Publicado em Crônicas, Textos

Qual o seu problema?

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Sempre fui o que os outros consideram uma pessoa certinha. E sempre me perguntei se havia algo de errado com isso.

Como uma pessoa tímida, nunca gostei de ser o centro das atenções em uma roda, tenho poucos – e bons – amigos. Já que não gosto de falar, gosto de ler, sou uma leitora ávida e sempre carrego um livro comigo, assim sinto que nunca estou sozinha. Talvez isso também explique as notas: gosto de estudar, meus cadernos são cheios de anotações e citações, e são super cobiçados por meus colegas nas vésperas de prova. Nunca fiz nada disso de propósito, é claro que me esforço para ter um bom desempenho, mas meu objetivo nunca foi ser a melhor aluna da turma.

Outro fato importante, já que estou me apresentando, é que sou organizada. Não, na verdade é mais do que isso, sou extremamente organizada e metódica. Todas as minhas coisas seguem alguma lógica de organização, meu quarto é impecável e eu sei o lugar certo de absolutamente tudo o que há lá dentro. Isso fez com que eu me tornasse uma pessoa cuidadosa, que tenta manter tudo sempre na mais perfeita ordem. E quando tenho um trabalho a fazer, faço-o da melhor forma possível, voltando a ele quantas vezes forem necessárias, aperfeiçoando sempre um pouquinho mais.

Sou ainda aquela que quase nunca bebe, não sai muito e mal tem histórias de noitadas para contar. Acabo sempre sendo a amiga que fica a postos para cuidar de quem exagerar na dose.

Parece ótimo: aluna exemplar, boa amiga, ótima filha, como sempre me chamaram. Bem, posso dizer que o cargo não é tão atrativo assim quando te olham como se procurassem o que há de errado com você.

Não é raro que as pessoas perguntem “qual é o seu problema? ”, como se fosse ruim ser assim. Há ainda os dizem com ironia que não teriam paciência para serem como eu. Parece que quem não encontra defeitos nas coisas que faço, tenta encontrar em meu modo de ser. Afinal, isso não pode ser normal, pode?

Confesso que às vezes me sinto culpada por ser assim tão certinha. Quando me apresentam para alguém e começam a recitar meus feitos, eu quase me sinto na obrigação de pedir desculpas por ter lido tantos livros no último semestre ou por ter passado o final de semana dobrando todas as peças de meu guarda-roupa.

Por algum tempo eu também questionei se havia algo de estranho em tudo isso. Até tentei mudar, mas, no último instante, eu corria estudar para as provas, dava uma desculpa para ficar em casa de pijama, ou, quando me dava conta, já estava no meio da arrumação de um armário. Os anos me mostraram que não consigo ser diferente, e também, já nem sei se quero.

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