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Amarelo

Aquela tinha tudo para ser uma manhã como outra qualquer, mais um dia presa na mesma rotina. Mas então tudo mudou e mal sabia ela como desejaria voltar a sua habitual monotonia. 

Marisa acordou, como sempre, sofrendo com o som do despertador que invadia seus ouvidos, acabando com o silêncio do quarto. Ainda sem abrir os olhos, tornou-se consciente de todos os barulhos a sua volta, do som de carros passando lá fora ao tic-tac do velho relógio de parede. A respiração pesada de Toby inundou o cômodo, era bom saber que alguém ainda dormia. Um beagle gordo de meia idade que lhe fazia companhia, aliás, sua única companhia desde que o casamento terminara. 

Finalmente se rendeu, abrindo os olhos e se ajeitando para alcançar as pantufas. Esbarrou na caminha de Toby no caminho até o banheiro, provocando alguns resmungos abafados. 

Sentia como se nada funcionasse antes de beber seu sagrado primeiro gole de café. Então desceu e foi direto para a cozinha, parando apenas para abrir a porta dos fundos que dava para o pequeno quintal, assim Toby poderia usar seu banheiro também. Pegou, mecanicamente, o pó de café e o coador, contando em voz alta as colheradas, para, em seguida, levar à cafeteira, onde a mágica acontecia praticamente sozinha. 

Enquanto colocava sua solitária xícara de porcelana na mesa, começou a ouvir os latidos do cão lá embaixo. Seguiu até a escada, tentando entender o que acontecia, como não conseguiu detectar qualquer anormalidade, desceu. Assim que chegou no último degrau viu que dois de seus vasos estavam caídos no chão, provavelmente efeito do vento da madrugada. Havia terra espalhada pelo quintal e pedaços das plantas que haviam se despedaçado com a queda. Toby pisou na terra, sujando tudo ainda mais. 

Bufou, irritada, pensando que precisaria limpar as patas do cachorro antes de deixá-lo entrar em casa novamente. Só então reparou que ele estava encostado na porta que dava acesso à garagem, farejando com força pelo estreito vão até o chão. Ele se movia de um lado ao outro, tentando achar uma posição, como se quisesse passar por baixo da porta, tamanha era sua urgência. Seu bumbum empinado e os pelos eriçados indicavam uma posição de ataque. 

Foi quando se deu conta de que havia algo errado. Talvez o assassinato de suas plantas não fosse obra do vento, mas sim de algum animal noturno que tivesse se esgueirado pelo quintal durante a madrugada. Sentiu um arrepio percorrendo suas costas ao imaginar que pudesse estar dividindo sua casa com um hóspede indesejado: um rato. Afinal, Toby nunca reagira daquela maneira.  

Ela afastou o cachorro da porta, com alguma dificuldade, e abriu apenas o suficiente para conseguir entrar, deixando-o latindo furiosamente do outro lado. Acendeu a luz e pegou a primeira coisa que localizou e que poderia ajudá-la a se defender da criatura, caso houvesse alguma: um guarda-chuva que fora esquecido atrás da porta. 

Foi andando pela garagem, tentando observar qualquer movimentação estranha ou o que quer que estivesse fora do lugar. Havia uma pilha de caixas em um canto, coisas de sua filha, que saíra de casa há quase um ano, mas ainda não havia terminado de levar seus pertences, com a desculpa de que o novo apartamento era muito pequeno. Foi ela quem quis se mudar, não foi, pensou com irritação. Ela detestava aquelas caixas e o lembrete diário de sua solidão. 

Se houvesse algum animal escondido na garagem, só podia estar ali, naquele amontoado de papelão e lembranças. Tomou coragem para se aproximar, empunhando o guarda-chuva, ela apertava tanto a mão em volta do cabo que logo os nós de seus dedos ficaram doloridos. Usou-o para afastar as duas caixas que estavam à frente e deu um pulo para trás ao se deparar com um par de olhos amarelos e estreitos lhe encarando. 

A criatura não piscava ou mesmo se mexia, porém, seus olhos eram uma das coisas mais vivas que Marisa já vira. Não havia dúvidas quanto a isso. Deixando escapar um grito, deu alguns passos para trás, mantendo o guarda-chuva ainda a sua frente e parou para observar. Sentia-se hipnotizada por aquele par de olhos, mas, aos poucos, foi percebendo o rosto e finalmente o corpo do animal, completamente revestidos de um pelo negro brilhante. Era grande demais para ser um rato. Pequeno demais para ser um cão. 

Viu o rabo se mexer e deu mais um passo para trás, se assustando quando suas costas encontraram a parede fria de gesso. Não havia mais para onde recuar. Toby, que parecia ser capaz de sentir seu medo, voltou a latir do outro lado da porta. A criatura ficou com os pelos eriçados, soltou um ruído e desviou seu olhar amarelento para a porta. Um olhar que parecia humano, de tão concentrado. 

Se não era um rato, aquela coisa devia ser um gato. E ela odiava gatos, seu cheiro nauseante, o excesso de pelos, a língua áspera e asquerosa, além daquelas pupilas estreitas e horripilantes. 

Marisa bateu com a ponta do guarda-chuva no chão, tentando espantá-lo, mas a criatura não mexia nada além do olhar, que vagueava atento por todo o cômodo. Ela não sabia como ele tinha entrado ali, ou mesmo há quanto tempo estava em sua casa. Esse último pensamento a fez estremecer. 

Saiu novamente da garagem, encontrando um Toby irritadiço que a cheirava com força, quase como acusando-a de uma traição. “Eu sei, também não o quero aqui”, respondeu a seus protestos. Pegou uma vassoura e preparou-se para voltar, desviando do cão novamente. 

Bateu a vassoura no chão, acendeu as luzes e gritou, tudo para tentar assustá-lo. Impassível, o gato virou de costas, se embrenhando ainda mais entre as caixas, deixando apenas o volumoso rabo à mostra. Assim ele se parecia ainda mais com um rato imundo. 

Tentou se aproximar, mas não conseguia, sua pele se arrepiava só de pensar em precisar tocá-lo. É claro que ela não queria machucá-lo, só precisava tirá-lo dali. Ele precisava ir embora. Conseguiu, com muito esforço, chegar perto o suficiente para enxotá-lo com a vassoura. Tentou empurrar seu pequeno traseiro, mas não conseguiu nada além de um forte miado. O som entrou e ficou ecoando em sua cabeça. Toby intensificou os latidos, em sua defesa. 

Nervosa, sentia as gotas de suor escorrendo por dentro de sua blusa, saiu novamente da garagem, subiu e alcançou o celular que ficara em cima da mesa. Pensou em ligar para sua vizinha, talvez ela não se importasse em ajudá-la, mas, automaticamente, ligou para ele

Uma voz ainda cheia de sono lhe respondeu no terceiro toque. Ela se enrolou nas palavras, sentindo um misto de vergonha e arrependimento quando ele pediu que se acalmasse e explicasse o que estava acontecendo. Se era urgente? Claro que sim! Respirou fundo e contou, dessa vez devagar, que havia um gato enorme preso em sua garagem. Ele não fez nada além de rir, disse sentir pena do gato e pediu que ela se acalmasse, pois o pobre bichinho era, com certeza, o mais assustado dos dois.  

Desligou o telefone humilhada e com duas sugestões: a primeira era borrifar um pouquinho de água nele, pois gatos não gostavam de se molhar e, a segunda, era deixar o portão aberto para que ele fosse embora sozinho. Que grande ajuda. 

O animal era rápido, saiu correndo pela garagem assim que ela borrifou água no meio das caixas de papelão. Deu uma volta completa e então foi se esconder debaixo do carro. Sua corrida de um esconderijo a outro fora tão eficiente que Marisa continuava no escuro, sem saber se era macho ou fêmea, se ainda era um filhote, ou mesmo se estava ferido. Pelo tamanho – enorme – não parecia ser um filhote, mas parecia bastante magro. 

Ela também sentia pena do bichinho, sabia que ele estava perdido e assustado, mas era mais forte do que ela, simplesmente não podia se agachar e tirá-lo dali. Ela queria ajudá-lo a sair da casa para que reencontrasse seu caminho, mas não conseguia. Torceu para que ele não estivesse ferido, não queria lidar com a culpa de tirar um cadáver de sua garagem. 

Tentou se acalmar para seguir a segunda dica do ex-marido. Subiu e tomou seu café, apesar de não sentir o gosto da comida em sua boca. Tomou banho e se arrumou com os pensamentos ainda presos ao bichano. Cuidou de Toby preferiu deixá-lo trancado dentro de casa. 

Ele ainda estava embaixo do carro quando ela voltou para a garagem. Agora ronronava, provocando-a. O som era lento e arrastado, como um motor velho. Ela apertou as chaves na mão e clicou no botão do alarme, destravando o carro. O animal teve um leve sobressalto com o barulho e as luzes que piscaram no automóvel, porém voltou a se acomodar. 

Marisa sabia que poderia acabar com aquilo de maneira fácil, bastava ligar o carro, e ninguém saberia. Apenas ela saberia, pelo resto de sua vida, tanto quanto sabia que jamais teria coragem de fazer mal a um ser vivo. 

Irritada, pegou novamente o guarda-chuva e deu pancadas na lateral do carro, obrigando-o a sair. Encolheu-se toda enquanto a criatura fazia seu caminho de volta ao ninho, notou que ele já parecia íntimo da montanha de caixas. Deixou a porta aberta, na expectativa de que ele aproveitasse a casa escura e silenciosa para sair pelos fundos, da mesma forma como devia ter entrado.

*

Desnecessário dizer que quase não conseguiu trabalhar naquele dia. Não conseguia prestar atenção no que as pessoas falavam com ela, não reparava em quem lhe dirigia a atenção e cometeu erros mais de uma vez, algo pouco comum. Seu chefe ficou irritado ao receber uma planilha repleta de erros de digitação. Ela se desculpou, dizendo que não dormira bem e estava tendo problemas em casa. Ele sabia do divórcio, é claro. 

No almoço, a comida não descia pela garganta, que parecia arranhada. Largou a marmita pela metade e foi para área de descanso, mas havia um rapaz cochilando sentado em uma cadeira, e ela podia jurar que sua respiração era semelhante à daquele que lhe aguardava em casa. Já começava a sentir-se perseguida. 

A dificuldade para se concentrar acompanhou-a pelo resto do dia e, até chegar em casa, já se sentia exausta. Estacionou em frente ao portão, fechou os olhos e afundou as unhas no volante, com as mãos trêmulas. Apertou um botão no pequeno controle, abrindo o portão automático. Em vão, estreitou os olhos, tentando enxergar no escuro: nada. Manobrou o carro, entrando de ré na garagem. A câmera traseira lhe ajudou a estacionar, porém pouco revelou sobre o indesejado visitante. Talvez ele tivesse ido embora, afinal!

Assim que desceu do carro e bateu a porta, o leve ronronar voltou a ecoar em sua cabeça. Ali, no meio das caixas ainda jaziam os olhos amarelados. Praguejou mentalmente, se perguntando se o bicho não tinha fome. 

Sentiu-se culpada, no entanto, ao se dar conta de que o animal sequer bebera água o dia todo. A contra gosto, subiu, recebeu a festa de Toby, que ficava sempre muito feliz com sua chegada, e foi em direção à pia. Usou um pote velho para encher de água e desceu novamente, equilibrando o líquido em suas mãos e desviando do cachorro que, ainda animado, pulava à sua volta. Na porta da garagem, ele voltou a farejar, se abaixando e empinando o rabo, os pelos traseiros se eriçaram de raiva enquanto ele latia. 

Com dificuldade, afastou-o da porta para poder entrar. Mesmo tendo perdido quase metade da água no caminho, ainda havia o suficiente para que deixasse o pote no chão. Não conseguiu colocar perto dele, não conseguiria se abaixar e muito menos tocá-lo. Então apenas encostou o pote na parede mais próxima e saiu em passos rápidos, sem olhar para trás. 

Pensou em lhe dar leite, ou então um pouco de atum, sabia que ainda havia uma latinha de conserva no fundo do armário, mas teve medo de que, se ele gostasse, poderia querer voltar por mais. Ela não podia se arriscar. 

No banho, passou uns bons minutos debaixo da água, esfregando o corpo, sentia-se mais suja do que o comum naquele dia. Vasculhava seu corpo à procura de pelos ou qualquer cheiro que lembrasse o animal. Mesmo ali, com o barulho da água e a sensação quente em sua pele, se fechasse os olhos, parecia ouvir seu ronronar ecoando pelas paredes. 

