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Ei, Professor?

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Eu passei a minha vida inteira estudando, desde os cinco anos de idade, para ser mais preciso. Fui emendando os estudos e cursos, e nunca pensei no momento em que isso terminaria. Fiz todo o ensino fundamental e médio, depois passei no vestibular e entrei logo na faculdade. Até aí o caminho já fora delineado. O problema surgiu quando a faculdade começou a se aproximar do fim.

Foi então que me dei conta de que dentro de poucos meses eu deixaria de ser aluno e me tornaria um profissional, um igual dentre meus professores, já que passaria a carregar o mesmo título. E é claro que eu desejava tal nomenclatura, para finalmente poder me posicionar, ter autoridade no assunto. Mas, ao mesmo tempo, ser um aluno é muito mais confortável, pois eu podia me esconder num revestimento de inexperiência, não havia problemas em não saber algo ou não dominar um tema, afinal, ainda estava aprendendo. E sempre havia um professor com quem podia dividir minhas inseguranças e encher de perguntas.

Então, antes mesmo do fim do ano, já procurei outras opções de curso e emendei uma pós-graduação, assim garanti meu posto de aprendiz por mais dois semestres inteiros. Só que mesmo adiando, o dia chegou novamente: me formei.

Mas será que um dia a gente deixa de aprender? Já faz um tempo desde que encerrei meu vínculo com uma instituição de ensino, mas nunca parei de ler ou de procurar artigos. Ainda tenho contato com alguns de meus mestres e ando com muita vontade de iniciar uma pesquisa acadêmica.

Acho que meu medo não era deixar de ser aluno, mas sim de precisar entrar no mundo profissional. Ficava inseguro quanto ao meu próprio conhecimento. Será que sei o bastante? Até hoje acho que não, afinal, há tanto no mundo para aprender e conhecer! Creio que a verdadeira pergunta a ser feita é “será que consigo fazer algo com o que sei?” E isso eu sei que consigo, já estou atuando em minha área há alguns anos.

Nunca deixei os estudos de lado, estou sempre fazendo algum curso aqui ou ali, nem que seja uma aula para aperfeiçoar um hobbie – no momento, violão. Mas já não me preocupo com meu título, afinal serei sempre um aprendiz.

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Lembrei de você!

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Outro dia, no meio de uma conversa com uma amiga, ela disse “lembrei de você! ”, e então me contou sobre um texto de conteúdo machista que havia lido. Discutimos sobre o tal texto, e a conversa seguiu. Mas só depois percebi como essa cena é frequente em minha vida. Tem sido cada vez mais comum meus amigos e pessoas do meu convívio dizerem que se lembraram de mim ao ver alguma cena ou relato de conteúdo machista e que ofenda ou ameace mulheres de alguma forma.

Eu me interesso pelo tema, e já é esperado que eu fique indignada com algumas coisas que escuto e queira conversar a respeito. Mas então notei como os outros reparavam nessa minha característica e, principalmente, como começaram a reparar em pequenas atitudes machistas presentes em seus cotidianos.

Fiquei feliz ao pensar que talvez eu tenha uma parcela de responsabilidade nisso. De tanto ouvir falar a respeito, as pessoas começam a prestar mais atenção e a observar as coisas de outro ângulo. E então surgem os questionamentos. Às vezes sinto que me contam estas situações em um tom de pergunta, como se eu pudesse atestar se estão corretas ou não, se há mesmo motivos para enxergarem machismo ali ou não.

Então vou dar uma dica: meninas, toda vez que vocês se sentirem incomodadas com uma cantada na rua ou com a roupa que vestem, quando tiverem seus corpos ameaçados, se sentirem inferiorizadas ou forem tratadas com diferença apenas por causa de seu sexo, saibam que é machismo sim.

O machismo é todo comportamento de um indivíduo que recusa a igualdade de direitos e deveres entre os gêneros. E sua ideologia está impregnada nas mais diversas culturas há séculos. Nosso trabalho para desconstruir este pensamento é árduo, pois ele pode estar presente nas mais singelas ações.

Então eu fico feliz quando alguém lembra de mim e quer discutir a respeito, porque eu sigo lutando por nós, mulheres.

