Publicado em Crônicas, Textos

Sem Título

47. Sem Título

Eu tentei escrever, mas hoje me faltam palavras. Eu, que sempre me refugiei em meio às páginas de meus livros, que sempre invejei os personagens que moram nas paredes de minha estante, me encontro agora incapaz de usar minhas mais potentes armas. Sinto as letras me escapando, escorrendo por entre meus dedos antes que eu consiga agarrá-las. Sem nada reter, tudo me escapa, não há limites ou filtros que me ajudem a criar contorno, me sinto vazio ao fim do dia. Todos os dias.

A falta de recursos não me deixa expressar ou mesmo entender com clareza o que sinto. Sem poder traduzir o que vivo, sufoco com aquilo que não é dito. O som entala e não sai pela garganta, as mãos trêmulas não conseguem desenhar a caligrafia e eu me afundo. Me enterro no conjunto desajeitado de funções que sou.

Perdida, é como se nenhuma peça se encaixasse no quebra-cabeças que a vida me fez. Sinto arrepios ao olhar para a folha em branco, mas os dedos continuam ali, apertando a caneta, tentando dominá-la. O caderno surrado que mora no fundo da minha mochila vive a me chamar, como um lembrete diário de que eu devo voltar, de que é preciso voltar, porque é isso que eu sei fazer. É em meio ao rascunho que eu me encontro. Me reconstruo, letra a letra, encaixando peça por peça, quantas vezes precisar, afinal sei que essa não é a primeira e nem será minha última crise com as palavras.

É sempre difícil recomeçar, quando os moldes antigos já não servem mais, mas não há nada que me comporte, nenhum apoio ou conforto enquanto me retalho procurando um fio que dê a liga que preciso. Confusa, busco novos caminhos, e me surpreendo quando me deparo com uma velha esquina, há muito conhecida, bem no meio do trajeto. Não existe mapa para quem não sabe onde quer chegar, as linhas pouco servem de guia para alguém que não saber como dizer o que quer dizer. Aos poucos os rabiscos voltam a tomar forma, os traços desconexos viram letras, que se misturam até que as palavras surgem no papel e frases inteiras se montam bem diante dos meus olhos. Novos textos chegam para contar as histórias que vivo, sinto e crio. A tinta que marca o papel é testemunha de meu primeiro encontro com aquilo que já morava em mim, histórias que se mostram a mim e conheço conforme escrevo.

Hoje, estou apenas tentando achar o caminho de volta às palavras, escrevendo mais um trecho de minha própria e singela história. Me desculpe por te fazer ler tantos rabiscos.

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