Ligou para a casa da vizinha da frente, mas a chamada se esgotou antes que alguém atendesse. Olhou pela janela e viu que a casa estava toda apagada. Sem saber a quem recorrer, entendeu sua sina: seria obrigada a passar a noite com aquele ser asqueroso em sua casa. Prendeu Toby dentro de casa e deixou a porta que separava a garagem do quintal aberta, na expectativa de que durante a noite o animal fizesse seu percurso de volta e sumisse da mesma forma como havia aparecido. 

Deitada na cama, não conseguia fechar os olhos sem ver o olhar amarelo a sua frente. Sentiu-se ridícula por levantar e acender a luz do corredor. Mas naquela noite não conseguiria dormir no breu. Em silêncio, ouvia as batidas do relógio e o estalar da geladeira no andar de baixo, até que de repente, começou a escutar também o mesmo som de motor velho que lhe perseguira durante todo o dia, era como se ele estivesse rindo dela. 

Sentia-se fraca, impotente, não sabia como podia lidar com tantas coisas sozinha e, ainda assim, ficar sem ação diante de algo tão insignificante. Era vergonhoso! Mas o embaraço não era tão grande quanto o asco que sentia só de pensar em tocá-lo. Tentou imaginar sua mão nos pelos ensebados do animal e não conseguiu. Porém, virou refém das imagens que invadiram sua mente: sabia que o gato ainda estava lá, provavelmente lambendo o próprio corpo com a língua áspera e sujando toda sua casa de pelos negros. O ronronar ficou mais alto e ela se encolheu na cama, apertando as cobertas em torno do corpo. Olhou para os lados, mesmo sabendo que não havia nada ali. Ele estava longe, tinha de estar. Ela conferira três vezes se a porta da cozinha estava trancada à chave. E sabia também que nenhuma janela ficara aberta.  

Olhou para Toby, que respirava fundo, em um sono pesado, encolhido em sua caminha. Fechou os olhos novamente, sentindo-os pesados, e teve ainda mais um vislumbre dos olhos amarelos antes de finalmente conseguir adormecer. 

*

Agradecida pela chegada da manhã, escovou os dentes com pressa, olhando pela janela, como se esperasse encontrar o animal parado no meio da rua. Nada. Calçou as pantufas e desceu direto para a garagem. Toby estranhou a quebra do ritual matinal de sua dona, resmungou por não poder descer e fazer xixi perto do ralo, como sempre. 

Ela seguiu até a garagem e nem precisou acender a luz para encontrá-lo lá. Paralisado na mesma posição, com o olhar fixo nela. Ele vencera e os dois sabiam disso. Sentiu seus olhos arderem de raiva e segurou as lágrimas que tentavam cair. Secou uma solitária, virando-se de costas para que ele não a visse. 

Sua primeira atitude foi ligar novamente para o ex. Ele gargalhou ao telefone e ela podia imaginá-lo jogando o pescoço para trás ao balançar a cabeça, como fazia quando achava graça em algo.

Cerca de uma hora depois, ela desceu para lhe abrir a porta. Se trocara, vestindo uma blusa nova e calças jeans, tentando parecer casual, mas não casual demais. Aquilo não era um encontro, afinal. Difícil dizer quem estava mais empolgado com sua chegada, Toby ou ela. 

Ofereceu-lhe uma xícara de café e então desceram para fazer o que precisava ser feito. Ela deixou que ele fosse na frente, algo que ele notou com humor. Porém, ao chegar na garagem, ele acendeu a luz, se agachou, chamou, e nada, não havia nenhum sinal do felino. 

“Mas ele estava aí, eu juro!” disse e lhe contou sobre como seguira em vão suas dicas, molhando as caixas e deixando a casa aberta. Contou como ele havia arranhado o papelão e sem parar de encará-la o dia todo. O ex-marido, cético, apenas balançou a cabeça, dizendo que não havia nada ali, nenhum arranhão ou marca nas caixas intactas da filha, nenhum pelo para contar história. 

Ele lhe encarou, olhando no fundo de seus olhos, e perguntou se ela tinha mesmo certeza do que estava dizendo. Seu olhar a feriu mais do que um dia inteiro sendo encarada pelas pupilas estreitas do animal. Para evitar maiores constrangimentos, ele disse, brincando, que o animal devia ter finalmente se cansado dela e encontrado a saída da casa. 

Na hora de ir embora, pediu que ela não lhe ligasse a menos que houvesse uma emergência de verdade, pois ele andava bastante ocupado com o trabalho e não tinha tempo a perder. Além do quê, já era hora dela se virar sozinha, fazia quase seis meses que ele saíra de casa. Virou as costas, entrou em seu carro e saiu, sem olhar para trás.

Marisa sentia-se humilhada. Derrotada, outra vez. 

Entrou, levou a louça até a pia, tentando se concentrar nas tarefas domésticas, para manter a mente ocupada. Foi então que ouviu um ronco, mais um e mais outro. O velho motor foi ganhando vida novamente, primeiro baixinho, porém aumentando gradativamente. Desceu, afobada, as escadas, com Toby em seu encalço. Entrou na garagem e foi correndo até as caixas, afastou uma após a outra, até enxergar a parede ao fundo. Nada. O barulho ficou mais alto, mais perto de suas pernas, então se virou para trás e a última coisa que viu foi o amarelo vivo. 

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Janela

Da janela do meu apartamento vejo seu escritório. Eu estudo e ele trabalha. Quando estou me levantando, ele já está batendo ponto. Tem dias que chego em casa e sua janela ainda está acesa. Vejo-o assistindo reuniões, falando no celular e teclando furiosamente em seu computador. Sei a hora em que seu almoço chega, quase sempre pedido do restaurante da rua detrás, com exceção das quintas, quando ele sai para almoçar fora. Uma hora inteira sem vê-lo. 

Acompanho sua rotina enquanto ele nem sabe que faz parte da minha. Por mais de uma vez já me guiei por seus horários. Mesmo sem saber quem ele é, ou por quê está lá, é reconfortante ter a certeza de que estará, me sinto menos solitária em sua companhia. 

Levantei-me da mesa, ainda com a caneca em mãos e fui até a janela, afastei as cortinas e lá estava ele em minha paisagem diária. Abri a porta, saindo para a sacada e fiquei observando-o digitar enquanto a fumaça do café subia em espirais e o cheiro me esquentava por dentro.  

Terminei a bebida e entrei novamente, acrescentando a caneca à louça já acumulada na pia, e corri para o banho, pois já estava atrasada. Consegui passar boa parte do dia sem pensar nele, as aulas da manhã foram cheias, usei o intervalo para terminar um trabalho que seria entregue no último período e perdi valiosos minutos na fila da impressão. 

Almocei com uma colega, falamos sobre quase todas as pessoas de nossa turma e então fui embora. Apenas na volta, já perto de casa, foi que ele invadiu meus pensamentos. Será que ainda estava no escritório? 

Com o tempo, fui pegando um hábito estranho: eu gostava de imaginá-lo nas mais diferentes situações. Era como um personagem que habitava meu imaginário e eu adorava jogá-lo diante de um cenário para ver como ele se virava. Em geral tínhamos as mesmas opiniões, apesar de eu discordar de sua conduta por uma ou duas vezes. 

Cheguei em casa, cumprimentei o porteiro e parei para pegar uma encomenda: meus hidratantes novos finalmente haviam chegado. Assinei meu nome no já surrado caderninho da portaria, logo acima da dona Odete, que recebeu seu pedido da farmácia. Me despedi e segui até o elevador, que estava parado na garagem, no segundo subsolo, e lá ficou por longos três minutos. 

Fiquei encarando meu reflexo na porta do elevador, até que ela se abrisse. Entrei, quase em piloto automático, falando um “boa noite” sem nem olhar para meu companheiro de subida. Meus olhos miravam o painel de botões que indicava os andares. Apertei o meu e me posicionei, de costas para a porta. Só quando ela se fechou, olhei para frente e o vi pelo espelho. Ali estava meu amigo sem nome, dessa vez de pé, de perto, com cheiro de loção pós-barba e até mesmo com voz, afinal, ele murmurou algo em resposta. 

Antes que eu conseguisse pensar em qualquer coisa para dizer, o elevador parou um andar abaixo do meu e ele desceu, ajeitando a mochila nas costas. Tentei ter um vislumbre de sua casa, mas no momento em que ele abria a porta, a do elevador se fechava. 

Saltei do elevador quando as portas abriram novamente. Entrei rápido e fui correndo até a sacada. As luzes do escritório estavam apagadas, tudo escuro e sem vida lá dentro. Cheguei bem perto da grade, apoiando a cabeça na tela de proteção e olhei para baixo: luz, som de risadas, cheirinho de comida. 

Me afastei, voltando para dentro e desabando no sofá. Eu nunca o imaginei tão perto antes. Não sabia o que fazer, agora tudo parecia diferente, eu podia espiar uma pessoa estranha em seu escritório, mas não devia fazer isso com um vizinho, certo? O que ele faria em meu lugar?

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Liberdade

Depois que nós terminamos – ou melhor, que ele me deixou – todos os amigos tiveram a sensibilidade de perguntar se eu gostaria de cancelar nossa viagem, mas não seria justo acabar com a diversão do grupo por causa de um problema meu. Nosso. Mais meu, aparentemente. Nunca fui do tipo que gostasse de ser o centro das atenções. Além disso, no fundo, eu tinha esperanças de que até lá nós já tivéssemos nos resolvido e reatado o namoro. 

Minhas expectativas foram frustradas e, dois meses depois, fui passar as férias de verão no sítio que alugamos no interior com os amigos, ele e sua nova namorada, Vanessa. Seriam dias longos e dolorosos, mas eu não podia fraquejar. 

A ideia de acender a fogueira foi dele, o mais empolgado do grupo. Havia um espaço no meio gramado, feito de alvenaria e, o dono da casa autorizou que usássemos um pouco da lenha que havia encostada no muro dos fundos. Então, após um belo dia na piscina, todos tomamos banho, nos arrumamos e fomos jantar fora: cachorro quente no gramado, sob a luz do luar. Diferente da cidade, era possível ver as estrelas no céu, uma noite no campo era um presente para quem estava acostumado a ter apenas prédios como paisagem. 

No interior, as noites eram sempre frias, apesar da alta temperatura durante o dia, então estávamos enrolados em nossas blusas e ansiosos pelo calor do fogo. Os garotos montaram uma pequena estrutura com a lenha e levaram algum tempo até conseguir fazer o fogo pegar, gastando mais da metade da embalagem de álcool no processo. Quando conseguiram, a fogueira ganhou vida em segundos. 

Ficamos todos amontoados em volta, querendo sentir um pouquinho do calor de perto, alguns tirando fotos, outros já tentando improvisar espetos para cozinharmos as salsichas ali mesmo. Logo as conversas paralelas começaram, todos foram se ajeitando em pequenos grupos em volta do calor. E foi então que Mari apareceu com um bloquinho e algumas canetas na mão, sua proposta era fazermos um ritual de libertação, que consistia em cada um escrever em uma folha em branco um problema ou história que gostaria de deixar para trás, era preciso escrever enquanto mentalizava todas as energias negativas sobre aquilo, a ideia, segundo ela, era transferir toda a mágoa e emoções para o papel. Em seguida, dobraríamos nossos pedaços de papel e atiraríamos na fogueira. O fogo terminaria de cumprir o processo de purificação, nos renovando. Ignorando alguns risinhos, Mari disse que aquelas férias mudariam nossas vidas para sempre. 

Alguns reviraram os olhos, Gabriel foi quem mais riu da ideia, mas parou assim que viu sua namorada estendendo a mão para pegar uma caneta. Em pouco tempo todos se contagiaram e acabaram aceitando a brincadeira, afinal não faria mal algum tentar. 

Cada um recebeu uma folha e fomos revezando as canetas, enquanto alguns pensavam e demoravam a se decidir, outros pareciam já saber exatamente do que queriam se livrar. Eu sabia, é claro, só demorei para conseguir escrever no papel. Encarei minha letra trêmula antes de dobrar o papel e atirar ao fogo. Fiquei observando o papel sendo consumido pelas chamas até desaparecer. 

Juntos, queimamos angústias, medos e parte do nosso passado. Depois que todos fizeram, as brincadeiras e conversas paralelas voltaram a acontecer, alguém entrou para buscar mais cerveja e não tocamos mais no assunto. Eu me perguntava se mais alguém sentia um nó na garganta como eu. Ele ria, sem saber que era seu nome que queimava entre as chamas, era dele que eu precisava me purificar. 

