Publicado em Crônicas, Textos

Por Trás das Minhas Lentes

Ótica (4)

 

Nosso caminho foi interrompido. Você nunca foi planejada, mesmo assim foi concebida. Eu não posso dizer que tenha sido um sonho, porque nunca realmente te quis pra mim, mas confesso que o mundo que se abriu quando você chegou foi bem interessante. Tudo era novidade, era leve, elegante. Me diverti bastante montando, escolhendo e enchendo suas prateleiras. Aprendi muito, mas nunca senti a seriedade de te ter em minha vida. Me esforcei muito para que você começasse, passei dias trabalhando para que você acontecesse.

Contigo aprendi a apreciar o formato do meu rosto, agucei meu senso estético com todos os seus acessórios, a ponto de mal me reconhecer sem os meus óculos. Todos eles: o preto, o azul, o vermelho, o roxo, o outro azul e aquele pintadinho que todo mundo quer saber o nome. Todos praticamente do mesmo modelo (minha marca registrada), mas únicos aos meus olhos.

Depois de uma aproximação tão intensa, você caminhou sozinha e eu me afastei bastante, hoje me arrependo um pouco. Eu não percebia porque me acostumei a tê-la sempre por perto, logo ali ao lado. Não dei o seu devido valor.

No último ano tudo mudou e, de repente, você virou minha morada. Vieram os problemas de rotina, os imprevistos. Comprar café, ligar no suporte do sistema, correr no banco, fazer anúncio, resolver troca e imprimir nota fiscal.

Aos poucos nos reaproximamos e eu fui te domando. Apesar de não ter o conhecimento técnico, não podia ser tão difícil! Não quando você sempre fora parte de mim. Mas dado o momento e as circunstâncias, me vi ameaçada e, pela primeira vez em todos esses anos, senti o peso enorme de ser a dona da assinatura em todos aqueles papéis.

A decisão de te deixar partir não foi nada fácil. Eu relutei e procurei alternativas, mas o peso era tão grande! Eu fiz de tudo e não consegui, naufraguei. Encerrar foi como matar um pedaço daquilo que mora em mim.

De um dia para o outro vi portas sendo abaixadas, pedaços da nossa história sendo cobiçados, pechinchados, objetificados e descartados. Parte de mim foi encaixotada junto com tudo o que um dia, apesar de não ter sido sonho, foi realização.

Eu montei cinco lojas na minha vida, desmontei duas, você foi a melhor e mais gostosa de começar e a mais dolorosa de encerrar. E eu não podia deixa-la na mão, terminei aquilo que comecei. Aquilo que, apesar de não ser meu, era meu. Agora com o dobro de maturidade e responsabilidade, carregando todo o seu peso nas costas, me sentindo terrivelmente sozinha. Encerro com alívio e a paz de saber que estou fazendo a coisa certa, mas isso não minimiza o sofrimento de ver suas paredes vazias e nós duas encolhidas em algumas poucas caixas sem saber ao certo o que nos resta.

 

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