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Poção do Amor

Mesa com ingredientes e poções místicas. A Poção do amor está no meio.

Eu pesquisei no Google, e agora o histórico de navegação me assombra. Mas, conhecimento adquirido é conhecimento compartilhado, então vamos lá:

“Poção do amor é uma forma mítica de beberagem, feita por feiticeiros, que é capaz de provocar em alguém os sentimentos amorosos em relação a outrem. É uma forma de feitiço de amor.”

Os sites vão ficando mais obscuros com o rolar da página. Descobri que, para a bruxaria, trata-se de um afrodisíaco que tem o poder de fazer uma pessoa se apaixonar pela outra. Existem diversas e inusitadas receitas disponíveis ao alcance de um clique. Mas cuidado, algumas advertem que a paixão pode acontecer pela primeira pessoa com quem fizer contato visual. Imagina o estrago?!

Pois eu não caio nessa. Se apaixonar é fácil, é leve, dá um friozinho gostoso na barriga. Não preciso de uma poção para fazer alguém se apaixonar por mim, isso eu sei fazer. Teve uma vez que deixei um cara caidinho por mim em uma festa, tenho certeza de que foi meu vestido decotado e o copo de bebida em minhas mãos, que chacoalhava enquanto eu dançava e ria com meus amigos, que o conquistou. Difícil foi fazer o encanto sobreviver a um encontro no final de semana seguinte, sóbrios, com iluminação neutra e som ambiente.

Teve também uma vez que fiz uma garota se apaixonar por mim, estávamos ambas sozinhas em uma manifestação, até que começamos a conversar e a caminhar lado a lado. Sabe como é, é bom estar acompanhado na multidão. Nosso papo tinha um cheiro afrodisíaco, também senti. Dividimos a garrafa de água que eu tinha na bolsa e paramos em uma lanchonete para comer um salgado, antes de nos separarmos na plataforma do metrô. Até chegar em casa, já estávamos mais íntimas, conversando por mensagem. No dia seguinte, ela tomou coragem e me chamou para sair. Eu é que não encarei, apesar da vontade, nunca saí com outra garota.

Teve ainda meu mais antigo caso de sucesso – ou fracasso – no quesito amor. Meu melhor amigo de faculdade, que passou os melhores anos de sua vida apaixonado por mim, logo eu, que nem o notava. Mantive o pobre coitado na friendzone por muitos anos. Quando percebi o que tinha feito, já era tarde. Sabe, com o tempo a gente descobre que existe uma linha tênue entre o amor e o ódio. Senti na pele como um sentimento consegue se transformar no outro, bastou uma faísca.

É por isso que eu digo, se apaixonar é moleza. Difícil mesmo é ter paciência e persistência. Porque o relacionamento leva tempo para ser construído, moldado de um jeitinho que fique bom para os dois.

Eu preciso de uma poção que me ajude a manter relacionamentos, uma que, magicamente, me revele como responder mensagens com pedidos de ajuda; que não me faça sair correndo quando sinto que já estamos muito íntimos; que feche a minha boca quando eu estiver prestes a dizer aquilo que estragará tudo.

Mas parece que para isso a bruxaria ainda não inventou uma fórmula com ervas e especiarias, ou então, o Google é que não sabe como me mostrar a resposta.

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Primeiro Dia de Aula

Cachorrinha com mochila nas costas, pronta para o primeiro dia de aula na creche.

Talvez eu esteja começando a entender minha mãe, mais de vinte anos depois dela sentir o que sinto hoje: a agonia frente ao primeiro dia de aula do filho.

Acordei cedo, preparei a lancheirinha, revisei tudo uma porção de vezes só para garantir que não esqueceria nada. Já pensou se a minha menina passa vergonha no primeiro dia?

Lotei a caixa de mensagens da responsável pela creche, para confirmar os horários de entrada e saída. Não quero que minha filha cresça com o trauma de ser a última a ser buscada depois da aula.

