Publicado em Crônicas, Textos

O eterno rascunho

Recentemente, descobri que tenho um problema. Os psicólogos chamariam de complexo de inferioridade, os psicanalistas poderiam afirmar que se trata de uma falta materna na primeira infância, o senso comum com certeza chamaria de insegurança e, minha família, de frescura. Mas eu volto a afirmar que é um problemão, daqueles que são capazes até de tirar o sono.

O negócio é o seguinte: eu nunca sei dizer quando é que um texto está pronto. Quando colocar um ponto final em uma história? Qual o momento de afirmar que não há mais correções a serem feitas ou que o pensamento já se esgotou e está concluído? Quando posso expor meus escritos aos olhos críticos de outrem?

A verdade é que eu tenho medo. Tenho medo de errar. Sou o tipo de pessoa que lê e relê a mesma mensagem inúmeras vezes antes de enviar, e às vezes até mesmo desisto de enviar. Tenho medo de fazer provas e testar meus conhecimentos, de magoar as pessoas à minha volta, de não ser aceita, de desagradar. Basicamente, medo de me expressar, o que dificulta que eu ateste minhas próprias palavras.

Acontece que aprendemos a ler e a escrever na escola. E a maioria dos professores não lê os textos de seus alunos, apenas os corrigem. Então, ao invés de ser incentivado a escrever, convidado a expor uma ideia ou propor uma reflexão, apenas se recebe de volta um texto cheio de marcações vermelhas, apontando erros de ortografia ou sintaxe. Depois há um treino para o vestibular, que propõe um modelo específico e bem fechado de redação. E isso segue por toda a vida acadêmica, eu até perdi as contas de quantas versões do meu trabalho final tive que entregar para o orientador, pois ele sempre encontrava um errinho aqui e outro ali.

Não que uma correção não seja importante, ao contrário, afinal é justamente ela que vai refinando a prática. Mas também pode acabar esfriando a relação com a escrita, já que uma série de correções sem comentários, sugestões, ou mesmo elogios nos pontos positivos, é extremamente desmotivador.

Escrever sem ter um compromisso acadêmico é extremamente libertador para mim, mas fui ensinada a pensar dessa maneira, que faz com que eu releia meus escritos à procura de erros e equívocos, pois tenho a certeza de tê-los cometido. E isso faz com que eu sempre adie o resultado final, pois toda vez que releio um texto encontro uma alteração a fazer, mesmo que seja apenas uma troca de palavras, mudança de entonação ou estilo. Vivo com o computador cheio de rascunhos e pendências, sem conseguir afirmar com certeza quando é que algo está realmente pronto.

Acredito que todos os textos são eternos rascunhos, pois sempre pode-se mudar algo, e é justamente isso o que torna a escrita um processo tão particular para cada autor. Então, de fato, não há como mensurar a qualidade de um texto para decidir o momento de colocar seu ponto final. Eu não termino um texto, apenas me canso de lhe fazer alterações. Escrevo, espero alguns dias para reler, assim tenho a chance de ter uma leitura diferente da primeira, pois as coisas que ocupam meus pensamentos nesse momento já são outras. Se for preciso, repito o processo novamente, e então, é preciso deixá-lo partir. O texto ganha autonomia assim que o assino, ele sempre conterá minhas palavras, mas não quer dizer que ainda tenham o mesmo significado para mim e, se pudesse, sei que alteraria boa parte delas.