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Sou autônomo, e agora?

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Passei a vida toda trabalhando com carteira assinada. Oito horas por dia, cinco dias na semana. Apesar de não gostar muito de minhas funções no escritório, gostava do ritmo de trabalho. Sou muito organizado, então era confortável seguir a mesma rotina todos os dias, com pouca ou nenhuma alteração em meus horários e compromissos.

Mas fiz faculdade e quando me formei me deparei com uma área completamente diferente. Pedi demissão para poder começar a trabalhar de acordo com a minha formação e então, do dia para a noite, me vi sendo autônomo.

No começo achei ótimo, me senti livre com a flexibilidade de horários. Me sentia à vontade para fazer o que bem entendesse, porém, com a liberdade, perdi a segurança de ter uma grande empresa me dando suporte e, o principal: colegas de trabalho.

Ser autônomo é muito solitário, pois em geral não tenho ninguém com quem dividir o peso das decisões, as frustrações ou mesmo as pequenas comemorações, pois parece que ninguém entende exatamente o que estou sentindo ou pelo que estou passando.

E aos poucos os problemas começaram a surgir e me vi sendo responsável pelo trabalho técnico em si, pela administração e pela divulgação de meus serviços. Ter que planejar e executar cada uma das etapas do trabalho é muito mais complexo do que eu imaginava.

Precisei estudar um pouco e procurar algumas dicas para aprender a administrar e ter controle sobre os meus gastos. Depois, me vi fazendo um esforço enorme para divulgar meu trabalho e disponibilizar meu contato para pessoas que nunca vi antes. E logo eu, que detestava falar ao telefone, agora estou sempre atendendo ligações de números estranhos.

E o fato de não ter um horário definido logo se tornou um problema também, porque se eu não ficar atento, acabo trabalhando muito mais do que antes, afinal posso trabalhar em casa, um pouquinho de manhã, mais um pouquinho à noite e de repente até nos finais de semana. A agenda faz muita falta, pois sinto que minha semana fica desorganizada, com tantos compromissos e cada um em uma região.

Mas também tem algumas vantagens, pois eu estou sempre visitando lugares diferentes e, consequentemente, conhecendo lugares novos, não preciso responder a um superior, consigo encaixar alguns compromissos pessoais durante a semana, então fico em dia com minhas outras atividades, e se fizer uma forcinha até descolo um dia de folga de vez em quando.

Aos poucos vou entendendo meu ritmo e tentando encontrar uma linha de equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho. E conforme vou ganhando confiança e vendo os primeiros resultados do meu esforço, vou ficando mais à vontade com a rotina de não ter rotina, e… Opa, peraí que o telefone está tocando. Preciso atender, vai que é um cliente.

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Corujas

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Corujas. Eu sempre gostei de corujas, não sei quando comecei a me interessar por elas, mas desde que me lembro é assim. Gosto de como têm olhos grandes e conservam certo ar de mistério em sua postura. E, principalmente, adoro a diversidade de representações de corujas em objetos e como sempre têm um toque fofo.

E o lance é que ao longo dos anos eu acumulei uma diversidade enorme de coisas de coruja: bolsas, bijuterias, roupas, enfeites, pelúcias. E as pessoas sempre me veem com algum acessório com este formato ou estampa, e sempre comentam “nossa, que coruja bonitinha” ou “dá para notar que você gosta mesmo de corujas”. E por me verem com tantas corujas, meus amigos e familiares começaram a me dar este tipo de coisas de presente, o que fez com que minha coleção aumentasse exponencialmente. Consequentemente, eu uso mais coisas de coruja, já que as tenho em abundância, o que, por sua vez, faz com que as pessoas me vejam cada vez mais emperequetada com corujas, achem que eu gosto mesmo de coruja e me presenteiem com mais e mais. Quando me dei conta, eu já estava presa no ciclo da coruja.

Outro dia, estava passando no caixa do supermercado e a atendente comentou que minha sacola estampada era muito bonita. Agradeci e pouco depois tirei minha mochila – que tem formato de coruja – das costas para pegar a carteira e pagar as compras, ela riu e disse “nossa, outra coruja”. Fiquei tensa e com medo de que ela reparasse também em meus brincos.
Saí de lá sentindo um leve desconforto, mas passou assim que vi uma corujinha de pelúcia com olhos bem grandes na vitrine de outra loja.