Assim que tudo foi confirmado, fiz alguns combinados com a pequena. Prometi que seria divertido e que as outras crianças gostariam dela. Sim, é claro que ela poderia voltar para casa mais cedo se algo acontecesse, mamãe estaria pronta para ela, era só pedir para a tia me ligar.

Na noite anterior, fiquei mais nervosa do que ela, me revirando na cama, sem conseguir pegar no sono. Enquanto ela dormia profundamente em sua caminha, sem saber o que esperar do dia seguinte.

Finalmente o momento chegou. Saímos de casa mais cedo, já que eu não conhecia o trânsito nesse horário. Estacionei a duas quadras da creche e demorei para conseguir tirá-la do carro. Acho que o nervosismo bateu, e então suas unhas agarraram o banco traseiro.

Conversei, esperei que ela se acalmasse e a carreguei no colo até a calçada. Fomos até a porta e uma funcionaria sorridente veio em nossa direção, já com a mão estendida para pegar a lancheira de minhas mãos.

Maya balançou o rabo timidamente, ainda insegura. Quando confirmou que a mulher tentava pegar sua guia da minha mão, virou-se, pulando em mim e pedindo colo.

Voltei a lhe dizer que tudo ficaria bem, ela passaria o dia se divertindo com os outros cachorros e, de noite, eu voltaria para levá-la para nossa casa. A moça se abaixou e fez um carinho atrás de sua orelha, seu ponto fraco. Maya foi amansando, até que aceitou se afastar de mim.

Cachorrinha com mochila nas costas, pronta para o primeiro dia de aula na creche.

A funcionária, paciente, me garantiu que só o início seria difícil, mas, após algumas semanas, ela entenderia que aquela era sua nova rotina: viria brincar e sempre voltaria para casa depois.

“Posso buscá-la mais cedo, se necessário?”, perguntei.

Ela me tranquilizou, afirmando que não seria necessário. Maya ficaria bem.

Sim, mas e eu? Tive vontade de perguntar.

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Será que alguém nasce querendo ser escritor?

Mesa de um escritor, com notebook, blocos de rascunho e uma xícara de café.

Quando criança, meu sonho era ser professora, assim como minha mãe.

Assim que entrei na pré-escola, meus pais penduraram uma pequena lousa no quintal. E eu passava a tarde toda lá fora, dando aula para uma fileira de bichinhos de pelúcia enquanto sujava toda minha roupa com giz.

Em seguida, comecei a desenvolver o gosto pela leitura. Os livros sempre foram bons companheiros. Primeiro herdei as antigas edições de contos de fadas que fizeram parte da infância de minha mãe, depois, chegaram os livrinhos infantis garimpados nas feirinhas da escola e, com alguma frequência, ganhava gibis da Turma da Mônica.

Uma de minhas brincadeiras favoritas era copiar as histórias dos livros em um caderno, já que eu logo terminava de ler e precisava esperar até ganhar o próximo gibi ou livro. Eu transcrevia as palavras e quase decorava uma história quando gostava dela.

Pode parecer estranho, porque era mesmo. Mas foi assim, de maneira solitária e me apoiando em outros autores, que me introduzi no mundo das palavras.

Na adolescência, comecei a me arriscar com minhas próprias ideias, escrevendo trechos de histórias sobre minha banda favorita, as famosas fanfics. Mas, sentia tanta vergonha que nunca consegui mostrar meus rascunhos para ninguém. É uma pena que eles tenham se perdido com o tempo.

Conforme fui crescendo, surgiu a curiosidade com o comportamento humano, um brilho nas aulas de filosofia. Algumas questões inquietavam minha mente adolescente e me faziam buscar respostas nos livros, foi assim, no último ano do ensino médio, que decidi ser psicóloga.

Entrei na faculdade e pensei ter encontrado meu lugar ao sol. Passei os anos seguintes  deslumbrada dentro da enorme biblioteca do campus, e se engana quem pensa que parei de estudar quando me formei. Aliás, arrisco dizer que foi só então que aprendi a estudar: sem um professor guiando meus passos, dizendo qual capítulo eu deveria ler ou o que decorar para uma prova.

