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Dentro de mim

Árvores (48)

Ansiedade é o nome daquele monstro que mora debaixo do meu travesseiro e me mantém acordada madrugadas adentro. É aquilo que me prende com os dois pés no chão, me faz sentir medo de experimentar coisas novas e, ao mesmo tempo, é quem não me deixa ficar parada. Relaxar? Nunca! Afinal, o que está bem hoje pode não estar amanhã.

Às vezes ela fala mais alto do que qualquer outra voz, nem adianta gritar ou espernear, quando quer: ela (me) vence! É constante tormento, motivo de alguns dos meus banhos mais longos, quando ao invés de lavar o corpo, encharco a mente com fantasias que talvez nunca venham a acontecer – mas vai quê!

Aflição, frio no estômago, vazio, ânsia, cansaço, tontura, apatia, tremor, depressão, suor. Nos misturamos uma na outra, como galhos entrelaçados, ela com seus sintomas e eu com meus sentimentos. Carrego afeto por onde vou, e ela vem na bagagem. É impossível sermos uma sem a outra.

Nos dias mais difíceis, escrevo. Cartas, poemas, crônicas. O simples movimento das mãos me lembra que estou no controle, que posso, que escolho, que faço. As palavras são um lembrete de que sinto, sinto tanto que transbordo em letras. Ela se acanha quando eu domino, mas sei que o jogo pode virar novamente, é só uma questão de tempo. Pronto, já virou.

Entendi que vamos precisar conviver, já que nenhuma de nós vai a lugar algum. Ela tem a forma que eu dou, é contorno dos meus receios, alimento dos meus anseios. Aprendi que não preciso temê-la, mas temo que ela me afaste de você.

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Arquivo Morto

55. Arquivo Morto

Tenho um arquivo morto de ideias em minha cabeça. Cadernos e dispositivos eletrônicos são as únicas testemunhas de meus rascunhos.

Tem vezes que a ideia vem pela metade, pode ser não mais do que um lampejo, apenas o suficiente para acender algo dentro de mim. Mas nem sempre ela ou eu temos maturidade o suficiente para explorar e, portanto, não nos entendemos à princípio. Tudo aquilo que não consigo lapidar vai para o arquivo, junto com os pensamentos que ouso ter, mas não me atrevo a escrever.

E assim meus trechos se acumulam, à espera de que eu viva novas e diferentes experiências que, pouco a pouco, expandem meus horizontes, mudam minha percepção e transformam a forma como vejo o mundo, o meu mundo. Isso pode me aproximar ou afastar, às vezes o insight pode vir em um momento inesperado e a história simplesmente se desenrola bem diante dos meus olhos. Em outros casos, deleto impiedosamente o arquivo de meu computador e adormeço a memória em minha mente.

Já perdi a conta de quantas vezes fui espectadora de minha mente. Embarco em minhas próprias fantasias e me sinto mera escrivã, cumprindo a ordem de escrever aquilo que aparece para mim em forma de ideia. Sou facilitadora, usando a caneta para eternizar no papel toda a criatividade que há em minha mente.

Meu arquivo é bem vivo. É um apanhado de tudo o que mora e se mexe dentro de mim. Deixo histórias descansarem para que amadureçam antes de compartilhá-las. Retomar um texto com olhos frescos e descansados é uma das experiências mais interessantes que um escritor pode ter. É reencontrar-se com suas próprias palavras e tomar a liberdade de mudar e editar seus próprios pensamentos. Como em um espelho, é deparar-se consigo e reparar nos mínimos detalhes. As palavras revelam aquilo que não conto sobre mim, a melhor forma de me entender é, sem dúvidas, lendo um conto onde falo sobre outros personagens e me desnudo por completo em meio a ações de outrem. Com eles ouso, pego rotas alternativas, exploro “e se’s” como nunca teria coragem de fazer.

Vivo e convivo com o constante barulho de rascunhos e versões alternativas que povoam meu imaginário. De tempos em tempos, tomo a difícil decisão de colocar um ponto final e declarar minha obra como concluída. Molduro trechos de quem sou e assim tenho a sorte e a tormenta de colecionar pedaços de quem já fui ou desejei ser. Me guardo nas palavras que escrevo.

 

 

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Está servido?

