Publicado em Crônicas, Textos

Meu violão e eu

Tati (42)

Meu violão fica no quarto, bem ao lado da cama. Gostaria de acordar num domingo preguiçoso, tomar meu café da manhã, voltar para lá e ficar brincando com as notas de uma melodia. Passar o dia arriscando alguns acordes e ouvindo o resultado de minha prática. Queria ser a amiga descolada do grupo que carrega seu violão por aí e toca para animar a roda, conseguindo tocar qualquer música que me pedissem. Até devaneios sobre ser uma rockstar eu tive, é claro.

Mas a música nunca foi nada disso, nunca consegui fazê-la para os outros. Ela sempre foi muito importante para mim, só demorei para entender que o que me tocava era seu significado, e não expressão.

Eu sempre gostei muito de escutar música e recorria à medida solitária de colocar fones de ouvido sempre que tinha algum problema em minha frente. E, enquanto eu escutava uma melodia conhecida, me transportava para um mundo que era só meu, e lá eu não tinha problemas, tudo era mais fácil, tudo tinha um ritmo. E as palavras que eu não encontrava para me expressar estavam lá, saindo da boca dos artistas que se tornaram meus ídolos. Assim, encontrei pessoas que me entendiam, e que por mais que passassem por coisas diferentes, sentiam o mesmo que eu.

No início era uma atividade solitária mesmo, mas, aos poucos, fui descobrindo novas bandas, me interessando por suas histórias, conheci outros fãs, e acabei fazendo amigos que tinham os mesmos interesses que eu. A música deixou de ser só, eu deixei de ser só. Foi então que decidi tentar e me matriculei em aulas de violão. Ganhei um instrumento no meu aniversário e ia todas as semanas para a escola de música.

Só que eu nunca fui muito boa nisso. Eu era lenta, desajeitada, demorava a entrar no ritmo adequado; tinha vergonha de cantar e me atrapalhava sempre que tentava fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Assisti os meus sonhos de viver da música se desfazerem, desafinadamente. Mas descobri que sempre poderia viver com a música. Pois o que me chamava eram as letras, era escutar aquilo que eu não conseguia dizer sendo tão bem enunciado por alguém.

Assim, veja só, decidi me aventurar pelo mundo da escrita. E foi nas palavras que descobri uma forma de me expressar, de colocar meus sentimentos em ritmo com as palavras. Comecei a escrever textos, apenas para expressar pequenas reflexões do cotidiano e elas foram me soltando, até que ficou mais fácil ter ideias e discorrer sobre elas. A sincronia que não consegui com os acordes, encontrei nos personagens cujas histórias me faço narradora.

Mas meus fones de ouvido estão sempre a postos, para clarear minha mente quando passo por uma situação difícil. E meu violão continua lá, ao lado da cama, para me lembrar que eu não estou sozinha e que, à minha maneira, eu consigo transformar o que sinto, o que vivo, ou o que gostaria de viver, em minha própria forma de expressão.

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