Aos poucos, algo que era apenas um enfeite virou uma marca registrada, as pessoas foram associando as corujas comigo e é normal ouvir que alguém se lembrou de mim ao ver um objeto com a estampa da ave. E eu comecei a transformá-las em algo muito particular também. Já perdi a conta de quantas eu tenho, mas cada uma delas carrega um significado especial.

E que fique claro que não é uma reclamação, apenas uma constatação. Afinal elas são tão fofas que eu não me canso.

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Das inseguranças da vida

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Quando eu era criança, minha mãe elogiava tudo o que eu fazia: não importava se estava realmente bom ou não, pois aos olhos dela, tudo era lindo e bem feito. Mas meus desenhos não eram lindos, minhas pinturas muito menos, e não havia nada de extraordinário em ajudar nas tarefas de casa. No fim, isto gerou uma pressão em ter que fazer tudo sempre da melhor forma possível, afinal eu não queria correr o risco de desagradá-la. Valeu, mãe.

Pra contrabalancear a situação, eu tinha meu pai, que não valorizava nada do que eu fazia. Não assistia minhas apresentações na escola e, ao ver meus boletins, dizia que eu não havia feito mais do que minha obrigação e que ele não esperava menos de mim. Acho desnecessário dizer que isto arrasava a minha já pouca confiança em mim. Valeu, pai.

Eu cresci e descobri ser uma pessoa insegura, que sempre queria fazer algo bom e provar que era capaz, mas provar para quem? Acho que eles deram um nó na minha cabeça, uma por me valorizar demais e o outro de menos. Levei a insegurança para toda a vida. Não era só na escola que eu tinha dificuldades, era com o meu corpo ao dançar, com minhas decisões, especialmente na escolha profissional, com meus relacionamentos amorosos e até com as amizades.

E eu os culpei por isto, por mais tempo do que eu gostaria de admitir. É claro que eles me influenciaram, afinal foi a forma como eles me apresentaram o mundo: com um nível de aceitação muito elevado de um lado e muito duro de outro, pautado sempre no dever e na obrigação.  Mas fui eu quem misturei os dois e me obriguei a atingir uma perfeição que na verdade nunca existiu. Meus pais nunca fizeram minhas provas por mim, e o estômago revirado no dia do vestibular era o meu. Quem sentia ciúmes do namorado também era eu.

Como eu achava que o problema era com eles (que feio, me estragaram), parecia não haver nada a ser feito. Mas na verdade essa era só a posição mais confortável que eu encontrei para ficar, não precisando me responsabilizar por mais este fardo: a mudança.

E isto seguiu até que um dia minha mãe disse que o bolo de cenoura que eu havia feito estava uma delícia. Foi mais fácil detectar a mentira do que o cheiro de queimado que ainda saia do forno. A primeira evidência era o cheiro, obviamente, a segunda foi que ninguém repetiu um pedaço e a terceira foi ela ter ido numa padaria e comprado uma torta mais cedo. Então meu bolo estava ruim, queimei as bordas e ele ficou seco, ela já previa que isto ia acontecer, então garantiu antes a sobremesa do jantar. Fiquei chocada! Primeiro me senti traída por causa da torta, depois fiquei brava com a mentira, e isto me permitiu responder “não ficou, não, está uma droga”. Ela começou a rir e disse “é, está seco, mas você arrasou na cobertura” – farei um parênteses aqui pra dizer que eu sempre arraso na cobertura de brigadeiro – então tive que concordar.

Neste dia eu desculpei minha mãe, que por querer me valorizar, me impedia de mudar e melhorar, de tentar fazer diferente. Desculpei também meu pai, que por querer me forçar a melhorar, não me permitia ficar satisfeita com minhas realizações. E finalmente entendi que eu mesma podia me julgar e decidir o que fazer com isto.

