste perceber quão pouco as pessoas se engajaram e como a motivação para o curso caiu com a proposta de ensino à distância. Nunca saberemos o que teria sido diferente em um curso presencial, já que ele nunca aconteceu. Viramos cumpridoras de tarefas, isoladas e frustradas com nossos planos interrompidos.

Por outro lado, mesmo à distância, o curso é uma oportunidade de entrar em contato com outras pessoas da área, nem que seja uma vez a cada sete dias. Me mantém ocupada e me dá tarefas práticas para realizar durante a semana. Tenho aproveitado o tempo – e investimento – para buscar materiais complementares em vídeos, livros e artigos.

Beber de outras fontes ajuda e, nesse momento, ter uma ocupação prática é um alívio enorme. Mas, me frustra me arrumar todos os sábados, para ficar com a câmera desligada, ouvindo a voz de um professor com sono, explicando o conteúdo da forma que consegue, sem o viés presencial. Me entristece o fato de que nunca saberemos como nosso encontro poderia ter sido.

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Palavras

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Ontem foi meu aniversário. Vou contar pra vocês que fazer aniversário no meio da pandemia não é legal. Acho que a data nos deixa introspectivos, faz pensar bastante e fazer aquele “balanço geral”. Me senti travada, meus desejos e expectativas parecem ser os mesmos do início do ano. Mais alguém tem a sensação de estar parado no tempo? Por aqui a vida parece em pausa. E, pior, não vi muitos motivos para comemorar em meio a tanto sofrimento e desgoverno que temos enfrentado. A cada dia uma notícia ruim e mais mortes que entram na conta. É estranho celebrar a vida em meio a tanta destruição. Mas eu, assim como tantas outras pessoas, vi o calendário correr até meu dia.

Sem poder ver meus amigos ou abraçar minha família, tive um dia bastante agitado, com algumas videochamadas cheias de carinho. O interfone tocou algumas vezes, anunciando presentes que chegaram de surpresa, alegrando e adoçando meu dia. Mas o meu maior presente foram as palavras.

O dia começou com a habitual sessão de terapia que acontece às sextas. Minha terapeuta foi a primeira a me dar suas palavras: escolheu “sonhos”, “inspiração”, “coração” e mais algumas que eu esqueci pois já estava chorando.

E assim foi pelo resto dia: as palavras vieram na voz de quem passou o dia comigo e chegaram aos montes em meu celular, via mensagens nas redes sociais, posts apaixonados, recados carinhosos em minhas caixas de entrada, áudios para me fazer sorrir, palavras escritas em cartas, palavras ditas à distância de uma tela, e até as palavras não ditas, de quem não apareceu. Terminei o dia com os bolsos cheios de dedicatórias e desejos.

Foi muito engraçado ver como sou vista aos olhos dos outros: me desejaram muitos cafés, amor, bons encontros, corujinhas, muitas aventuras caninas, plantinhas, sucesso na escrita, e eu poderia encher mais uma estante com o tanto de livros e leituras que me foram desejados (amém!).

Não achei que me sentiria renovada assim, mas aconteceu. Eu e meus cabelos, que já começam a ficar brancos, agradecemos por cada uma das palavras recebidas. Obrigada ❤️

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Quarentena

Estou em casa há vinte e cinco dias. Trancada em regime de semiliberdade. Sem previsão de quando poderei sair. Falar em segurança hoje parece irrisório. As pessoas se cobrem, se lavam o tempo inteiro e estão mais conscientes do que nunca sobre a frequência que costumam tocar o próprio rosto. Hábitos de higiene que já deveriam ser rotineiros são ensinados a todos pela televisão, como informações novas e revolucionárias. Máscaras de pano são improvisadas e o álcool em gel virou item de necessidade básica, presente em todas as listas de compra feitas no último mês. 

O inimigo é invisível e, por não sabermos se ele está lá, nos comportamos como se estivesse em todos os cantos. Uma simples ida ao supermercado é acompanhada de uma dose de ansiedade e bastante paranoia. E não sou só eu, noto que as pessoas se olham desconfiadas, com medo umas das outras, pois qualquer um pode ser o portador do mal que nos rodeia.

Agradecemos pela internet e aplicativos que nos permitem fazer compras online, no conforto e segurança de nossos sofás. Mas alimentamos um sistema que obriga trabalhadores a continuarem se expondo diariamente para dar conta da logística e das entregas. 