54. Está ServidoTodo dia (útil) faço tudo sempre igual: quando o despertador começa a gritar em meus ouvidos, acordo assustada, me viro, tento abafar o som com o travesseiro, até que me rendo e deslizo o dedo sobre a tela para fazer a música parar. De tempos em tempos preciso escolher uma nova música, nunca pode ser uma muito boa, pois logo passo a detestá-la, tendo arrepios só de ouvir as primeiras notas. 

Esse é um momento crucial, assim que o som para, preciso me forçar a levantar rápido, tenho poucos minutos antes de cair no sono novamente. Sigo, de olhos fechados, para o banheiro. Acordo mesmo é de baixo do chuveiro, quando a água começa a correr pelo meu corpo. Depois me seco e enrolo a toalha na cabeça. Só depois me escolher minha roupa e calçar minhas confortáveis pantufas é que vou para a cozinha. Apesar da rotina pré-matinal, o dia só começa mesmo quando coloco a água para ferver e o pó no coador. O cheirinho quente do café termina de me despertar. É então que eu sei que mais um dia começou. Vou para a mesa e tomo meu sagrado café da manhã. Depois de comer, encho mais uma xícara e fico olhando as notificações do celular, notícias da noite anterior e do dia que começa. 

Conheço muitas pessoas que dizem que só bebem café quando precisam acordar. A cafeína desperta. Sinceramente? Já não sinto esse efeito há tempos. Apesar de não conseguir ficar sem meu ritual matinal, ao longo do dia, não sinto que uma xícara de café consiga me despertar ou dar mais energia. Eu tomo é porque é gostoso mesmo. Um copinho quando chego no trabalho, mais um quando passo pela garrafa no caminho para o banheiro. E mais alguns durante a tarde – mas, quem está contando? 

Forte, suave ou encorpado, cada um tem seu gosto. Aqui em casa temos sempre três tipos: o coado de todas as manhãs, o solúvel para quando estamos com pressa, e em cápsulas, que fazemos todos os finais de semana desde que ganhei uma daquelas máquinas modernas em meu último aniversário.

Tem gente que gosta com aroma, misturado com leite, sem açúcar ou até com gelo. O que eu mais gosto no café, para além do paladar, é seu valor social. O famoso “vamos marcar um café”, promotor de inúmeros encontros, pessoais, amorosos ou profissionais. Além do “tomar um cafézinho” para ter uma conversa discreta fora do local de trabalho ou mesmo no cantinho da área de descanso. Em momentos difíceis, alguém vai para a cozinha e passa um café rápido. As energias são revigoradas assim que a bebida quente passa pela garganta. 

Também é um ótimo companheiro quando você precisa terminar um projeto ou ficar até mais tarde no trabalho. Agora mesmo, intercalo palavras com goles quentes enquanto escrevo esse texto. Assopro, escrevo, bebo. Está servido?

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Manutenção do Caos

9408074-3x2-700x467Me sinto sem lugar. Venho novamente despejar-me sobre o papel, numa tentativa de me organizar em palavras. Me faço, desfaço, refaço. Se me sinto frustrada em ter um trabalho que não gosto e, talvez até mais incomodada nos dias em que fico em casa, é porque não me sinto pertencente a lugar algum. Perdida, sem guia, GPS ou respostas, não sei qual caminho percorrer para me encontrar. Atalhos, nem pensar.

De repente fiquei nula, como se neste momento não só minha vontade não valesse, mas sequer eu devesse desejar algo. Não há espaço, tempo ou energia para investir nisso. Por quê? Tenho medo de me deparar com o esvaziamento de mim ou é uma vã tentativa de evitar a decepção de novamente ver meus planos adiados?

Estou operando em um modo de emergência há tantos meses que perdi a noção do tempo. Trabalhando igual a um verdadeiro bombeiro, esqueci como é ter paz. Feito uma roda, ando e me atropelo, passando dolorosamente por cima de mim todos os dias.

Ontem, em meio a um jantar casual, ouvi que era preciso ter calma, essa é só uma fase, vai acabar. Uma hora acaba, tem que acabar. À queima roupa, foi-me dito que hoje faço a manutenção do caos. Por mais que essas palavras tenham ferido, sei que não podiam ser mais precisas. Porque eu sei que a pior parte já passou e, apesar de ainda sentir o peso do mundo em minhas costas e de inúmeras caixas em minhas mãos, já passou muito tempo do dia em que abaixei as portas e me recolhi.