Comecei a estudar filosofia e logo encontrei um grupo de estudos. As leituras coletivas me ajudaram a entender aquelas difíceis e encantadoras palavras. Os cadernos de anotações viraram meus tesouros.

Eu só não contava que a profissão fosse tão solitária. Com algumas horas vagas em meu consultório, a vontade de escrever voltou: pensamentos, frases. Foi assim que comecei a organizar meus sentimentos em um pedaço de papel.

Meu irmão foi o primeiro a dizer que um dia eu seria escritora, já que era uma ávida leitora. Eu não acreditei nele, e cheguei a rir de sua sugestão, afinal, não acreditava que eu tivesse algo de interessante a dizer.

Mas persisti, fui escrevendo a cada intervalo, dando voz à imensidão que me habitava. Ficção e realidade começaram a se misturar conforme meus pensamentos encontravam a folha em branco.

Tive a sorte de ser incentivada por amigos e familiares, que aceitaram ler meus escritos tão logo tive coragem de tirá-los da gaveta. E assim, a escrita passou a ocupar um lugar tímido em minha vida, um momento de descontração e lazer.

A verdade é que as pessoas à minha volta me reconheceram como escritora antes que eu o fizesse.

No trabalho, sempre sobrava pra mim a missão de escrever comunicados e agradecimentos, já que eu articulava tão bem as palavras. Quando precisava escrever um cartão, logo me passavam a caneta, afinal, eu era boa nisso.

O primeiro convite para publicação de um conto chegou como presente de natal atrasado, um singelo e-mail no dia vinte e seis de dezembro. Um ano depois, mais um. Mais dois anos, e eu já conto com uma pequena prateleira de participações.

Eu já deveria ter sacado à essa altura, não acha? Sinto lhe informar, caro leitor, mas demorei um pouco mais. Precisei ficar entre dois empregos, me sentindo extremamente perdida e desmotivada para olhar para os lados e perceber algo que esteve ali esse tempo todo.

Dessa vez, quando me perguntaram o que eu gostava de fazer, a resposta escapuliu: “escrever”. Foi mais forte do que eu, com gosto de sonho, mas então já era tarde. Ouvi minha própria voz ressoando por dentro e me atrevi a pensar o “e se” mais maluco da minha vida: “e se eu fosse escritora?”

Transformar esse hobby em profissão foi fácil, pois ele já estava completamente entremeado em minha vida, a rede de contatos, o blog e o portfólio feitos. A mudança de identidade simplesmente aconteceu.

Não nasci querendo ser escritora, mas foi nas palavras que descobri minha voz e tudo o que eu gostaria de dizer ao mundo.

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Garota de Hábitos

Mulher de olhos fechados, inspirando calmamente.

Sou uma garota de hábitos.

Rotina e planejamento são como música para meus ouvidos. Não há nada que me encante mais do que uma agenda bem preparada, com compromissos e atividades estabelecidos.

Listas são o meu hobbie. Organizo tudo, desde criança. Minhas coisas, as coisas de casa, e as coisas de outras pessoas, se elas permitirem. Minha mãe sempre contou comigo para fazer listas quando viajávamos, era eu a responsável por não permitir que ninguém esquecesse nada. Um hábito que mantenho até hoje, sempre que faço as malas.

Admiro pessoas que conseguem gerir seu tempo e manter uma rotina produtiva. Passei muitos anos andando nos trilhos de meu próprio planejamento. Uma garota certinha, que não sai da linha.

Sempre me orgulhei de ostentar tais características. E elas são louváveis mesmo, pelo menos até certo ponto. O problema é quando você se torna refém do planejamento e acaba por perder a flexibilidade, quando o hábito se torna obrigação e a agenda uma profecia do destino.

Demorei para descobrir que ser produtivo de verdade é saber usar o tempo de forma equilibrada: trabalho, lazer, autocuidado e descanso. Cuidar de mim e de meus relacionamentos é tão importante quanto concluir um projeto que está com o prazo anotado em vermelho na agenda.