Vivemos um cenário que até então só havíamos visto em livros e filmes, fruto de mentes criativas. Conhecendo a dita natureza humana, algumas previsões se mostraram precisas, porém agora mudamos de papel, ao invés de espectadores, somos protagonistas de um verdadeiro show de horror. Em muitos momentos vemos o egoísmo prevalecer, o medo falar mais alto e o pânico nos dominar. Porém, também presenciamos, recebemos ou damos, gestos de amor e empatia. Precisamos, de uma vez por todas, entender que estamos juntos nessa e é apenas assim que teremos forças para superar e continuar. 

Ver as ruas vazias, o céu claro e limpo com a diminuição da poluição é lindo e assustador na mesma proporção. A vida se escancara diante dos nossos olhos, o impacto do ser humano na natureza fica nítido sem toda a fumaça e caos que produzimos diariamente. Que o tempo em casa nos faça repensar valores, que a saudade nos ajude a melhorar nossas relações e que o susto nos obrigue a redefinir prioridades. Cuidar do realmente importa, valorizar aquilo que descobrimos ser essencial. 

Mais do que ficar em casa, é tempo de voltar-se para dentro, revisitar-se e aprender a se sentir bem na própria companhia. Encontrar sim refúgios, pois há momentos em que é preciso fugir da realidade que nos assombra a partir da porta de casa, quando não do lado dentro. Mas também cuidar-se, valorizar-se. Não se iludir com a falsa noção de produtividade. Tudo bem ficar mal, o mundo está doente, afinal. Mas também é preciso saber levantar e se adaptar: adotar uma rotina – provisória – para que a vida siga, precisamos ter algo em prol do que lutar. É uma fase e, seja lá qual for a curva, a humanidade há de superá-la. 

Estou tentando viver um dia de cada vez. Às vezes acordo disposta e consigo ter um dia produtivo de trabalho, aproveito para assistir aulas online e consumir um pouco do conteúdo que tantas empresas nos disponibilizaram nesse período. No dia seguinte posso acordar sem apetite, sem vontade de tomar banho ou até sem coragem de sair da cama. As notícias assustam e tiram o sono, pensar em pessoas que vivem em situação de maior vulnerabilidade do que a minha me traz um sentimento de impotência que dói no peito. Respiro fundo e torço para que o próximo dia seja melhor. Dias melhores para mim e para nós, é o que desejo. 

Ponte Estaiada

Foto: Eduardo Frazão

06/04/2020

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Dentro de mim

Árvores (48)

Ansiedade é o nome daquele monstro que mora debaixo do meu travesseiro e me mantém acordada madrugadas adentro. É aquilo que me prende com os dois pés no chão, me faz sentir medo de experimentar coisas novas e, ao mesmo tempo, é quem não me deixa ficar parada. Relaxar? Nunca! Afinal, o que está bem hoje pode não estar amanhã.

Às vezes ela fala mais alto do que qualquer outra voz, nem adianta gritar ou espernear, quando quer: ela (me) vence! É constante tormento, motivo de alguns dos meus banhos mais longos, quando ao invés de lavar o corpo, encharco a mente com fantasias que talvez nunca venham a acontecer – mas vai quê!

Aflição, frio no estômago, vazio, ânsia, cansaço, tontura, apatia, tremor, depressão, suor. Nos misturamos uma na outra, como galhos entrelaçados, ela com seus sintomas e eu com meus sentimentos. Carrego afeto por onde vou, e ela vem na bagagem. É impossível sermos uma sem a outra.

Nos dias mais difíceis, escrevo. Cartas, poemas, crônicas. O simples movimento das mãos me lembra que estou no controle, que posso, que escolho, que faço. As palavras são um lembrete de que sinto, sinto tanto que transbordo em letras. Ela se acanha quando eu domino, mas sei que o jogo pode virar novamente, é só uma questão de tempo. Pronto, já virou.

Entendi que vamos precisar conviver, já que nenhuma de nós vai a lugar algum. Ela tem a forma que eu dou, é contorno dos meus receios, alimento dos meus anseios. Aprendi que não preciso temê-la, mas temo que ela me afaste de você.

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Arquivo Morto

55. Arquivo Morto

Tenho um arquivo morto de ideias em minha cabeça. Cadernos e dispositivos eletrônicos são as únicas testemunhas de meus rascunhos.

Tem vezes que a ideia vem pela metade, pode ser não mais do que um lampejo, apenas o suficiente para acender algo dentro de mim. Mas nem sempre ela ou eu temos maturidade o suficiente para explorar e, portanto, não nos entendemos à princípio. Tudo aquilo que não consigo lapidar vai para o arquivo, junto com os pensamentos que ouso ter, mas não me atrevo a escrever.