É claro que me orgulho de minha história e que esse fragmento virou parte essencial de mim, como a linha que costura os retalhos de uma colcha. Mas, ainda retalhada, sinto-me incapaz de expressar ou usufruir de meu aprendizado. Todos dizem que mudei, amadureci, que sou forte! Ah, se soubessem como minhas pernas estão cansadas de tanto caminhar.

Hoje, com tudo reacomodado em outro canto, em outra posição, de outro ângulo, a vida se refaz. E, por mais que doa admitir, eu sei que estou exatamente no lugar em que preciso estar nesse momento. Espero que um dia haja lugar para mim que não este, e que eu possa mais uma vez me refazer.

 

 

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Á Flor da Pele

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Sair da casa da minha mãe me fez aprender um monte de coisas. E, em meio ao caos da correria cotidiana e o frio na barriga de ser a responsável por uma casa, descobri uma série de coisas sobre mim.

A primeira delas é que eu gosto de cuidar: cuidar das plantas me faz um bem enorme, adoro ver minha sacada florida, descobrir e acompanhar o ciclo de cada plantinha, cuidar de cada vaso e comemorar cada botãozinho que nasce. Cuido das flores, cuido da roupa, da limpeza, da casa, do companheiro e de mim. Descobri que cozinhar é uma questão de persistência, pode queimar, salgar ou ficar tudo grudado no fundo da panela, mas dá para tentar de novo, e de novo. Uma hora dá certo! Já não morro de fome sozinha em casa.

A segunda coisa que eu aprendi é que eu sei aprender. Assim que me mudei, tinha muito medo por não saber fazer as coisas, medo de queimar a roupa ao passar, medo de não saber trocar uma lâmpada. Mas vida adulta é basicamente uma sequência de imprevistos: trocamos torneira, tomadas e vedamos as janelas com silicone na época das chuvas. Depois disso uma lâmpada queimada virou moleza.

Entrei em uma nova rotina e percebi que precisava reservar mais tempo para mim, me dar atenção. Comecei por fora, pela camada mais superficial. Cuidados com a pele são cuidados comigo, são me interessar e aprender mais sobre mim e meu corpo. São momentos de paz em meio ao caos a minha volta.

Descobri qual o meu tipo de pele e o tratamento adequado a ela, pesquisei, estudei e escolhi alguns produtos para testar: acertei e errei, joguei dinheiro fora, mas também fiz ótimas compras. Esse novo olhar me ensinou muito: um pouco sobre como compostos químicos funcionam e um pouco sobre como eu funciono.

De pesquisa em pesquisa, me deparei com a possibilidade de criar eu mesma algumas receitas. As primeiras misturinhas foram apenas por curiosidade, errei tudo, é claro! Mas o mais importante é que o cuidado virou diversão e isso me fez tentar novamente. Agora, de pele hidratada, tenho uma rotina de skincare que me relaxa, e ninguém tira a paz dos meus cinco minutinhos depois do banho. Cuido da pele, do corpo, da criatividade e da alma.

 

 

 

 

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Releitura

Woman's hand writing on a notebook with a pen on a wooden desk.

Ontem reli um texto de meu caderno e custei a acreditar que era minha a autoria de tais palavras. Um pensamento que mudou, deixou de fazer sentido, sendo substituído pelo seu oposto, até que me contentei com um meio termo insosso e menos polêmico.

Se há dias em que nem eu me reconheço, como pode alguém que estudou comigo anos atrás dizer que me conhece? É engraçado – e extremamente assustador – pensar que existem diferentes versões minhas povoando o imaginário de meus antigos conhecidos. Isso porque a imagem que as pessoas formam e guardam umas das outras costuma não acompanhar sua constante evolução.

Mas como conviver com os fantasmas de quem já fui e com as fantasias de quem serei um dia? Pior, como existir sabendo que há outros de mim que habitam a mente de outros, e esses, mais do que ninguém, escapam ao meu controle. Posso – achar – decidir quem sou, mas nunca apagar o que já fui, são opiniões e impressões que nos seguem e ferem. Tenho vergonha de palavras que já proferi um dia. Admiro a coragem que já tive aquela vez e sinto saudade da simplicidade de outra época.

Em tempos de redes sociais, onde tudo fica gravado, é difícil contentar-se em ser uno. É difícil escolher o que e quem ser. Os históricos de postagens e conversas podem vir à tona a qualquer instante. Mas eles são ou não verdadeiros? O que eu disse ainda é válido mesmo se eu já não concordar mais com aquilo? E o que será que meus ditos “seguidores” pensam de mim? Eles me conhecem? E eu, os conheço? Não ouso afirmar sequer se eu me conheço. Mas então por que fazemos tanta questão de seguirmos uns aos outros?

