Publicado em Crônicas, Textos

O dia em que paguei a conta

Sábado fui jantar fora com o meu namorado. Fomos naquele restaurante novo que abriu no bairro. É uma hamburgueria temática, destas que estão na moda. Foi tudo muito gostoso: a comida, o ambiente e a companhia. Comi as melhores batatas rústicas que já provei na vida, além de um hambúrguer bem gostosinho. E fechamos a noite e o papo dividindo um milkshake de cookies.

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O problema foi na hora de pagar a conta. Depois de terminarmos, ficamos um tempinho decidindo para onde iriamos em seguida, até optarmos pelo conforto de um filminho no sofá de casa. Pedimos a conta e ele foi ao banheiro. O garçom estava por perto, mas ficou apoiado no balcão e só se aproximou de nós com a conta quando meu namorado voltou para a mesa. Ele estendeu a nota para ele, assumindo que ele pagaria a conta, afinal é o homem que paga, não?

Não, não é. Não tem que ser. Quando comecei o namoro tive essa conversa com meu companheiro: somos ambos estagiários e vivemos duros, podemos fazer programas baratos e aproveitar as atividades culturais gratuitas da cidade e, quando saímos, dividimos a conta, é simples. É simples porque sempre foi assim, eu sempre me virei com o meu dinheiro e sempre fiz tudo dentro das minhas condições financeiras, e não troco minha independência e liberdade por namoro nenhum. O fato de estar acompanhada não muda minhas condições econômicas, quero um parceiro, não um cartão de crédito ou vale refeição, isso eu já tenho. No começo eu acho que ele estranhou, dizia que era educação, cavalheirismo. Mas aos poucos fomos nos ajeitando: eu pagava a conta quando era eu quem o convidava, depois a intimidade começou a me permitir arrancar a carteira de sua mão antes de chegarmos ao caixa, até que ficou natural e combinamos que nos revezaríamos ou então dividiríamos. Não me importo em pagar nada para nós e sei que ele também não, mas um relacionamento envolve duas pessoas, e, ao meu ver, ambos devem colaborar. É uma lógica simples.

O problema é que o cavalheirismo vem acompanhado de uma dose de machismo, como se a mulher precisasse de ajuda ou favores. Eu não quero ser agradada pelo simples fato de ser mulher. Consegui encontrar alguém que entende isto, e entramos em um consenso, e tem funcionado pelos últimos anos. Mas eu não posso explicar isto a cada garçom que entrega a conta na mão dele.

Então eu respirei fundo, estiquei o braço e peguei a conta no meio do caminho. Ele, que já conhece tão bem meu temperamento e minhas opiniões, puxou seu cartão do bolso e pediu para o garçom dividir. Sorri, agradecida. Até ouvir “divide na metade, senhor?”.

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