A lógica é simples: se um aspecto da vida não vai bem, que chance têm os outros? Sem descanso, chega um ponto que o trabalho para de render, e o foco vai embora se tudo o que estiver em minha mente for uma briga que tive no dia anterior.

Apesar de usarmos técnicas que categorizam e fragmentam nossas atividades, somos um só, inteiros e completos. Somos o conjunto de nossos interesses, desejos e ações. Somos nossas referências, projetos e cada uma das tarefas que fazemos ao longo do dia.

Logo eu, tão organizada, precisei reexaminar todos os meus conceitos e reaprender a realizar minhas atividades, sem cronometrar meus afazeres, e deixando algum tempo livre para relaxar e cuidar de mim.

Fazer o que me faz bem também precisa ser um hábito.

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Máscara

Máscaras faciais usadas durante a pandemia do Coronavírus.

Sonhei que esquecia de vestir a máscara.

Eu entrei no elevador, desci, caminhei pelo hall do prédio e sai pela portaria, cumprimentando Julia, a funcionária do turno da manhã. Ela respondeu com um aceno, sem levantar a cabeça, e continuou fazendo anotações em seu livro de registros.

Foi só quando coloquei os pés na rua e senti uma lufada de vento gelado batendo em meu rosto que percebi. Levei as mãos ao queixo, tensa, e confirmei: estava sem a usual máscara de tecido que cobria metade da face.

Afastei rapidamente as mãos, lembrando que tocara uma série de objetos pelo caminho e ainda não havia me higienizado com álcool em gel. Foi isso que a vida virou: limpeza, preocupação e culpa.

Dei meia volta, passando pelo portão de cabeça baixa, e refiz meu caminho, andando rápido, com medo de cruzar com alguém e precisar me explicar. O condomínio aplicava multas em quem transitava em área coletiva sem máscara.

Puxei a gola da blusa, para tentar cobrir a boca e o nariz, enquanto rezava para não encontrar com nenhum vizinho no elevador. A subida foi longa, e eu estava tão nervosa que sentia os dedos trêmulos enquanto tentava encaixar a chave na fechadura.

Parece que só me permiti respirar novamente assim que me vi no aconchego de minha sala. Antes, via minha casa como um local de descanso, agora, era meu espaço seguro, possivelmente o único onde me sentia à vontade e em paz. Podendo respirar sem um tecido roçando em meu rosto, coçar os olhos, comer e tocar livremente nos objetos, desde que estivessem higienizados, é claro.

Ouvi o som de uma música invadindo a sala e rompendo com meu silêncio. E então acordei.

Era o despertador.

Levei a mão ao rosto, tateando meu queixo, boca, e nariz. Estava tudo bem, ainda estava em casa. Me afundei debaixo nas cobertas e me espreguicei, tomando coragem para levantar.

***

Passei o dia todo pensando no sonho e na aflição por me sentir despida da nova vestimenta social: a máscara facial.

É curioso como mesmo algo extremamente incômodo pode se tornar um hábito. A máscara tem dupla função: nos protege dos outros, enquanto os protege de nós. No começo, me sentia incomodada e demorava a conseguir ajeitá-la no rosto junto com os óculos, de forma que as lentes não embaçassem, por conta da respiração.

Me sentia esquisita, feia. Contava os dias para que sua obrigatoriedade acabasse. Agora, mais de um ano depois, confesso que não sei se saberia reconhecer algumas pessoas sem ela na rua. A Julia, da portaria, por exemplo, está trabalhando aqui há seis meses, o que quer dizer que, apesar de nos cumprimentarmos diariamente, nunca vi metade de seu rosto.

 Também demorei para me acostumar a não cumprimentar as pessoas com um beijo no rosto ou aperto de mãos. Me parecia falta de educação, dizer “oi” sem me aproximar. Ao mesmo tempo, é estranho pensar no quanto nos expúnhamos desnecessariamente ao tocar tantas pessoas sem saber no que elas haviam tocado antes.