Seguimos noite adentro, com comilança, risadas e cantoria. Tínhamos um violão, muitos cantores amadores e um batucador profissional, o suficiente para nos entreter por algumas horas. Aos poucos, cada um foi entrando ou arrumando um canto no grande quintal para se deitar e observar as estrelas, alguns novos casais se formaram. Eu me deitei perto de Mari e ficamos conversando sobre algumas árvores que víramos mais cedo no terreno: pé de manga, jabuticaba e até um pequeno milharal. Combinamos de colher algumas frutas no dia seguinte. 

A conversa me distraiu o suficiente para perder os dois de vista e, quando fui me deitar, não os vi em canto algum. Fiquei parada em frente à fogueira, que já diminuíra consideravelmente, mas ainda irradiava calor. Assisti à dança das chamas, que consumiam a madeira, me sentia hipnotizada por aquela imagem, a energia daquele calor. Balancei a cabeça e ri, me sentindo boba por ter deixado todo aquele papo de energia me contagiar. 

Fui até o quarto que estava dividindo com outras meninas, peguei minha necessaire e pijama dentro mala e segui até o banheiro. O cheiro de fumaça estava impregnado em meu cabelo, mas tive preguiça de tomar outro banho, então só escovei os dentes e me troquei antes de voltar para o quarto deitar em uma das camas duras e desconfortáveis que tínhamos a nosso dispor. O travesseiro era bem baixo, de tão velho e surrado que estava, ao que tudo indicava, a noite seria longa.  

Eu simplesmente não conseguia dormir. Me virei de um lado para o outro na cama, contei as peças de azulejo na parede, olhei cada mancha no teto e encontrei uma pequena teia de aranha na quina. Ouvia, com inveja, uma respiração alta na cama ao lado. Ouvi quando mais alguém entrou no quarto e se deitou. E nada, meus olhos simplesmente não se fechavam. Não conseguia parar de pensar nele e em nós. Talvez fosse parte do processo, talvez eu precisasse lembrar de tudo primeiro, mais uma vez, para então conseguir esquecê-lo, para então deixar nossa história ir embora junto com as cinzas. Sentia calor, depois frio, e não conseguia encontrar uma posição confortável, meu estômago doía, revirando o jantar lá dentro. Não sei se tive febre, mas sentia minhas mãos frias, suando. 

Acho que finalmente adormeci, ou só fechei os olhos por um instante, não saberia dizer, mas abri-os novamente quando senti um cheiro forte de queimado entrando em minhas narinas, não é possível que tudo aquilo viesse do meu cabelo. Olhei pelas frestas da janela e vi a fumaça começando a entrar. Sentei-me na cama, olhando mais atentamente. 

“Fogo!”, gritei, e saí correndo para acender a luz, acordando todas as meninas em meu quarto. Acho que não conseguiria descrever os momentos que vieram em seguida, porque mal me lembro de algo que faça sentido. Ouvimos gritos, todos saíram correndo, batendo em outras portas, tentando alertar a todos, alguns lembraram de arrastar malas para fora, outros, como eu, saíram só com o pijama no corpo. Tropecei em meus próprios pés no caminho para fora e alguém me ajudou a levantar. Saímos correndo. 

Alguém ligou para os bombeiros, mas eles demoraram a aparecer, afinal, estávamos isolados no meio do mato. Assistimos a casa pegar fogo, as chamas lambiam as paredes e labaredas levantavam alto, cuspindo telhas para cima, estalos de madeira eram a trilha sonora de nossos gritos por socorro. Havia muita fumaça, senti dor em meu peito e comecei a tossir, os olhos lacrimejavam e aquele terror parecia não ter fim.

Mas então o resgate chegou e nos levaram embora dentro de alguns carros, deixando uma equipe para trás, tentando apagar a grande fogueira que virara a casa. Passamos as horas seguintes recebendo atendimento e sendo interrogados. Parece que alguém não percebeu que a fogueira continuou acesa e a brasa caiu na grama, espalhando o fogo, que logo tomou conta do lugar. Talvez o excesso de álcool usado no acendimento também fosse culpado. 

Demorei para perceber que Gabriel e Vanessa não estavam conosco, quando notei, olhei para Mari, desesperada, mas ela não entendeu. Pouco depois veio a notícia que nos confirmou: o casal ficou para trás, morreram trancados no quarto. Na correria ninguém notou que eles não estavam lá, e os bombeiros não sabem se eles permaneceram dormindo ou se tentaram sair, mas não conseguiram. Seus corpos foram encontrados ainda na cama. 

De manhã, fomos levados de volta à casa, que já nem podia mais ser chamada assim. Avistamos os destroços, conseguimos recolher alguns poucos pertences e ficamos todos paralisados, observando o que restara de nossas férias. Eu ainda vestia pijama e chinelos, nem meu celular estava comigo, não sobrara nada meu ali. 

Olhei para o gramado e vi o local onde a fogueira começara. De longe, avistei o pequeno pedaço de papel perfeitamente dobrado em meio às cinzas. Caminhei até lá, sem que ninguém notasse minha ausência, abaixei e peguei o papel, ainda quente, e guardei no bolso. Eu não precisava abrir para saber o que estava escrito ali, eu sentia dentro de mim, finalmente estava livre.

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Castelo dos Sonhos

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Acordei sentindo uma brisa passando pelo quarto, um ar frio tocando a ponta do meu nariz e tudo o que não estava protegido embaixo do cobertor pesado e felpudo. Me estiquei na cama macia, sentindo meu corpo despertar aos poucos, mexi os pés, estiquei os braços para os lados, sem sentir as bordas da cama. Não queria abrir os olhos, então, apertei-os, lutando contra a claridade que tentava atravessar minhas pálpebras e tentei para voltar ao sono, queria retornar ao sonho exatamente do ponto em que parara, como se pudesse apertar o play naquele filme novamente.

Me virei para um lado, puxei o cobertor para cima, tampando até a cabeça. Virei para o outro, me encolhendo em volta de mim mesma. Mas era tarde, já estava acordada. Repassei o sonho na cabeça, disposta a imaginar uma continuação, já que não poderia mais ser espectadora de meu inconsciente. Me vi novamente no baile, com um vestido longo azul, a saia rodada com uma fina camada de tule repleta de pequenos pontos de brilho, a maquiagem forte em torno dos olhos os realçava, o gloss de efeito molhado brilhava nos lábios.

Talvez minha parte preferida fossem os sapatos prateados, que tinham o salto na medida certa, não apertavam e, mesmo após uma noite inteira em pé, não havia sequer uma bolha ou calo me incomodando, só podia ser imaginação mesmo.

O cabelo caía em ondas até meus ombros, mais curto do que estava acostumada, mas eu me sentia tão linda que simplesmente não mudaria nada naquela noite. Na verdade, mudaria apenas o tempo: adoraria fazê-lo parar. Gostaria de poder viver ali, naquela festa, naquele castelo. Sim, pode me chamar de boba, mas era isso o que aquela mansão parecia. O jardim que eu via lá embaixo, pelas grandes janelas do salão só podiam ser descritos como vindos de um sonho.

Eu não podia terminar aquela noite senão desta maneira, em uma cama confortável, sem hora para acordar e com ele ao meu lado. Aí começava a parte da imaginação, já que eu estava sozinha em minha cama.

Gemi, e finalmente tomei coragem para abrir os olhos e enxergar a realidade. A luz me invadiu, causando um arrependimento instantâneo. Pisquei algumas vezes para me acostumar e então olhei para frente. O vestido, que mais parecia de uma fada, estava lá, azul e com todo o brilho que eu me lembrava. Os sapatos descansavam no chão e uma pequena bolsa estava em cima da cadeira. Passei as mãos sobre o cobertor e não o reconheci como meu. Olhei em volta e para mim, apenas para constatar o óbvio: aquela não era minha cama, muito menos o meu quarto.

Eu vestia uma camisola preta, rendada que não cobria muito do meu corpo, não era à toa que sentia frio. Olhei para os lados, só para ter certeza de que estava sozinha e então dei um beliscão em meu braço: doeu de verdade. Mas o que era verdade, afinal?

Sentei-me na cama e olhei para baixo, onde encontrei duas pantufas de pelúcia aguardando para um encaixe perfeito em meus pés. Havia também um roupão apoiado na cabeceira da cama. Enrolei-o em volta do corpo e parecia que estava carregando um cobertor comigo. Levantei e segui até a janela. Lá estava meu jardim dos sonhos, a vista mais bonita que eu já vira em uma manhã, os raios de sol cortavam o horizonte, apesar da baixa temperatura. Fiquei apoiada, olhando a imensidão a minha frente. Olhei para as janelas ao lado, todas fechadas.

Fiquei ali até ouvir o barulho de chave girando na fechadura atrás de mim. Sua voz chegou aos meus ouvidos junto com o cheirinho quente de café que invadiu todo o quarto.

– Já está acordada? Saía daí ou vai se resfriar.

– Achei que eu estivesse sonhando – perguntei, me virando e encarando-o de frente.

Ele também vestia um roupão e pantufas semelhantes às minhas, mas, ao contrário de mim, parecia se sentir realmente à vontade ali.

– A noite passada pode ter sido, mas espero que todos os nossos dias sejam assim a partir de agora.

Ele deixou a bandeja que carregava apoiada na cômoda ao lado da cama e se aproximou, me envolvendo em um abraço apertado.

Respirei seu perfume, o mesmo de ontem à noite. Não era um sonho, afinal.

 

 

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O Colecionador de Histórias

14. O Colecionador de Histórias

Caio já estava acostumado, não conformado, mas acostumado. Todos os dias fazia tudo sempre igual. Enrolava por até vinte minutos depois do despertador já ter tocado. Se arrastava até o banheiro e deixava que a água corrente em seu corpo terminasse o trabalho de lhe acordar. Depois, meio vestido, mas ainda de pantufas, seguia para a cozinha e ligava a cafeteira. Enquanto ela fazia seu trabalho matinal praticamente sozinha, ele lavava a louça da noite anterior e tentava se livrar dos vestígios que restassem pela casa. Jogava latas de cerveja fora, cheirava o resto de pizza e ponderava se aquilo servia para mais uma refeição ou não.

Toda quinta-feira, suas noites eram reservadas a jogar videogame com os amigos. Faziam diversas competições, às vezes presenciais, mas, quase sempre, online. Era mais fácil interagir com pessoas que se pareciam tanto com ele. Nada mudava seu compromisso semanal. Esse mês, estava em segundo lugar, e pretendia avançar na próxima rodada.

Fora isso, por mais que não fosse grande fã de uma rotina matutina, funcionava melhor para cumprir suas obrigações pela manhã, antes do trabalho, pois sabia que depois seria tragado por oito horas de uma função maçante e repetitiva – dez, se considerasse o trajeto, enlatado junto com outras tantas pessoas dentro de um estreito vagão a caminho de seus trabalhos entediantes e mal remunerados.

Depois de dez horas sentindo-se massacrado, à noite ele não conseguia mais ser produtivo. Só queria beber alguma coisa, jogar e relaxar. Às vezes pedia pizza e ficava assistindo vídeos em seu computador, outras vezes ficava deitado no sofá maratonando séries. E, quase sempre, se masturbava.

Fazia um ano e meio que ele fora contratado para integrar o time de TI de uma empresa de seguros. Em geral o trabalho era fácil, uma vez acostumado ao sistema, não era grande desafio resolver eventuais bugs, a pior parte era lidar com o setor de experiência do usuário, detestava quando precisava atender chamados e responder solicitações dos clientes. Afinal, o que havia de tão difícil em mexer em um computador?

Mas, não havia nada como ser taxado como o “cara do TI”. Tinha vontade de rir de desespero quando alguém aparecia em sua sala para pedir ajuda com seu computador ou então para “dar uma olhadinha” na impressora que misteriosamente parara de funcionar. Ele se sentia como um atendente de telemarketing, perguntando “você já tentou reiniciá-la?”. Sem dúvidas, lidar com pessoas sempre fora a pior parte.

Mas, com aluguel e contas para pagar, desde que brigou com a mãe e resolveu sair de sua casa, ele se submetia a uma série de infortúnios em nome do emprego e, principalmente, do salário. Por isso, repetia a si mesmo que aprender a programar fora a melhor coisa que fizera em sua adolescência. O sonho de crescer e se tornar um escritor estava trancado na gaveta já havia alguns anos. Com o ritmo de vida que vinha levando mal tinha tempo para ler, quem diria colocar suas próprias ideias no papel.

