Publicado em Crônicas, Textos

Almoço de domingo

Todo domingo minha mãe faz questão de ir almoçar na casa da mãe dela. Os almoços na casa da vó são sempre iguais: a mesa cheia de gente e de comida, cada um leva uma sobremesa, todos comem e depois vem as reclamações de estomago pesado, sono, medo de engordar. E ainda tem que lavar a louça, limpar a cozinha, alguém pede um cafezinho e a vó faz. Então começam as conversas paralelas pelos cantos da casa e quando nos damos conta já estamos 06-almoco-de-domingonovamente na mesa para o lanche da tarde, afinal, a vó não deixaria ninguém ir embora com fome. As pessoas têm sempre as mesmas queixas, mas no domingo seguinte lá estão elas a fazer tudo de novo.

Fiquei pensando em como o almoço de domingo se parece com o restante da minha semana. Reclamo, mas faço sempre as mesmas coisas, até no domingo! Já não tenho certeza quanto à faculdade, será que eu quero terminar o curso de Direito mesmo? E depois vou para o estágio só para ser pressionada e fazer a parte chata do trabalho, a parte que ninguém quer fazer e deixa para a estagiária. Penso em mudar de curso, se é que tenho mesmo que cursar o ensino superior, tenho é vontade de nunca mais aparecer naquele escritório.

No sábado eu vou pra balada e me divirto com as minhas amigas. Dançamos muito, até que cada uma vai ficando em um canto com o gatinho que acabou de conhecer, ou quer ir embora porque bebeu demais. Geralmente eu conheço alguém, nós ficamos, trocamos contatos e vamos embora. Ultimamente está difícil de encontrar um cara legal. Aquele que vale a pena, sabe? E eu continuo tentando…

Eu reclamo, penso em mudar, fazer algo diferente, mas imagina ter que começar tudo de novo. Prestar vestibular, começar outro curso, ir a inúmeras entrevistas e dinâmicas de grupo para conseguir um estágio. Arrumar programas alternativos para o final de semana, lidar com a solidão de um sábado à noite e, principalmente, fazer almoço no domingo!

Bom, não hoje. Hoje é dia de lasanha e eu nunca comi uma lasanha de quatro queijos mais gostosa do que a que a vó faz.

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Vazio

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Sabe quando bate um vazio? Está tudo bem, não aconteceu nada, mas ainda assim, aquele buraco no peito fica coçando, te chamando, te lembrando o tempo todo de que ele ainda está ali (como se fosse possível esquecer!).

Às vezes, é comum ficar mais pensativo, se fechar um pouco e olhar para dentro, se concentrar no que há lá e, também, no que não há. E não há por que? Foi tirado de você? Você se cansou e achou melhor pôr pra fora? Ou será que nunca esteve presente? E então surge esta sensação, que vem acompanhada de uma incógnita. E quebramos a cabeça em busca de uma resposta, na esperança de que ela possa preencher o tal vazio.

Eu acho que o ele é necessário, pois nos faz olhar para a vida e nos convida a refletir sobre os rumos que tomamos, os caminhos e velocidades que escolhemos. A partir dele é possível pensar e rever alguns conceitos e, quando isto acontece, temos a oportunidade de ressignificar algumas coisas. Assim vamos constantemente nos moldando e dando forma à nossa própria história, que é única, que é nossa.

O vazio? Ele fica lá, para nos lembrar de fazer este movimento e, também, porque a história ainda não está acabada, ela é construída todos os dias, até que um fim inevitável se coloque sobre cada um de nós.

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Saudades do que não vivi

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Em frente ao prédio em que trabalho funcionava uma cafeteria, daquelas bem caseiras mesmo, com jardim na entrada e cheirinho de bolo recém-saído do forno. Sempre quis ir até lá, mas nunca fui. Eu adiava: chego muito em cima da hora, na hora do almoço não vou tomar café, e quando eu saio ou eles já fecharam ou estou tão cansada que só quero ir para casa.

Na segunda-feira cheguei no trabalho e me deparei com o prédio vazio, as portas fechadas e metade do jardim já removido. Como assim? Finalmente atravessei a rua e fui até lá, perguntei para um senhor que estava na porta o que havia acontecido. Ele me contou que o café fechou e o prédio foi alugado por uma brigaderia, e disse que eu podia ficar calma, pois agora teremos todos os tipos de chocolate, café e um estilo vintage (para combinar com o padrão do bairro, sabe como é).

Passei a semana toda olhando para o outro lado da rua, sentindo falta de ver o jardinzinho de entrada. Nem atravessei só para não sentir falta do cheirinho do bolo que eu nunca provei. Meu chefe perguntou porque eu estava triste e eu respondi “é que fecharam o café da Dona Helena”, ele me olhou confuso e disse que não sabia que eu gostava de ir lá, mas que eu podia esperar por coisa melhor agora que estão reformado.

Não, eu não costumava ir lá. Nunca fui, aliás. Eu adiei, dia após dia. Nunca me proporcionei este pequeno prazer: um intervalo de cinco minutos do outro lado da rua. E hoje eu me peguei sentindo saudades. Saudades do que não fiz, do que não vivi. Saudades de saber que o conforto estava logo ali na minha frente, tão perto e tão longe.