Ao longo dos anos me perco e me (re)encontro. Vou vivendo e tentando acompanhar quem sou, quem escolho e quem consigo ser. Reler minhas palavras, uma memória gravada, reacendeu algo por dentro. Não importa o rumo que eu tome, carrego sempre a história já escrita na bagagem. Mas, veja bem, não quero soar fatalista (ou daqui uns anos posso reler esse texto e me arrepender também!), afinal, como poderia chegar até aqui sem passar por milhares de significações e ressignificações. Sim, porque foi isso que senti ao rever meu traço cru no papel: eu ressignifiquei. Se as palavras deixaram de ter o peso que tinham na época foi porque se transformaram. E talvez nada disso faça sentido para você, leitor, mas hoje, essas palavras, que novamente insisto em registrar, significam tudo para mim.  Porque eu mudei, e sigo mudando.

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Anúncio Ativo

e-commerce concept.

Bom dia, amigo, o produto é novo? Nunca usado? É original? Tem quanto tempo de garantia? Se não servir posso trocar? Qual o tamanho? E a nota fiscal? Tem a pronta entrega? Aceita duzentos? Cento e oitenta e eu retiro ainda hoje? Tem desconto a vista? Qual o valor mínimo?

Para mim a internet tem se revelado uma amostra grátis do inferno, já estou vendo o que vou encontrar por lá. Não é bonito.

É verdade que é muito bom ter a possibilidade de fazer vendas online. O trabalho mesmo acontece apenas uma vez, depois que você cria uma base com todos os seus dados e ativa os anúncios dos produtos, pronto: a mágica acontece. Você pode fazer uma venda em pleno feriado de carnaval, ou então enquanto toma banho ou faz a janta, é cômodo vender de pijama e pantufas. Isso sem falar na delícia que é acordar e descobrir que fez uma venda durante a madrugada. Na loja virtual muitas barreiras são rompidas, não importa o horário ou localização, dá para vender até para cidades que você não sabia que existiam no mapa, é tudo uma questão de calcular o frete.

O único porém é que a internet mudou e tem mudado nosso comportamento. As interações se dão de forma distinta do bom e velho contato pessoal. Os clientes pesquisam bastante antes de comprar, é comum que saibam até mais do que você sobre o seu próprio produto, então é preciso estar afiado para responder uma série de perguntas técnicas, muito mais do que quando você e seu produto ficavam atrás de um balcão.

Há também a cultura da oferta – ou desvalorização – é comum que as pessoas tentem dar “lances” nos produtos antes de comprar, tentando pechinchar qualquer tipo de desconto. Além disso, a concorrência é feroz, e está a apenas um clique de distância. Como todos querem vender, fica-se preso a uma espécie de leilão invertido: ganha a venda quem lucra menos.

O cliente exige excelência, mas sem querer pagar por ela. São raras as vendas onde não há ao menos uma tentativa de barganha. Na minha opinião é a parte mais desgastante de todo o processo. Me pergunto se essas pessoas se comportam da mesma forma quando vão a uma loja física e conversam com um funcionário cara a cara, olho no olho. A barreira do respeito é quebrada por diversas vezes, mas é preciso continuar respondendo com paciência e educação, pois no pós-venda há uma avaliação que determina sua reputação. Aquelas cinco estrelinhas determinarão se os próximos clientes fecharão ou não suas compras com você.

É preciso ainda lidar com trocas e defeitos, assumir prejuízos, pagar comissão para o portal e parte de seu lucro vai para o governo. Não sobra muito no final do mês, principalmente considerando que você precisa reabastecer o estoque. Ainda assim é uma opção mais barata do que manter a estrutura das portas abertas e afixadas em um bairro.

Desde que comecei a vender online, mudei minha forma de comprar, pois sei como funciona do outro lado do anúncio. Há uma pessoa tentando trabalho, lucrar ou mesmo zerando seu estoque para sair do ramo. Talvez alguém que, como eu, ri das perguntas antes de respirar fundo e responder. 

O que me consola é que enquanto termino de editar esse texto, fiz mais uma venda.

