Publicado em Contos, Textos

Uma loja de banheiras

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Conheci a Márcia no último ano do ensino médio, e logo nos tornamos amigos. Nunca havíamos conversado muito sobre nossas famílias, nossos papos costumavam girar em torno de estilos musicais e das séries do momento. Até que a professora de biologia nos passou um trabalho em grupo e ela disse que podíamos nos reunir nos fundos da loja de seu pai para trabalharmos no projeto.

Então, numa quarta-feira depois da aula, a acompanhei até o local onde passava suas tardes, o tal comércio da família. Caminhamos até a avenida principal e ela sorriu ao dizer que estávamos quase chegando. Ao nos aproximarmos da esquina, ela foi diminuindo o passo, até parar em frente a uma vitrine de vidro enorme que exibia uma banheira de hidromassagem redonda e luxuosa.

Eu não entendi que aquele era nosso destino e continuei andando, já estava quase atravessando a rua quando ela me chamou e apontou para a entrada daquela loja rindo. Fiquei com vergonha, mas não pude conter uma exclamação: “Banheiras?!”. “Sim, banheiras”, ela respondeu rindo.

Entrei logo atrás dela, de cabeça baixa, quase sem coragem de olhar para as imensas bacias que nos cercavam, afinal é isso que eram, não é?

Seu pai nos aguardava atrás do balcão, todo sorridente e de braços abertos para receber a filha. Depois que eles se abraçaram, se virou em minha direção e estendeu a mão, em um cumprimento forte, que quase deslocou meu braço. Correspondi a seu aperto e soltei um comentário: “bela loja”. Acho que não o convenci, pois ele inclinou a cabeça, arqueou a sobrancelha por um instante e então agradeceu, acrescentando um sorriso por fim.

Márcia me convidou para entrar nos fundos da loja, então a segui até uma pequena sala, iluminada por uma janela que tinha vista para a rua lateral. Ela se sentou em uma cadeira, cruzou os braços e ficou me encarando. “O que foi? ”, disse. Eu senti minhas bochechas corarem diante de seu olhar atento e não consegui responder. Ela insistiu “diz logo”.

“Banheiras? “, perguntei novamente. Ela caiu na risada e insistiu em saber o motivo de minha surpresa. Não havia grandes razões, eu só não conseguia imaginar como alguém ia parar atrás do balcão de uma loja dessas. Digo, será que quando criança o sonho dele era ter uma grande loja de banheiras num bairro nobre da cidade? Quando será que ele pensou nisso pela primeira vez ou qual será que foi a primeira banheira que ele viu? Será que foi planejado ou impulsivo? Imagino ele chegando em casa e contando para a mulher e para os filhos “Família, vou abrir uma loja, quero vender banheiras! ”. E a pequena Márcia, pulando em volta do pai, feliz com a perspectiva de ter uma piscina particular em seu banheiro.

Será que ela tem uma banheira em casa? Deve ter. Eu realmente não devia estar imaginando a minha amiga dentro de uma banheira, mas agora é tudo o que eu consigo pensar, a imagem impregnou em minha cabeça.

Como precisava lhe responder algo, disse apenas que ficava curioso, e perguntei-lhe desde quando sua família tinha a loja e qual fora sua origem. Ela riu e respondeu que o pai trabalhava em uma loja de materiais de construção e quando saiu, pegou todo seu dinheiro para investir em algo, e acabou comprando a loja do antigo proprietário.

Que decepção! Assim, sem sonhos, sem nenhuma relação afetiva com as pobres banheiras, puramente um comércio. A mensalidade do colégio dela era paga graças a pessoas extravagantes que não se contentam com chuveiros e querem enfiar uma bacia em seus banheiros grandes. Engoli minha amarga opinião sobre a índole de seu pai e fomos fazer nosso trabalho.

Mas no caminho para casa, não pude expandir meus pensamentos: como será que se iniciam os comércios ou certas profissões: por exemplo, como será que alguém se torna encanador, vendedor de perfumes, ou ainda, dono de uma loja de artigos para aquário ou de um sexshop. Cheguei e fui correndo perguntar pra minha mãe como foi que meu avô decidiu abrir sua vidraçaria.

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