E, também, trabalhando o dia inteiro e sem tempo para viver experiências novas, sentia não ter material – ou tempo – para escrever uma história que pudesse despertar o interesse de alguém, não com tanta coisa boa já produzida no mundo. De que valiam suas histórias quando cada pessoa já estava ocupada escrevendo e vivendo a própria.

Apesar da remuneração não ser tão ruim, a verdade é que mal dava para fechar o mês, foi isso que o incentivou a aceitar um plano B, ou um “bico”, como costumava chamar. De tanto mexer com computadores, tornou-se expert em recuperação de arquivos e, como bom paranoico que era, não fazia nada sem distribuir uma boa dose de backups por aí: sistemas em nuvem e hds externos eram seus melhores amigos.

Por ser conhecido na empresa como o tal “cara do TI”, os colegas também começaram a procurá-lo para resolver problemas em seus dispositivos pessoais. E, já que precisaria trabalhar e socializar com aquelas pessoas após o expediente, resolveu cobrar por isso. Em pouco tempo foi indicado de uma pessoa a outra e conseguiu um volume considerável de clientes.

Em geral, recebia máquinas infestadas de vírus e pedidos desesperados de ajuda, pois sempre havia uma foto ou documento importante demais para ser apagado, por isso, formatar nunca era uma opção. Trabalhando com uma boa margem de sucesso, em geral conseguia recuperar as informações do hd e só depois formatava a máquina, devolvendo-a limpinha, com seus preciosos arquivos intactos. Inconformado com a falta de precaução das pessoas, também começou a fazer uma espécie de consultoria de backups. Fornecia opções de sistemas e locais, e ensinava cada um a criar seus próprios métodos de salvar e proteger arquivos para a posterioridade.

Era de se estranhar, para alguém que se irritava tão facilmente em atender pessoas no dia a dia do trabalho, mas a verdade é que era divertido ver como as pessoas tinham tanto apego a arquivos de alguns kbytes. A quantia de fotos tremidas que as pessoas tratavam como tesouros era um mistério a ser estudado. Mas ele, apaixonado por bancos de dados, se divertia tratando dos arquivos e espalhando cópias de tudo na rede.

Aos poucos, por mais que não quisesse admitir, começou a se interessar pelas pessoas cujos computadores consertava. Havia um código de ética instalado em sua cabeça, e assim, tentava manusear os arquivos sem abri-los. Quase nunca havia a necessidade de abrir um documento ou foto, só precisava garantir que conseguiria recuperar tudo, eram dados, o conteúdo pouco importava. Mas, com tantas noites solitárias em casa, começou a traçar perfis de seus clientes. Alguns gastavam um número inexplicável de gigas apenas para armazenar fotos. Fotos de quê? Animais fofinhos? Comida? Paisagens? Talvez selfies? Foi assim que ele começou a dar uma espiadinha aqui, outra ali, apenas para garantir que estava fazendo um bom trabalho, para que nenhum arquivo lhe escapasse antes da formatação irreversível da máquina.

Mas os fragmentos que os computadores lhe contavam só serviam para lhe despertar ainda mais curiosidade acerca de seus donos. O que uma máquina revela sobre seu usuário? O que um conjunto de arquivos ajuda a entender sobre alguém? Foi assim que começou a pesquisar pelo nome de cada um na internet, era fácil descobrir seus perfis em redes sociais e transitar por praticamente tudo o que houvesse de informação pública compartilhada. A internet e suas redes, era muito fácil pescar um peixe.

Seu primeiro desvio aconteceu por culpa de um artigo acadêmico. O amigo de um rapaz que trabalhava com ele lhe procurou, através de boas recomendações: estava escrevendo sua tese de doutorado e o computador lhe deixou na mão. Ele estava desesperado e daria qualquer coisa para reaver seus arquivos. Combinaram um valor e ele passou em sua casa para deixar o laptop. Caio pediu a já habitual pizza de muçarela com pepperoni e começou o trabalho. O doutorando cometera um erro de principiante ao clicar em um link de um e-mail totalmente suspeito e infestar a máquina de vírus. Ah, a curiosidade humana!

E, por falar em curiosidade, começou a abrir os artigos acadêmicos usados de referência para a tese. Apenas por precaução, para conferir se nada fora corrompido. A tese escrita pela metade já estava repousando seguramente na pasta de recuperados. Um dos textos lhe chamou a atenção, algo sobre os hábitos de consumo das pessoas e uma ousada projeção sobre em quantos anos o comércio físico seria completamente substituído pelas vendas online e marketplaces. Ele levou o artigo para a nova pasta e criou uma cópia em sua própria máquina, para ler com mais calma em outro momento. Não viu nenhum problema naquilo, afinal era um artigo já publicado e acessível. Ele apenas se poupou o trabalho de procurá-lo novamente na internet.

Pouco tempo depois, em uma noite particularmente solitária, estava consertando a máquina de uma das meninas da recepção quando abriu sua pasta de fotos. Foi impossível resistir a tantos álbuns! O que ela tanto guardava ali? Acontece que ele acabou esquecendo de apagar uma ou duas fotos de sua máquina depois de concluir o trabalho no computador dela. Talvez tenham sido mais, o fato é que algumas fotos ficaram ali perdidas em uma pasta de seu próprio computador. E foi assim que suas pequenas transgressões começaram a evoluir.

Organizado como era, criou uma planilha com os dados dos donos das máquinas, as especificações das mesmas e o valor recebido por cada serviço. Depois, um tanto quanto ousadamente, criou pastas e um sistema de categorização para os arquivos que ficavam eventualmente esquecidos em sua máquina, cópias de fragmentos da vida de outras pessoas.

Foi em um sábado que fez seu primeiro exercício. Pegou a foto de um grupo estranho de pessoas e ficou observando por algum tempo. Conhecia apenas a pessoa que tirara a foto, a mesma garota que lhe pagou para ter aquelas fotos de volta. Ficou olhando a foto, pesquisou seu perfil nas redes sociais e tentou imaginar que história aquela foto contava, o que havia para além daquele arquivo de dois mega contrabandeado em seu computador. Abriu um documento novo e ficou encarando a tela em branco à sua frente até começar.

Criar aquela história foi um exercício surpreendentemente prazeroso. Tinha um quê de transgressão misturado com aventura, sem contar a satisfação de sentir seus dedos desenferrujando a cada toque nas teclas. Fazia tempos que não escrevia nada e, de repente, era como se aquela garota estranha lhe trouxesse de volta à vida.

E assim foi avançando, usando o que conhecia daquelas pessoas para criar mundos, situações e personagens. Aos poucos até deixou de se importar com o trabalho investigativo – stalker – na internet. Parecia que quanto menos soubesse da pessoa, melhor sua versão ficava. Ele só precisava de conteúdo, pedaços de uma história real que servissem como gatilho para suas próprias alternativas e finais. Caio gostava de suas versões.

Como não podia deixar de ser, guardava seus textos, bem como as devidas referências, em diversos backups espalhados em seu computador, em sistemas de nuvem gratuitos e pagos. Precaução nunca era exagero, esse era o seu lema.

No final do ano, Alessandra, uma corretora de vendas, lhe procurou, desesperada, pois seu sobrinho derrubara seu computador no chão e, além da tela trincada, agora o dispositivo não queria ligar. Todas suas fotos estavam ali, todo seu material de trabalho, inúmeros arquivos importantes, praticamente toda sua vida pertencia àquela máquina! Ele pensou em recusar o trabalho, pois no final daquela semana entrariam em recesso e ele passaria duas semanas sem precisar encontrar nenhuma das caras semi-conhecidas do trabalho. Mas ela parecia realmente desesperada, então algo nele cedeu.

Como a tela havia estragado, ele passou o hd da moça para outro aparelho e passou algumas horas realizando a extração de arquivos, foi dormir e deixou a máquina trabalhando durante toda a noite. Na manhã seguinte, fez sua cópia pessoal dos arquivos, para mais tarde, e salvou tudo o que seria devolvido para Alessandra em um hd externo, que ela poderia plugar em qualquer máquina para reaver seus tão queridos arquivos: fotos, planilhas, apresentações de slide e muitas músicas pirateadas da internet. Aparentemente, ela ainda frequentava sites de torrent para baixar músicas. Em pouco tempo seria considerada vintage.

Acabou se atrasando para o trabalho porque tomou café da manhã olhando as fotos da última viagem à praia que a moça fizera com três amigas. Talvez uma delas fosse sua prima, pois também aparecia nas fotos de família do último natal.

Chegando na empresa foi direto para sua sala e só pôde encontrá-la no final do dia, quando lhe entregou o pequeno aparelho embrulhado em uma sacola plástica e a velha máquina quebrada. Ela abriu um sorriso enorme e praticamente pulou em seu pescoço, em um abraço desengonçado de agradecimento. Após o que pareceu muito mais tempo do que os de fato seis segundos, ela se afastou, com um sorriso tímido no canto da boca, agradeceu novamente.

– Caio, muitíssimo obrigada! Você salvou a minha vida, tudo que eu tenho está aqui.

– Até que foi fácil, como eu te falei, o que estragou foi a máquina, mas os arquivos estavam intactos. Agora, se você quiser a gente se senta para conversar qualquer dia e eu te explico mais sobre formas de dar mais segurança a seus arquivos.

– Sim, os backups, né? Eu quero sim, por favor. Você está livre na sexta? Podemos conversar aqui depois do trabalho, ou vamos lá no Astor e nos sentamos para bater um papo e você me explica tudo isso um pouco melhor.

Ela estava lhe chamando para ir a um bar depois do expediente? Foi difícil conter a sensação quente que percorreu seu corpo. Alê não era de se jogar fora, ainda mais depois de ver todas aquelas fotos dela dentro de biquinis.

– Claro, como for melhor para você.

– Ótimo, nos encontramos por aqui e então decidimos. Agora deixa eu ir que já estou atrasada para a aula de pilates. Ah, já fiz o depósito do seu pagamento, deve cair na sua conta amanhã, você confere?

– Obrigado.

Ela se inclinou para lhe dar um beijo na bochecha como despedida e saiu animada da sala segurando o notebook como se fosse uma pasta em suas mãos.

Aula de pilates, quintas às 19 horas. Ele sabia, é claro. Viu o contrato de matrícula escaneado entre seus arquivos.

Foi para casa um tanto quanto curioso e aflito com a perspectiva de um encontro no dia seguinte, o último dia antes do recesso de fim de ano. Não que fosse um encontro, é claro.

Porém, para sua extrema decepção, Alê cancelou com ele no dia seguinte, por uma mensagem um tanto quanto vaga. Aquilo incomodou mais do que deveria e ele trabalhou com um humor ácido, contando os minutos para poder ir embora e ficar duas semanas afastado daquele lugar e daquelas pessoas.

*

Após o recesso, seu lema era “Ano novo, vida nova” e passada a mágoa com Alessandra, Caio voltou tranquilo ao trabalho e sua tediosa rotina. Um pouco de descanso lhe fizera bem, as miniférias e a virada do ano na praia com os amigos também. “Amigos” talvez fosse um exagero, ele conhecia apenas os dois ex-colegas de faculdade, Pedro e Diogo. Pedro os convidara para uma festa de réveillon na casa de praia da família no litoral norte. Foram dias agitados, com quinze pessoas na casa. Ele conheceu Laís, com quem passou algumas noites. Mas nada além disso, um amor que não sobreviveu à subida da serra, sentimento que aparentemente era mútuo.

Logo no primeiro dia recebeu um recado de Alessandra pedindo para lhe encontrar e fazendo um convite para almoçarem juntos. Sem motivos para negar, ele foi até o pequeno restaurante por quilo onde costumava gastar todo seu vale refeição e ficou sentado esperando pela moça, que atrasou exatos sete minutos.

Se cumprimentaram com um meio abraço constrangedor e ela lhe desejou um feliz ano novo, ao que ele retribuiu e fez sinal para que ela se sentasse na cadeira a sua frente.

– Olha, Caio. Eu te chamei aqui porque…

– Quer beber alguma coisa? – ele a interrompeu, chamando uma garçonete

– Não, obrigada – ela pareceu não gostar da interrupção – Bem, eu não aguento isso, vou direto ao ponto. Naquele dia em que conversamos, assim que cheguei em casa, peguei o computador de minha irmã emprestado para dar uma conferida nos arquivos, eu estava tão feliz por saber que eu não havia perdido nada… Mas o que havia lá dentro, aquele conteúdo não era meu. Ou seu. Era muita gente, muita gente mesmo, muito mais do que eu gostaria de ter visto. Ah, sim, também tinha algumas coisas minhas ali dentro. Você pode me explicar? Porque eu acho que já entendi, mas eu quero mesmo te dar uma chance, espero estar errada.