Higiene, saúde e proteção foram conceitos ressignificados durante a pandemia. Apesar de sentir falta da tranquilidade de não precisar me preocupar com tantos detalhes, espero que consigamos manter alguns dos hábitos de higiene recém adquiridos. Afinal, não há mal nenhum em lavar as mãos assim que se chega em casa, não é mesmo?

Não acredito que estejamos vivendo um “novo normal”, como tantas matérias sensacionalistas insistem em dizer. Ainda vivemos em meio ao caos e, apesar das previsões, ainda não sabemos como sairemos dessa. Transformados, eu tenho certeza.

Sei que a pandemia não acabou, a doença é uma ameaça, e o comportamento de algumas pessoas também. Luto diariamente para cuidar de minha saúde física e mental, estou aprendendo a conviver com minha ansiedade, já que ambas habitamos as paredes de minha casa. Tento cuidar das pessoas queridas à distância e cuido do coletivo ao colaborar, não saindo sem necessidade e tomando todas as precauções possíveis.

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Confinada

Confinada, olhando por janela fechada com grades.

Eu sei que todo mundo já está cansado de ouvir falar em quarentena e que cada um tem o seu relato. Mas eu precisava escrever sobre isso, então me desculpe. A escrita é, para mim, uma forma de expurgar os sentimentos, coloco para fora tudo aquilo que não cabe em mim. E hoje, meus amigos, transbordo.

Completamos um ano de pandemia. Dá para contar nos dedos quantas vezes vi minha mãe, meu irmão e minha família. Os amigos eu não vejo desde janeiro do ano anterior. Lembro de todas as conversas que tive com a minha mãe, preparando-a com antecedência em cada data, já com a certeza de que não comemoraríamos nossos aniversários ou o Natal.

Fazer aniversário foi uma experiência muito estranha, porque eu adoro comemorar. Mas, me senti muito mal em celebrar a vida em meio a tanta destruição. Tantas famílias arrasadas, tanto desgoverno.

Terminamos uma volta ao sol e tudo ainda parece parado. Fomos pegos de surpresa, mandados para casa no susto, com nossos notebooks embaixo do braço e um suposto home office.

Só que nós não estamos trabalhando em casa, estamos de quarentena! É muito difícil fazer absolutamente todas as atividades dentro do mesmo ambiente, sinto que não descanso, não paro nunca. E, quando faço uma pausa, me vejo perturbada com as notícias, os números crescentes e as decisões mortais do governo. A ansiedade é tanta que não consigo dormir. Me encolho na cama, perdida em pensamentos e medos. Logo o despertador toca e começa tudo de novo: exercício, trabalho, almoço, jantar, cama.

Sinto-me impedida, estou em casa há mais de um ano, sem ir caminhar em um parque, como tanto amo, sem fazer uma compra que não seja no supermercado. Sair é uma experiência perturbadora agora: manter o distanciamento em relação a outras pessoas, o elástico da máscara apertando a orelha, o suor sempre escorrendo por dentro da máscara e abafando a respiração. O álcool que protege é o mesmo que resseca as mãos.

A vida parou, mas não voltará a ser como antes. A verdade é que ainda não sabemos como tudo será. Sem pessoas queridas, sem tantos comércios que não resistiram à devastação da economia. Ninguém sabe ainda como iremos nos comportar socialmente. Aglomerações me parecem uma realidade tão distante hoje, e digo isso com ingressos de shows comprados e guardados na gaveta. Será que me sentirei segura para ir a um evento? Provavelmente não.

Apesar de tudo, todas as noites agradeço por meus privilégios, tenho uma casa confortável, uma pessoa maravilhosa ao meu lado, e minha família ainda está bem. Sinto uma tristeza enorme dentro de mim ao pensar em quantas famílias estão enlutadas neste momento, enquanto pessoas como eu reclamam alergias na mão; ou pessoas como muitos de meus colegas nas redes sociais, que reclamam por não irem à praia.

