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O eterno rascunho

Máquina de Escrever (21)

Recentemente, descobri que tenho um problema. Os psicólogos chamariam de complexo de inferioridade, os psicanalistas poderiam afirmar que se trata de uma falta materna na primeira infância, o senso comum com certeza chamaria de insegurança e, minha família, de frescura. Mas eu volto a afirmar que é um problemão, daqueles que são capazes até de tirar o sono.

O negócio é o seguinte: eu nunca sei dizer quando é que um texto está pronto. Quando colocar um ponto final em uma história? Qual o momento de afirmar que não há mais correções a serem feitas ou que o pensamento já se esgotou e está concluído? Quando posso expor meus escritos aos olhos críticos de outrem?

A verdade é que eu tenho medo. Tenho medo de errar. Sou o tipo de pessoa que lê e relê a mesma mensagem inúmeras vezes antes de enviar, e às vezes até mesmo desisto de enviar. Tenho medo de fazer provas e testar meus conhecimentos, de magoar as pessoas à minha volta, de não ser aceita, de desagradar. Basicamente, medo de me expressar, o que dificulta que eu ateste minhas próprias palavras.

Acontece que aprendemos a ler e a escrever na escola. E a maioria dos professores não lê os textos de seus alunos, apenas os corrigem. Então, ao invés de ser incentivado a escrever, convidado a expor uma ideia ou propor uma reflexão, apenas se recebe de volta um texto cheio de marcações vermelhas, apontando erros de ortografia ou sintaxe. Depois há um treino para o vestibular, que propõe um modelo específico e bem fechado de redação. E isso segue por toda a vida acadêmica, eu até perdi as contas de quantas versões do meu trabalho final tive que entregar para o orientador, pois ele sempre encontrava um errinho aqui e outro ali.

Não que uma correção não seja importante, ao contrário, afinal é justamente ela que vai refinando a prática. Mas também pode acabar esfriando a relação com a escrita, já que uma série de correções sem comentários, sugestões, ou mesmo elogios nos pontos positivos, é extremamente desmotivador.

Escrever sem ter um compromisso acadêmico é extremamente libertador para mim, mas fui ensinada a pensar dessa maneira, que faz com que eu releia meus escritos à procura de erros e equívocos, pois tenho a certeza de tê-los cometido. E isso faz com que eu sempre adie o resultado final, pois toda vez que releio um texto encontro uma alteração a fazer, mesmo que seja apenas uma troca de palavras, mudança de entonação ou estilo. Vivo com o computador cheio de rascunhos e pendências, sem conseguir afirmar com certeza quando é que algo está realmente pronto.

Acredito que todos os textos são eternos rascunhos, pois sempre pode-se mudar algo, e é justamente isso o que torna a escrita um processo tão particular para cada autor. Então, de fato, não há como mensurar a qualidade de um texto para decidir o momento de colocar seu ponto final. Eu não termino um texto, apenas me canso de lhe fazer alterações. Escrevo, espero alguns dias para reler, assim tenho a chance de ter uma leitura diferente da primeira, pois as coisas que ocupam meus pensamentos nesse momento já são outras. Se for preciso, repito o processo novamente, e então, é preciso deixá-lo partir. O texto ganha autonomia assim que o assino, ele sempre conterá minhas palavras, mas não quer dizer que ainda tenham o mesmo significado para mim e, se pudesse, sei que alteraria boa parte delas.

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Incurável

03. Incurável

Era um jantar entre amigos. Simone chegou com meia hora de antecedência e levava os olhos à porta toda vez que alguém entrava no restaurante. Se levantou da cadeira, em um pulo, assim que o viu entrando, no horário marcado. Roberto veio em sua direção, sorrindo, e se cumprimentaram com um abraço.

Ele perguntou sobre a terceira amiga, que deveria vir encontrá-los, e Simone se limitou a responder que ela acabara de lhe enviar uma mensagem dizendo que teve um imprevisto no trabalho. “Que pena, é tão difícil voltar a reunir o trio, principalmente sem esposa, maridos e filhos no meio”, ele disse e se sentou na cadeira vaga a sua frente.

Simone voltou a se sentar, de frente para ele, e ficou encarando-o, abriu a boca duas vezes, mas as palavras lhe faltaram, até que o garçom os interrompeu para anotar seus pedidos, fazendo com que se entretivessem em seus cardápios por alguns minutos.

Depois de escolherem as bebidas e pedirem uma salada como entrada, voltaram a se olhar, e ele, já melhor acomodado na cadeira, começou a falar, perguntando sobre seu trabalho e sobre como estavam as crianças. Ela respondeu, secamente, sem prolongar nenhum assunto, nem mesmo quando Roberto começou a relembrar histórias da época em que estudavam juntos. Apenas quando o garçom depositou os pratos na mesa e se afastou foi que ela voltou a falar. “Preciso te contar uma coisa”, disse. Ele sorriu e gesticulou com as mãos para que ela continuasse. “Mas eu não consigo… Bem, vou mostrar de uma vez. Veja só”, disse enquanto pegava seu celular na bolsa. Seu rosto ficou momentaneamente iluminado pela luz forte da tela, até que ela entregou o celular em sua mão e fechou os olhos, sem observar sua reação.

Ele se endireitou na cadeira e puxou o celular para si, depois o afastou, olhando a tela de outro ângulo. Jogou o celular no meio da mesa, quase derrubando os copos que ali estavam e lhe exigindo explicações. “Não tem o que explicar, é isso. Vi os dois juntos ontem, de novo”, respondeu. Ele se recusou a acreditar que a esposa ainda estivesse se encontrando com o amante, mesmo depois de conversarem a respeito e ele lhe perdoar. “Sei que você a perdoou, mas ela é uma vaca, uma vaca incurável. Não te merece, Rô”. Ele bufou, e abaixou a cabeça, passando a mão pelos cabelos. Quando a encarou novamente, pegou seu celular e se levantou, saindo do restaurante sem olhar para trás.

Ela não pareceu se abalar com a reação dele e voltou a comer seu estrogonofe, porém agora com um sorriso no rosto.