Fui desculpando todo mundo, do meus pais ao professor de educação física da escola, e até aquele cara que me xingou no trânsito. Mas ai percebi que já estava fazendo tudo errado de novo. Eu precisava era entrar em acordo comigo mesma. Demorou. Mas foi só no dia em que eu aceitei que eu era falha e que nunca seria perfeita foi que pude relaxar. Relaxar na medida do possível, pois sei que eu sempre busco fazer as coisas da melhor forma que encontro, mesmo sem saber que forma é essa, o que dificulta, e muito, minha satisfação.  Então tá bom, eu sou assim, e agora, o que fazer com isso? Eu sigo tentando descobrir.

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O dia em que paguei a conta

Sábado fui jantar fora com o meu namorado. Fomos naquele restaurante novo que abriu no bairro. É uma hamburgueria temática, destas que estão na moda. Foi tudo muito gostoso: a comida, o ambiente e a companhia. Comi as melhores batatas rústicas que já provei na vida, além de um hambúrguer bem gostosinho. E fechamos a noite e o papo dividindo um milkshake de cookies.

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O problema foi na hora de pagar a conta. Depois de terminarmos, ficamos um tempinho decidindo para onde iriamos em seguida, até optarmos pelo conforto de um filminho no sofá de casa. Pedimos a conta e ele foi ao banheiro. O garçom estava por perto, mas ficou apoiado no balcão e só se aproximou de nós com a conta quando meu namorado voltou para a mesa. Ele estendeu a nota para ele, assumindo que ele pagaria a conta, afinal é o homem que paga, não?

Não, não é. Não tem que ser. Quando comecei o namoro tive essa conversa com meu companheiro: somos ambos estagiários e vivemos duros, podemos fazer programas baratos e aproveitar as atividades culturais gratuitas da cidade e, quando saímos, dividimos a conta, é simples. É simples porque sempre foi assim, eu sempre me virei com o meu dinheiro e sempre fiz tudo dentro das minhas condições financeiras, e não troco minha independência e liberdade por namoro nenhum. O fato de estar acompanhada não muda minhas condições econômicas, quero um parceiro, não um cartão de crédito ou vale refeição, isso eu já tenho. No começo eu acho que ele estranhou, dizia que era educação, cavalheirismo. Mas aos poucos fomos nos ajeitando: eu pagava a conta quando era eu quem o convidava, depois a intimidade começou a me permitir arrancar a carteira de sua mão antes de chegarmos ao caixa, até que ficou natural e combinamos que nos revezaríamos ou então dividiríamos. Não me importo em pagar nada para nós e sei que ele também não, mas um relacionamento envolve duas pessoas, e, ao meu ver, ambos devem colaborar. É uma lógica simples.

O problema é que o cavalheirismo vem acompanhado de uma dose de machismo, como se a mulher precisasse de ajuda ou favores. Eu não quero ser agradada pelo simples fato de ser mulher. Consegui encontrar alguém que entende isto, e entramos em um consenso, e tem funcionado pelos últimos anos. Mas eu não posso explicar isto a cada garçom que entrega a conta na mão dele.

Então eu respirei fundo, estiquei o braço e peguei a conta no meio do caminho. Ele, que já conhece tão bem meu temperamento e minhas opiniões, puxou seu cartão do bolso e pediu para o garçom dividir. Sorri, agradecida. Até ouvir “divide na metade, senhor?”.

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O dia em que dirigi

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Quando fiz 18 anos, todo mundo começou a dizer que eu já tinha idade para tirar carteira de motorista. Eu nunca tinha pensado muito a respeito, tinha medo de dirigir… Me parecia tanta responsabilidade! Este medo fez com que eu nunca sequer prestasse atenção em carros, eu mal sei reconhecer um modelo de carro e confesso que até hoje não sei o nome de todas as marcas. Então, eu nem lembrei que já podia tirar a carta quando fiz aniversário.

Aos poucos, as brincadeiras foram virando uma pressão e fui convencida a ir para uma autoescola. Fiz as aulas teóricas, depois as práticas, e meu medo se confirmou: eu não fazia ideia do que estava fazendo ao volante, e descobri que tinha pavor só de pensar em dirigir!

