Publicado em Textos

Tina

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Era uma moça doce e vaidosa, bastava olhar com atenção para perceber a combinação de cores entre seus acessórios. Apesar da timidez, não se deixava enganar com o jeito meigo. Sempre fora inteligente, mesmo sem estudos, afinal não havia outra maneira de definir suas mãos habilidosas e precisas, sem contar os olhos ágeis, capazes de formular um exame completo em poucos minutos. Depois, seus lábios faziam questão de reproduzir todo o relatório que, quase sempre, terminava com uma risada áspera, que mais parecia um engasgo. Tina podia ser tão transparente que bastava arquear uma sobrancelha para que eu decifrasse o que se passava em sua mente. Era uma ótima contadora de histórias, daquelas que faz questão de se demorar em cada detalhe, mas eu sempre ficava com a sensação de que ela ainda não me revelara algo sobre a sua própria. Talvez fosse o fato de seus pés balançarem impacientemente toda vez que precisava responder uma pergunta. Dizia que tinha um bom coração, apesar de sua boca. A verdade é que, desde que chegara aos oitenta, desistira de agradar qualquer um e não demorava nada para começar a emitir seus comentários ácidos em meio a uma conversa casual.

Publicado em Crônicas, Textos

Sala de Espera

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Não sei se você já reparou, mas existe algo quase místico em uma sala de espera. É sempre um ambiente pequeno, muito quente ou muito frio e, dentre seus possíveis pertences costumam estar: um sofá velho ou cadeiras que não ficariam bem na sala de visitas de ninguém, um quadro fora de moda, flores artificiais empoeiradas, uma televisão ligada em um canal qualquer e com o volume desajustado, um balcão, um filtro de água e, se der sorte, uma garrafa térmica com café insosso.

Toda vez que tenho uma consulta agendada, tento chegar pontualmente no horário marcado, só para evitar a antessala que me separa de meu compromisso.

Por algum motivo, os minutos que passo aguardando têm um efeito sonífero quase irresistível sobre meu corpo. Não importa se é uma cadeira de plástico, madeira, aço ou ainda uma poltrona ou sofá, basta ter um lugar no qual me encostar que as horas não dormidas da noite passada surgem para reivindicar seu espaço.

Se por ventura chego cedo, ou então se há um atraso por parte do outro, tento me manter em pé, pois assim a probabilidade de cochilar é menor. Fico trocando o apoio, distribuindo o peso de meu corpo de uma perna para a outra, mas quando tenho companhia fico com medo de que pareça que estou muito apertado para ir ao banheiro e, nesse caso, acabo cedendo.

Há vezes ainda em que algo pior acontece. Se estou descansado e não sinto sono, o que me assalta são os pensamentos. Não importa o que estiver passando na televisão ou quantas revistas antigas eu tenha à minha disposição em uma mesinha de centro. Não consigo evitar os pensamentos que me surgem quase em ordem metódica: começo com coisas leves, como repassar mentalmente minha agenda de compromissos seguintes, calculando o tempo que demorarei para fazer cada coisa assim que sair dali, depois olho para o relógio e conto os minutos de espera que ainda tenho pela frente. Em seguida, começo a pensar em comida, me pergunto o que há para o jantar, lembro que deveria ir ao mercado, me convenço a não pedir pizza outra vez e, quando me dou conta, já estou com fome. Pego o celular em meu bolso e confiro cada notificação, depois guardo-o novamente, preciso economizar bateria.

Olho de novo no relógio, constatando que os ponteiros se moveram em sua dança silenciosa. Penso que agora há menos tempo a esperar, afinal, quanto mais já esperei, menos esperarei, vou filosofando na dimensão temporal do mundo, até que ouço um barulho na sala ao lado, me pergunto se há mesmo alguém lá dentro, tento me lembrar se a consulta era mesmo para hoje ou se estou sentado aqui à toa, tento calcular quanto tempo é aceitável esperar antes de tentar arrombar a porta e chamar a polícia, para saber se o médico não está morto dentro de sua sala. Que ridículo, luto para afastar esse último pensamento e me ajeito na cadeira, reparo então no assento que me acomoda, será que um dia ele esteve na sala de jantar de meu médico? Ou terá pertencido a sua varanda? Sua imagem vestindo bermuda e chinelos em um domingo de manhã lendo o jornal surge em minha cabeça. Será que eles leem jornal? Eu deveria ler mais…. Daí me transporto para as notícias e a atual situação político-econômica do país. Eu sempre fujo de ler e me informar sobre a complexidade do governo nacional, não busco informações e, portanto, evito discussões a respeito. Aliás, fujo de um monte de coisas em minha vida, já fazem semanas, por exemplo, desde a última vez em que pisei na academia, mesmo com o plano anual pago, também não visito minha mãe há um bom tempo, ainda não respondi a mensagem da Val, tenho matéria acumulada do semestre inteiro para estudar e fico adiando aquele café com a turma do colégio. Tento me convencer a ser uma pessoa melhor, faço planos que nunca cumprirei, apenas para me aliviar. Olho novamente no relógio e então ouço o estalido da porta se abrindo. Me levanto da cadeira, liberando espaço para o próximo pobre coitado.

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Um dia de Faxina

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– Mãe, posso jogar fora? – perguntei, balançando um vaso velho em minhas mãos.

– Não – ela respondeu sem nem ao menos levantar os olhos da pilha de papéis que estava a sua frente.

– Você sempre guarda um monte de vasos e nunca usa novamente. Não podemos jogar alguns fora? Por favor. Só metade deles, o resto eu empilho e arrumo um lugar dentro do armário.

– Tudo bem. Mas guarda o azul de lacinhos, adoro ele.

– Se adorasse mesmo ele não estaria jogado no armário – murmurei, irritada.

– Quer parar de reclamar?

– Você me pede ajuda para arrumar essa garagem imunda e não quer que eu dê minha opinião?

– Filha, encontrei seus cadernos da escola. Tem vários aqui, no fundo dessa caixa.

– Jura? Quero ver.

– Quem era Renan? – ela perguntou rindo.

– Renan? Ei! Me dá isso aqui – disse puxando o caderno da sua mão e tentando tampar o nome que estava escrito em uma letra caprichada e cercada de pequenos corações vermelhos.

Ela continuou me olhando, risonha.

– Tudo bem. Era um menino da minha sala, eu gostava dele no colegial. Só isso, senhorita intrometida.

– Só fiz uma pergunta – ela respondeu rindo.

– Mãe, e o que são todas essas sacolas aqui?

– São coisas do guarda-roupa da sua avó, já se passaram dois anos, mas eu nunca tive coragem de mexer em nada. Se você quiser me ajudar, agradeço.

– Tudo bem – disse enquanto desatava o nó da primeira sacola – Só roupas aqui.

– Separa o que estiver em bom estado para doarmos então.

– Mãe, achei uma sacola de coisas suas também, você trouxe lá da casa dela?

Ela apenas concordou com um aceno de cabeça, então eu continuei examinando o conteúdo de sua sacola de memórias.

– E me diz aí, quem era esse tal de Gustavo?

– Eeeeei!