E assim meus trechos se acumulam, à espera de que eu viva novas e diferentes experiências que, pouco a pouco, expandem meus horizontes, mudam minha percepção e transformam a forma como vejo o mundo, o meu mundo. Isso pode me aproximar ou afastar, às vezes o insight pode vir em um momento inesperado e a história simplesmente se desenrola bem diante dos meus olhos. Em outros casos, deleto impiedosamente o arquivo de meu computador e adormeço a memória em minha mente.

Já perdi a conta de quantas vezes fui espectadora de minha mente. Embarco em minhas próprias fantasias e me sinto mera escrivã, cumprindo a ordem de escrever aquilo que aparece para mim em forma de ideia. Sou facilitadora, usando a caneta para eternizar no papel toda a criatividade que há em minha mente.

Meu arquivo é bem vivo. É um apanhado de tudo o que mora e se mexe dentro de mim. Deixo histórias descansarem para que amadureçam antes de compartilhá-las. Retomar um texto com olhos frescos e descansados é uma das experiências mais interessantes que um escritor pode ter. É reencontrar-se com suas próprias palavras e tomar a liberdade de mudar e editar seus próprios pensamentos. Como em um espelho, é deparar-se consigo e reparar nos mínimos detalhes. As palavras revelam aquilo que não conto sobre mim, a melhor forma de me entender é, sem dúvidas, lendo um conto onde falo sobre outros personagens e me desnudo por completo em meio a ações de outrem. Com eles ouso, pego rotas alternativas, exploro “e se’s” como nunca teria coragem de fazer.

Vivo e convivo com o constante barulho de rascunhos e versões alternativas que povoam meu imaginário. De tempos em tempos, tomo a difícil decisão de colocar um ponto final e declarar minha obra como concluída. Molduro trechos de quem sou e assim tenho a sorte e a tormenta de colecionar pedaços de quem já fui ou desejei ser. Me guardo nas palavras que escrevo.

 

 

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Está servido?

54. Está ServidoTodo dia (útil) faço tudo sempre igual: quando o despertador começa a gritar em meus ouvidos, acordo assustada, me viro, tento abafar o som com o travesseiro, até que me rendo e deslizo o dedo sobre a tela para fazer a música parar. De tempos em tempos preciso escolher uma nova música, nunca pode ser uma muito boa, pois logo passo a detestá-la, tendo arrepios só de ouvir as primeiras notas. 

Esse é um momento crucial, assim que o som para, preciso me forçar a levantar rápido, tenho poucos minutos antes de cair no sono novamente. Sigo, de olhos fechados, para o banheiro. Acordo mesmo é de baixo do chuveiro, quando a água começa a correr pelo meu corpo. Depois me seco e enrolo a toalha na cabeça. Só depois me escolher minha roupa e calçar minhas confortáveis pantufas é que vou para a cozinha. Apesar da rotina pré-matinal, o dia só começa mesmo quando coloco a água para ferver e o pó no coador. O cheirinho quente do café termina de me despertar. É então que eu sei que mais um dia começou. Vou para a mesa e tomo meu sagrado café da manhã. Depois de comer, encho mais uma xícara e fico olhando as notificações do celular, notícias da noite anterior e do dia que começa. 

Conheço muitas pessoas que dizem que só bebem café quando precisam acordar. A cafeína desperta. Sinceramente? Já não sinto esse efeito há tempos. Apesar de não conseguir ficar sem meu ritual matinal, ao longo do dia, não sinto que uma xícara de café consiga me despertar ou dar mais energia. Eu tomo é porque é gostoso mesmo. Um copinho quando chego no trabalho, mais um quando passo pela garrafa no caminho para o banheiro. E mais alguns durante a tarde – mas, quem está contando? 

Forte, suave ou encorpado, cada um tem seu gosto. Aqui em casa temos sempre três tipos: o coado de todas as manhãs, o solúvel para quando estamos com pressa, e em cápsulas, que fazemos todos os finais de semana desde que ganhei uma daquelas máquinas modernas em meu último aniversário.

Tem gente que gosta com aroma, misturado com leite, sem açúcar ou até com gelo. O que eu mais gosto no café, para além do paladar, é seu valor social. O famoso “vamos marcar um café”, promotor de inúmeros encontros, pessoais, amorosos ou profissionais. Além do “tomar um cafézinho” para ter uma conversa discreta fora do local de trabalho ou mesmo no cantinho da área de descanso. Em momentos difíceis, alguém vai para a cozinha e passa um café rápido. As energias são revigoradas assim que a bebida quente passa pela garganta. 

Também é um ótimo companheiro quando você precisa terminar um projeto ou ficar até mais tarde no trabalho. Agora mesmo, intercalo palavras com goles quentes enquanto escrevo esse texto. Assopro, escrevo, bebo. Está servido?