Pois bem, tirei a carta e ganhei um carro. Todos estavam orgulhosos de mim e me incentivavam a praticar a direção. Acontece que eu não estava nem um pouco orgulhosa. Tirei a carta por pressão e não me sentia segura ou ao menos capaz de sair na rua controlando um carro. E aí adotei uma atitude ainda menos nobre nos anos seguintes: procrastinei. Empurrei com a barriga mesmo. Eu tinha muito medo, então não tinha vontade de sair, e tudo virava uma desculpa para não dirigir, tipo a chuva, o horário, a falta de alguém para me fazer companhia ou o fato de ter um carro estacionado a frente do meu na garagem. Eu saí poucas vezes, sempre acompanhada de um motorista experiente e cada uma das vezes eu me sentia um verdadeiro desastre.

Os motoristas em questão eram sempre alguém da família e todos me deixavam em pânico. Um tinha medo que eu raspasse o carro nas lombadas, outro tinha medo que eu ralasse o carro ao tentar estacionar e, o campeão, era aquele que narrava todo o meu trajeto, como se eu não estivesse vendo nada do que estava acontecendo. “Olha, vai reduzindo porque o farol está fechando”, “Aquele moço está com a porta aberta, desvia dele”, “Você está muito próxima dos carros estacionados, vai bater seu espelho”, e o glorioso “Você vai bateeeer!”. Aí fui percebendo que eles pareciam ter mais medo do que eu, o que comprovou minha teoria de que eu não tinha ideia do que estava fazendo ao volante e, por isto, ninguém confiava em mim. Nem eu.

Algumas vezes eu era pressionada ou lutava para me convencer de que deveria tentar mais, aí saia algumas vezes e dava voltas no bairro, mas acabava desistindo em poucas semanas. E sempre foi assim: medo de dirigir. Só que aos poucos o medo deixou de ter contornos rígidos e foi virando só um rótulo, eu e todo mundo assumimos que eu tinha medo de dirigir, e isto já era motivo suficiente para me afastar do carro. E eu deixei de tentar. E por ter deixado de tentar, não percebi que o medo deixou de ser medo e virou um hábito. Afinal, se eu consigo ir aos lugares de transporte público ou descolo uma carona, pra que vou passar por todo o estresse de dirigir?

Lembro de ter conversado inúmeras vezes sobre isto na terapia, e minha psicóloga dizia que enquanto eu não sentisse a necessidade de dirigir, eu não dirigiria. Eu sabia que ela estava certa, mas não estava pronta para admitir, nem para ela e nem para mim.

Cinco anos depois, me dei conta de que minha carteira estava para vencer e logo precisaria renová-la. Pois bem, era o estimulo que eu precisava. Como pude adiar algo por cinco anos! Logo eu, que sempre me orgulhei da minha vontade de aprender e conhecer as coisas. Aí decidi que ia aprender, de uma vez por todas, sem novas desistências. E depois de elaborar meu plano me lembrei da fala de minha psicóloga e percebi o quão incomodada eu estava com o transporte público lotado e com a grana que eu gastava em taxi, enquanto o carro estava guardado na garagem. Meu carro era o meu segredo obscuro.

Conversei com a família e novamente pedi ajuda, pois agora eu queria praticar. Comecei a dar umas voltas de final de semana. O namorado me incentivou bastante. E fui saindo, primeiro sem rumo, depois com alguns destinos traçados, como o supermercado ou a padaria. Nas primeiras vezes eu tremia, mal conseguia falar com quem estivesse ao meu lado e saía do carro pingando de suor. E aos poucos fui aumentando os trajetos e diminuindo o tal do medo.

Um dia, estava sozinha no carro, voltando do trabalho para casa, e me dei conta de que aquele caminho, que antes parecia levar horas, agora durava apenas alguns minutos. E fiquei pensando a respeito do carro e como controlá-lo. De repente tudo fez sentido. Meu medo não era da direção ou do carro em si, e sim da responsabilidade de estar no controle.

