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Palavras

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Ontem foi meu aniversário. Vou contar pra vocês que fazer aniversário no meio da pandemia não é legal. Acho que a data nos deixa introspectivos, faz pensar bastante e fazer aquele “balanço geral”. Me senti travada, meus desejos e expectativas parecem ser os mesmos do início do ano. Mais alguém tem a sensação de estar parado no tempo? Por aqui a vida parece em pausa. E, pior, não vi muitos motivos para comemorar em meio a tanto sofrimento e desgoverno que temos enfrentado. A cada dia uma notícia ruim e mais mortes que entram na conta. É estranho celebrar a vida em meio a tanta destruição. Mas eu, assim como tantas outras pessoas, vi o calendário correr até meu dia.

Sem poder ver meus amigos ou abraçar minha família, tive um dia bastante agitado, com algumas videochamadas cheias de carinho. O interfone tocou algumas vezes, anunciando presentes que chegaram de surpresa, alegrando e adoçando meu dia. Mas o meu maior presente foram as palavras.

O dia começou com a habitual sessão de terapia que acontece às sextas. Minha terapeuta foi a primeira a me dar suas palavras: escolheu “sonhos”, “inspiração”, “coração” e mais algumas que eu esqueci pois já estava chorando.

E assim foi pelo resto dia: as palavras vieram na voz de quem passou o dia comigo e chegaram aos montes em meu celular, via mensagens nas redes sociais, posts apaixonados, recados carinhosos em minhas caixas de entrada, áudios para me fazer sorrir, palavras escritas em cartas, palavras ditas à distância de uma tela, e até as palavras não ditas, de quem não apareceu. Terminei o dia com os bolsos cheios de dedicatórias e desejos.

Foi muito engraçado ver como sou vista aos olhos dos outros: me desejaram muitos cafés, amor, bons encontros, corujinhas, muitas aventuras caninas, plantinhas, sucesso na escrita, e eu poderia encher mais uma estante com o tanto de livros e leituras que me foram desejados (amém!).

Não achei que me sentiria renovada assim, mas aconteceu. Eu e meus cabelos, que já começam a ficar brancos, agradecemos por cada uma das palavras recebidas. Obrigada ❤️

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Castelo dos Sonhos

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Acordei sentindo uma brisa passando pelo quarto, um ar frio tocando a ponta do meu nariz e tudo o que não estava protegido embaixo do cobertor pesado e felpudo. Me estiquei na cama macia, sentindo meu corpo despertar aos poucos, mexi os pés, estiquei os braços para os lados, sem sentir as bordas da cama. Não queria abrir os olhos, então, apertei-os, lutando contra a claridade que tentava atravessar minhas pálpebras e tentei para voltar ao sono, queria retornar ao sonho exatamente do ponto em que parara, como se pudesse apertar o play naquele filme novamente.

Me virei para um lado, puxei o cobertor para cima, tampando até a cabeça. Virei para o outro, me encolhendo em volta de mim mesma. Mas era tarde, já estava acordada. Repassei o sonho na cabeça, disposta a imaginar uma continuação, já que não poderia mais ser espectadora de meu inconsciente. Me vi novamente no baile, com um vestido longo azul, a saia rodada com uma fina camada de tule repleta de pequenos pontos de brilho, a maquiagem forte em torno dos olhos os realçava, o gloss de efeito molhado brilhava nos lábios.

Talvez minha parte preferida fossem os sapatos prateados, que tinham o salto na medida certa, não apertavam e, mesmo após uma noite inteira em pé, não havia sequer uma bolha ou calo me incomodando, só podia ser imaginação mesmo.

O cabelo caía em ondas até meus ombros, mais curto do que estava acostumada, mas eu me sentia tão linda que simplesmente não mudaria nada naquela noite. Na verdade, mudaria apenas o tempo: adoraria fazê-lo parar. Gostaria de poder viver ali, naquela festa, naquele castelo. Sim, pode me chamar de boba, mas era isso o que aquela mansão parecia. O jardim que eu via lá embaixo, pelas grandes janelas do salão só podiam ser descritos como vindos de um sonho.

Eu não podia terminar aquela noite senão desta maneira, em uma cama confortável, sem hora para acordar e com ele ao meu lado. Aí começava a parte da imaginação, já que eu estava sozinha em minha cama.

Gemi, e finalmente tomei coragem para abrir os olhos e enxergar a realidade. A luz me invadiu, causando um arrependimento instantâneo. Pisquei algumas vezes para me acostumar e então olhei para frente. O vestido, que mais parecia de uma fada, estava lá, azul e com todo o brilho que eu me lembrava. Os sapatos descansavam no chão e uma pequena bolsa estava em cima da cadeira. Passei as mãos sobre o cobertor e não o reconheci como meu. Olhei em volta e para mim, apenas para constatar o óbvio: aquela não era minha cama, muito menos o meu quarto.

Eu vestia uma camisola preta, rendada que não cobria muito do meu corpo, não era à toa que sentia frio. Olhei para os lados, só para ter certeza de que estava sozinha e então dei um beliscão em meu braço: doeu de verdade. Mas o que era verdade, afinal?

Sentei-me na cama e olhei para baixo, onde encontrei duas pantufas de pelúcia aguardando para um encaixe perfeito em meus pés. Havia também um roupão apoiado na cabeceira da cama. Enrolei-o em volta do corpo e parecia que estava carregando um cobertor comigo. Levantei e segui até a janela. Lá estava meu jardim dos sonhos, a vista mais bonita que eu já vira em uma manhã, os raios de sol cortavam o horizonte, apesar da baixa temperatura. Fiquei apoiada, olhando a imensidão a minha frente. Olhei para as janelas ao lado, todas fechadas.

Fiquei ali até ouvir o barulho de chave girando na fechadura atrás de mim. Sua voz chegou aos meus ouvidos junto com o cheirinho quente de café que invadiu todo o quarto.

– Já está acordada? Saía daí ou vai se resfriar.

– Achei que eu estivesse sonhando – perguntei, me virando e encarando-o de frente.

Ele também vestia um roupão e pantufas semelhantes às minhas, mas, ao contrário de mim, parecia se sentir realmente à vontade ali.

– A noite passada pode ter sido, mas espero que todos os nossos dias sejam assim a partir de agora.

Ele deixou a bandeja que carregava apoiada na cômoda ao lado da cama e se aproximou, me envolvendo em um abraço apertado.

Respirei seu perfume, o mesmo de ontem à noite. Não era um sonho, afinal.