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Cada coisa em seu lugar

Escrivaninha (7)

Arrumar é eliminar temporariamente a bagunça, como costumamos fazer na maior parte das vezes, apenas tirando as coisas do meio do caminho, dando um jeitinho de fazer tudo caber em algum lugar. Assim, pelo menos por um breve período, o espaço fica agradável aos olhos e tudo parece bem. Pode ser só um “tapinha” mesmo, não precisa perder tempo se preocupando com a funcionalidade da coisa. Quer dizer, funciona, mas só até o momento em que é preciso encontrar algo.

Já quando falamos em organizar, queremos realmente eliminar a bagunça, usando um método lógico que ajude a tornar o ambiente funcional e adequado, personalizado para o uso, por isso não há regras ou segredos. Na organização cada coisa encontra um lugar. Categorizando e tornando a rotina mais prática, não há necessidade de bagunçar tudo apenas para encontrar um item, porque você passa a conhecer a morada de cada peça que habita seu armário.

Organizando, ganha-se tempo, espaço e ainda se economiza. Mas, o motivo principal de querer organizar tudo o que vejo pela frente é a calma que me proporciona. Quando estou agitada, ansiosa ou preocupada com alguma coisa, costumo canalizar toda a energia em organização: passo horas reorganizando as peças de meu guarda-roupa, recategorizando os arquivos do meu computador e até redecorando a sala. Mexer nas minhas coisas, relembrar tudo o que tenho, mudar coisas de lugar, colocar no uso, por algum motivo me acalma.

Organizar é pensar, refletir sobre a distribuição e espaço das coisas, não é sobre rigidez e meticulosidade, é sobre praticidade. Por isso, organizar me ajuda a pensar, estruturar o ambiente externo me ajuda a ir organizando os pensamentos e sentimentos também, além da sensação de retomar o controle e de estar fazendo algo ativamente, já que nem sempre podemos agir diante de uma determinada situação.

Me acalma saber que a minha volta tudo tem um propósito, escolho o lugar de cada um dos objetos que me pertencem, ganho tempo para fazer outras coisas, tempo para me concentrar e me ocupar de outras coisas, já que o que é meu está bem resolvido.

Organização é um conceito, aplico-o em minha rotina com várias ferramentas, desde agenda até os mais variados aplicativos que estão à disposição. Assim, otimizo meu tempo, não perco prazos ou compromissos e estou – quase – sempre em dia com as tarefas. Minha escrivaninha é um alvo constante e sei que parece bobo, pois passo horas mexendo em meus papéis e canetas e parece que nada mudou, mas é assim que surgem algumas ideias, que controlo minha ansiedade e que me torno mais produtiva.

Aprendi a me organizar de fora para dentro.

 

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Término

48. TérminoQuando algo termina? É no último contato ou antes, assim que se toma a decisão? É quando a ideia surge pela primeira vez à mente, como um rápido lampejo ou é apenas depois de dolorosos meses quando finalmente paramos de pensar no assunto?

No ano passado, decidi parar um curso. Encerrei todo um ciclo e fechei uma etapa importante da minha vida. Naquele momento, mudando de profissão, o curso perdeu a necessidade e também o espaço em minha apertada rotina. Foi difícil tomar a decisão e pior ainda contar ao grupo que eu ficaria apenas até o final do mês, só mais um pouquinho, para fazer os devidos encerramentos.

No primeiro dia, quando dei a notícia, chorei, choramos todos juntos. Tentaram me convencer do contrário, mas foram todos compreensivos, deram o apoio que eu tanto precisava naquele momento. Na semana seguinte, senti um mal-estar enorme e me faltava vontade de aparecer por lá. Parece que não havia sentido em ir quando estaríamos todos contando os dias até meu término. Me arrastei, eu precisava ir! Precisava encerrar direito, honrar com minha palavra e compromisso. Mas, uma vez que a decisão foi tomada, as cores do caminho mudaram, os sons já não eram os mesmos, a graça de ouvir as histórias dos colegas se fora, deixando no lugar uma dolorosa pontada que me lembrava de que eu não acompanharia o desenrolar de nenhuma daquelas histórias e, por mais que prometêssemos uns aos outros que manteríamos contato, nunca mais sairíamos da aula para tomar um cafézinho, ou nos ajudaríamos mediante a uma crise no trabalho ou mesmo trocaríamos as tão pessoais confidências como costumávamos fazer.

Na semana seguinte, com mais dificuldade ainda, fui sabendo que em breve deixaria de participar das histórias que o grupo construía junto, logo eu deixaria de conhecer as brincadeiras e participar das decisões. Contei, acanhada, sobre meus encerramentos e encaminhamentos, tudo praticamente finalizado. Um misto de alívio e uma precoce nostalgia se misturavam em meu peito.