Sempre vi todos dirigindo muito bem e achava que havia uma máfia da direção, ou ao menos um certo nível que fosse necessário atingir. Acreditava que quando se dirige, é possível estar no controle de tudo, mas os pontos cegos existem, e muitas vezes seguimos intuições, pois não é possível ter certeza da distância que há entre uma faixa e outra, ou entre o seu carro e o que está atrás. Quando saio de casa não há como saber se vou chegar no meu destino, não sei se vou bater ou se alguém vai bater no meu carro. Resumindo, não é possível ter controle absoluto.

Eu sabia disso, mas achava que eu não estava conseguindo ter controle e não imaginava que fosse uma regra geral. E como eu não conseguia ter controle sobre o carro, achava que eu não era capaz de dirigir, e ai o medo tomava conta de mim. Quando percebi que não podia ter certezas enquanto dirigia, tirei um peso enorme das costas. Por que descobri que tudo bem não ter certeza absoluta se meu carro cabe em uma vaga ou não, eu posso tentar, e eu nunca sei se eu vou chegar no meu destino final, e no carro não é diferente (poético, eu sei).

Quando me dei conta, eu já havia chegado em casa e estacionado na garagem. Ficou meio torto, mas o trabalho estava feito. Então percebi que eu podia ter medo, porque é normal ter medo, mas o medo já não me paralisava mais. Agora eu posso sair a hora que eu quiser e posso carregar o que eu quiser, afinal tenho um porta malas a minha disposição. Até carona para os amigos eu já dei.

Eu ainda sinto um frio na barriga quando ligo o carro e às vezes ainda fico suada depois de dirigir, mas agora eu sei que sou uma motorista.

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Eu não tenho tempo

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Eu não tenho tempo para fazer nada! Os dias são tão corridos e eu já faço tanta coisa: faculdade, trabalho e academia, fora o trabalho voluntário aos sábados, as publicações que eu me comprometi a fazer para o blog de um amigo e, é claro, a vida social.

Tenho que arrumar tempo para sair com diferentes grupos de amigos, ir a festas, baladas, aniversários e formaturas, além dos rolês de última hora que vão surgindo, e os shows. Adoro música. Aliás, tem um evento gratuito este fim de semana, preciso conferir a programação, não posso perder.

E quando sobra um tempinho, eu durmo. Não costumo me dar ao luxo de descansar. Na semana passada eu peguei uma gripe forte, ou melhor, ela me pegou. Fiquei muito mal. Foi uma crise! Como eu podia ficar em casa repousando ou mesmo parar um dia para ir ao médico? Só de imaginar que eu teria que cancelar, adiar e remarcar compromissos, ui, que arrepio! Fiz tudo me arrastando mesmo, mas dei conta. Só parei um pouco no final de semana e, ainda assim, me senti um tanto quanto culpada por isto. Como ficar doente atrapalha a vida da gente!

Eu fico me convencendo de que eu sou jovem, então tenho que aproveitar a vida e dar conta de fazer um monte de coisas, pois se eu não fizer agora, quando farei, não é mesmo? Mas confesso que tem dias que eu queria poder ficar em casa, de pijama, enrolada nas cobertas, fazendo uma maratona de séries e comendo pipoca. Sem me preocupar com trabalhos da faculdade, com os e-mails ainda não respondidos, sem precisar ficar checando as mensagens dos amigos e sem culpa por não estar suando na academia.

Queria que meu dia tivesse 30 horas, assim talvez sobrasse tempo para fazer isto, para relaxar. Opa, me entreguei, o “talvez” já revela que eu ia é procurar coisas mais uteis para fazer, tipo aquele curso de francês que eu estava pesquisando outro dia. Mas quem foi que disse que descansar não é útil também? É isto, eu não me permito e não tenho tempo para fazer o nada, vivo me ocupando para não ver o tempo passar.

Mas também se eu parar, o que eu vou fazer? Ficar olhando para o teto e pensando na vida? Aí vou perceber que o trabalho me consome, que a faculdade não é bem o que eu esperava, que eu ainda sinto falta do meu ex. E me conhecendo, uma vez que eu perceber, me obrigarei a lidar com tudo isso, então é mais fácil ir trabalhar mesmo gripada, em uma semana já estou nova de novo e a vida segue.