Ele arregalou os olhos, depois desviou-os para o teto, pois era impossível continuar encarando-a. Ela ficou parada também, assistindo enquanto ele processava a informação sobre a troca dos backups.

Ele abriu a boca, fechou, abriu de novo e finalmente gaguejou. Parecia não encontrar palavras.

– Alê, eu posso explicar. É só… não é nada – disse, abaixando a cabeça.

– Tem que ser alguma coisa. Você é uma espécie de psicopata? Por que guardar todas aquelas informações sobre as pessoas? Por que ficar com fotos e documentos que não são seus? Isso é roubo, é crime, sei lá! É errado. Eu estou em perigo ou algo assim? Você vai me perseguir ou sequestrar alguém da minha família, porque de repente parece que você sabe demais sobre mim, e eu não sei nada sobre você!

– O que você quer saber?

– O motivo de tudo isso. Isso é… é doentio, Caio!

– Eu escrevo.

– O quê? – ela perguntou ofegante, num quase grito bem agudo.

– Começou por curiosidade, eu deixei um artigo em minha máquina para ler depois, um artigo publicado, disponível na internet, não foi roubo, como você colocou, nem nada. E depois, eu comecei a ficar curioso, ficava tentando imaginar quais eram as outras peças daquele quebra-cabeças que a pessoa me trazia. Sim, porque todos os documentos nos contam algo sobre seu dono, mas o que mais aquela pessoa era? Quem mais? Eu fui me deixando imaginar e então comecei a escrever. Aquilo que você viu, o conteúdo das pastas são apenas inspirações, dali eu tirei personagens que coloquei em situações que me permiti imaginar e viver dentro de minha cabeça. Eu posso te mostrar, tenho uma pasta cheia de rascunhos.

– Você escreve? – ela repetiu com uma voz fria e mecânica, como se apenas parte dela estivesse ali comigo, naquela mesa.

– Sim, posso te mostrar, se você quiser.

– Mas isso é errado também! – ela disse, voltando a me encarar, mas já parecendo um pouco menos perturbada – Você não tem direito de se inspirar ou como queira chamar, no conteúdo de outras pessoas sem autorização. Então ninguém faz ideia de que você copia os arquivos?

– Eu não sei. Eu sinceramente não tenho uma resposta para te dar. Eu só comecei a fazer e é o que eu faço desde então, me distrai. Eu só coleciono, entende?

– Arquivos?

– Histórias, hipóteses, possibilidades. Chame como preferir, não me importa.

Ficaram em silêncio por algum tempo, ambos com o coração disparado e a cabeça fervendo em pensamentos.

– Está errado, Caio, está errado.

Ele se sentiu realmente mal por vê-la tão aflita.

– O que você vai fazer? – finalmente perguntou.

– Eu não sei, sinto que eu preciso contar para alguém, isso tem que parar.

– Olha, por favor, não conta para ninguém, foi bobeira, coisa inocente, de alguém que mora sozinho e estava entediado demais com a própria vida. Mas eu realmente preciso do emprego.

– Eu preciso pensar. Você tem tudo aquilo salvo em outros locais? Ora, que pergunta, é claro que tem! Você tem que prometer que vai deletar tudo e que vai parar. Eu vou pensar e então nós conversamos. Você promete?

– Eu vou parar – concordou.

Desnecessário dizer que eles não comeram, já que não havia tempero capaz de adoçar aquele encontro. Ela se levantou, deixando-o sozinho ali.

Não se encontraram nos dois dias que se seguiram. No terceiro, ele a avistou esperando próximo ao bebedouro que ficava no final de seu corredor. Ela estava estrategicamente posicionada, de forma que ele precisaria passar por ela para ir embora.

– Alessandra – disse, cortês.

– Caio – a moça respondeu, fazendo um aceno com a cabeça.

Por que em alguns momentos é tão difícil encontrar palavras a dizer? Será que é pelo ensurdecedor barulho ecoando dentro de nossas cabeças?

– Podemos conversar? – finalmente perguntou.

– Claro, eu já estou saindo, vou embora de metrô, quer me acompanhar até a estação? – perguntou, afinal sabia que a moça fazia todos os dias o mesmo trajeto que ele.

Entraram e saíram do elevador em silêncio, sem ousarem trocar uma palavra sequer na presença de estranhos. Era curiosa a sensação que percorria e pele dele, tanto quanto o frio no estômago dela. Havia uma conexão, algo agora os unia.

– E então…?

– Eu não sei. Essa história toda tem tirado meu sono! Por mais inocente que seja, ainda me parece errado, entende?

– Entendo.

Ok, não era essa a resposta que ela esperava. Ele nem tentou se explicar, e ela sentiu inveja de sua firmeza.

– Bom, vou perguntar de uma vez e aí você me julga e pronto – ela disse mantendo os olhos fixos no chão à sua frente.

– Quem sou eu para julgar?

– A pessoa mais capacitada, eu diria, já que você tem informações de todo mundo.

Ele riu, gargalhou, na verdade.

– Essa é só uma forma de ver as coisas.

– Nós trabalhamos em uma empresa de seguros, merda! – riu também – e aparentemente ninguém ali está seguro.

– Nós não vendemos senão uma ilusão de segurança. Você, mais do que ninguém, deveria saber.

Ela parou de andar, fazendo-o parar também e virar para encará-la.

– Ok, o que eu queria saber é se você tem informações sobre o Diogo.

– Diogo? Diogo seu chefe?

– O próprio.

– Que tipo de informação? O que você acha que eu faço?

– Me diga você.

– Não muito, não tenho nenhuma cópia oculta dos arquivos dele, se é isso o que você quer saber.

– Hum. tudo bem, obrigada.

– Por quê?

– Nada, esquece que eu perguntei – ela disse e voltou a andar, apressando o passo.

– Ei, espera.

Ele foi atrás dela e segurou em seu braço, fazendo-a parar novamente. E então ela lhe contou. Contou tudo, sobre como o chefe começara a lhe olhar de um jeito diferente, como se ofereceu para “olhar seus números” e ajudá-la nas vendas. As insinuações sobre o cumprimento de metas e possíveis bônus. Até que as coisas evoluíram para beijos melados em sua bochecha para cumprimentá-la, uma mão em seu ombro quando estava sentada e, finalmente, uma apalpada em sua coxa durante a reunião da semana anterior. E, por fim, disse que sabia que ela não era seu primeiro e muito menos seu último alvo.

Ela contou tudo muito séria, era visível seu constrangimento, e Caio sentiu um incômodo enorme em vê-la em tal situação. Como era difícil lidar com garotas.

– Acho que podemos trabalho juntos – disse.

– O quê?

– Eu te ajudo a pegar ele. O cara não pode fazer o que quiser com você, é abuso de poder.

E, com um sorriso de cumplicidade, o pacto foi selado. O plano na verdade foi muito simples. Caio o flagraria e Alessandra teria o prazer de expô-lo perante seus superiores. Ele só precisou criar uma conta de e-mail falsa, se passando por alguém e lhe mandar uma mensagem infestada por malwares. Brincadeira de criança: um link com um suposto vídeo picante tendo como protagonista uma atriz famosa. É claro que ele caiu. E então Alê fez a recomendação dos serviços de Caio, aquele rapaz do TI que usava óculos. Em três dias e o computador já estava em suas mãos. Ele fez uma cópia completa de seus arquivos, só por garantia, mas foi muito fácil de achar material comprometedor ali. Fácil até demais.

O cara tinha uma pasta só com fotos e vídeos dele com outras funcionárias. Caio conseguiu reconhecer vários rostos ali. Algumas fotos sequer mostravam suas faces, mas era o suficiente para qualquer um entender.

O bônus foi uma planilha um tanto quanto pervertida onde o cara guardava informações sobre as mulheres e seus encontros. Havia uma sessão só para classificar e ranquear as garotas. Trabalho minucioso, com tudo separado por cores, marcadores e legendas. Ele ficou feliz por saber que o nome de Alê nunca precisaria ocupar uma posição ali.

No dia seguinte, os dois saíram para almoçar juntos e ele lhe explicou tudo o que encontrara. Ela variou entre nojo, raiva e uma série de palavrões que ele nunca ouvira uma boca feminina proferir antes. Ela era boa naquilo.

Trabalhando juntos, Caio sabia que seu segredo estaria à salvo. Ela demorou alguns dias para tomar uma decisão, pensou em chantagear Diogo para que saísse de seu pé, mas empurrá-lo até a próxima vítima não era algo que ela considerasse solução. Então decidiu entregá-lo. Solicitou uma reunião com a administração da empresa, relatou o assédio que vinha sofrendo e, manteve o pendrive com as fotos e a planilha em sua bolsa, para usar assim que precisasse. A surpresa, entretanto, foi que não precisou. Lhe agradeceram pela informação e disseram que tudo seria averiguado. No dia seguinte outras garotas foram chamadas para reuniões individuais e em pouco tempo a história se espalhou e se confirmou. Um relato deu coragem ao próximo e assim sucessivamente.

*

– Eu não acredito que nós conseguimos! Obrigada – Ela disse praticamente pulando em seus braços na saída, enquanto caminhavam até o metrô.

– Foi você quem conseguiu – ele respondeu, retribuindo de forma desengonçada.

Não estava acostumado a ter mulheres – mulheres de verdade, não as de suas fantasias – se jogando para cima dele.

– Não seja modesto. Foi um trabalho em equipe, só o fato de ter certeza e provas me deu coragem de agir.

– Fico feliz então.

– Mas e você, o que ganhou com isso? Quero dizer, eu consegui tirá-lo do meu pé, mas e você?

– Ganhei um final para minha próxima história – disse, com um sorriso no canto dos lábios.

– Não diga que você está escrevendo sobre mim! – ela reagiu com um leve tapa em seu braço.

– Nunca revelo minhas fontes, você sabe: tudo é apenas inspiração.

– Espera um pouco. Você sabia que isso ia acontecer? Você – ela foi absorvendo as palavras conforme elas entravam em sua mente – você fez de propósito?

Continuaram caminhando em silêncio.

 

 

 

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Sandra

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A escola nunca fizera um evento como aquele antes. Os alunos estavam empolgados com a ideia de passar a noite toda acordados na escola, ainda mais sem precisar vestir o uniforme. Raramente tinham a chance de exibirem-se uns aos outros. Algumas meninas investiram em decotes e rendas, enquanto os garotos abusavam das marcas e cores de seus armários.

É claro que Sandra não se sentia bem ali. Ela simplesmente não se encaixava, era desajustada. Não tinha roupas da última moda para desfilar, e seu corpo, bem, ela nem sabia como definir seu corpo, imagine exibi-lo por aí. Mas ela sabia que seria pior se faltasse, não daria esse gostinho a eles, não deixaria sua ausência virar tema de risinhos e piadas, mais risinhos e piadas do que o habitual. Foi assim que ela acabou escolhendo usar o macacão Jeans que encontrou no armário da mãe. Fez uma trança nos cabelos e calçou seus recém lavados all stars brancos.

Conforme chegavam, os alunos eram encaminhados para o auditório por inspetores com cara de sono. Era engraçado vê-los ali àquela hora da noite. A ideia de simular um festival de cinema fora da professora de Artes, ela já havia tentado antes, mas só o novo coordenador apoiou a causa, por achar que poderia ser uma boa oportunidade de integrar os alunos novos. Eles precisavam entender que o Ensino Médio não era apenas sobre provas e cobranças, afinal de contas, os alunos eram adolescentes e precisavam explorar sua vida social. No final, as relações e amizades eram o que todos levavam para além dos muros da escola.

Sandra discordava. Tinha certeza de que jamais olharia para a cara de um dos colegas de sala assim que se formassem. Não falaria novamente com nenhum deles, nem que a obrigassem. Mesmo assim, lá estava ela, sentada ao lado de duas outras garotas que conversavam entre si através de mensagens de celular. Sua vontade era de esmagar os aparelhos no chão, só para que parassem de fazer aqueles apitos irritantes e as duas tivessem que ter uma conversa real, olho no olho. Quando e como foi que o contato se perdeu?

O cheiro de pipoca dominava o ambiente, duas inspetoras distribuíam alegremente saquinhos de pipoca aos alunos. Aos poucos o auditório se encheu e os anfitriões da noite subiram ao palco para agradecer a presença de todos e falarem sobre a importância do cinema como forma expressão artística. Definitivamente, coordenadores frustrados não deveriam poder falar em um microfone para um auditório cheio de adolescentes, ele se embaraçava cada vez mais. Olivia tentou fazer valer seu diploma de história da arte, mas não era muito melhor do que ele. E então Sandra se distraiu ao começar a se perguntar se aquilo realmente era arte ou se só mais uma coisa deturpada em produto midiático.

