Publicado em Crônicas, Textos

Ensino à Distância

Me inscrevi em um curso de extensão no início do ano. Acredito que de vez em quando é bom sair da própria bolha e olhar para fora, apreender novas técnicas, descobrir as soluções que outras pessoas e empresas estão usando. As aulas começaram em março, logo após o carnaval.

Passei por um processo já conhecido, mas que ainda foi capaz de causar frio na barriga: programar o despertador e dormir mal à noite, achando que perderia a hora, conhecer um caminho novo, descobrir o andar e a sala, entrar na tal sala já cheia de pessoas. Apresentação da turma e do professor, conteúdo programático e, mais nervoso ainda, na hora de fazer a apresentação pessoal. Nunca tenho certeza sobre o que falar sobre mim… Como fazer um recorte rápido que me resuma, sem parecer esnobe, tampouco simplória? Como parecer interessante em meio a tantos estranhos?

Gaguejei, me atrapalhei na fala, sentindo uma gota de suor frio escorrendo por dentro de minha camisa nova, meticulosamente escolhida para a ocasião. Bem na minha vez fomos interrompidos por uma batida na porta. Uma funcionária da secretária veio trazer a lista de presença e nos deu um brinde de “boas-vindas”, uma caneta de tinta azul com o símbolo da universidade. Peguei a caneta, com um sorriso amarelo e esperei para poder continuar minha exposição. A caneta sequer funcionava, como comprovei assim que o professor começou a aula.

Na semana seguinte tivemos o curioso fenômeno da formação de grupos, as famosas “panelinhas”. Cheguei a comentar que éramos uma turma só de mulheres? Uma tentando lembrar o nome da outra e a empresa onde cada uma trabalhava. Demos início ao tão estimado Networking.

Mas logo em seguida a cidade entrou em quarentena. As aulas presenciais foram canceladas e os professores prontamente buscaram uma alternativa digital. Usemos a tecnologia a nosso favor, não é mesmo?! A partir da semana seguinte, passamos a nos encontrar de forma digital, com alguns recursos improvisados, outros funcionais, mas demos um jeito de seguir em frente.

Algumas pessoas desistiram do curso e saíram do grupo sem avisar. Além disso, as perdas foram inúmeras: câmeras desligadas, devido à timidez, nos privando de contato e vínculos, problemas técnicos, falhas de comunicação, aliás, pouca comunicação, baixo engajamento e pouquíssima participação.

Sinto que deixamos uma chance escapar, perdemos a chance de nos conhecer, nos ajudar e nos divertimos juntas. As aulas se tornaram online, quase como assistir um vídeo ou palestra, passivo, fraco.

Foi triste perceber quão pouco as pessoas se engajaram e como a motivação para o curso caiu com a proposta de ensino à distância. Nunca saberemos o que teria sido diferente em um curso presencial, já que ele nunca aconteceu. Viramos cumpridoras de tarefas, isoladas e frustradas com nossos planos interrompidos.

Por outro lado, mesmo à distância, o curso é uma oportunidade de entrar em contato com outras pessoas da área, nem que seja uma vez a cada sete dias. Me mantém ocupada e me dá tarefas práticas para realizar durante a semana. Tenho aproveitado o tempo – e investimento – para buscar materiais complementares em vídeos, livros e artigos.

Beber de outras fontes ajuda e, nesse momento, ter uma ocupação prática é um alívio enorme. Mas, me frustra me arrumar todos os sábados, para ficar com a câmera desligada, ouvindo a voz de um professor com sono, explicando o conteúdo da forma que consegue, sem o viés presencial. Me entristece o fato de que nunca saberemos como nosso encontro poderia ter sido.

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