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Cabelos Coloridos

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Sempre fui aquela adolescente estranha. Hoje, olho para trás e penso “mas qual adolescente não é estranho, não é mesmo?”. Mas na época não tinha tal clareza, e sentia que o problema era exclusivamente meu.
Pensava ser a única insatisfeita com o meu corpo, descontente com minhas espinhas e com a pele oleosa, me sentia meio de fora do que acontecia no mundo. Via os colegas de sala bem enturmados, e todos pareciam tão bem. Era como se eu fosse a única que não tinha muitos amigos, que não sabia me aproximar das pessoas, que ainda não tinha beijado ninguém (apesar de ter uma quedinha secreta por um garoto).

Enfrentava algumas batalhas pessoais em casa: meus pais se divorciando e mantendo uma sociedade. Se divorciaram por brigarem tanto, pois bem, as brigas triplicaram. E eu me sentia sufocada por não ter com quem conversar a respeito. Vestia meu sorriso (de aparelho) e ia para a escola. Sempre encontrei companhia nos livros, enquanto lia, sentia que deixava meu mundo para trás e, durante algumas horas, pertencia a outra realidade, outra história, e isto, em geral, me confortava, mas não durava muito e eu precisava voltar à minha própria companhia.

Uma das coisas que mais me incomodava era o meu cabelo. Tive inúmeras crises por ele e com ele. Era liso, mas aos doze anos começou a cachear e eu nunca aceitei os meus cachos. Me achava muito diferente das outras meninas, já que, ao meu ver, todas pareciam ter cabelos lisos e sedosos. Eu não sabia cuidar dele, então ficava armado e, bem, era horrível. Resolvi alisar. E eu usava uma franjinha – porque minha mãe adorava franja – ou então deixava ela crescer e dividia tudo ao meio, ficava aquela coisa escorrida e grudada na cara, mas jogar o cabelo para o lado e chamar atenção não eram possibilidades para mim. Não posso dizer que me arrependo, gosto dele assim, mas é triste pensar que depois de tantos anos eu já nem sei mais como é o meu cabelo natural.

Tentei de tudo: fiz mechas, colori, fui do vermelho ao roxo. Parece que eu tentava me expressar por meio do cabelo. E tinha o maior orgulho dos meus cabelos coloridos. Até que entrei na faculdade e parei de ter tempo para pintá-los a cada quinze dias. Deixei a franja crescer, pois ela também dava trabalho, e aos poucos fui arriscando uma jogadinha para o lado, e mantendo sempre um grampinho por perto para prender e impedir que o cabelo caísse todo no meu rosto e grudasse no batom.

Mas junto com todo este colorido me veio a maturidade e eu nem percebi. Quando me dei conta eu já tinha beijado alguém (não, não foi aquele menino), já tinha feito outros amigos, e tinha até decidido o que estudar. E aos poucos notei que é normal se sentir desajustado na adolescência e até mesmo não se reconhecer, afinal é uma fase marcada pelas transições. E não, as outras meninas não tinhas cabelos lisos e sedosos, todos tinham espinhas e dava para ver meu reflexo em algumas testas oleosas, mas como eu não me reconhecia, não notei.

Ainda tenho algumas espinhas e tem dias que não consigo arrumar meu cabelo, mas isto já não me incomoda tanto assim. Apenas o prendo para que não caia no rosto enquanto penso em minhas crises atuais. Acho que o mais importante foi me dar conta de que toda crise, por pior que possa parecer, passa. Às vezes nos dá um pouco de tranquilidade, outras vezes já é logo substituída. E são elas que me movimentam.

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Balada

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Na sexta-feira já começa o esquenta. Depois da aula vou para um barzinho com o pessoal. Depois durmo e descanso bem para o sábado. No sábado vou para a balada.

Todo sábado tem balada. A turma é grande e é difícil reunir todo mundo, pois alguém sempre tem um compromisso com a família ou uma prova pra estudar. Mas vamos nos revezando e ninguém nunca fica na mão. Geralmente vou pra casa da Bia e nos arrumamos juntas por lá, depois o pai dela nos deixa na porta do lugar (ele acha mais seguro assim). Esperamos o resto do pessoal chegar e enquanto isso começamos a conversar com alguém na fila.