Só voltou a prestar atenção quando as luzes se apagaram e o primeiro filme começou, enchendo a sala com luzes coloridas e uma trilha sonora de suspense. Logo a imagem de uma menina andando de bicicleta em meio à rodovia surgiu na tela. Sandra se ajeitou na poltrona e olhou para o relógio, mas ainda faltavam muitas horas até ela poder sair dali.

Lá pela quarta ou quinta cena do filme, Sandra começou a se distrair, olhando para os lados e observando como cada pessoa reagia ao filme, além de notar quem, assim como ela, não conseguia manter os olhos na tela. Foi então que reparou em Juliana. Três fileiras à frente, duas cadeiras à direita. O perfil da garota era esporadicamente iluminado pelas luzes do filme, sua risada era doce e ela jogava a cabeça e os ombros para trás enquanto ria, era quase imperceptível, a menos que você estivesse prestando atenção. Apesar de não estar olhando diretamente para seu rosto, Sandra se lembrava também que a garota tinha um dente ligeiramente torto que ficava a mostra quando ela sorria, pois ela era daquelas pessoas que sorria com a boca aberta, espontânea e descontraída, o extremo oposto dela mesma. Talvez por isso que suas características lhe fossem tão chamativas.

No meio do filme, a apresentação foi interrompida para um breve intervalo, para que os alunos pudessem ir ao banheiro ou reabastecer seus saquinhos de pipoca. Ela se levantou, apenas para sair de perto de suas irritantes vizinhas que ainda conversavam pelo celular. Deu uma volta pela sala e se sentou um pouco mais para trás, sozinha.

Fechou os olhos, desejando que isso acelerasse o tempo e diminuísse a distância entre ela e a saída. Sentia sono.

– Com licença, esse lugar está ocupado?

A voz doce de Juliana entrou em seus ouvidos com tamanha surpresa que, apesar de abrir a boca, não conseguiu emitir nenhum som, então apenas balançou a cabeça, em uma negativa.

– Que ótimo. Vou ficar por aqui então. Toda aquela luz da primeira fileira já estava me deixando com dor de cabeça. Aqui no escurinho é melhor.

Sentia o cheiro do perfume floral da garota bem perto dela, o sono foi embora com a corrente elétrica que subitamente pareceu percorrer seu corpo e, de repente, ela estava mais desperta e consciente do que antes.

– Pipoca? – Juliana ofereceu.

– Ah, obrigada – aceitou, pegando timidamente um punhado e colocando em suas mãos.

Sandra foi comendo as pipocas da colega uma a uma, saboreando devagar. E feliz por ter algo para fazer e se distrair.

A sessão voltou a rolar e elas ficaram em silêncio, a garota lhe estendeu o pacote novamente, e assim elas foram dividindo aquele momento, grão a grão. Mais de uma vez seus dedos se encontraram dentro do apertado saco de papel. Sandra se arrepiou com o toque áspero dos dedos sujos de sal de Juliana. Ela pediu desculpas, num sussurro, mas a outra apenas riu, balançando a cabeça e levando a mão à boca para lamber as pontas dos dedos. Em seguida passou a mão pela calça jeans e deixou-a ali, pousada sobre sua coxa.

Sandra sentia o calor subindo por seu corpo, aquele canto da sala estava tão abafado! Com um movimento lento, quase ensaiado, se aproximou mais da cadeira ao lado. Mesmo sabendo que aquela noite não passava de uma fantasia, não havia motivos para não aproveitá-la. Uma garota como Juliana jamais olharia para ela em dias comuns, ao menos nunca olhara antes. Enquanto ela reparava na colega desde a sexta série, quando seus corpos começaram a mudar. Notou como Juliana estava mais alta na volta das férias de verão, como se tivesse aproveitado os dias de folga para esticar. Reparou quando as ondulações de seu cabelo foram alisadas e queimadas por uma chapinha. E lembrava-se de quando os colegas começaram a chamá-la apenas de Juli, como se fossem muito íntimos para dizer seu nome todo.

Por algum motivo, Sandra parecia conhecer mais os traços das outras garotas do que os seus próprios. Talvez sua insegurança fosse tão intensa que ela costumava gastar tempo demais reparando e se comparando com outras pessoas. Elas eram como um espelho e devia ser por isso que ela sentia desejá-las. Aquilo era normal, não era? Era o que ela se perguntava.

Teve seus pensamentos interrompidos quando a voz rouca de Juliana chamou seu nome em um sussurro. Ela lhe pedia passagem para se levantar e sair da estreita fileira de cadeiras improvisada. Sandra se encolheu, trazendo as pernas para mais perto de seu assento e ficou olhando enquanto a outra passava, não conseguindo evitar um arrepio no joelho quando suas pernas esbarraram uma na outra.

Dois longos minutos se passaram, ela sabia, pois estivera encarando o relógio em seu pulso. Mesmo sabendo que aquilo era errado, irracional, indecente, se levantou, tentando não fazer barulho, e seguiu pelo mesmo corredor, indo parar na porta do banheiro feminino.

Entrou e tentou não encarar a garota, que se olhava no espelho enquanto retocava o batom vermelho dos lábios. Seus olhares se cruzaram por um segundo, antes que Sandra conseguisse desviar e entrar em uma cabine. Ela estava ainda mais bonita com os lábios pintados!

Sandra esperou alguns segundos, até sentir o rubor de sua face amenizar. Apertou a descarga antes de abrir a porta, como uma tentativa de justificar seu tempo ali, e então saiu para lavar as mãos, aproveitando para jogar um pouco de água fria no rosto. Olhou ao redor pelo reflexo do espelho e, num misto de alívio e frustração, percebeu que estava sozinha.

Rumava para a saída quando a viu parada na última cabine, a sua espera. Juliana pegou em seu braço, sentiu os dedos finos e de unhas compridas da garota se fechando em torno de seu pulso e puxando-a para dentro.

Não houve tempo para palavras ou explicações. Até mesmo a surpresa ficou entalada na garganta ao ser calada com um beijo. Um beijo roubado e aguardado, quente, com um leve gosto de pipoca. Aquele beijo adolescente, que tem um sorriso no meio. O único tipo que Sandra conhecera até ali, em seus meros dezessete anos de vida. Um beijo que não durou tanto quanto podia ter durado. Seu término precoce talvez se devesse à expectativa de poderem se olhar, ou então ao medo de serem pegas ali.

Nenhuma das duas ousou dizer a primeira palavra. Sandra assistiu em câmera lenta enquanto Juliana passava um dedo sobre seus lábios, limpando o batom que havia borrado e depois quando se virou e saiu do banheiro, ainda em silêncio. Sozinha, saiu da cabine e foi até o espelho, apoiou-se na pia e levantou o rosto, tomando coragem de encarar-se e ver que o batom borrado também estava ali, sujando seus lábios e testemunhando o que acabara de acontecer. Mesmo sem querer, passou os dedos, limpando as marcas vermelhas e apagando os vestígios de Juli.

Voltou, com as pernas bambas para seu lugar. As duas ficaram sentadas, lado a lado, dividindo calor e um segredo. Agora a garota estava ainda mais consciente da presença e proximidade da outra, sentindo seu cheiro e vendo seu reflexo com o canto dos olhos. Sandra não era mais capaz de distinguir quem eram os atores que desfilavam na trama da tela, porém achava que seria capaz de distinguir e reconhecer cada traço daquele belo rosto que ainda há pouco estivera tão próximo do seu.

Ela não sabia o que aconteceria na segunda-feira. Voltariam a agir como estranhas? Cada uma em sua pequena tribo? Juliana voltaria a ignorar sua existência? Como em um sonho, era preciso aproveitar aquela noite. Assim que a luz da tela se apagou e os créditos começaram a rolar, lentamente e em letras miúdas, Sandra se levantou e saiu da sala, não foi preciso se virar para saber que estava sendo seguida.

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O Homem que sabia demais

IMG_2563   Método e ordem eram as palavras-chave dentro do almoxarifado do hospital municipal. André, no auge de seus sessenta anos, orgulhava-se de ser o chefe do arquivo. Ele não trabalhava com a organização dos materiais de uso contínuo e, portanto, não precisava lidar com enfermeiros estressados que vinham atrás de comprimidos e seringas. Não, ele cuidava de algo mais importante: a história do hospital. Ou, “o coração hospitalar”, como gostava de chamar sua sala. Lidar com o arquivo era armazenar toda a história não só daquele prédio, mas de todos que por ali passavam, de pacientes até seus mais aflitos acompanhantes. André era como um guardião, e o que estava sob sua proteção era a história viva do arquivo morto.

   Tudo corria bem pelas inúmeras prateleiras da sala de arquivo. Pastas milimetricamente alinhadas, etiquetadas e organizadas por ano, setor, especialidade médica e ordem alfabética do nome do paciente, respectivamente. Quando um prontuário era solicitado, André o tinha ali, bem na ponta dos dedos, conhecia a disposição daquela sala melhor do que sua própria casa.

        Nada ali estava apenas arrumado, para ele tudo era meticulosamente organizado, ou seja, cada pasta tinha sua morada, tudo era de fácil acesso e sempre voltava para seu lugar após o uso, dispensando a necessidade de refazer o trabalho de separação por qualquer descuido. Palavra esta que sequer constava em seu dicionário.

       Era divertido quando um novo carrinho de papéis chegava até suas mãos, ele entrava em um modo automático de separação, correndo os olhos pelas linhas fundamentais de cada documento, em uma leitura dinâmica, para separar tudo em pequenas pilhas que seriam revisadas em novas subdivisões e finalmente organizadas em ordem alfabética. O custo para manter o lugar em funcionamento era baixo, além de seu salário, a administração gastava apenas alguns trocados mensais com pastas e grampos.

         A sala era arejada e o arquivista quase não tinha problemas com mofo ou traças. Garantia sempre a qualidade do papel, incapaz apenas de controlar o amarelamento natural das páginas, que no fundo até revelavam certo charme, como um vinho a envelhecer em uma adega. Porém, nada disso impediu que a modernidade chegasse como um grande sopro de vento, invadindo e instalando o caos pelas velhas paredes brancas.

        A notícia chegou ao modo dos costumes antigos, através de uma carta, duas semanas atrás. Um pedido para que André comparecesse à administração, com hora marcada e tudo. Ele vestiu sua melhor camisa no dia e foi para o encontro apenas para receber a notícia do falecimento do arquivo morto. A ideia da nova gestão financeira era a modernização do sistema de armazenamento e busca de informações, além de um corte de gastos, é claro.

– Para ser franca, senhor… – disse a mocinha que vestia seu terninho azul com cara de recém-saído dos bancos universitários.

– André.  – respondeu, contraindo os lábios.

– Senhor André. Para ser franca, nosso sistema é ultrapassado. Demoramos muito tempo para encontrar informações sobre um caso clínico específico. A digitalização dos arquivos nos permite ter acesso rápido a todo o histórico do paciente dentro da instituição.

– O acesso é rápido. Eu sempre entrego todos os relatórios solicitados dentro do prazo.

– Eu sei, eu sei, não me leve a mal. O problema absolutamente não está em seu trabalho. São os tempos modernos, o senhor sabe. Todos nós sabíamos que esse dia chegaria.

– Eu não sabia.

– Está sendo informado agora. Senhor André, a decisão é definitiva. O arquivo digital nos permite pesquisas rápidas, além da integração de informações, expandindo os tipos de busca: podemos pesquisar o histórico de um paciente ou de uma patologia, quantificando casos e sintomas. Sem falar que poderemos ter uma comunicação mais eficiente com outras unidades de saúde… É bom para o progresso da medicina. E afinal de contas, não é esse o objetivo de nosso trabalho?

– Claro que sim – respondeu a contragosto.

– Bem, minha proposta para o senhor é a seguinte. Contrataremos uma pequena equipe para digitalizar todo o material. Fui informada de que o senhor mantém todos os arquivos na mais perfeita ordem, e tenho certeza de que isso já facilitará muito o trabalho e, exatamente por isto, gostaria de colocá-lo como coordenador desta equipe, pois acredito que não há ninguém melhor do que o senhor para explicar a forma como cada documento está organizado, para que possamos reproduzir tudo no meio digital. O senhor está de acordo?

– Sinto que não está a meu alcance discordar – disse forçando um sorriso.