Sinto um buraco enorme no peito, tristeza e ansiedade têm sido companheiras constantes. É horrível encarar a morte tão de perto ˗ e eu nem sei o que é estar em uma linha de frente ˗ e não saber até quando estarei bem. Por quanto tempo ainda aguentarei até minha saúde física e/ou mental desabar?

Cada dia é uma batalha, e estamos sobrevivendo: à Covid, à economia e às doenças emocionais que nos atingem. Minha luta diária, e o que eu desejo a todos, é que se protejam e sejam gentis consigo e com todos à sua volta. Não estamos motivados ou superprodutivos porque vivemos um período histórico digno de uma distopia.

Infelizmente é real.

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Ritual

Mesa preparada para escrever, com Notebook, caderno e uma xícara de café.

Sofro do que chamo de procrastinação produtiva. Sou uma pessoa extremamente acelerada, daquelas que não consegue ficar parada, estou sempre fazendo algo e já pensando na lista das próximas atividades. Até o fim do dia já terei acrescentado mais itens e, se der tempo, passo a lista a limpo, porque ninguém merece ficar olhando para uma folha toda rabiscada. 

Ordem e método são palavras que fazem carinho a meus ouvidos. Mas, apesar de ser super produtiva, isso não significa que eu seja sempre assertiva. É vergonhosa a quantidade de vezes em que na verdade não sou. 

O fato de não ficar parada dá a falsa sensação de que estou sempre em dia com os compromissos. Mas acabo perdendo muito tempo criando pequenos rituais, ou refazendo o que já estava feito, em busca de uma falsa sensação de perfeição que me traz alívio, ainda que momentâneo.

Tento resolver pequenas pendências antes de começar a fazer o que realmente importa. Por um lado, tiro um monte de coisas da mente e coloco alguns compromissos em dia. Por outro, já estou cansada quando finalmente vou começar o dia, parece que o relógio vive correndo contra mim.

Por exemplo, antes de escrever, escolho um caderno para colocar os primeiros rascunhos. Abro a pasta do computador onde guardo meus arquivos, releio trechos, reorganizo a ordem dos textos, crio pastas para categorizá-los e passo algum tempo remexendo no que já foi feito.

Em seguida, preparo meu espaço de trabalho e gasto muito tempo criando as condições ideais: luz, espaço, um chazinho ou café para acompanhar. Tem dias em que até acendo uma velinha aromática para dar um toque ao ambiente. Tudo precisa estar confortável e propício para a atividade, como se fosse isso que a possibilitasse. Crio uma mesa digna do Pinterest, aí paro para tirar uma foto, é claro.

Depois, finalmente me concentro e começo a rabiscar, crio tópicos para estruturar o texto. Por vezes me distraio com uma ideia nova que surge e paro para fazer anotações em paralelo. É sabido que perdemos tempo na troca de contexto. E assim, demoro para voltar minha concentração para a ideia original.  

Faço tudo antes de fazer o que realmente importa: sentar e começar a escrever. Não importa muito se o primeiro rascunho será feito no computador, em um caderno ou em um guardanapo amassado. O mais importante é me permitir deixar as ideias fluírem, tornar minha mão com a caneta um instrumento criativo. Escrever sem filtros ou bloqueio. A revisão fica para um segundo momento, com seus próprios rituais.

Não espere o momento perfeito, considere o agora como o sinal que você estava esperando. Comece, só assim poderá testar, conhecer seus resultados e progredir.

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Furo no tempo

Imagem de relógio para contar o Tempo.

“Você acha que eu tenho tempo pra isso?”, foi a resposta que ouvi ao meu pedido. Recolhi minha mágoa, guardando-a para lidar na terapia. Passaria horas destrinchando a rejeição, parecida com aquela outra que sofri na infância e que, provavelmente, era a responsável por eu me sentir da forma como me sentia hoje. 