Eu adoro ir pra balada, gosto muito de dançar com as minhas amigas. O problema é que é uma noite carregada de ansiedade e expectativas. Por mais que eu negue, sempre tem aquele friozinho na barriga e eu me pergunto “será que é hoje que eu vou conhecer alguém especial?”. E especial para quê? Para sair comigo e assim eu não precisarei mais ir para a balada? É de se pensar… Eu tenho pensado bastante ultimamente.

Finalmente o pessoal chega, a porta se abre e a noite começa. Acho engraçado que apesar de gostar de estar na companhia dos meus amigos, lá dentro é impossível de conversar, só conseguimos nos escutar se gritarmos. Enfim, vamos até o banheiro, depois até o bar e ficamos andando pela casa procurando um lugar na pista de dança e, depois de mudar algumas vezes, achamos um lugar para ficar. Começamos a dançar e rir, afinal já estamos ficando um pouco altos. Alguém se aproxima e começa a puxar papo, tentar dançar conosco. E vamos deixando rolar. Aos poucos cada um de nós vai “se ajeitando”.

Eu conheço o Carlos (o André, o Pedro, o Rafael), nós começamos a dançar, ele me puxa para perto e pergunta meu nome. “Dani”, eu respondo. Ele se apresenta e continuamos dançando em silêncio. Nos beijamos, rola aquele clima e depois procuramos um lugar mais calmo para podermos conversar. Fico sabendo sua idade, o que ele estuda, com o que trabalha, que veio do interior de São Paulo, que é guitarrista de uma banda de garagem e que tem dois cachorros. Ficamos durante a noite toda, até que chega a hora de ir embora.

No dia seguinte, nos adicionamos no facebook, mandamos uma mensagem e, ou ele some ou eu me canso e me afasto, ou, com sorte, marcamos um segundo encontro. Com o Carlos teve um segundo encontro. Combinamos de ir num barzinho, alí perto da Alameda Santos. Ele me pegou no metrô e fomos conversando até lá, dei sorte, ele parece ser uma pessoa legal. Passamos a noite conversando e descobrindo mais coisas um sobre o outro.

Volto pra casa com aquele friozinho na barriga, me perguntando quais são as intenções dele e se “temos futuro”. Bom, já me sinto na liberdade de dar aquela olhadinha básica no facebook dele e ver fotos, amigos, postagens. É, até aqui ele está aprovado, a fase seguinte é falar sobre ele com as amigas e pedir conselhos.

Mensagem vai, mensagem vem e passamos a semana toda conversando. Na quinta-feira ele me chama para sair de novo e no final de semana vamos ao cinema e assistimos um filme que eu nem sequer consigo lembrar o nome. Depois jantamos e ele me acompanha até o metrô.

Parecia estar tudo bem nas primeiras três semanas, até que começou o já tão conhecido distanciamento. Ele chega devagar, começa com um intervalo maior entre as mensagens, depois o assunto vai terminando, eu percebo que estou me esforçando para manter uma conversa que já não flui naturalmente. Será que vai acontecer de novo?

Aconteceu. Chamei ele para sair no final de semana e ele disse que não podia, tinha que ir no aniversário de uma tia, aí no sábado foi marcado em uma foto na mesma balada em que nos conhecemos. Conversamos a respeito e ouvi o clichê já decorado (por nós dois) de que ele gostou muito de mim e que sou uma pessoa incrível e que mereço arrumar alguém tão legal quanto eu, mas ele não está em um bom momento e não quer se envolver agora. Eu já sabia, Carlos. Já sabia.

Choro, choro mesmo sabendo que não devia chorar. Ligo pra Cris e pergunto se ela pode vir aqui em casa, e ela vem munida de muito brigadeiro. Passamos a tarde toda conversando sobre meninos, futuro e as tão terríveis expectativas. E aí me dou conta de que preciso começar tudo de novo. Agora vai ser diferente, pois o pé na bunda tem que ter servido para alguma coisa, aprendi minha lição.

Mais uma semana vem e vai. Na sexta-feira já começa o esquenta. Depois da aula vou para um barzinho com o pessoal. Depois durmo e descanso bem para o sábado. No sábado vou para a balada.

Todo sábado tem balada.