Publicado em Crônicas, Textos

Releitura

Woman's hand writing on a notebook with a pen on a wooden desk.

Ontem reli um texto de meu caderno e custei a acreditar que era minha a autoria de tais palavras. Um pensamento que mudou, deixou de fazer sentido, sendo substituído pelo seu oposto, até que me contentei com um meio termo insosso e menos polêmico.

Se há dias em que nem eu me reconheço, como pode alguém que estudou comigo anos atrás dizer que me conhece? É engraçado – e extremamente assustador – pensar que existem diferentes versões minhas povoando o imaginário de meus antigos conhecidos. Isso porque a imagem que as pessoas formam e guardam umas das outras costuma não acompanhar sua constante evolução.

Mas como conviver com os fantasmas de quem já fui e com as fantasias de quem serei um dia? Pior, como existir sabendo que há outros de mim que habitam a mente de outros, e esses, mais do que ninguém, escapam ao meu controle. Posso – achar – decidir quem sou, mas nunca apagar o que já fui, são opiniões e impressões que nos seguem e ferem. Tenho vergonha de palavras que já proferi um dia. Admiro a coragem que já tive aquela vez e sinto saudade da simplicidade de outra época.

Em tempos de redes sociais, onde tudo fica gravado, é difícil contentar-se em ser uno. É difícil escolher o que e quem ser. Os históricos de postagens e conversas podem vir à tona a qualquer instante. Mas eles são ou não verdadeiros? O que eu disse ainda é válido mesmo se eu já não concordar mais com aquilo? E o que será que meus ditos “seguidores” pensam de mim? Eles me conhecem? E eu, os conheço? Não ouso afirmar sequer se eu me conheço. Mas então por que fazemos tanta questão de seguirmos uns aos outros?

Ao longo dos anos me perco e me (re)encontro. Vou vivendo e tentando acompanhar quem sou, quem escolho e quem consigo ser. Reler minhas palavras, uma memória gravada, reacendeu algo por dentro. Não importa o rumo que eu tome, carrego sempre a história já escrita na bagagem. Mas, veja bem, não quero soar fatalista (ou daqui uns anos posso reler esse texto e me arrepender também!), afinal, como poderia chegar até aqui sem passar por milhares de significações e ressignificações. Sim, porque foi isso que senti ao rever meu traço cru no papel: eu ressignifiquei. Se as palavras deixaram de ter o peso que tinham na época foi porque se transformaram. E talvez nada disso faça sentido para você, leitor, mas hoje, essas palavras, que novamente insisto em registrar, significam tudo para mim.  Porque eu mudei, e sigo mudando.