Publicado em Crônicas, Textos

Silêncio

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   A palavra silêncio é definida no dicionário como “o estado de quem se cala ou se abstém de falar. Privação, voluntária ou não, de sons e comunicação”. Ou seja, só se cala aquele que tem algo a dizer. E ele só se faz presente, só o percebemos, ao notar a ausência de som.

   Eu conheço vários tipos de silêncio. Tem aquele do começo da manhã, quando todos ainda estão dormindo, ou pelo menos deitados em suas camas, e não consigo ouvir nada além de meus próprios pensamentos, que me invadem no momento exato do despertar. E também existe aquele que gosto menos que é o da casa vazia, esse me assombra desde que o Max nos deixou, pois a sala está sempre escura e sem vida quando chego, sem latidos ou alegria me esperando na porta.

 Tem o silêncio constrangedor de uma sala de espera, quando desconhecidos compartilham um momento juntos e ninguém quer ser o primeiro a falar. É mais fácil ouvir o virar de uma página de revista ou uma fungada do que o calor de uma voz. Esse, para mim, é o silêncio do tédio.

   Depois vem o silêncio de tensão, que é aquele que se pode escutar numa sala de aula na hora da prova, apenas respirações ofegantes e destinos ansiosos, mas nenhuma palavra. Pior do que ele, só aquele que acompanha o climão de um reencontro indesejado. Não desejo nunca mais passar por um assim.

   Tem aquele silêncio incômodo que surge depois que dizemos algo forte. É difícil sustentá-lo, mesmo que às vezes seja necessário, porque é o tempo que o ouvinte tem para digerir as palavras que acabaram de lhe atingir. E, apesar da ausência de som, fervilhamos por dentro, com tudo o que foi dito ou poderia ter sido dito.

   Aprendi que o silêncio pode também ser uma resposta. Como quando você se declara para alguém e não recebe nenhuma manifestação em troca: sempre achei que precisava esperar uma recusa antes de engolir meu orgulho e partir para outra, mas acontece que a falta de resposta também é uma resposta, já que nem todos conseguem se comunicar através de sons ou palavras.

   Existe o silêncio de quando não há nada a se dizer e o silêncio de quando não precisamos dizer nada. São raros os momentos em que esse último aparece, quando duas pessoas conseguem estar juntas e compartilhar de um silêncio que não é caracterizado pelo vazio ou ausência, mas sim pela mais forte presença de sentido. E você sabe que não existem palavras suficientes ou mesmo necessárias para superar aquele momento.