Publicado em Crônicas, Textos

E se ela tivesse aceitado?

25. E se Ela Tivesse Aceitado

Conheci Julia na terceira série do ensino fundamental, eu já estava quase completando nove anos, ela era alguns meses mais nova. Nossa amizade começou no dia em que eu esqueci meu estojo em casa: assim que abri a mochila e descobri o ocorrido, comecei a chorar, fazendo com que a professora viesse em meu socorro.

Entre soluços, contei sobre meu vergonhoso esquecimento e, prontamente, Julia estendeu um lápis em minha direção. Talvez ela só tenha feito isso para que eu parasse de atrapalhar a aula, ou então para ganhar uns pontos com a professora. Mas, seja lá o que fosse, ela salvou minha lição de português, e foi ali que prometi que lhe seria eternamente grata.

Como passamos um dia inteiro dividindo seus materiais, senti que devia cumprimentá-la no dia seguinte. E no dia seguinte também. Até que foi virando rotina e não sei bem ao certo como aconteceu, mas nos tornamos amigas.

A partir ano seguinte já éramos inseparáveis. Crescemos e vivemos muitas coisas juntas, desde as inúmeras noites acordadas assistindo filmes até nossa primeira recuperação de matemática. Ela teve seu primeiro beijo, depois eu tive o meu, ambas tivemos nossos corações partidos e tentamos curá-los com toneladas de sorvete; depois veio a escolha profissional, o fim da escola e o vestibular.

E foi aí que nos separamos. Eu consegui uma vaga no curso desejado e fiquei na cidade, já minha amiga, passou no vestibular em uma universidade no Rio de Janeiro e, assim que o novo ano começou, se mudou para uma república.

Nossa despedida foi regada a lágrimas e promessas de que mandaríamos notícias sobre tudo o que nos acontecesse e que nossa amizade não seria afetada pela distância. Nós não estávamos prontas para aceitar uma mudança.

No começo, os combinados se mantiveram, e como ela vinha ao menos uma vez por mês para ver a família, nós nos encontrávamos. Só que provas, trabalhos e novas amizades começaram a surgir, e o tempo de ambas ficou escasso. Senti que começamos a nos distanciar e, quando conversávamos, os assuntos já não eram os mesmos. Ela, que dizia detestar praia, não saía do mar. E eu, comecei a aproveitar a noite badalada de São Paulo com meus novos amigos.

Nossa amizade foi sustentada por nostalgia durante algum tempo, pois não tínhamos mais nada em comum, então só nos restaram as lembranças de outra época. Com o tempo, deixamos de pertencer uma à outra. E eu soube que o fim chegara quando seu pai perdeu o emprego e decidiu se mudar para o Rio e tentar a vida por lá, junto da filha. Deixando-a sem motivos para voltar.

De fato, Julia nunca mais voltou a São Paulo. Eu fui visitá-la uma vez, foi quando conheci seu namorado. E a convidei para vir em minha formatura, quase dois anos mais tarde, porém recebi apenas uma recusa como resposta, só isso, sem nenhum pedido de desculpas ou felicitações.

Fiquei muito magoada em perceber que ela não se importava em faltar em um dia tão importante. Foi então que me dei conta de que aquela menina que dividira seus lápis jamais faria isso. Não, não era essa a Julia que eu conhecia, ela mudara, levando minha velha amiga embora. E eu não conhecia essa sua nova versão, a que vivia com os pés na areia e namorava um cara mais velho e com dreads no cabelo.

E se ela tivesse aceitado meu convite? Como seria encontrar e hospedar uma estranha em minha casa? Foi ela quem quis assim, mas confesso que fiquei aliviada por esse ter sido o último convite que me senti da obrigação de lhe enviar.

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