– Que bom. Era só isso. Muito obrigada por seu tempo, senhor. Foi um prazer – mal terminou de dizer e já baixou os olhos para a tela de seu computador, dispensando o homem de sua sala.

         André se levantou e rumou para a saída, em silêncio.

– Ah, e quase me esqueci: o senhor poderia passar no departamento de recursos humanos também? Eles têm uma proposta para lhe fazer.

         Acontece que a proposta literalmente irrecusável era que André se aposentasse após o fim da organização, ou “transferência digital”, como chamavam a operação. No mesmo dia ele perdeu todos os seus papéis, das folhas carimbadas por médicos até a humilde função que desempenhou por anos dentro do sistema público de saúde.

        Sem escolhas, sentindo a impotência em cada osso de suas velhas mãos, André repassou os arquivos, conferindo sua ordem e esperando o dia em que um bando de moleques com computadores e impressoras finalmente se instalou em sua sala, para dar início à digitalização dos prontuários.

         Ele passou o dia apresentando a sala à nova equipe, descrevendo seu método de catalogação dos arquivos. Os garotos mal pareciam estar prestando atenção na maior parte do tempo. Havia uma mocinha que não tirava os olhos da tela de seu celular e um rapaz que estava quase tomando a pasta de suas mãos para começar logo o trabalho. Parece que já não se fazem mais jovens como antigamente, os de hoje têm muita pressa.

        Antes que eu se irritasse, foi para sua mesa, ou pelo menos o que restara dela, a parte que não fora ocupada pela imensa impressora multifuncional. Pegou uma pasta já digitalizada e foi conferindo cada folha, para ver se eles não haviam estragado nada. O nome do paciente, a data de registro e o diagnóstico, tudo estava em seu devido lugar: Eduardos antes de Fernandos e estes logo seguidos por Felipes. Quando começou a trabalhar com arquivologia, costumava se confundir com algumas letras diferentes no mesmo nome, pois às vezes um “h” podia fazer toda a diferença. Mas agora, com anos de experiência na bagagem, eles estavam todos ali: Icaro, Inês, Irene, Itamar, Ivan.

            Na maior parte do tempo, André conseguia manter o profissionalismo, tentava não atribuir rostos para os nomes que lia em cada ficha. Era mais fácil pensar em uma paciente que deu entrada no hospital por pneumonia do que imaginar quem era Inês Franco, a garçonete com problemas pulmonares. Como será que ela adoeceu? Quem será que a acompanhou nas consultas médicas e será que alguém dormiu na poltrona ao lado de sua maca durante os dias de internação? Aliás, ela ficou alguns dias internada, parece ter sido grave. Pronto, tarde demais, agora só podia rezar para que Inês estivesse bem.

            Após metade de seu turno e duas xícaras de café amargo, ele esbarrou novamente com o nome de Inês, talvez porque ela não tenha saído de sua cabeça desde então, acompanhando-o do almoço até o banheiro. O importante é que lá estava ela: um registro no ano de 2004 por pneumonia e seis anos depois, uma entrada no hospital em trabalho de parto, quando deu à luz a um menino de 3,2 quilos e 50 centímetros, um meninão, aliás. A criança nasceu em um sete de julho, porém não havia nenhuma menção a seu nome.

        André não conseguiu simplesmente devolver as fichas para seus devidos lugares, não agora que ele já sabia demais. Sem que ninguém percebesse – eles não pareciam preocupados com sua presença – guardou as folhas dentro da primeira gaveta da escrivaninha. E só retornou a pegá-las ao final do expediente, assim que todos saíram da sala, deixando-o novamente no silêncio do finado arquivo. Ele levou Inês para casa sem saber explicar o motivo de desejar sua companhia. Apenas parecia errado deixar mãe e bebê ali.

         Na hora do jantar ele fez as contas, concluindo que a criança deveria hoje estar com dez anos. Dez anos que se passaram na vida da já não tão jovem moça com pneumonia. Foi impossível resistir ao impulso de elaborar conjecturas a seu respeito. Seu emprego, sua família, o pai de seu filho. Seria Inês uma boa mãe?

         O arquivista sempre achara difícil manter a mesma opinião sobre uma pessoa após conhecer sua história. Ao olhar por diferentes ângulos, percebemos como uma pessoa é complexa, como pode ser contraditória sem nem saber, ou como pode se esforçar para passar uma determinada imagem de si e falhar miseravelmente. As aparências caem ao menor deslize, é inevitável. Algo dentro dele suava, gritava, ele queria saber mais, queria saber o que Inês mostrava para as pessoas a seu redor, e o que será que ela tentava esconder com tudo isso?

         Como não podia deixar de ser, André foi o primeiro a chegar no trabalho na manhã seguinte. Agitado, ansiando por descobrir mais sobre sua paciente. Procurou por registros com a inicial de seu nome em todos os setores, insaciável, em busca por mais Inês. Porém nada encontrou, ao que tudo indicava, ela não precisou mais dar entrada no sistema de saúde. Talvez a maternidade tenha lhe caído bem.

       A palpitação não saía mais de seu peito. Semanas se passaram e aos poucos o trabalho dos jovens era eficientemente realizado, Não dava para competir com a velocidade de uma máquina. Os papéis eram rapidamente digitalizados e armazenados em um banco de dados. Um dos garotos tentou lhe explicar como os arquivos seriam guardados em nuvem dali em diante, mas lhe era inconcebível a ideia de arquivos que não podiam ser vistos sendo guardados em um lugar que não era palpável, ninguém conhecia ou nunca estivera por lá. O que garantia que não estavam apenas jogando toda aquela informação fora? Quantos outros pacientes como Inês não iam parar no lixo? Mas não ela, não, ao menos ela estava a salvo.

        Não contente em salvar-lhe a vida, André quis saber mais sobre ela, e foi daí que veio a ideia de pegar seu endereço de registro e ir conferir de perto qual era a fisionomia de sua protegida. O endereço, na zona norte, era de uma rua pouco movimentada, com carros estacionados a sombra de árvores e muitas folhas ao chão, grudadas e pisoteadas pelo resquício de chuva da noite anterior.

        O número 42, uma casa de portão branco e jardineira nas janelas, parecia vazio. Com exceção das flores ali penduradas, não parecia haver vida lá dentro. Ele ficou parado do lado oposto da rua, tentando disfarçar um olhar que sempre se voltava para o mesmo ponto. Nada. Nem um barulho, nem um movimento atrás das cortinas, nenhum latido de cachorro.

           Foram necessárias mais duas visitas até a rua para que ele visse algum movimento, um carro estacionando na casa vizinha. Uma mulher e duas crianças vestidas com uniforme escolar desceram conversando e entraram no número 46. Será que elas eram amigas? Trocavam receitas e olhavam a casa uma da outra em períodos de ausência?

           Pouco depois a mulher saiu pela porta, voltando ao carro para buscar uma mochila esquecida. Era sua chance. Ele deixou o ar entrar por suas narinas e atravessou a rua antes mesmo de conseguir expirar.

– Bom dia, com licença. Eu estou procurando uma pessoa aqui ao lado, tenho uma encomenda para a senhora Inês Franco.

– Bom dia – ela disse se virando e encarando-o com olhos atentos – uma encomenda? E onde ela está?

– É justamente o que eu gostaria de saber – respondeu, impaciente.

– Oh, me refiro à encomenda, senhor.

         Imbecil, como pode ser tão distraído, se entregou após duas frases.

– Ah, sim, é claro… Ficou no carro. Estacionei na rua ao lado, não tinha vagas por aqui – se apressou em emendar ao vê-la percorrendo a rua com os olhos em busca de seu veículo.

– Bom, eu não conheço nenhuma, como o senhor disse que ela se chamava mesmo? Ah sim, Inês. Não conheço ninguém com este nome.

– Ela mora aqui ao lado, tem um filho, o guri deve ter por volta de uns dez anos, é a cara da mãe.

– Bem, eu sou nova aqui na rua, não faz tanto tempo desde que me mudei, mas definitivamente sei que não há nenhuma Inês e nenhum garotinho morando nesta casa. Acredite, tenho filhos nesta idade e eles seriam melhores amigos se morassem assim tão perto. Não, não há crianças nesta casa. Apenas um rapaz, que entra e sai de carro e não se dá ao trabalho de cumprimentar a vizinhança.

        Ele sentiu uma pontada de rancor em sua última frase, mas não conseguiu mais sustentar a conversa. Para ele já era demais saber que sua procura fora em vão. Ele cometeu a vergonha de infringir inúmeras regras e condutas de ética do hospital e tudo isso para nada. Engoliu seco antes de agradecer à mulher e murmurar confusamente algo sobre devolver a encomenda e esperar que ela entrasse em contato.

          Saiu da rua sem sentir suas pernas, e não saberia dizer como foi que se conduziu até o ponto de ônibus mais próximo e refez seu caminho de volta até o hospital. Parece que só despertou novamente quando já estava dentro da pequena sala de arquivos.

            O final de semana veio e se foi, passando alguns dias até que André ousasse olhar novamente para as fichas de Inês. Ele já havia decorado as imperfeições da tinta de caneta que conservavam seu nome e sua memória. Ficou olhando fixamente até que as letras se embaralhassem em sua visão. Foi quando entreouviu a conversa dos garotos que digitalizavam mais uma pilha de folhas, eliminando cada vez mais pastas do arquivo, revelando as paredes nuas da sala.

– Mas assim é mais prático, estou falando.

– Eu sei que é, mas é uma pena jogar tudo isso fora. Pensa bem, alguém teve todo o trabalho de escrever isso. Sem contar o de armazenar.

– É, foram muitos anos para escrever tudo isso, com certeza. Mas é preciso se manter atualizado. Por aqui vai dar para saber os dados pessoais de cada paciente, seu histórico, quantas vezes ele já deu entrada na unidade. Tudo.

– É, tudo até o fim.

       Foi a última palavra que lhe fez sair do transe e voltar para a sala. Pensou em esperar que eles fossem embora para tentar se aventurar pelo computador. Quem sabe os garotos não estariam certos e ele encontraria as respostas que fora buscar tão longe bem ali, em sua sala. No maldito sistema de busca que substituiria não apenas seu emprego, mas o trabalho de toda sua vida, apagando sua marca no mundo. Mas todos naquela sala, inclusive ele, sabiam que ele não conseguiria fazer isso sozinho.

– Antônio – chamou, engolindo seu orgulho ferido com um pouco de saliva.

– Oi, seu André, precisa de alguma coisa?

– Eu estava aqui pensando, será que eu levo jeito para esse tal sistema de vocês?

– Opa, está querendo se modernizar, é? Não te falei, Carlos? É preciso se manter atualizado, o senhor André aqui sabe disso – disse se virando para o amigo.

           Puxou uma cadeira, convidando-o a juntar-se a eles. Disse que ia lhe ensinar a usar o sistema. Cadastrou um usuário e pediu que ele criasse uma senha, explicando que aqueles passos seriam necessários a cada vez que ele quisesse fazer uma nova consulta. Ele ouviu, mal contendo a ansiedade de poder fazer logo sua primeira pesquisa. Usou a data de nascimento da paciente como senha, uma piada interna.

– Vamos fazer um teste então, me fala um nome que o senhor queira pesquisar.

        Ele contou até três mentalmente antes de responder, tentando não parecer tão afoito.

– Que tal “Inês Franco”?

– Uma velha amiga? – perguntou, arqueando as sobrancelhas.

 – Uma conhecida – “Atualmente vivendo entre os papéis de minha pasta”, pensou.

        Os segundos que o computador levou para realizar a busca pareceram os mais longos de toda sua vida. Até que finalmente a tela brilhou, apresentando três resultados.

– Começamos bem, só há uma pessoa com esse nome. Ela passou pelo hospital em três ocasiões, vamos ver.

      Antônio foi lendo em voz alta enquanto seus olhos corriam pela tela. O primeiro registro era o de pneumonia, uma cópia exata do papel que estava com ele. O segundo marcava a data de nascimento de seu filho.

– Olha só, ela teve um bebê aqui. Se soubéssemos o nome dele, poderia ser nossa próxima busca. Dá para ir mapeando toda uma árvore genealógica assim.

        Ele já estava cansado de ouvir sobre as mil e uma maravilhas do sistema, a única coisa que lhe interessava era saber sobre o próximo arquivo. Quase tomando o mouse das mãos de Antônio, pediu que ele fosse para a última página. E então lá estava ela: Inês Franco, falecida em 15 de outubro de 2017, causa da morte: meningite.

