Publicado em Contos, Textos

Janela

Da janela do meu apartamento vejo seu escritório. Eu estudo e ele trabalha. Quando estou me levantando, ele já está batendo ponto. Tem dias que chego em casa e sua janela ainda está acesa. Vejo-o assistindo reuniões, falando no celular e teclando furiosamente em seu computador. Sei a hora em que seu almoço chega, quase sempre pedido do restaurante da rua detrás, com exceção das quintas, quando ele sai para almoçar fora. Uma hora inteira sem vê-lo. 

Acompanho sua rotina enquanto ele nem sabe que faz parte da minha. Por mais de uma vez já me guiei por seus horários. Mesmo sem saber quem ele é, ou por quê está lá, é reconfortante ter a certeza de que estará, me sinto menos solitária em sua companhia. 

Levantei-me da mesa, ainda com a caneca em mãos e fui até a janela, afastei as cortinas e lá estava ele em minha paisagem diária. Abri a porta, saindo para a sacada e fiquei observando-o digitar enquanto a fumaça do café subia em espirais e o cheiro me esquentava por dentro.  

Terminei a bebida e entrei novamente, acrescentando a caneca à louça já acumulada na pia, e corri para o banho, pois já estava atrasada. Consegui passar boa parte do dia sem pensar nele, as aulas da manhã foram cheias, usei o intervalo para terminar um trabalho que seria entregue no último período e perdi valiosos minutos na fila da impressão. 

Almocei com uma colega, falamos sobre quase todas as pessoas de nossa turma e então fui embora. Apenas na volta, já perto de casa, foi que ele invadiu meus pensamentos. Será que ainda estava no escritório? 

Com o tempo, fui pegando um hábito estranho: eu gostava de imaginá-lo nas mais diferentes situações. Era como um personagem que habitava meu imaginário e eu adorava jogá-lo diante de um cenário para ver como ele se virava. Em geral tínhamos as mesmas opiniões, apesar de eu discordar de sua conduta por uma ou duas vezes. 

Cheguei em casa, cumprimentei o porteiro e parei para pegar uma encomenda: meus hidratantes novos finalmente haviam chegado. Assinei meu nome no já surrado caderninho da portaria, logo acima da dona Odete, que recebeu seu pedido da farmácia. Me despedi e segui até o elevador, que estava parado na garagem, no segundo subsolo, e lá ficou por longos três minutos. 

Fiquei encarando meu reflexo na porta do elevador, até que ela se abrisse. Entrei, quase em piloto automático, falando um “boa noite” sem nem olhar para meu companheiro de subida. Meus olhos miravam o painel de botões que indicava os andares. Apertei o meu e me posicionei, de costas para a porta. Só quando ela se fechou, olhei para frente e o vi pelo espelho. Ali estava meu amigo sem nome, dessa vez de pé, de perto, com cheiro de loção pós-barba e até mesmo com voz, afinal, ele murmurou algo em resposta. 

Antes que eu conseguisse pensar em qualquer coisa para dizer, o elevador parou um andar abaixo do meu e ele desceu, ajeitando a mochila nas costas. Tentei ter um vislumbre de sua casa, mas no momento em que ele abria a porta, a do elevador se fechava. 

Saltei do elevador quando as portas abriram novamente. Entrei rápido e fui correndo até a sacada. As luzes do escritório estavam apagadas, tudo escuro e sem vida lá dentro. Cheguei bem perto da grade, apoiando a cabeça na tela de proteção e olhei para baixo: luz, som de risadas, cheirinho de comida. 

Me afastei, voltando para dentro e desabando no sofá. Eu nunca o imaginei tão perto antes. Não sabia o que fazer, agora tudo parecia diferente, eu podia espiar uma pessoa estranha em seu escritório, mas não devia fazer isso com um vizinho, certo? O que ele faria em meu lugar?