O dia do último encontro, meu último encontro, foi o mais difícil. E foi então que me peguei pensando se aquele ciclo se encerrava ali ou se eu já tinha fechado aquela porta ao tomar e comunicar minha decisão. E, se fosse esse o caso, como eu faria para suportar aqueles instantes finais? Como eu podia encerrar algo que já estava acabado?

Se eu faltasse, me sentiria covarde, incapaz de lidar com algo que eu mesma escolhi, com a sensação de não conseguir terminar. Porém, a partir do momento em que tomei a decisão, passei a me sentir esvaziada, como se já não tivesse mais motivos para estar ali, tendo em vista o eminente fim de tudo aquilo.

O que me motivou a ir foi saber que eu precisava me despedir, precisava agradecer a todos por aqueles três anos passados dentro daquela sala, todo o fortalecimento que aquele aprendizado me trouxe, precisava de cada troca de olhar, de cada abraço que eu queria dar e receber. Mas por que essa mania de esperar a hora da despedida para dizer aquilo que sentimos e pensamos? Por que esperar o momento da perda para nomear tudo o que acontecia diariamente ali?

Eu não sei quando tudo começou a terminar, mas foi um processo longo, doloroso e muito bonito, saí com a certeza de que era muito querida e de que deixava um pedaço meu naquele grupo, levando em troca um pouquinho de cada um que se encontrava naquela sala, toda terça-feira, logo depois do almoço. Talvez tenha acabado apenas hoje, quase um ano depois, quando finalmente revisitei essas memórias e comecei a escrever esse texto. Ou talvez ainda não tenha terminado, já que me importo o bastante para ainda pensar sobre isso e terminar com as mãos trêmulas no teclado sem saber onde, como ou quando colocar um ponto final aqui.

 

 

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Sem Título

47. Sem Título

Eu tentei escrever, mas hoje me faltam palavras. Eu, que sempre me refugiei em meio às páginas de meus livros, que sempre invejei os personagens que moram nas paredes de minha estante, me encontro agora incapaz de usar minhas mais potentes armas. Sinto as letras me escapando, escorrendo por entre meus dedos antes que eu consiga agarrá-las. Sem nada reter, tudo me escapa, não há limites ou filtros que me ajudem a criar contorno, me sinto vazio ao fim do dia. Todos os dias.

A falta de recursos não me deixa expressar ou mesmo entender com clareza o que sinto. Sem poder traduzir o que vivo, sufoco com aquilo que não é dito. O som entala e não sai pela garganta, as mãos trêmulas não conseguem desenhar a caligrafia e eu me afundo. Me enterro no conjunto desajeitado de funções que sou.

Perdida, é como se nenhuma peça se encaixasse no quebra-cabeças que a vida me fez. Sinto arrepios ao olhar para a folha em branco, mas os dedos continuam ali, apertando a caneta, tentando dominá-la. O caderno surrado que mora no fundo da minha mochila vive a me chamar, como um lembrete diário de que eu devo voltar, de que é preciso voltar, porque é isso que eu sei fazer. É em meio ao rascunho que eu me encontro. Me reconstruo, letra a letra, encaixando peça por peça, quantas vezes precisar, afinal sei que essa não é a primeira e nem será minha última crise com as palavras.

É sempre difícil recomeçar, quando os moldes antigos já não servem mais, mas não há nada que me comporte, nenhum apoio ou conforto enquanto me retalho procurando um fio que dê a liga que preciso. Confusa, busco novos caminhos, e me surpreendo quando me deparo com uma velha esquina, há muito conhecida, bem no meio do trajeto. Não existe mapa para quem não sabe onde quer chegar, as linhas pouco servem de guia para alguém que não saber como dizer o que quer dizer. Aos poucos os rabiscos voltam a tomar forma, os traços desconexos viram letras, que se misturam até que as palavras surgem no papel e frases inteiras se montam bem diante dos meus olhos. Novos textos chegam para contar as histórias que vivo, sinto e crio. A tinta que marca o papel é testemunha de meu primeiro encontro com aquilo que já morava em mim, histórias que se mostram a mim e conheço conforme escrevo.

Hoje, estou apenas tentando achar o caminho de volta às palavras, escrevendo mais um trecho de minha própria e singela história. Me desculpe por te fazer ler tantos rabiscos.