         Seu primeiro pensamento foi de alívio, chegara a um fim. Mas logo em seguida, ficou aterrorizado com as imagens que invadiram sua mente. A já não tão jovem garçonete morta e seu filho, ainda pequeno, órfão. Era demais para ele, seria melhor não tê-la conhecido.

– Não pode ser! Deve ser a pessoa errada.

– Não é, só tem uma pessoa com esse nome, lembra? O sistema não falha.

– Será que não há mais nenhum registro que vocês ainda não escanearam? Vou procurar nas pastas.

– Mas não importa muito, seu André. O fim é claro.

       Ele não respondeu, a voz do garoto pareceu ficar distante e ele já não conseguia mais manter o foco de seus olhos no computador. A sala nunca lhe parecera tão pequena e abafada antes. Parecia que ele estava prestes a sufocar bem ali, como se quisesse ser mais um a entrar para os registros e estatísticas do hospital.

– O senhor a conhecia?

            Ele não respondeu.

– Eu sinto muito… Quer um copo de água? Alguma coisa?

– Eu… eu não entendo, não pode ser. Isso… Isso aí na tela, eu consigo encontrar de novo se eu pesquisar?

– Consegue sim, mas se o senhor quiser eu posso imprimir a página também.

– Não precisa… O que eu faria com uma página impressa? Não, obrigado.

        André saiu da sala e os garotos não tentaram lhe impedir. Sem rumo, ele parou na porta de entrada do hospital. Sabia que não podia ficar ali, não sem pensar nela. Atravessou a rua e continuou andando. Pensou em voltar até seu endereço e contar à simpática vizinha o que descobrira, mas não adiantaria… Inês não voltaria para casa. Assim como ele não voltaria mais para o hospital, afinal, qual o sentido de voltar sabendo que seus dias ali eram contados… Causa da morte: obsolescência. Era isso, o arquivo estava morto.

       Pensou se não devia ter aceito a oferta de impressão que o garoto lhe fizera. Mas uma folha impressa não tinha o mesmo valor, o mesmo peso de um original. A tinta lhe sugava a história. Não havia ali a pressão feita pelo médico no papel ao escrever as palavras que selaram seu destino. Saber os sintomas e tentativas de tratamento nada lhe revelava sobre como fora seu adoecer, quem foram seus enlutados e como a vida se reorganizara após sua partida.

        Ele resolveu voltar ao hospital e, já em sua sala, ignorando o jovem que veio falar com ele, começou a revirar os papéis que estavam no lado esquerdo da mesa, aqueles que já haviam sido inseridos na tal nuvem. Inicialmente com calma, olhando folha a folha, depois mais depressa, até que começou a espalhar folhas por toda a sala, em pânico com a ideia de perdê-la. Não sentiu quando foi que as lágrimas começaram a cair ou quando Antônio colocou a mão em seu ombro, tentando contê-lo. Só parou quando já estava nos braços do garoto, envolvido em um abraço quente, desengonçado, mas quente. Agarrou-se e se permitiu chorar. Por Inês e por ele, duas figuras esquecidas e perdidas em uma linha temporal que não conseguiram acompanhar.

– Está aqui, seu André – disse lhe estendendo uma folha – O original da moça, eu procurei assim que o senhor saiu, achei que fosse querer ficar com ele.

      Pegou a folha trêmula de suas mãos e agradeceu com um aceno. Como continuar depois de saber tudo aquilo? Saiu da sala novamente, subindo os degraus um a um, andando uma última vez pelos corredores brancos e gelados. A luz do sol bateu forte em seu rosto, o sol do meio dia o observava lá de cima e talvez tenha visto o carro que ele mesmo não viu ao atravessar a rua.

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Rock Show!

11. Rock Show!

   Eles são minha banda preferida há quase quinze anos. É isso mesmo, nosso amor resistiu ao tempo e não terminou junto com a puberdade, como meu irmão mais velho costumava dizer que aconteceria. Fui a cinco shows, todos os que eles fizeram em minha cidade, e em cada um deles conheci pessoas que compartilhavam meus sentimentos, que entendiam o valor que cada uma daquelas músicas tinha. Fiz alguns amigos assim, migramos por diferentes redes sociais ao longo dos anos e, graças à internet e aos novos álbuns lançados, nunca perdemos contato.

   Sempre faltei na aula para ir aos shows, pois, por mais que a apresentação só acontecesse à noite, a experiência começava na fila, onde reencontrava os amigos e fazia alguns novos. Tentava garantir meu lugar na fila, sabendo que seria recompensada com uma boa visão do palco quando chegasse à pista. E, de qualquer forma, seria impossível ter um dia produtivo com toda aquela ansiedade explodindo dentro de mim.

   Ah! Um outro detalhe que esqueci de comentar é que minhas idas a shows sempre foram patrocinadas pelos meus pais, como presentes de aniversário, natal, ou por mera insistência mesmo. Essa foi a primeira vez que me vi forçada a fazer tudo diferente. Aos 25 anos, tenho meu emprego, a vida ativa de quem acabou de se formar e está trabalhando muito, ainda querendo acreditar nas promessas que ouviu na graduação e já ciente de que nada acontecerá sem muito esforço e alguns sacrifícios. Pois é, dessa vez precisei bancar meu ingresso, em três dolorosas parcelas, que implicaram em uma severa contenção de despesas nos meses seguintes.

   Não pude faltar no trabalho para passar o dia todo na fila, não consegui folga, por mais que tenha pedido com meses de antecedência, mas consegui negociar com uma colega para trocarmos de turno, então estaria liberada no meio da tarde. Combinei com o pessoal de nos encontrarmos na fila, assim quem chegasse primeiro já faria mais alguns amigos e nos garantiria um bom lugar.

   Quando o grande dia chegou, não consegui dormir, tive um desempenho ruim no trabalho, pois parte de mim já estava no show. Como eu podia me concentrar sabendo que eles já estavam em terras brasileiras?

   Quando o relógio anunciou o tão esperado momento, corri para meu armário e peguei a mochila já pronta. Passei no banheiro e troquei o uniforme quente por uma bermudinha leve e uma camiseta preta com o nome da banda estampado. Preferi me maquiar e colocar a bandana no caminho, dentro do ônibus mesmo, afinal, eu ainda teria uma reputação a zelar no trabalho no dia seguinte

   Mandei mensagem para meus amigos avisando que estava a caminho e parei apenas em uma lanchonete, onde comprei alguns lanches e uma garrafa grande de refrigerante gelado. O estômago precisa estar bem forrado para aguentar uma noite daquelas.

   Atipicamente, esperei apenas uma hora até a abertura dos portões e, graças à Dani, conseguimos um bom lugar na pista, nós duas ficamos numa posição estratégica, bem em frente ao lado direito do palco, onde Seb, o guitarrista, costumava ficar. Combinamos com o restante do pessoal que nos encontraríamos no final do show, em frente aos banheiros, e assim cada um foi procurar um lugar que lhe desse melhor visão do palco.

   Sentamos na pista e ficamos aguardando, Dani me contava sobre sua vontade de pedir demissão, motivo inclusive que fez com que ela não se importasse em faltar para garantir nossos lugares na fila. Eu entendia como ela se sentia, às vezes eu também sentia aquela vontade de jogar tudo para o alto. Tudo mesmo. O desabafo rolava solto até o momento em que as luzes da casa se apagaram.

   Acho que mesmo que eu me esforçasse, não seria capaz de descrever com exatidão como foram as duas horas seguintes. Shows sempre são uma experiência única, mas me despertam as mesmas sensações: o arrepio em cada parte do corpo quando as luzes se apagam e o silêncio impera por alguns segundos, antes que os instrumentos comecem a tocar; a voz do vocalista, anunciando a entrada da banda; a expectativa pela próxima música – será que eles vão tocar aquela?; a surpresa quando tocam algo que não costuma estar no repertório; ou o sorriso que surge no rosto quando eles se arriscam a falar em nossa língua. Mas não há nada comparável à sensação de união de quando todo o público, milhares de estranhos, se unem em uma só voz, cantando uma música junto com eles. Não importa se o ritmo ou a pronúncia das palavras está correta, tudo o que importa é saber que você divide aquelas notas com aquelas pessoas e que aquele momento nunca se repetirá.

   Quando a noite terminou, demorei para me situar novamente, foi difícil coordenar os pés que tentavam me arrastar para fora do estádio. Não sei muito bem como cheguei ao táxi ou sobre o que conversei com o motorista até chegarmos em minha casa. Sem nem tomar um banho, despenquei em minha cama e adormeci assim que a cabeça encostou no travesseiro, de tanto cansaço. No dia seguinte, ainda parecia anestesiada e sabia que seria muito difícil voltar ao normal, pois eu já não era a mesma, era uma das vozes do coro.

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Para Sempre

10. Para Sempre

Quando você me deixou, achei que eu não fosse aguentar. Nunca imaginei que a vida seria tão diferente sem o som gostoso da sua risada. Ou mesmo que eu sentiria falta do seu bom humor matinal, aquele que às vezes me tirava do sério. Agora, quando acordo, a casa não tem mais aquele cheirinho quente de café, e preciso encarar meu reflexo na tampa do fogão enquanto espero a água aquecer.

Não demoro nem dez minutos para comer uma fatia de pão e deixar a mesa silenciosa para trás. Tenho medo especialmente dos finais de semana, quando a casa parece dar eco, de tão vazia. Na verdade, foi por isso que eu comecei a aceitar os convites para sair, mas deixo o pessoal pensar que estou “seguindo” em frente.

A pior parte é que a maior ilusão do desiludido é acreditar que nunca se deixará iludir novamente. Mas eu sei que não é verdade. Em algum momento, a casa deixará de parecer tão grande, e eu tão sozinho. Já não me importarei mais com o fato de dormir em uma cama enorme e comprarei um abajur ou móvel qualquer para colocar no lugar onde você deixava sua poltrona de leitura, aquela coisa velha e cheia de pelos de gato grudados. Sim, mamãe conseguiu me convencer e a jogamos fora, espero que você não se importe. E quando esse momento chegar – e eu demorarei para me dar conta disso – eu estarei pronto. Começarei a olhar para as garotas na rua novamente, finalmente despertarei interesse por alguma das garotas das extensas listas de amigas solteiras que as pessoas insistem em querer me apresentar.

Mas me interessar por alguém novamente significa que eu terei superado, não que eu acredite que possa um dia te esquecer, ou nos esquecer. Nosso casamento acabou antes de os problemas começarem e, por isso, nunca saberei se éramos realmente perfeitos um para o outro ou apenas se você foi embora antes que eu conseguisse estragar tudo – porque convenhamos, nós dois sabemos que o culpado seria eu. Tenho medo de ficar bem novamente, porque não quero que isso minimize minha perda, não posso falhar com sua memória, e dá até mesmo para senti-la escapando por entre meus dedos quando penso nisso. Cada vez que eu encontro um objeto seu pela casa e jogo dentro do armário, naquela maldita caixa, é como se eu estivesse te empurrando mais para o fundo. Só que não posso nunca deixá-la ir embora. Em mim você ainda vive, exatamente como te prometi no seu último dia. Nosso último dia.

E, quando eu estiver pronto para conhecer outra pessoa, viverei uma fase relutante, num misto de culpa e curiosidade. Até que, quando menos esperar, estarei imerso em uma nova fantasia, achando que dessa vez viverei feliz para sempre. Mas como lidar com a voz na minha cabeça que me lembra que o “para sempre” terá apenas a mesma duração que eu ou ela, o que terminar primeiro.

 

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Rosa

09. Rosa

Ela me olhou, admirada. Segurei a vontade de rir quando seu nariz encostou no meu e ela fungou, sentindo meu cheiro fresco. Sem querer me gabar, mas eu costumava mesmo despertar sorrisos como o dela, apenas com um olhar. Meu tom rosa reluzia contra o sol, fazendo as pétalas brilharem ainda mais, e ela deve ter notado, foi por isso que tirou o celular do bolso e começou a me fotografar, já que, aparentemente, é assim que as pessoas lidam com o belo hoje em dia. E então foi embora, como todos os outros.

Algum tempo depois, avistei-a novamente, em meio às pessoas que passavam apressadamente pela calçada. Ela se aproximou e me tocou, deixando-me arrepiada no lugar em que seus dedos repousaram, não estava acostumada com tamanha intimidade. Comecei a sentir cócegas com o movimento de seu toque e foi então que ela fechou a mão em torno de mim e puxou com uma força arrasadora. Nunca me senti tão despedaçada, e a dor foi tão grande que deixei meu corpo para poder escapar dela.