Mas quem tem tempo para alguma coisa nos dias de hoje? Além de extremamente ocupados com nossos afazeres, desperdiçamos horas em nossos smartphones e usamos a boa e velha desculpa do tempo. Ninguém contesta, pois, eventualmente, todos usam a mesma carta. 

Eu sei como é não ter tempo para almoçar e só comer um lanchinho, matar a ida à academia por falta de espaço na agenda, pedir uma pizza porque não deu para cozinhar, perder uma consulta por ter calculado mal o trânsito, remarcar um cinema porque precisou trabalhar até mais tarde, perder a hora porque foi deitar exausto na noite anterior. E, meu favorito: combinar de combinar um almoço entre amigas e nunca chegar às vias de fato, porque parece impossível encontrar compatibilidade entre as agendas – spoiler: quanto maior o grupo de amigas, mais difícil. 

Heidegger dizia que é a temporalidade que nos define. Mas provavelmente ele não se referia a como nos tornamos escravos de nossas vidas pela falta dele. Vivemos em falta, sempre adiando e nos esquecendo de perguntar o que realmente importa. Será que um compromisso de trabalho é mesmo mais importante do que um final de semana de folga? Nunca vi alguém exausto conseguir ser produtivo. 

Temos relógios, mas não temos equilíbrio. Esquecemos há muito que somos nós mesmos os responsáveis por administrar as 24 horas que o dia nos dá, e o dia seguinte também, e depois o outro. E não adianta resmungar, o primeiro item da agenda deve ser organizar a própria, ou o resto vira um caos.

Escolhemos o que fazer com nossa limitação de tempo, por isso, aprender sobre prioridades deveria fazer parte do currículo básico das escolas. Ficamos frustrados por não conseguir dar conta de tudo o que gostaríamos e, invariavelmente, chateados se não somos escolhidos – ou priorizados – por outras pessoas. 

Por isso, quando meu irmão disse que não tinha tempo para me ajudar a instalar meu quadro novo fiquei chateada: ou ele não me priorizou, ou apenas usou a desculpa do seu relógio. É apenas um furo na parede, pelo amor de Deus!

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Ensino à Distância

Mesa de estudos preparada para ensino à distância.

Me inscrevi em um curso de extensão no início do ano. Acredito que de vez em quando é bom sair da própria bolha e olhar para fora, apreender novas técnicas, descobrir as soluções que outras pessoas e empresas estão usando. As aulas começaram em março, logo após o carnaval.

Passei por um processo já conhecido, mas que ainda foi capaz de causar frio na barriga: programar o despertador e dormir mal à noite, achando que perderia a hora, conhecer um caminho novo, descobrir o andar e a sala, entrar na tal sala já cheia de pessoas. Apresentação da turma e do professor, conteúdo programático e, mais nervoso ainda, na hora de fazer a apresentação pessoal. Nunca tenho certeza sobre o que falar sobre mim… Como fazer um recorte rápido que me resuma, sem parecer esnobe, tampouco simplória? Como parecer interessante em meio a tantos estranhos?

Gaguejei, me atrapalhei na fala, sentindo uma gota de suor frio escorrendo por dentro de minha camisa nova, meticulosamente escolhida para a ocasião. Bem na minha vez fomos interrompidos por uma batida na porta. Uma funcionária da secretária veio trazer a lista de presença e nos deu um brinde de “boas-vindas”, uma caneta de tinta azul com o símbolo da universidade. Peguei a caneta, com um sorriso amarelo e esperei para poder continuar minha exposição. A caneta sequer funcionava, como comprovei assim que o professor começou a aula.

Na semana seguinte tivemos o curioso fenômeno da formação de grupos, as famosas “panelinhas”. Cheguei a comentar que éramos uma turma só de mulheres? Uma tentando lembrar o nome da outra e a empresa onde cada uma trabalhava. Demos início ao tão estimado Networking.

Mas logo em seguida a cidade entrou em quarentena. As aulas presenciais foram canceladas e os professores prontamente buscaram uma alternativa digital. Usemos a tecnologia a nosso favor, não é mesmo?! A partir da semana seguinte, passamos a nos encontrar de forma digital, com alguns recursos improvisados, outros funcionais, mas demos um jeito de seguir em frente.

Algumas pessoas desistiram do curso e saíram do grupo sem avisar. Além disso, as perdas foram inúmeras: câmeras desligadas, devido à timidez, nos privando de contato e vínculos, problemas técnicos, falhas de comunicação, aliás, pouca comunicação, baixo engajamento e pouquíssima participação.

Sinto que deixamos uma chance escapar, perdemos a chance de nos conhecer, nos ajudar e nos divertimos juntas. As aulas se tornaram online, quase como assistir um vídeo ou palestra, passivo, fraco.

Foi triste perceber quão pouco as pessoas se engajaram e como a motivação para o curso caiu com a proposta de ensino à distância. Nunca saberemos o que teria sido diferente em um curso presencial, já que ele nunca aconteceu. Viramos cumpridoras de tarefas, isoladas e frustradas com nossos planos interrompidos.

Por outro lado, mesmo à distância, o curso é uma oportunidade de entrar em contato com outras pessoas da área, nem que seja uma vez a cada sete dias. Me mantém ocupada e me dá tarefas práticas para realizar durante a semana. Tenho aproveitado o tempo – e investimento – para buscar materiais complementares em vídeos, livros e artigos.

Beber de outras fontes ajuda e, nesse momento, ter uma ocupação prática é um alívio enorme. Mas, me frustra me arrumar todos os sábados, para ficar com a câmera desligada, ouvindo a voz de um professor com sono, explicando o conteúdo da forma que consegue, sem o viés presencial. Me entristece o fato de que nunca saberemos como nosso encontro poderia ter sido.

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Palavras

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Ontem foi meu aniversário. Vou contar pra vocês que fazer aniversário no meio da pandemia não é legal. Acho que a data nos deixa introspectivos, faz pensar bastante e fazer aquele “balanço geral”. Me senti travada, meus desejos e expectativas parecem ser os mesmos do início do ano. Mais alguém tem a sensação de estar parado no tempo? Por aqui a vida parece em pausa. E, pior, não vi muitos motivos para comemorar em meio a tanto sofrimento e desgoverno que temos enfrentado. A cada dia uma notícia ruim e mais mortes que entram na conta. É estranho celebrar a vida em meio a tanta destruição. Mas eu, assim como tantas outras pessoas, vi o calendário correr até meu dia.

Sem poder ver meus amigos ou abraçar minha família, tive um dia bastante agitado, com algumas videochamadas cheias de carinho. O interfone tocou algumas vezes, anunciando presentes que chegaram de surpresa, alegrando e adoçando meu dia. Mas o meu maior presente foram as palavras.

O dia começou com a habitual sessão de terapia que acontece às sextas. Minha terapeuta foi a primeira a me dar suas palavras: escolheu “sonhos”, “inspiração”, “coração” e mais algumas que eu esqueci pois já estava chorando.

E assim foi pelo resto dia: as palavras vieram na voz de quem passou o dia comigo e chegaram aos montes em meu celular, via mensagens nas redes sociais, posts apaixonados, recados carinhosos em minhas caixas de entrada, áudios para me fazer sorrir, palavras escritas em cartas, palavras ditas à distância de uma tela, e até as palavras não ditas, de quem não apareceu. Terminei o dia com os bolsos cheios de dedicatórias e desejos.

Foi muito engraçado ver como sou vista aos olhos dos outros: me desejaram muitos cafés, amor, bons encontros, corujinhas, muitas aventuras caninas, plantinhas, sucesso na escrita, e eu poderia encher mais uma estante com o tanto de livros e leituras que me foram desejados (amém!).

Não achei que me sentiria renovada assim, mas aconteceu. Eu e meus cabelos, que já começam a ficar brancos, agradecemos por cada uma das palavras recebidas. Obrigada ❤️